Arquivo de Categorias: História

Decomposição

Ao ler o volume Para Lá do Muro: Alemanha de Leste: 1949-1990, de Katja Hoyer (edição Vogais), uma recomendável, bastante completa e tão imparcial quanto o possível resenha da experiência histórica da República Democrática Alemã, deparei, inevitavelmente, com referências ao seu duro e eficaz sistema repressivo, aplicado na vigilância, no controlo e na punição da menor dissidência política ou social. Mesmo a daquela que pudesse ocorrer com alguém situado dentro do partido no poder (o Partido Socialista Unificado da Alemanha, SED) ou que no passado tivesse sido considerado como seu próximo.

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    Apontamentos, Democracia, História, Olhares

    A mutabilidade dos princípios e das certezas

    A maioria das pessoas prefere a segurança dos princípios e o conforto das certezas para dar um sentido estável ao seu mundo e escapar às ameaças da incerteza e do caos. Contra a mecânica tradicional de Newton, a física quântica provou, com Heisenberg, como a variabilidade das partículas torna impossível prever cada movimento de forma total. Ora, sabendo-se hoje que esta dimensão de incerteza se alarga a todos os aspetos da realidade física ou espiritual, nada pode ser dado como inteiramente certo, seguro e definitivo. Por sua vez, o caos define um estado primordial de desordem e tumulto, concebido pelas religiões para justificarem o papel criador e regulador da intervenção divina, destinada a conferir um sentido inteligível à ação humana. 

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      Atualidade, Democracia, História, Olhares, Opinião

      O grande equívoco «social-democrata»

      A história ajuda-nos a entender o presente de uma forma mais completa. Pode, por isso, servir para dissipar o equívoco que entre nós persiste há décadas a propósito da designação do Partido Social-Democrata. Sem diluir o logro histórico em que ele assenta, é difícil compreender a essência política do partido, bem como as escolhas que adota e as expetativas que projeta no eleitorado. Vamos então viajar no tempo, até à origem e à gradual identificação da social-democracia como a ideologia que orienta a atividade de muitos partidos e movimentos que integram uma influente corrente do panorama político contemporâneo. 

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        Atualidade, Democracia, História, Opinião

        Usar a historicidade para não falsificar o passado

        A «historicidade» inscreve factos, pessoas ou ideias do passado no tempo, no lugar e no contexto aos quais pertenceram. O seu uso é essencial para compreender a história de forma ajustada e mais completa, já que, quando pensamos qualquer passado fora das suas circunstâncias e apenas com o olhar do presente, a perspetiva resulta sempre distorcida ou falsificada. Surge então o anacronismo (do grego ἀνά χρόνος, aná chrónos, «contra o tempo»), essa falha cronológica que atribui a dada época factos e sentidos que pertenceram a outra, ou que são explicados a partir de prismas desajustados, deturpando tanto o passado que se pretende ler quanto o lado do presente que o interpela.

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          Atualidade, Biografias, História, Olhares

          A invenção da pólvora

          Como tenho trabalho académico desde 1981, e durante muitos anos, apesar de já ter passado os cinquenta, ainda era apontado no meio como «jovem historiador» – o que ficou a dever-se a por duas ou três décadas apenas existir corpo académico nas universidades, não em centros de investigação, e a ele quase não ser renovado – tenho uma noção clara da forma como muitas das pessoas mais jovens que trabalham na área cresceram quase sem contacto com o trabalho daquelas que as precederam. A situação é a que é, infelizmente, e não pode ser mudada, e ninguém terá culpa de eu, o tal «jovem», ter sido dos poucos a atravessar uma espécie de «no man’s land». Mas já faz bastante impressão o volume de jovens investigadores que desenvolve e até publica trabalhos sem referir, ou referindo apenas em rápida e genérica passagem, quem os precedeu na área de pesquisa a que se dedica. Falando ou escrevendo como se a invenção da pólvora por si próprio tivesse sido acabada de obter. Ou reduzindo a quase nada centenas ou milhares de páginas de saber que outros levaram a vida inteira a escrever. É triste, embora talvez inevitável.

            Apontamentos, Etc., História, Memória, Oficina, Olhares

            Totalitarismo: incerteza e atualidade de uma ideia 

            Com quase 80 anos de uso no vocabulário político, a palavra «totalitarismo» contém várias interpretações, nem sempre pacíficas. Mas as tendências antidemocráticas de hoje podem ser lidas através dela.

            O conceito de «totalitarismo» é usado com regularidade em artigos de opinião, notícias e reportagens, bem como em domínios como a história, a ciência política, os estudos culturais e artísticos ou a filosofia. O seu emprego amplo e persistente liga-o a interpretações úteis em análises, mas pode tornar-se discutível ou abusivo quando valida logros, deturpações e escolhas antidemocráticas. Acontece desde que o termo emergiu como categoria explicativa, mas ganhou novo destaque nos últimos anos, quando a recomposição da ordem global, o retrocesso do multilateralismo e a voga do populismo tornaram ambíguas ou insuficientes escolhas políticas antes inequívocas. 

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              Atualidade, Democracia, Ensaio, Heterodoxias, História, Opinião

              Não há revoluções sem momentos de desordem

              Há semanas, numa das suas tiradas inspiradoras de reações imediatas e primárias a quem nelas crê ou se revê, André Ventura afirmou em pleno parlamento que o número de presos políticos em 1974-1975 foi muito superior ao dos detidos nas vésperas do 25 de Abril. José Pacheco Pereira contrariou-o, mostrando ser a afirmação uma completa falsidade. Da polémica resultou um debate na televisão que pouco acrescentou ao que fora dito, ampliando, todavia, a perceção de que para uma das partes verdade e mentira não carecem de prova, bastando proclamá-las de forma pública e em alta voz.

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                Democracia, História, Olhares, Opinião

                No 17 de Abril: memória de uma injustiça

                A cada 17 de Abril, data-chave da importante «crise académica de 69», que marcou a história da Universidade de Coimbra, do seu movimento estudantil e da resistência ao Estado Novo, sou confrontado, diante do tom largamente dominante da suas evocações, com uma profunda injustiça. Explico já o que pretendo dizer, mas antes disso quero que fique bem claro um pressuposto. Isto é, reconheço a importância daquele momento, a coragem da larga maioria dos seus intervenientes, o lugar na memória que dele estes conservam, e principalmente o grande impacto na época que ele deteve em todo o país. Já escrevi, aliás, por diversas vezes sobre o episódio e as suas circunstâncias, e orientei até teses académicas sobre o tema, pelo que, como entenderão, o que irão ler de seguida de modo algum pode ser considerado uma desvalorização da «crise de 69».

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                  Coimbra, Democracia, História, Memória, Olhares

                  De social-democracia pouco, quase nada, nada

                  Quando nas aulas de história contemporânea lhes procurava explicar o sistema partidário português, uma das dificuldades que tinha com os meus alunos estrangeiros, principalmente europeus, que se mostravam interessados no tema, passava por anular junto deles um compreensível e recorrente equívoco. Consistia ele em associarem o Partido Social-Democrata à social-democracia, julgando-o à medida do que conheciam dos partidos análogos dos seus países.

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                    Apontamentos, Atualidade, Democracia, História, Olhares

                    Corredores, Antecâmaras e WhatsApp

                    Quem realmente tem um conhecimento razoável e alargado da história – não apenas aquele que se cinge aos momentos mais sonantes, às batalhas, aos tratados, às decisões de conselhos e assembleias – sabe que a maior parte dos avanços, sejam os do trajeto da humanidade ou os da vida das instituições, mesmo das mais democráticas, são preparados ou condicionados em encontros de corredor, em reuniões de antecâmara, em telefonemas noturnos, quiçá em bilhetinhos ou, de hoje em dia, mensagens de mail e WhatsApp. Sem estes momentos e vias informais, que não são a céu aberto e o cidadão comum jamais conhecerá, o conflito seria a norma e provavelmente viveríamos no caos.

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                      Camus e uma política para o nosso tempo

                      Completa-se o 65º aniversário da morte trágica de Albert Camus. O escritor, filósofo e jornalista morreu numa estrada secundária perto de Villeblevin, na Borgonha, ao início da tarde de 4 de janeiro de 1960. Regressava de umas curtas férias no Facel Vega do seu editor, Michel Gallimard, de quem aceitara a boleia, apesar de detestar andar de automóvel e de ter já no bolso um bilhete de comboio para Paris. Apenas com 46 anos, possuía uma obra de projeção internacional, que continuou, e assim permanece, a suscitar atenção e aplauso, mas também polémica e incompreensão. Sobretudo porque tudo o que escreveu – romances, contos e peças de teatro, ensaios e crónicas, diários, cartas e discursos – conserva uma carga política de elevada intensidade.

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                        Atualidade, Biografias, Democracia, Ensaio, História, Opinião

                        Atualidade do combate entre Luz e Trevas

                        Todas as cosmogonias – os conjuntos de histórias, mitos ou teorias sobre a origem e a formação do cosmos e da humanidade, apoiados em narrativas que envolvem forças divinas ou princípios filosóficos – assentam no combate, julgado essencial entre quem as partilha, entre a Luz e as Trevas. A primeira servindo como metáfora do conhecimento, da razão e da felicidade, as segundas para nomear simbolicamente a ignorância, o caos e o infortúnio. No Antigo Testamento, a ideia de criação traduziu-se na ordem divina inicial de um «Faça-se Luz!», enquanto a revolução cultural do iluminismo, que pelo século XVIII procurou entregar aos humanos o controlo dos seus destinos, se fundou na ideia de uma vitória do esclarecimento sobre a escuridão escravizante da ignorância.

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                          25 de Novembro: o inventado e o verdadeiro

                          A história, encarada como trajeto humano ao longo do tempo, ou então como forma de conhecimento analítico do passado, enfrenta sempre um paradoxo: ela parte de factos e de situações em boa parte objetivos, mas é ao mesmo tempo sujeita a interpretações, incluindo as realizadas pelos historiadores, com forte componente de subjetividade. É esta que conduz, lembrou Marc Ferro, à abundância das suas falsificações, levando também a interpretações opostas, assim como ao seu uso como instrumento dos poderes estabelecidos e como ferramenta para a manipulação das consciências. Podemos observar tudo isto perante a forma como, por estes dias, se recordou ou se celebrou, o que aconteceu em Portugal a 25 de novembro de 1975.

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                            Nuremberga, o julgamento dos julgamentos

                            Quando se completam 80 anos sobre o início das suas sessões, decorridas entre 20 de novembro de 1945 e o 1 de outubro seguinte em que foi anunciado o seu veredito, os Julgamentos de Nuremberga permanecem como acontecimento-chave da história do século XX, continuando a ser olhados com interesse e como exemplo. Tiveram, em simultâneo, um papel reparador e um efeito traumático, cujos contornos se mantiveram presentes em diversas vertentes da opinião pública e da memória coletiva, continuando ainda, tanto tempo depois e já sem os seus intervenientes, a suscitar ondas de choque associadas a contextos e a preocupações do nosso tempo.

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                              Democracia, Direitos Humanos, História, Leituras, Olhares

                              Um erro da PIDE (com um pouco de riso)

                              Deparei hoje com um relatório da PIDE datado do ano de 1972 no qual um panfleto contra o regresso da Queima das Fitas que circulou em Coimbra em maio desse ano vinha com a sua autoria completamente trocada. Sei-o melhor que ninguém, pois foi o último que escrevi para os chamados «Núcleos Sindicais de Base», antes de ser internamente impedido de continuar a fazê-lo por a minha escrita ser acusada de «demasiado literária». Tratava-se de um grupo de estudantes filo-maoistas, na altura ainda muito poucos, dos quais fazia parte e fora um dos fundadores em Coimbra.

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                                Apontamentos, Democracia, História, Memória

                                A Oposição ao Estado Novo e «o Leste» cultural

                                Em Portugal, a Guerra Fria teve como importante aspeto um anticomunismo visceral que acompanhou todo o trajeto do Estado Novo. Parte deste associava um mal incontornável à simples existência do que chamava «a Rússia» e dos outros regimes do «socialismo realmente existente», como estes se autodefiniam até 1989. Por um efeito de contraposição, muitos oposicionistas vislumbraram nesses territórios, em regra de forma acrítica, o seu desenho de sociedades perfeitas. Fruto deste olhar, ainda hoje muitos militantes e simpatizantes do PCP, a partir de uma visão acrítica, parcial e a-histórica, imaginam como ideal a realidade daqueles Estados através das décadas de existência que fecharam com a Queda do Muro de Berlim. Em particular a da «pátria dos sovietes», proclamada «o país do sol radioso», que iluminava o caminho a desbravar desejavelmente pela humanidade no seu todo.

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                                  Artes, Cinema, História, Memória

                                  Vilões com a chave da retrete

                                  Uma das caraterísticas práticas do fascismo italiano, ilustrada em livros de história e textos memorialísticos, mas também exposta em muitos romances e filmes, traduziu-se na distribuição de cargos, ao nível local e regional, por figuras medíocres e oportunistas – muitas delas antes objeto de desprezo e sem qualquer perfil moral – que através do Partido Fascista eram promovidas e passavam a dispor de poder, agindo de uma forma discricionária e tantas vezes cruel. Faziam-no porque, na sua estreiteza e falta de preparação, consideravam que era esse o único modo de exercer a autoridade de que estavam investidas, perpetuando o estatuto social a que ela conferia direito. A fidelidade a Mussolini e ao partido era total, pois nela residiam a sua força e a sua legitimidade.

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                                    Verão Quente: não foi isto que vivemos

                                    O Público começa um artigo sobre o Verão Quente de 1975 da seguinte forma: «Foram meses de instabilidade política, de anúncios de golpes e contragolpes de Estado, e também marcados por uma onda de violência ímpar. A História descreve uma realidade de trincheiras e os protagonistas reconhecem que Portugal esteve à beira de uma guerra civil. O país vivia, literalmente, a ferro e fogo. Foi o Verão quente.» Na verdade, a História (com o H maiúsculo que os autores do texto preferem usar) não descreve nada disto, ou apenas isto. O chamado Verão Quente foi um tempo de grande instabilidade política e social, sem dúvida alguma – aliás, revoluções tranquilas, sem instabilidade e hesitações, não existem -, mas também um período de conquistas, de experiências e de construção de utopias que durante décadas pautaram a vida dos portugueses e da democracia. Reduzir o Portugal da época a «um país a ferro e fogo» é um logro análogo àquele imposto pelo Estado Novo, ao longo da sua existência e a sucessivas gerações, para caraterizar a nossa Primeira República.

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