Arquivo de Categorias: Memória

Porque não escrevo sobre Coimbra

O título desta crónica contém um equívoco intencional. A verdade é que até tenho escrito bastante, no formato da crónica ou em artigos e livros de história, sobre a cidade onde assentei no outono de 1969, chegado para concluir o secundário. Foram muitas páginas sobre a história de Coimbra na relação com o ativismo político estudantil, com os movimentos sociais anteriores ao 25 de Abril ou que o acompanharam, com pessoas e grupos que nela resistiram ao Estado Novo e à Guerra Colonial, com organismos e práticas culturais da academia. Também sobre formas de olhar e de viver a cidade, episódios da sua memória coletiva, a nostalgia que tantas vezes a envolve ou limita, ocasionalmente escolhas da política autárquica ou vivências pessoais.

(mais…)
    Atualidade, Cidades, Coimbra, Memória, Olhares

    Salazarismo do quotidiano (1)

    Chamo «salazarismo do quotidiano» às práticas, instaladas no dia a dia, que, a par da atividade política e cultural imposta, durante o Estado Novo moldaram a sociedade portuguesa no desprezo pelo outro (por vezes travestido de complacente caridade cristã) e na desconfiança diante de tudo o que escapava à «normalidade» instalada. Algumas dessas práticas sobreviveram, aliás, ao 25 de Abril, e talvez só já neste século se tenham tornado raras. O que não significa que tenham desaparecido de todo, sobretudo entre pessoas que vivem imersas na cultura da violência e do ódio. É sobre este fenómeno que começo uma série espaçada, apoiada sobretudo em vivências pessoais do ante-1974. Evocando um tempo que alguns dos que o não viveram apontam como exemplar.

    (mais…)
      Apontamentos, Devaneios, História, Memória

      Ladrões de livros

      Este apontamento de não-ficção pode causar-me problemas. Desde logo, como se diz agora, «de índole reputacional», mostrando que já fui pessoa em quem talvez não se devesse confiar. Mas também outros, mais prosaicos, a ocorrer com a polícia e os tribunais. Confio, todavia, na prescrição dos crimes descritos, na omissão dos nomes envolvidos e na indolência causada pelo calor de agosto. Contém o breve relato de dois episódios, ocorridos no ano distante de 1972, ambos ligados a uma prática então comum entre estudantes universitários, sobretudo entre aqueles que se dedicavam a compor uma pequena biblioteca pessoal, algo que hoje será por muitos considerada uma excentricidade. Refiro-me ao roubo de livros em livrarias, prática que, entre alguns de nós, comportava ainda a ideia de que era essa uma forma suplementar de combater o capitalismo.

      (mais…)
        Devaneios, Leituras, Memória, Olhares

        Os belos anos dos vinte anos

        É comum o uso da referência ao numeral da década para marcar o caráter, para elas único e inigualável, que para muitas pessoas detiveram certos períodos das suas vidas. Consideram que quase tudo o que neles viveram foi perfeito e nunca visto, desde a moda à música, do cinema à literatura, dos hábitos aos divertimentos, das sociabilidades aos consumos ou mesmo às manias pessoais. Foram os «maravilhosos anos 50», os «loucos anos 60», os «incríveis anos 70», os «fantásticos anos 80», e por aí afora. Depois deles «nada voltou a ser o que era».

        (mais…)
          Apontamentos, Atualidade, Devaneios, Memória, Olhares

          A invenção da pólvora

          Como tenho trabalho académico desde 1981, e durante muitos anos, apesar de já ter passado os cinquenta, ainda era apontado no meio como «jovem historiador» – o que ficou a dever-se a por duas ou três décadas apenas existir corpo académico nas universidades, não em centros de investigação, e a ele quase não ser renovado – tenho uma noção clara da forma como muitas das pessoas mais jovens que trabalham na área cresceram quase sem contacto com o trabalho daquelas que as precederam. A situação é a que é, infelizmente, e não pode ser mudada, e ninguém terá culpa de eu, o tal «jovem», ter sido dos poucos a atravessar uma espécie de «no man’s land». Mas já faz bastante impressão o volume de jovens investigadores que desenvolve e até publica trabalhos sem referir, ou referindo apenas em rápida e genérica passagem, quem os precedeu na área de pesquisa a que se dedica. Falando ou escrevendo como se a invenção da pólvora por si próprio tivesse sido acabada de obter. Ou reduzindo a quase nada centenas ou milhares de páginas de saber que outros levaram a vida inteira a escrever. É triste, embora talvez inevitável.

            Apontamentos, Etc., História, Memória, Oficina, Olhares

            No 17 de Abril: memória de uma injustiça

            A cada 17 de Abril, data-chave da importante «crise académica de 69», que marcou a história da Universidade de Coimbra, do seu movimento estudantil e da resistência ao Estado Novo, sou confrontado, diante do tom largamente dominante da suas evocações, com uma profunda injustiça. Explico já o que pretendo dizer, mas antes disso quero que fique bem claro um pressuposto. Isto é, reconheço a importância daquele momento, a coragem da larga maioria dos seus intervenientes, o lugar na memória que dele estes conservam, e principalmente o grande impacto na época que ele deteve em todo o país. Já escrevi, aliás, por diversas vezes sobre o episódio e as suas circunstâncias, e orientei até teses académicas sobre o tema, pelo que, como entenderão, o que irão ler de seguida de modo algum pode ser considerado uma desvalorização da «crise de 69».

            (mais…)
              Coimbra, Democracia, História, Memória, Olhares

              Memória enganadora

              Quem conhece os mecanismos da memória individual sabe que ela é frequentemente enganadora. Não só porque falha, apaga ou confunde, mas também, e até talvez sobretudo, porque mistura em uma apenas vivências de diferentes tempos, ou porque cria «recordações», respondendo na verdade a interesses do presente ou municiando a autoestima. Cada vez encontro mais pessoas da minha geração, cujo percurso em certos casos conheço razoavelmente, a inventar ou a adaptar marcas de um passado que viveu de um modo que, tenho a certeza, não foi rigorosamente aquele que descreve. E muitas vezes não mentem de propósito, apenas confundem, acreditando genuinamente contar ou recuperar a verdade. Não deixo, no entanto, de quando lhes escuto certas descrições – vivências, influências, convicções vindas de um outro tempo – pensar em como aquilo não foi bem assim ou «não pode ser verdade». Também já incorri na mesma confusão, naturalmente, embora a minha formação e a sensibilidade de historiador ajude em muitos momentos a evitá-la.

                Apontamentos, Biografias, Devaneios, Memória, Olhares

                «Memória inventada» e civilidade

                Uma das consequências de ter uma vida razoavelmente longa e de (pelo menos por enquanto) conseguir reter alguma memória dela, consiste em ser capaz de identificar de maneira fácil os anacronismos. Claro que, em pessoas como eu, esta capacidade é apurado pela formação de historiador e, mais ainda, pela personalidade «picuinhas» que tenho desde que me conheço. Por isso me perturba um tanto quando encontro pessoas mais ou menos da minha idade que referem como memória sua, dada como certa, situações, realidades, práticas ou gostos que eu sei não serem exatamente daquele tempo e não poderem ter vivido. Vou dizer-lhes isso? Claro que não, ou raramente, até porque sei que, muitas das vezes, essa confusão resulta da chamada «memória inventada», ou «cumulativa», aquela que junta episódios vividos ou informações adquiridas em diferentes momentos e os combina num só. Trata-se de uma confusão natural e eu próprio, apesar da mania do rigor, já o fiz inadvertidamente. Mas confesso que me perturba escutar alguém a afirmar, a pés juntos, ter vivido experiências que sei de facto impossíveis, tendo eu a obrigação, por dever de civilidade e para que se não zangue comigo, de ficar calado.

                  Apontamentos, Devaneios, Etc., Memória, Olhares

                  Comunicar: o digressivo contra o linear

                  Ao escrever ou ao falar, seja em público ou em privado, mas também ao ler e ao escutar os outros, sempre preferi o pensamento e a comunicação digressivos. Aqueles que se desviam frequentes vezes do tema principal, avançando até um assunto secundário, e integrando recorrentemente reflexões ou memórias pessoais, embora conservando sempre, para serem razoavelmente inteligíveis, a ligação temática fundamental. Assim foram também quase sempre as minhas aulas, tantas vezes, sem modéstia, oferecidas perante um número apreciável de alunos que dessa forma aprendiam e ao mesmo tempo se divertiam – os testemunhos positivos, felizmente, têm sido inúmeros ao longo do tempo -, embora reconheça que talvez exasperasse um tanto a minoria de «certinhos», «marrões» e criaturas menos ágeis no processo de compreensão.

                  (mais…)
                    Apontamentos, Devaneios, Memória, Olhares

                    25 de Novembro: o inventado e o verdadeiro

                    A história, encarada como trajeto humano ao longo do tempo, ou então como forma de conhecimento analítico do passado, enfrenta sempre um paradoxo: ela parte de factos e de situações em boa parte objetivos, mas é ao mesmo tempo sujeita a interpretações, incluindo as realizadas pelos historiadores, com forte componente de subjetividade. É esta que conduz, lembrou Marc Ferro, à abundância das suas falsificações, levando também a interpretações opostas, assim como ao seu uso como instrumento dos poderes estabelecidos e como ferramenta para a manipulação das consciências. Podemos observar tudo isto perante a forma como, por estes dias, se recordou ou se celebrou, o que aconteceu em Portugal a 25 de novembro de 1975.

                    (mais…)
                      Atualidade, Democracia, História, Memória, Opinião

                      Coimbra: três bloqueios em tempo de autárquicas

                      Uma das grandes conquistas do nosso regime democrático constitucional é a afirmação do poder autárquico. Sob a ditadura, além de não resultar de eleições livres e de estar fora do escrutínio público, quem o representava era escolhido pelo governo e controlado a partir da capital, detendo reduzida capacidade de decisão e orçamentos sempre curtos, dependentes da intervenção de figuras «da terra» com poder, dinheiro e ligações a quem mandava. Mesmo reconhecendo que, em democracia, o poder autárquico foi por vezes discricionário, de vistas curtas e pouco transparente, ele jamais deixou de conter uma importante dose de dedicação, criatividade e proximidade, capaz de trazer claras melhorias às populações, aos seus lugares e à sua vida.

                      (mais…)
                        Atualidade, Coimbra, Democracia, Memória, Opinião

                        Um erro da PIDE (com um pouco de riso)

                        Deparei hoje com um relatório da PIDE datado do ano de 1972 no qual um panfleto contra o regresso da Queima das Fitas que circulou em Coimbra em maio desse ano vinha com a sua autoria completamente trocada. Sei-o melhor que ninguém, pois foi o último que escrevi para os chamados «Núcleos Sindicais de Base», antes de ser internamente impedido de continuar a fazê-lo por a minha escrita ser acusada de «demasiado literária». Tratava-se de um grupo de estudantes filo-maoistas, na altura ainda muito poucos, dos quais fazia parte e fora um dos fundadores em Coimbra.

                        (mais…)
                          Apontamentos, Democracia, História, Memória

                          A Oposição ao Estado Novo e «o Leste» cultural

                          Em Portugal, a Guerra Fria teve como importante aspeto um anticomunismo visceral que acompanhou todo o trajeto do Estado Novo. Parte deste associava um mal incontornável à simples existência do que chamava «a Rússia» e dos outros regimes do «socialismo realmente existente», como estes se autodefiniam até 1989. Por um efeito de contraposição, muitos oposicionistas vislumbraram nesses territórios, em regra de forma acrítica, o seu desenho de sociedades perfeitas. Fruto deste olhar, ainda hoje muitos militantes e simpatizantes do PCP, a partir de uma visão acrítica, parcial e a-histórica, imaginam como ideal a realidade daqueles Estados através das décadas de existência que fecharam com a Queda do Muro de Berlim. Em particular a da «pátria dos sovietes», proclamada «o país do sol radioso», que iluminava o caminho a desbravar desejavelmente pela humanidade no seu todo.

                          (mais…)
                            Artes, Cinema, História, Memória

                            «No prelo»

                            Ao passar por um dos meus artigos académicos iniciais, publicado em 1982, deparei com a referência a um segundo volume de um título cujo primeiro tomo citei, indicando-o como estando «no prelo». Isto é, em fase de impressão tipográfica. Era ainda uma prática muito usual, a de fazer sair obras em dois volumes indicando que o segundo se encontrava nessas condições. Num grande número de vezes, porém, nem isso era verdadeiro: tratava-se apenas de uma intenção jamais cumprida. Costume também era alguém indicar um título seu, fosse de livro ou de artigo, que considerara a hipótese de publicar, como estando no tal inexistente «prelo». Tratava-se de uma forma artificial – talvez melhor: fraudulenta – de ampliar currículos pequenos ou inexistentes.

                            (mais…)
                              Apontamentos, Etc., Memória, Olhares

                              Memória, ignorância e inocência do mal

                              Deparei no Facebook, num grupo sobre o passado da cidade de Coimbra, com esta fotografia, tirada em 25 de junho de 1939 no Campo das Salésias, quando ali a Académica venceu o Benfica por 3-1, conquistando pela primeira vez a Taça de Portugal. Todavia, o texto, razoavelmente longo, que acompanhava a imagem, conseguia a proeza de evocar o momento sem referir a bem visível saudação fascista que, no início do jogo, ambas as equipas fizeram de um modo unânime. Pior: quando uma pessoa atenta deixou nos comentários uma referência ao facto, foi sucedida por uma série de contra-comentários agressivos e ignaros, às dezenas, onde se diziam coisas como «era apenas uma saudação habitual na época» ou «naquele tempo as pessoas não se metiam em políticas» (sic).

                              (mais…)
                                Apontamentos, Democracia, História, Memória, Olhares

                                Não haverá uma guerra civil na América

                                Tenho encontrado por aí, em alguns artigos de opinião, embora escassos, mas principalmente em apontamentos e comentários das redes sociais, referências à eventualidade de os Estados Unidos da América caminharem a passos largos e muito rápidos para um guerra civil. Por vezes, este padrão de comentário disfarça um certo comprazimento, admito que algo inconsciente, mas presente nas entrelinhas, situado entre um «eles afinal merecem» e um «pode ser que assim o assunto se resolva». Não considerando agora o facto de as guerras civis serem as mais terríveis, mortíferas e traumáticas de todas as guerras, com um nível de destruição material e espiritual que raramente outras produzem, importa salientar que elas deixam nos povos um rastro de medo, pesadelo e sofrimento que, associado a desejos de vingança, se prolonga por gerações.

                                (mais…)
                                  Apontamentos, Atualidade, Democracia, Memória, Olhares

                                  Uma memória do sectarismo

                                  Sem vontade de escrever uma autobiografia, incluo por vezes, em textos vários, alguns detalhes autobiográficos, tendo desde há anos o projeto de lembrar, sem nomes ou números de porta, momentos vivenciais sobre o sectarismo que dominou boa parte da oposição ao regime durante o período marcelista. Em particular no meio estudantil, onde uma vírgula num manifesto poderia bastar para criar cisões e alimentar inimizades entre pessoas de diferentes grupos maoistas, gente que se agrupava num dos trotskismos, e de todos ele em relação ao PCP. E vice-versa, claro, não sendo por acaso que Cunhal escreveu diatribes contra o «radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista». Existem episódios deste conflito, de certa forma fratricida, que dariam um livro bem curioso, alguns associados a desconfianças ainda não superadas.

                                  (mais…)
                                    Apontamentos, Etc., Memória, Olhares

                                    Terremoto eleitoral, esquerda e resistência 

                                    As últimas legislativas provocaram um terremoto no regime democrático. Jamais, desde as eleições para a Constituinte em Abril de 1975, o conjunto da esquerda obteve uma representação tão escassa no parlamento, tendo, além disso, desaparecido o tendencial bipartidarismo constante nos últimos cinquenta anos. Para além da acentuada perda do apoio eleitoral concedido aos partidos da área plural da esquerda, com a exceção do Livre, o mais significativo e perturbante foi, sem dúvida, o crescimento exponencial de uma extrema-direita fundada na rejeição dos valores essenciais do Portugal nascido com a Revolução dos Cravos. Mais preocupante ainda: o reconhecimento do ambiente que produziu esta situação e o inventário dos seus traços essenciais fazem temer que a nova ordem política não seja passageira.

                                    (mais…)
                                      Atualidade, Democracia, História, Memória, Opinião