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De social-democracia pouco, quase nada, nada

Quando nas aulas de história contemporânea lhes procurava explicar o sistema partidário português, uma das dificuldades que tinha com os meus alunos estrangeiros, principalmente europeus, que se mostravam interessados no tema, passava por anular junto deles um compreensível e recorrente equívoco. Consistia ele em associarem o Partido Social-Democrata à social-democracia, julgando-o à medida do que conheciam dos partidos análogos dos seus países.

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    A abstenção como grave erro político

    Na eleição do próximo domingo, mais do que eleger uma pessoa essencialmente decente, tranquila e progressista como PR, importa que o candidato da extrema-direita não tenha mais de 30%. Tudo o que for acima disso, mesmo não se traduzindo em eleição, representa um enorme reforço daquele setor, bem como da sua capacidade para se preparar para governar, passando a disseminar com maior à-vontade o ódio, a mentira e a demagogia. Por este motivo, autoproclamar-se antifascista e decidir abster-se – apenas para não votar ao lado de pessoas, algumas sem dúvida detestáveis, da direita democrática – não se trata apenas um gesto de cegueira, é também um grave erro político. Mesmo sabendo que umas quantas pessoas jamais o farão, é muito importante mobilizar quem pudermos para não cair neste logro e para não deixar de votar.

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      Ponto da situação

      Chegámos a um ponto, aqui no retângulo e ilhas, em que a oposição entre entre tranquilidade e fúria, consenso e polarização, ponderação e imprudência, decência e desonestidade, tolerância e ódio, diálogo e gritaria, civilidade e crime, se sobrepõe a todas as outras, determinando as nossas escolhas bem mais do que as diferenças complexas e naturais com as quais nos habituámos a conviver ao longo de décadas.

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        O perigo da irredutibilidade

        Continuo a ver, sobretudo nas redes sociais, uma posição de recusa de um apoio à vitória na segunda volta de António José Seguro chegado de pessoas que formalmente se consideram de esquerda. Ela advém, por um lado, do facto de sobrevalorizarem o que de menos positivo para as suas opções contém a candidatura de Seguro, desvalorizando até a sua dimensão inquestionavelmente democrática e a favor da Constituição de Abril. Mas vem também, e até principalmente, de ela ter agora, à última hora, o apoio de muitas personalidades da direita, algumas efetivamente detestáveis, mas que se demarcam do caos e da violência associados à extrema-direita.

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          Contra a desmobilização e a teimosia

          Na segunda volta das presidenciais a democracia enfrenta, para além do candidato da extrema-direita, duas posições igualmente perigosas. A primeira é a de quem, perante as sondagens favoráveis a Seguro, considera que não vale a pena votar, pois a eleição «está ganha». Não só pode não estar, como será de grande importância que Ventura não ultrapasse os 30%, se possível menos. De outra forma terá no resultado um balão de oxigénio e, como hoje lembra David Pontes, diretor do Público, passará a liderar de facto a direita, preparando o assalto final ao poder. A segunda posição perigosa, que já começa a escutar-se, é a de setores da esquerda teimosa para quem o apoio a Seguro de pessoas conservadoras e/ou de direita faz com que elas decidam não votar na democracia. Uma cegueira ciclicamente retomada por quem não aprende com a história e até com os próprios erros.

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            Corredores, Antecâmaras e WhatsApp

            Quem realmente tem um conhecimento razoável e alargado da história – não apenas aquele que se cinge aos momentos mais sonantes, às batalhas, aos tratados, às decisões de conselhos e assembleias – sabe que a maior parte dos avanços, sejam os do trajeto da humanidade ou os da vida das instituições, mesmo das mais democráticas, são preparados ou condicionados em encontros de corredor, em reuniões de antecâmara, em telefonemas noturnos, quiçá em bilhetinhos ou, de hoje em dia, mensagens de mail e WhatsApp. Sem estes momentos e vias informais, que não são a céu aberto e o cidadão comum jamais conhecerá, o conflito seria a norma e provavelmente viveríamos no caos.

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              Um combate urgente pela decência e pela democracia

              Vivemos um confronto de amplitude e intensidade sem precedentes nas cinco décadas da nossa Terceira República. Ele não se limita à expressão verbal e nas urnas das diferenças políticas, natural e necessária em democracia, mas liga-se sobretudo a uma tentativa de subversão do regime e das formas mais essenciais do convívio social. Esta traduz-se na atividade antidemocrática de um setor que visa alcançar o poder e instalar uma ordem autoritária, servindo-se para o efeito de mecanismos e processos oferecidos pela própria democracia. Tem um rosto visível, o do Chega e do seu líder, mas integra também grupos, alguns de natureza criminosa, que aceitam ou levam ainda mais longe os seus objetivos e a sua retórica incendiária.

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                Presidenciais: agora é centro-esquerda

                Algumas notas muitíssimo breves e rápidas sobre a primeira volta das presidenciais, originalmente deixadas no meu mural do Facebook.

                •⁠ ⁠Os resultados finais só podem surpreender quem andasse bastante distraído (incluindo, talvez, as próprias empresas de sondagens). Nenhum dos resultados, nem mesmo o paupérrimo do Marques Mendes ou o do bufão Vieira, determinou o inesperado;

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                  De novo o papel do voto útil

                  Em democracia, a valorização positiva ou negativa do «voto útil» depende sempre, passe a forçada redundância, da utilidade política que ele serve e materializa. Este modo de votar no que se pode considerar um mal menor não é intrinsecamente «bom» ou «mau», mas é vantajoso ou não, de acordo com as circunstâncias. Em eleições legislativas ele quase sempre possui mais de negativo, uma vez que tende a esvaziar a pluralidade das propostas, acentuando a distância entre os grandes partidos, os do poder, e aqueles que fundamentalmente atuam como contrapoder, contribuindo para silenciar as perspetivas que se assumem como alternativas às que são momentaneamente dominantes. 

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                    Inacreditável ou talvez não

                    A revolta popular, em especial aquela que está a acontecer nas grandes cidades, e a repressão do regime dos aiatolás, estão a acentuar-se no Irão, com a ditadura religiosa a usar a força bruta para sobreviver, usando balas reais e fazendo prisões em massa. Ontem deixei no meu mural do Facebook um pequeno apontamento chamando a atenção para o que de poderoso e dramático neste capítulo ali está a ocorrer. Como se tratou de um post aberto a comentários, recebi um de uma pessoa que não consigo perceber como era minha «amiga» – já o não é, felizmente -, pois sempre pondero com o cuidado possível os pedidos feitos nesse sentido.

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                      O lugar do voto útil

                      No nosso regime constitucional, em eleições como as presidenciais o voto útil não é em si um mal ou um crime – como alguns setores por ele inevitavelmente prejudicados insistem em apregoar -, uma vez que nelas se escolhe mais uma personalidade agregadora do que um projeto político específico de natureza partidária, este sim, necessariamente diferenciado e diferenciador. Mais ainda num tempo de forte bipolarização da sociedade, de profundo terramoto no equilíbrio mundial, e de elevado risco para a democracia, como o que estamos a atravessar. Não o entender – mesmo que isso não signifique praticá-lo, direito que a cada um felizmente assiste – possui a marca, queira-se ou não, goste-se ou não, da cegueira ou do sectarismo, no mínimo da ingenuidade política.

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                        As estratégias da demagogia

                        As estratégias da demagogia têm por objetivo instigar, provocar e mobilizar a emoção do público, evitando estimular o seu raciocínio. O uso de apelos à paixão, em detrimento da razão, pode ser identificado em dois processos: a hipérbole e a simplificação. A hipérbole sobrevaloriza uma dada situação, atribuindo-lhe características de uma gravidade extrema (ou então euforicamente positiva). Já a simplificação reduz uma situação complexa a um único fator causal, apresentado como a única explicação que se afirma fazer sentido e como a única solução apresentada como possível. Ambas são instrumentos de logro e de servidão.

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                          Catarina, Jorge e as divergências

                          O debate televisivo de ontem entre Catarina Martins, candidata do Bloco de Esquerda, e Jorge Pinto, apoiado pelo Livre, foi cordial e equilibrado, permitindo observar duas coisas fundamentais. A primeira é a de que é muito mais aquilo que aproxima o seu campo político – não diria o mesmo em relação ao PCP, bastante mais fechado e inamovível – do que aquilo que o separa. Tanto em termos de escolhas, quanto de sensibilidades e até de base cultural. A segunda é que existem, apesar disso, discordâncias que não são de somenos importância, principalmente tendo em conta os objetivos de uma campanha presidencial.

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                            «Memória inventada» e civilidade

                            Uma das consequências de ter uma vida razoavelmente longa e de (pelo menos por enquanto) conseguir reter alguma memória dela, consiste em ser capaz de identificar de maneira fácil os anacronismos. Claro que, em pessoas como eu, esta capacidade é apurado pela formação de historiador e, mais ainda, pela personalidade «picuinhas» que tenho desde que me conheço. Por isso me perturba um tanto quando encontro pessoas mais ou menos da minha idade que referem como memória sua, dada como certa, situações, realidades, práticas ou gostos que eu sei não serem exatamente daquele tempo e não poderem ter vivido. Vou dizer-lhes isso? Claro que não, ou raramente, até porque sei que, muitas das vezes, essa confusão resulta da chamada «memória inventada», ou «cumulativa», aquela que junta episódios vividos ou informações adquiridas em diferentes momentos e os combina num só. Trata-se de uma confusão natural e eu próprio, apesar da mania do rigor, já o fiz inadvertidamente. Mas confesso que me perturba escutar alguém a afirmar, a pés juntos, ter vivido experiências que sei de facto impossíveis, tendo eu a obrigação, por dever de civilidade e para que se não zangue comigo, de ficar calado.

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                              Comunicar: o digressivo contra o linear

                              Ao escrever ou ao falar, seja em público ou em privado, mas também ao ler e ao escutar os outros, sempre preferi o pensamento e a comunicação digressivos. Aqueles que se desviam frequentes vezes do tema principal, avançando até um assunto secundário, e integrando recorrentemente reflexões ou memórias pessoais, embora conservando sempre, para serem razoavelmente inteligíveis, a ligação temática fundamental. Assim foram também quase sempre as minhas aulas, tantas vezes, sem modéstia, oferecidas perante um número apreciável de alunos que dessa forma aprendiam e ao mesmo tempo se divertiam – os testemunhos positivos, felizmente, têm sido inúmeros ao longo do tempo -, embora reconheça que talvez exasperasse um tanto a minoria de «certinhos», «marrões» e criaturas menos ágeis no processo de compreensão.

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                                Significativo, embora nada surpreendente

                                A frase «Há algum partido mais distante do senhor Putin do que o PCP?», deixada ontem por António Filipe no debate televisivo das presidenciais com Jorge Pinto, é de uma acentuada hipocrisia sectária por diversos motivos. Desde logo, porque a suave denúncia de Putin pela direção do PCP começou meses após a invasão da Ucrânia, quando a generalidade dos seus militantes de base já o verbalizavam todos os dias como herói. Aliás, basta irmos a blogues e murais do Facebook de pessoas deste partido para observarmos como, no mínimo, nem uma palavra de denúncia da agressão militar e do poder ditatorial interno do atual inquilino do Kremlin se pode ainda hoje encontrar.

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                                  Presumo que os autoproclamados «amigos da paz», que na realidade das consequências políticas do que defendem traduzem esta na capitulação diante do agressor – como aconteceu na Síria e agora esperam que ocorra na Ucrânia – estejam intimamente satisfeitos com as últimas declarações de Vladimir Putin, segundo as quais a Rússia estará «pronta» para combater a Europa no plano militar. Na verdade, na escolha entre a União Europeia democrática (simplisticamente julgada «capitalista», logo «má»), e o regime ditatorial e expansionista que governa a Federação Russa (saudoso do pré-1989 e amigo de Nicolás Maduro, logo «bom»), jamais hesitarão. Embora não tenham coragem política suficiente para o afirmarem de forma clara e aberta, pois sabem que isso lhes traria pesadas consequências junto dos eleitores situados fora do seu estreito, nostálgico e fechado círculo.

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                                    Nuremberga, o julgamento dos julgamentos

                                    Quando se completam 80 anos sobre o início das suas sessões, decorridas entre 20 de novembro de 1945 e o 1 de outubro seguinte em que foi anunciado o seu veredito, os Julgamentos de Nuremberga permanecem como acontecimento-chave da história do século XX, continuando a ser olhados com interesse e como exemplo. Tiveram, em simultâneo, um papel reparador e um efeito traumático, cujos contornos se mantiveram presentes em diversas vertentes da opinião pública e da memória coletiva, continuando ainda, tanto tempo depois e já sem os seus intervenientes, a suscitar ondas de choque associadas a contextos e a preocupações do nosso tempo.

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