No 17 de Abril: memória de uma injustiça

A cada 17 de Abril, data-chave da importante «crise académica de 69», que marcou a história da Universidade de Coimbra, do seu movimento estudantil e da resistência ao Estado Novo, sou confrontado, diante do tom largamente dominante da suas evocações, com uma profunda injustiça. Explico já o que pretendo dizer, mas antes disso quero que fique bem claro um pressuposto. Isto é, reconheço a importância daquele momento, a coragem da larga maioria dos seus intervenientes, o lugar na memória que dele estes conservam, e principalmente o grande impacto na época que ele deteve em todo o país. Já escrevi, aliás, por diversas vezes sobre o episódio e as suas circunstâncias, e orientei até teses académicas sobre o tema, pelo que, como entenderão, o que irão ler de seguida de modo algum pode ser considerado uma desvalorização da «crise de 69».

Começo por um aviso prévio. Além de viver em Coimbra e de ter estudado longa e profundamente o tema, fui testemunha direta, e interveniente ativo, no período que se seguiu, tendo também recolhido ecos diretos daquele momento. Cheguei à cidade em Outubro de 1969, ainda para concluir o ensino secundário, e entrei no movimento estudantil logo no ano seguinte, associado a uma organização antifascista, situada à esquerda do PCP e que ajudei aliás a fundar, sendo nesta condição que vim a ser detido pela polícia no final de 1972 e depois, de interrogado pela PIDE/DGS, enviado compulsivamente para cumprir o serviço militar. Este teve lugar entre 1973 e 1975 e só em 1977 pude regressar à Universidade para concluir um novo curso. Voltando então a integrar muito ativamente, agora sob novas e diferentes formas, o movimento reivindicativo universitário.

A dose de injustiça a que me referi tem a ver com a forma como, sistematicamente, a iniciativa estudantil do período seguinte à «crise», que se estende até ao 25 de Abril, tem sido desvalorizada por comparação com o caráter sonoro, e hoje «institucionalizado», do seu período. E, todavia, após um ano letivo de refluxo do movimento, o de 1969-1970, a partir de 1971 assistiu-se, em Coimbra como em Lisboa e no Porto, a uma nova e importante fase.

Durante esta destaco: em primeiro, contra um reformismo apenas «associativista», uma radicalização política, com a inclusão aberta de temas como o fim do regime e a guerra colonial (antes presentes, mas menores em importância); em segundo, o surgimento e alargamento gradual de correntes radicais, herdeiras do Maio de 68, que apesar de minoritárias foram crescendo e conferindo à iniciativa estudantil um perfil que fez aumentar a repressão; em terceiro, um forte agravamento desta, com, aspeto quase esquecido, um número muito maior de alunos presos, expulsos, e até torturados, tendo-se ampliado o volume de incorporados à força no serviço militar, alguns vindo a desertar para não participarem na Guerra Colonial (o meu caso); e em quarto, por fim, foi nessa fase que, em consonância com a abertura e depois com a «crise do marcelismo», se ampliou largamente e ganhou diferentes formas um ambiente cultural e vivencial de resistência estudantil ativa de oposição ao regime, que viria a influenciar poderosamente a sua queda e, em termos orgânicos, os anos de revolução que se seguiram.

É tudo isto que vejo desvalorizado, quando não ignorado. Talvez apenas porque deixou de ser episódico, mas se transformou num «contínuo» com rápidas consequências. A luta estudantil de 1969 foi depois tomando sucessivas e importantes formas e terminou, no formato de resistência, apenas em 1974. Depois de Abril tudo mudou profundamente.

Rui Bebiano

    Coimbra, Democracia, História, Memória, Olhares.