A Hungria, a Europa e os abutres

Independentemente do facto de Péter Magyar ser um político conotado com o centro-direita, este foi eleito com o apoio expresso da maior parte da esquerda húngara, que optou por não concorrer para não dispersar votos. Muito de complexo, instável e contraditório virá agora, sem dúvida, mas o triunfo esmagador do seu partido, para mais em eleições invulgarmente participadas, foi uma importante vitória da democracia, do projeto europeu e do apoio internacional à Ucrânia invadida e martirizada. Contra Putin, Trump e a generalidade da extrema-direita europeia, incluindo-se nesta a infelizmente nossa. Ver milhares de pessoas a dar vivas à liberdade e a cantar nas ruas de Budapeste o hino resistente Bella Ciao, não deixa de ser um sinal comovedor e bem positivo.

O que ainda torna mais absurda e lamentável a posição de quem, por cá, dizendo-se formalmente de esquerda, não se importa de pactuar constantemente com as piores ditaduras (por isso a essas pessoas apelidam alguns de «fascistas de esquerda»), tomando como inimigo principal, a par dos EUA – para elas, Trump é apenas um detalhe circunstancial, pois «a América» será sempre intrinsecamente má -, em larga medida a União Europeia. Justamente o complexo político que, neste momento, independentemente dos seus defeitos e desigualdades, pode introduzir algum fator de equilíbrio democrático neste mundo conturbado e caótico, manchado pelo autoritarismo, cobiçado pelos grandes poderes militares imperiais instalados em Washington, Moscovo e Pequim, e povoado de grandes e de pequenos abutres.

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