Arquivo de Categorias: Olhares

Ladrões de livros

Este apontamento de não-ficção pode causar-me problemas. Desde logo, como se diz agora, «de índole reputacional», mostrando que já fui pessoa em quem talvez não se devesse confiar. Mas também outros, mais prosaicos, a ocorrer com a polícia e os tribunais. Confio, todavia, na prescrição dos crimes descritos, na omissão dos nomes envolvidos e na indolência causada pelo calor de agosto. Contém o breve relato de dois episódios, ocorridos no ano distante de 1972, ambos ligados a uma prática então comum entre estudantes universitários, sobretudo entre aqueles que se dedicavam a compor uma pequena biblioteca pessoal, algo que hoje será por muitos considerada uma excentricidade. Refiro-me ao roubo de livros em livrarias, prática que, entre alguns de nós, comportava ainda a ideia de que era essa uma forma suplementar de combater o capitalismo.

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    Devaneios, Leituras, Memória, Olhares

    Os belos anos dos vinte anos

    É comum o uso da referência ao numeral da década para marcar o caráter, para elas único e inigualável, que para muitas pessoas detiveram certos períodos das suas vidas. Consideram que quase tudo o que neles viveram foi perfeito e nunca visto, desde a moda à música, do cinema à literatura, dos hábitos aos divertimentos, das sociabilidades aos consumos ou mesmo às manias pessoais. Foram os «maravilhosos anos 50», os «loucos anos 60», os «incríveis anos 70», os «fantásticos anos 80», e por aí afora. Depois deles «nada voltou a ser o que era».

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      Apontamentos, Atualidade, Devaneios, Memória, Olhares

      A Embaixada de Israel e a escória humana

      Pertenço ao grande grupo de cidadãos, politicamente de esquerda, que repudiando sem hesitação os hediondos crimes de genocídio cometidos por sucessivos governos israelitas de direita e de extrema-direita na Palestina, em particular em Gaza, não deixa de defender o direito à existência histórica do Estado de Israel. A par do da Palestina, evidentemente, sempre numa solução de dois Estados pacíficos e dialogantes que é a única justa e com futuro. Este é assunto sobre o qual tenho vontade de escrever um artigo fundamentado, o que farei lá mais adiante. Declaro isto apenas para poder afirmar que a espécie de desqualificada escória humana de «influencers» portugueses encaminhada para Gaza pela Embaixada de Israel em Lisboa, numa patética operação de propaganda e embelezamento da ocupação, só lhe fica muito mal e acaba até por prejudicar Israel, estimulando ainda mais o antissemitismo.

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        O perigo de generalizar sobre outros povos

        A par dos traços comuns desenvolvidos por sucessivas gerações nos domínios da história, da língua, da religião, das leis ou dos costumes, um dos instrumentos usados na construção identitária dos Estados-Nação, acentuada na Europa a partir do século XVI, foi a comparação com o comportamento dos outros povos. A sinalização das caraterísticas a estes apontadas recorreu sempre a duas atitudes: uma, maioritariamente negativa ou de incompreensão, vincava as diferenças, enquanto a outra as associava a um padrão consistente e constante, por vezes desenhado como caricatura ou fantasia.

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          Atualidade, Democracia, Olhares, Opinião

          Decomposição

          Ao ler o volume Para Lá do Muro: Alemanha de Leste: 1949-1990, de Katja Hoyer (edição Vogais), uma recomendável, bastante completa e tão imparcial quanto o possível resenha da experiência histórica da República Democrática Alemã, deparei, inevitavelmente, com referências ao seu duro e eficaz sistema repressivo, aplicado na vigilância, no controlo e na punição da menor dissidência política ou social. Mesmo a daquela que pudesse ocorrer com alguém situado dentro do partido no poder (o Partido Socialista Unificado da Alemanha, SED) ou que no passado tivesse sido considerado como seu próximo.

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            Apontamentos, Democracia, História, Olhares

            A mutabilidade dos princípios e das certezas

            A maioria das pessoas prefere a segurança dos princípios e o conforto das certezas para dar um sentido estável ao seu mundo e escapar às ameaças da incerteza e do caos. Contra a mecânica tradicional de Newton, a física quântica provou, com Heisenberg, como a variabilidade das partículas torna impossível prever cada movimento de forma total. Ora, sabendo-se hoje que esta dimensão de incerteza se alarga a todos os aspetos da realidade física ou espiritual, nada pode ser dado como inteiramente certo, seguro e definitivo. Por sua vez, o caos define um estado primordial de desordem e tumulto, concebido pelas religiões para justificarem o papel criador e regulador da intervenção divina, destinada a conferir um sentido inteligível à ação humana. 

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              Atualidade, Democracia, História, Olhares, Opinião

              Cabo Verde e a beleza das mulheres

              A grande visibilidade que o Mundial de futebol está a dar a Cabo Verde tem trazido consigo, sobretudo nas redes sociais, apreciações simpáticas, aliás merecidas, sobre aspetos vários da sua realidade. Muitos deles, recorrentes, têm enfatizado «a beleza das mulheres caboverdianas», que é agora possível encontrar em abundância nas reportagens da televisão e na Internet. Não só concordo subjetivamente com a apreciação, como a estendo aos homens, pois grande número de naturais de Cabo Verde ou da sua diáspora, têm realmente, sob o meu olhar, uma beleza invulgar. Talvez advinda do processo de mestiçagem do qual resultam desde o povoamento inicial das ilhas, a partir de 1462, por portugueses e depois por pessoas escravizadas vindas de África.

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                Apontamentos, Atualidade, Democracia, Olhares

                Usar a historicidade para não falsificar o passado

                A «historicidade» inscreve factos, pessoas ou ideias do passado no tempo, no lugar e no contexto aos quais pertenceram. O seu uso é essencial para compreender a história de forma ajustada e mais completa, já que, quando pensamos qualquer passado fora das suas circunstâncias e apenas com o olhar do presente, a perspetiva resulta sempre distorcida ou falsificada. Surge então o anacronismo (do grego ἀνά χρόνος, aná chrónos, «contra o tempo»), essa falha cronológica que atribui a dada época factos e sentidos que pertenceram a outra, ou que são explicados a partir de prismas desajustados, deturpando tanto o passado que se pretende ler quanto o lado do presente que o interpela.

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                  Atualidade, Biografias, História, Olhares

                  Fanáticos do futebol & lunáticos antifutebol

                  Sempre que chega uma grande competição do futebol ao nível de seleções, lá emerge nas redes sociais a obsessão de quem papa tudo e, a par dela, a lengalenga de quem precisa odiar alguma coisa. Aviso à navegação: eu gosto muito de futebol, já joguei futebol e sei, como o meu mestre Camus, que o futebol é um dos melhores lugares públicos da confraternização humana, dando até sentido à vida de milhões de pessoas.

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                    A boa netiqueta

                    Logo após 1993, quando comecei a utilizar regularmente a Internet – ainda em computadores Unix sem modo gráfico – o aumento de tráfego fez com que se definissem regras básicas do que então se chamou netiqueta (‘netiquette’), destinadas a regular comportamentos e a evitar problemas. Pedi à Inteligência Artificial que lembrasse o que é (foi) e tive a surpresa de ver que todas elas, a serem aplicadas, se manteriam muitíssimo úteis. Por mim, continuo a usá-las sem falha. Aqui vai o texto da IA.

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                      Apontamentos, Cibercultura, Democracia, Olhares

                      A invenção da pólvora

                      Como tenho trabalho académico desde 1981, e durante muitos anos, apesar de já ter passado os cinquenta, ainda era apontado no meio como «jovem historiador» – o que ficou a dever-se a por duas ou três décadas apenas existir corpo académico nas universidades, não em centros de investigação, e a ele quase não ser renovado – tenho uma noção clara da forma como muitas das pessoas mais jovens que trabalham na área cresceram quase sem contacto com o trabalho daquelas que as precederam. A situação é a que é, infelizmente, e não pode ser mudada, e ninguém terá culpa de eu, o tal «jovem», ter sido dos poucos a atravessar uma espécie de «no man’s land». Mas já faz bastante impressão o volume de jovens investigadores que desenvolve e até publica trabalhos sem referir, ou referindo apenas em rápida e genérica passagem, quem os precedeu na área de pesquisa a que se dedica. Falando ou escrevendo como se a invenção da pólvora por si próprio tivesse sido acabada de obter. Ou reduzindo a quase nada centenas ou milhares de páginas de saber que outros levaram a vida inteira a escrever. É triste, embora talvez inevitável.

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                        Escrever pouco, entender menos

                        Neste tempo de recuo dos saberes estruturantes, substituídos por «competências» tantas vezes sem substância, um dos sinais que denuncia essa tendência negativa consiste em escrever-se de forma cada vez mais simplificada. Não falo das mudanças da língua, que não representam um mal em si, mas da simplificação dos processos de escrita. Cada vez mais, sobretudo nas redes sociais, mas já também em jornais, existe quem escreva textos de tamanho razoável usando apenas parágrafos de três ou quatro linhas, por vezes nem isso, não por incapacidade para o fazer de forma completa, mas apenas, como crê, para ser entendido.

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                          Olga Tokarczuk e a IA

                          No início deste mês, Olga Tokarczuk fez umas afirmações a meu ver inteiramente legítimas e de interesse. Ela descreveu a um jornal de que modo, na preparação de um romance, usou recursos de inteligência artificial para a informarem sobre que tipo de música os seus personagens poderiam, num dado contexto temporal e social, servir-se para dançar. Além disso, declarou ter ficado muito impressionada com os resultados e questionou-se sobre a forma como a ferramenta pode ser usada como auxiliar do processo de criação literária. Foi o que bastou para que uns quantos fanáticos anti-IA – que dela só conhecem os óbvios aspetos negativos, não sabendo, nem querendo saber, dos positivos – começassem a propagar que a grande escritora polaca e prémio Nobel usava aquele processo para escrever os seus romances. A afirmação é, obviamente, absurda, bastando conhecer a sua escrita única para o compreender, mas encarar o tema é muitíssimo pertinente.

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                            Não há revoluções sem momentos de desordem

                            Há semanas, numa das suas tiradas inspiradoras de reações imediatas e primárias a quem nelas crê ou se revê, André Ventura afirmou em pleno parlamento que o número de presos políticos em 1974-1975 foi muito superior ao dos detidos nas vésperas do 25 de Abril. José Pacheco Pereira contrariou-o, mostrando ser a afirmação uma completa falsidade. Da polémica resultou um debate na televisão que pouco acrescentou ao que fora dito, ampliando, todavia, a perceção de que para uma das partes verdade e mentira não carecem de prova, bastando proclamá-las de forma pública e em alta voz.

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                              Democracia, História, Olhares, Opinião

                              Simples complexo

                              Já perdi a conta ao número de vezes em que alguém me disse gostar de ler textos que escrevo, em particular os de natureza ensaística ou de opinião, porque neles abordo «temas complexos» de forma «simples e clara». Considero isto um elogio, embora saiba que muitos autores, numa escolha legítima, preferem a complexidade da forma à essência do argumento, entendendo a simplicidade como defeito. O meu processo de escrita tem, como será óbvio, um trajeto de largas décadas – comecei a publicar em 1970 – e foi sendo depurado ao longo do tempo, com muitos erros, hesitações e asneiras pelo meio. Mas a razão principal daquela característica é a escolha, que assumo, do meu papel como intelectual público, que pensa e comunica para estimular a crítica, a mudança, a cidadania e o conhecimento, visando o que escreve, sempre e imperativamente, um público. «Culto», é certo, mas tão alargado quanto o possível. Jamais consegui entender um antigo colega que certa vez me disse ter uns vinte leitores «no máximo» e bastarem-lhe esses.

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                                O drama e a coragem de ser apóstata

                                O Dicionário Houaiss define a apostasia como «a renúncia de uma religião ou crença, o abandono da fé», mas também «a quebra de votos, o abandono da vida religiosa ou sacerdotal sem autorização superior», e ainda «o ato de renunciar a um partido, teoria ou doutrina» ao qual se pertence. Dirão as pessoas que verdadeiramente aceitam ser a democracia a melhor e mais livre forma de viver em sociedade – ou, pelo menos, como um dia disse sarcasticamente Winston Churchill, «a pior, salvo todas as outras» – que esse é um direito que, como gesto de liberdade, assiste a qualquer pessoa. 

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                                  Apontamentos, Democracia, Direitos Humanos, Etc., Olhares

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                                  É uma tristeza, e também uma prova de sectarismo ou mesmo de medo, andar pelas redes sociais – que, a par dos muitos perigos e desvarios que comportam, podem também ser lugar de criativo debate democrático – e apenas divulgar convicções e propostas que replicam exatamente as posições formais de grupos políticos aos quais pertence quem o faz. Sem qualquer abertura a ideias e a sugestões que destas divergem um pouco, embora com elas procurem ou possam dialogar. A democracia deve começar em nossa casa, e, além disso, tende a enfraquecer, ou mesmo a morrer, quando se fecham os olhos à menor diferença. Para mim, a abertura e o diálogo são essenciais para combater com firmeza e convicção, seja de forma organizada ou individual, por uma vida melhor, mais plena e mais livre.

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                                    Futebolices bem lamentáveis

                                    Aviso prévio: gosto muito de futebol, joguei futebol de forma amadora e sou dos que, quando o meu clube, o Sporting CP, ganha na modalidade um jogo ou uma prova importante, dorme muito melhor e acorda mais bem disposto, acontecendo o oposto nas derrotas. Apesar de reconhecer tudo o que de muito mau envolve este desporto: demasiadas vezes negócios obscuros, informação deturpada, claques perigosas e adeptos fanáticos e de maus-fígados. Mas não considero o futebol, parafraseando a conhecida frase de Marx sobre a religião, «o ópio do povo». Sei até, bem diversamente, que para muitos ele acaba por integrar um dos poucos alimentos espirituais da sua vida, proporcionando conforto, paixão e companheirismo. Aliás, Camus, que foi guarda-redes do Racing de Argel, considerava-o uma escola de vontade e de fraternidade. Lembro muito que as últimas palavras, horas antes de morrer, a mim dirigidas por pessoa muito próxima, foram para pedir um cigarro e saber o resultado do jogo do seu clube, por acaso rival do meu.

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