Escrever pouco, entender menos

Neste tempo de recuo dos saberes estruturantes, substituídos por «competências» tantas vezes sem substância, um dos sinais que denuncia essa tendência negativa consiste em escrever-se de forma cada vez mais simplificada. Não falo das mudanças da língua, que não representam um mal em si, mas da simplificação dos processos de escrita. Cada vez mais, sobretudo nas redes sociais, mas já também em jornais, existe quem escreva textos de tamanho razoável usando apenas parágrafos de três ou quatro linhas, por vezes nem isso, não por incapacidade para o fazer de forma completa, mas apenas, como crê, para ser entendido.

O que acaba por produzir o chamado efeito de «pescadinha de rabo na boca»: escreve-se menos, lê-se menos, pensa-se menos, num ciclo triste e degradante a caminho desse «grau zero», formalmente minimal e pobre em termos de significado, sobre o qual nos falou Roland Barthes. A redução ao menor denominador comum da comunicação ou do conhecimento tende sempre a baixar o nível do seu destinatário, pois só se aprende a subir uma escada subindo-a com algum esforço e degrau a degrau, não deslizando em terreno plano sob o impulso do vento ou da gravidade.

[Originalmente no Facebook]

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