Arquivo de Categorias: Olhares

O PCP e a crítica

Imutável a forma, praticada nestes já quase cinquenta anos que leva o regime democrático, como qualquer crítica feita ao PCP no sentido de questionar algumas das suas escolhas e de o reaproximar do restante campo democrático são imediatamente consideradas, por dirigentes, militantes e companheiros de jornada, sempre, mas sempre, de pedra na mão ou em forma de sarcasmo, como gestos de «anticomunismo» que consideram persecutórios e rejeitam como meras agressões. Repetidamente a mesma atitude defensiva, de quem não só se considera acima da crítica dos outros, como nem põe a hipótese de argumentar de forma transparente com quem a exerce de um modo essencialmente positivo e cordial. O PCP jamais aceita a crítica, seja a pontual ou a de fundo, procurando minimizar quem a faça, e ainda considera esta atitude um sinal da plena justeza das suas escolhas. É pena que assim seja, para mal da democracia e sobretudo do próprio partido.

[originalmente no Facebook]

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    Pacifismo, resistência e crise de consciência

    Nas últimas décadas, algo de análogo impacto apenas terá ocorrido com a queda do Muro de Berlim e o ataque às Torres Gémeas. A invasão da Ucrânia pela Rússia é um daqueles raros episódios que de imediato se percebe sinalizarem uma viragem histórica. É fácil entendê-lo quando é já evidente o seu efeito no equilíbrio global geoestratégico, na política energética, na aproximação entre governos há pouco desavindos e principalmente na vida e no bem-estar de largos milhões de seres humanos. Não custa perceber que a União Europeia, a NATO, e também a Rússia, além da exangue Ucrânia, jamais serão o que foram até serem disparados os primeiros mísseis russos sobre Kiev na madrugada de 24 de fevereiro de 2022.

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      Atualidade, História, Olhares, Opinião

      Refugiados, solidariedade e caridade

      Passadas quatro semanas do início da invasão da Ucrânia, já chegaram a Portugal mais de 21.000 pessoas, a larga maioria composta por mulheres e crianças que aqui procuram refúgio, e com ele, em muitos casos, a possibilidade de escapar à morte e à destruição do seu país, podendo começar a refazer as suas vidas. Para trás ficaram muitos homens, e também algumas mulheres, que integram agora a corajosa, e, pelo que se pode ver, eficaz resistência armada ao invasor. Ficou também a vida toda: as suas casas, os seus bens, os amigos e familiares, o emprego, a escola, os projetos, as memórias.

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        Apontamentos, Democracia, Direitos Humanos, Olhares

        Bater na avó

        Ser membro de um partido político não é, só um idiota o pode confundir, propriamente como ser sócio de um clube de futebol. Para além do pagamento das quotas e da necessidade de agitar a bandeira de vez em quando, a pertença a um partido digno do nome implica um conjunto de partilhas e de solidariedades que tornam a pessoa parte de um coletivo solidário, cuja vida está muito para além de noventa minutos de cada vez e é uma componente essencial da democracia. Sem este grau de adesão, não faz sentido integrar um partido e, tendo dado esse passo, delegar necessariamente, por vontade própria, uma parte da autonomia individual.

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          «Em tempo de guerra todo o buraco é trincheira». 

          Como sabe quem a viveu ou tem algum conhecimento da história, ou pelo menos vê filmes e séries, a guerra aberta impõe situações de exceção que em tempo de paz seriam intoleráveis. É sempre uma suspensão da normalidade, quando a linha entre a vida e a morte estreita ao máximo e não deixa grande lugar para posições de desinteresse ou contemporização. Como afirma um antigo provérbio, «em tempo de guerra todo o buraco é trincheira».

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            Apontamentos, Atualidade, Olhares

            Refugiados e humanitarismo conceptual

            A perder de vez a dose de paciência que ainda me restava com aquela espécie de gente que, de tanto amor conceptual por uma humanidade distante, não perde a oportunidade para apoiada em explicações ou em fantasias fabricadas à medida, mostrar menosprezo pelo sofrimento mais próximo. Aquele manifestado na primeira pessoa e gravado no corpo, por gente de carne e osso que nos surge ao virar da esquina ou à distância de apenas umas horas de viagem. 

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              Apontamentos, Democracia, Direitos Humanos, Olhares

              Ver os mapas com os dois olhos

              Anda a circular por aí, em particular nas redes sociais, um par de mapas onde se mostra o crescimento da presença da NATO na Europa ao longo das últimas décadas. Por eles se pode constatar o óbvio: já apenas a Rússia, a Bielorrússia e a Ucrânia – esta em tentiva de fuga a essa ligação – escapam, no espaço do continente, à pertença ou, pelo menos, à influência do tratado militar. O objetivo de quem divulga esses mapas é mostrar como a NATO está a cercar a Rússia e, por isso, como a reação do governo de Putin é no mínimo compreensível.

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                A verdade é como o azeite

                A invasão da Ucrânia tem deixado claro que entre nós apenas o PCP e um grupo de pessoas que influencia não rejeitam declaradamente a decisão de Putin. Todavia, quem paute a realidade pelo que se pode ver nas redes sociais fica com uma perspetiva diferente. A este propósito, vale a pena lembrar que durante décadas, em espacial a partir do final da Segunda Guerra Mundial, os partidos comunistas que atuavam dentro das democracias representativas detiveram uma influência sempre bastante superior ao seu real peso eleitoral. Depois do 25 de Abril, em Portugal essa situação também se verificou, em particular depois de 1991, quando o PCP desceu abaixo dos dois dígitos. E mesmo hoje, quando já apenas representa 5% do eleitorado, a sua voz continua a ter um eco muito superior ao peso político e social efetivo. O que se repete na atual situação. 

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                  Cibercultura, Democracia, Olhares, Opinião

                  O passado vivido e aquele que é contado

                  Ocupado, enquanto historiador, com um tempo próximo do que tenho de vida – dos anos cinquenta ao presente – deparo habitualmente com sinais de um conflito. Os historiadores sabem que não existe descrição fechada ou interpretação unívoca do passado, pois circunstâncias, subjetividades e meios determinam olhares inevitavelmente divergentes; mas sabem também que os factos do passado não podem ser apagados ou modificados. Não pode, por exemplo, afirmar-se que John Kennedy continua vivo, ou dizer-se que o Holocausto é uma fantasia criada por judeus, ou considerar-se que o genocídio arménio nunca aconteceu, quando existem provas de que assim não é. Todavia, existe quem não hesite em inventar ou em falsificar o passado, sobretudo aquele mais próximo, e por este motivo mais perturbante, para que ele possa corresponder às suas expectativas e interesses.

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                    Um pouco de racionalidade, outro tanto de história

                    1. Como qualquer pessoa razoavelmente atenta e avisada previa com bastante segurança, a guerra, sob a forma de invasão, prevista por uas quantas almas para começar esta semana entre a Rússia e a Ucrânia, de facto não teve lugar. E, mesmo considerando, para quem tenha fé, que o futuro só a Deus pertence, muito dificilmente ocorrerá nos tempos mais próximos. Tratou-se de um jogo de pressões e chantagens que, obviamente continuará, na qual cada uma das partes procura assegurar posições num processo de equilíbrio instável. Pelo menos enquanto prosseguirem as disputas territoriais e os conflitos de influência entre Moscovo e Washington, com a União Europeia de permeio. Misturar o desejo de alimentar o sensacionalismo com o visionamento dos filmes de ação não é grande munição para produzir análises criteriosas de política internacional.

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                      «Coimbrinhas», de novo

                      A característica marcante do que na cidade onde vivo desde 1969 se chamam os «coimbrinhas» – termo pejorativo quase caído em desuso, de que só os últimos «coimbrinhas» se servem para referirem uma entidade abstrata da qual sem o conseguirem se procuram excluir -, consistia em ver o mundo reduzido à escala dos estreitos horizontes da cidade pequena e provinciana que ia do Choupal à Figueira da Foz (apesar da universidade, para alguns críticos por causa dela, ou de parte dela).

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                        A outra direita e a responsabilidade da esquerda

                        Não é preciso ser-se adivinho para antever o que aí vem. O brusco e acentuado crescimento em Portugal da direita radical dos partidos neofascista (Chega) e ultraliberal (Iniciativa Liberal), promovido pelo destaque politico conferido pela sua presença no parlamento, pelas subvenções do Estado a que têm direito, pelo vínculo que mantêm com os códigos do nacional-populismo e pela projeção que lhes vai ser dada – já está a ser dada – pela comunicação social de maior impacto, vai tornar esse setor político, muito provavelmente, a direita com a qual a esquerda terá verdadeiramente de confrontar-se nos próximos anos. As indecisões e a relativa moderação do PSD e o estilhaçamento do CDS farão em breve com que – como aconteceu, por exemplo, na França ou na Itália – a direita «civilizada» veja muito reduzida a sua influência em favor de quem prega ideias tão perigosas quanto simples e primitivas. Contra este setor, o enfraquecimento dos partidos da esquerda e das pontes que entre si possam manter representará sempre uma calamidade.

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                          Uma imprescindível «esquerda à esquerda»

                          No que respeita ao essencial dos resultados das eleições do dia 30 de janeiro, não há volta a dar. Para além da inequívoca e confortável maioria absoluta que António Costa e o PS obtiveram, libertando-os para afirmarem o seu projeto próprio, mas também para os perigos de uma governação autocentrada e sem grandes concessões políticas, e da grande e rápida subida de uma direita à direita do próprio CDS, associada à difusão sistemática do ódio social e do racismo, ou ao recuo do Estado-Providência e ao regresso a um capitalismo selvagem inspirado no mundo brutalmente desigual do século XIX, eles representaram uma inegável derrota do Bloco de Esquerda e do PCP. Esta ocorreu numa escala que nem os mais pessimistas ou clarividentes, apesar dos sinais das sondagens, foram capazes de prever. 

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                            Uma esquerda indispensável

                            Não há volta a dar: os resultados das eleições do dia 30 significaram uma derrota, com uma dimensão que nem os mais pessimistas ou clarividentes conseguiram antever, do PCP e do Bloco de Esquerda, os dois maiores partidos situados à esquerda do PS. Pior, todavia, que essa derrota, já expetável para quem não vivesse cego pelas suas certezas, são sobretudo dois fatores. Em primeiro lugar a sua dimensão, que imporá uma menor capacidade de influência política institucional, agora transferida para o espaço da rua. Em segundo a aparente resistência, da parte das direções de ambos os partidos, a desenvolverem um processo de crítica e de autocrítica capaz de impor um reconhecimento dos erros táticos e estratégicos, sem empurrarem para os ombros dos outros responsabilidades que são próprias.

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                              O inferno são os outros

                              A tão usada frase «o inferno são os outros» foi introduzida por Jean-Paul Sartre na peça Huis Clos (Entre Quatro Paredes), escrita em 1944, onde é pronunciada pelo personagem Garcin. Os três únicos personagens, que incluem também Estelle e Inès, estão todos mortos e condenados para sempre ao inferno. Porém, neste não existe fogo, nem demónios, nem tenazes, como na tradição cristã, sendo a maior pena a que cada um é submetido o ter de conviver eternamente com os outros dois. Tem servido muitas vezes para identificar aquela atitude humana que tende a considerar que tudo o que de mau, errado, negativo, prejudicial, acontece em nosso redor, é culpa dos outros, de quem nos cerca, mas não nossa. Perante algumas interpretações dos resultados eleitorais com as quais estou a deparar – bem, algumas delas não são de facto interpretações, mas um enredado de queixumes e recriminações – as palavras de Sartre voltam a fazer sentido.

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                                No dia seguinte

                                As eleições legislativas deste domingo deixaram o país político numa situação inteiramente nova, diante da qual as armas da análise crítica precisam de afinação. Por este motivo, e também porque importa deixar assentar alguma poeira, limito-me, para já, a curtas notas sobre aspetos que me parecem particularmente significativos e evidentes. Adiante conto escrever de forma mais completa e prospetiva. 

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                                  Vamos lá e depois conversamos

                                  «Pois é» – como diz a irritante bengala da fala usada a torto e a direito por um meu conhecido – cá estamos de novo, neste sábado, em mais uma «pausa para reflexão» a anteceder um importante momento eleitoral. É sempre um dia algo perdido, desnecessário, para mais com a longa e profunda reflexão que, seja qual for o resultado, vamos ter de fazer a partir da noite deste domingo. Da minha parte, julgo que nunca «refleti» tanto em situação pré-eleitoral como o tenho feito nestes três meses. Até porque, pela primeira vez, irei votar, por exclusão de partes e um sentido de utilidade, num partido no qual não confio inteiramente. Mas, como diz aquele conhecido ditado, «em tempo de guerra não se limpam armas». Ou como lembra aqueloutro: «não há atalho, sem trabalho». Vamos lá votar à esquerda e depois conversamos.

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                                    A cultura na campanha eleitoral

                                    No Público de hoje, o coreógrafo e bailarino Rui Horta assina um texto de opinião significativamente intitulado «Campanha Eleitoral: 10 – Cultura: 0». Apesar de nele dar, com naturalidade, maior ênfase à sua área de interesse e trabalho, não deixa de colocar o tema numa perspetiva geral, mostrando até que ponto são escassas e ocupam um lugar claramente secundário as propostas eleitorais neste domínio.

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