Arquivo de Categorias: Olhares

Contra o império da banalidade

Num livro publicado em 1974, Banalidades de Base, à época um razoável êxito editorial, Raoul Vaneigem, a par de Guy Debord um dos principais teóricos da Internacional Situacionista – movimento que entre as décadas de 1950 e 1970 influenciou bastante certos meios da vanguarda artística e intelectual ocidental –, considerou que as sociedades sufocam «sob o manto de banalidades, reproduzidas de geração em geração e adaptadas ao gosto de cada época, que fazem soar através dos séculos a sentença de morte e a vaidade aplicadas aos destinos humanos». Os situacionistas procuravam conferir ao conceito de mudança revolucionária uma dimensão intensamente vivencial, não apenas associada à transformação política, e a frase de Vaneigem procurava dar conta da importância, numa lógica de emancipação, do que havia a fazer para escapar à escravizante ditadura que a banalidade exerce sobre a vida de todos os dias.

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    Atualidade, Democracia, Olhares, Opinião

    «Esta suposta democracia»

    Quase todos podemos hoje escrever para um público e, se não vivermos sob uma ditadura, emitir opiniões sobre seja que assunto for. A esfera pública ampliou-se numa pluralidade de espaços nunca antes vista, e, como lembrou Habermas, multiplicaram-se os processos dialógicos de comunicação, articulando opiniões, ideias, disposições morais e juízos normativos que passaram a orientar a vida social a uma escala sem precedentes. Isto é essencialmente positivo, uma vez que amplia o direito de cada indivíduo ou grupo a ter a sua voz escutada. Todavia, transporta também consigo perigos vários, pois se o debate público se transforma numa Babel de vozes e escolhas onde todos os argumentos se equivalem sem a mediação fornecida por critérios de verdade e de reconhecimento, sem qualquer responsabilização cívica ou ética e sob a forma de ruído, a democracia que a ampliação da pluralidade prometia converte-se naquela guerra de todos contra todos que pelos meados do século XVII Thomas Hobbes já temia. 

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      Dilemas da esquerda política em tempo de crise

      Em artigo publicado em outubro na revista Public Seminar, Mitchell Abidor desenvolveu uma útil reflexão sobre os caminhos plurais da esquerda política e a necessária resistência que esta tem o dever de levar a cabo contra a vaga autocrática, revanchista e populista que procura servir-se das democracias e das contradições do Estado social para os fazer desmoronar. O escritor e tradutor norte-americano apoia-se para o efeito na experiência histórica da Frente Popular, que, dirigida por Léon Blum, governou a França entre 1936 e 1938, juntando a SFIO (o embrião do futuro Partido Socialista), o Partido Radical e o Partido Comunista (que apoiava os dois primeiros, sem, todavia, participar diretamente no Governo), mas incorporando igualmente toda uma nebulosa de outros movimentos e personalidades da esquerda e do antifascismo.

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        Porque há tanta gente desta?

        Vença quem venha a vencer, os resultados das eleições presidenciais norte-americanas têm suscitado uma dúvida legitima, mas que exprime alguma ingenuidade política. Quem a exprime parte do princípio segundo o qual os Estados Unidos da América são uma sociedade «civilizada», no sentido tradicional do termo, que deveria por isso excluir práticas e valores como os exibidos por Donald Trump e os seus numerosos apoiantes. Surge então a dúvida natural: «Como pode tanta gente defender um homem assim? Como pode ela ser tão cega após quatro anos de governação desta personagem egocêntrica, mentirosa, agressiva e tão primária?» O mesmo problema coloca-se na abordagem da situação vivida em Estados europeus, questionando o apoio hoje dado a posições políticas conflitivas e irracionais que questionam os princípios mais básicos do convívio democrático e da solidariedade humana. Olhemos, porém, o caso americano.

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          Entre a decência e o ódio

          Não existe vida fora da política, uma vez que não tomar posição política é, como se sabe pelo menos desde Aristóteles, uma escolha política. Por muito que nos façamos de inocentes, sempre representamos um papel no teatro social e do poder, mesmo quando nos proclamamos «apolíticos». Mas já existe vida fora da ideologia, uma vez que podemos estar ou não de acordo com uma metanarrativa da história, como podemos construir a nossa própria mundividência, ou simplesmente não pensar muito nisso. Existe, assim, uma diferença aguda entre a política ativa, empenhada, militante, e a escolha ocasional de uma causa ou de uma barricada.

          É aqui que entra o barómetro da decência, no sentido mais cristalino tomado pelo conceito: o da dignidade, da correção, da civilidade, da honradez, que se definem, é certo, num plano ético abstrato, mas que permitem um vasto leque de comportamentos, pautados pelos princípios básicos do convívio humano. A palavra é essencial quando, confrontados com o apoio momentâneo a escolhas políticas com as quais não nos identificamos, as colocamos apenas no patamar mínimo da decência. Assim encaro a escolha dramática desta noite: um confronto muito básico, mas crucial, entre o limiar da decência e o precipício do ódio.

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            O intelectual público, agora

            Em 1993, numa conferência proferida em Reith, na Áustria, Edward Said definiu a condição do intelectual público como a de alguém que se esforça por produzir e divulgar um ponto de vista, partilhando-o e estimulando expectativas junto de um público ao qual se dirige, defrontando os entraves que sempre lhe são colocados. O intelectual público, homem ou mulher, é assim alguém que pensa por si próprio, sempre com o objetivo prioritário de dinamizar a reflexão coletiva e de questionar a ordem do mundo, embora não necessariamente de a fazer ruir. Por isso lhe são postos os entraves de que fala Said: se é um pensador, um comunicador e muitas vezes um dissidente, exercendo a sua atividade, de uma forma necessariamente pública e aberta, incomoda sempre aqueles que impõem a sua autoridade apoiados na ignorância e na manipulação do cidadão comum.

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              Duas canções sobre a América

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              Depois de ao longo do século XIX os Estados Unidos da América terem sido encarados como lugar de fuga e de exílio para milhões de perseguidos e espoliados, como espaço de oportunidades ou enquanto pátria da liberdade, a partir do século passado boa parte do pensamento progressista passou a vê-los como sede ou fautor dos maiores males da humanidade. O impacto da Revolução Russa de 1917, e depois o da Guerra Fria, bem como as lutas de libertação nacional, iriam forçar em muito essa aversão. Sucessivos governos e alguns setores da sociedade norte-americana tudo fizeram, aliás, para merecê-la. As grandes disparidades sociais, o apoio a tiranias sanguinárias, o desvario imperial e belicista, a cultura do quotidiano tantas vezes pautada pelo poder do dinheiro e da ignorância, pelo fanatismo e pelo racismo, foram, aliás, fatores que ajudaram a ampliá-la. Mesmo sabendo-se que ali continuava a existir esse grande espaço aberto onde se mantinha a liberdade de viver, de trabalhar, de pensar e de opinar, bem como a de lutar por uma sociedade mais justa.

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                EUA: os votos da esquerda democrata

                Quase não tenho encontrado, nas análises das presidenciais norte-americanas, a abordagem de um aspeto importante. Em regra, todos os artigos insistem na importância decisiva de um eleitorado hesitante e facilmente influenciável. Aquele que, parecendo neste momento tender com clareza para Joe Biden, poderá a todo o momento, perante um golpe de propaganda ou uma chantagem de Trump – e isto para ele são feijões – mudar rapidamente de campo. Do que poucos falam é de uma boa parte do eleitorado norte-americano de esquerda, que nas eleições anteriores se recusou a votar em Hillary por antes ter preferido Bernie Sanders e poderá voltar a fazê-lo, entregando milhões de votos perdidos ao adversário. Mesmo tendo Sanders apelado claramente ao voto em Biden.

                É verdade que o ódio a Trump e o reconhecimento do perigo crescente e do retrocesso que este representa têm vindo a aumentar entre os eleitores democratas (e até, diga-se, numa franja dos republicanos), mas não é de desvalorizar aquela possibilidade. Uma pecha das esquerdas em muitos momentos da sua história; quando, não podendo vencer, tantas vezes saiu de jogo recusando-se a tomar uma posição ativa e entregando a vitória ao mais forte, ainda que este tenha podido ser o pior. Como aconteceu na Alemanha da República de Weimar quando da ascensão dos nazis, o exemplo mais conhecido. A teoria do «inimigo principal» está sempre presente no debate teórico da esquerda, mas levá-la até às escolhas objetivas requer mais decisão e menos teimosia. A ver se os eleitores da esquerda norte-americana desta vez têm mais juízo.

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                  Contra o rancor e a cultura do ódio

                  O percurso humano foi sempre profundamente marcado pela violência e pela guerra. Os primeiros relatos históricos – muito curtos, expostos a partir de 3000 a.C. nas tabuinhas sumérias em argila e depois nos grandes monumentos em pedra da Antiguidade Oriental – foram, aliás, os de batalhas que exaltavam os vencedores e amaldiçoavam aqueles que os tinham afrontado, celebrando o seu massacre. A reconstituição das sociedades pré-históricas aponta no mesmo sentido: uma representação do mundo em cujo centro estava a luta pela sobrevivência e pelo poder com o exercício do confronto com o outro como principal experiência. E apesar de as primeiras civilizações terem procurado observar ocasiões de paz, estas foram sempre breves pausas entre largos períodos mergulhados em tensões e conflitos armados. A cronologia da história universal mostra como, até ao presente, pouquíssimos foram os anos sem guerras ou tumultos determinados pelo desejo de aniquilação do odiado adversário.

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                    Uma «História» complicada

                    Não costumo escrever sobre livros que não li ao detalhe. Durante perto de dez anos fiz crítica sobre livros de história, de filosofia e de política numa revista, onde tratei mais de três centenas deles, e posso garantir que os li a todos, ao ritmo regular de três por mês. É claro que num caso ou noutro passei algumas páginas com maior rapidez – neste tipo de trabalho tento ser honesto, mas não sou masoquista -, embora não tenha deixado de falar com razoável segurança sobre cada um. Desta vez, todavia, vou abrir uma exceção e comentar um livro do qual apenas li alguns dos seus 91 curtos capítulos.

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                      O «povo», as «gentes» e o populismo

                      Os responsáveis pelo regime derrubado em Abril de 1974 costumavam invocar, na retórica usada para se legitimarem e para efeitos de propaganda, o caráter supostamente pacífico, cordato e obediente do «bom povo português». Num dos seus mais relevantes discursos, aquele proferido em Braga a 28 de maio de 1936, quando da celebração do 10º aniversário da vitória da «Revolução Nacional» sobre a Primeira República, Salazar adicionou aos valores que julgava sagrados e indiscutíveis – Deus, Pátria, Autoridade, Família, Moral, Trabalho – um dever de bonomia e de consentimento que excluía todo o conflito social e o menor indício da luta de classes. A ideia de «povo» que o Estado Novo concebeu e difundiu requeria, de facto, o duplo pressuposto da inexistência de razões para qualquer conflito social e de uma vida coletiva que fluiria na alegre aceitação da ordem política e social em vigor. O recorrente uso do termo «gentes» – «gentes beirãs», «as nossas gentes» – ainda acentuava essa noção de um todo idealizado como uniforme, pacificado e feliz, sobre o qual se exercia a autoridade vigilante e paternal do ditador.

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                        A síndroma da Monarquia Lusitana agora

                        Quando fez o comentário crítico de um dos primeiros trabalhos escritos que realizei na universidade, um professor de larga experiência atirou-me com um reparo que me deixou perplexo por não lhe ter entendido logo o alcance: «o trabalho não está mau de todo, percebe-se que compreendeu o problema, mas o senhor sofre da síndroma da Monarquia Lusitana». No meu orgulho juvenil, calei-me e não perguntei o sentido da afirmação, mas como tantas vezes fazia, e apesar da na época não existirem, como agora, ferramentas de pesquisa facilmente acessíveis, tratei de decifrar a frase por mim. Não foi difícil, bastando-me ir à secção de reservados da biblioteca da universidade e passar uma bela tarde a folhear alfarrábios com perto de quatro séculos.

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                          Um obrigado de todos os dias

                          Ao contrário do que ocorre com algumas pessoas que conheço, muitas delas situadas no meu universo profissional, que preferem a prudência da distância e do silêncio a «conspurcarem-se» ou a «darem o flanco» no ambiente da comunicação através da Internet, em particular no das redes sociais, delas se afastando de todo – estão no seu direito, naturalmente – ou nelas se limitando a episódicas intervenções que tenham a ver com o seu trabalho, a minha experiência tem sido, neste domínio, em regra profundamente compensadora. É claro que já me meti por aqui em sarilhos evitáveis, algumas vezes por culpa própria, sendo também verdade que por estes lados me vi, e por vezes ainda vejo, forçado a conviver com pessoas que me causam urticária e que «lá fora» deixaria sempre à distância profilática de vários metros quadrados.

                          Mas perdi também a conta àquelas que aqui passei a conhecer melhor, que aqui encontrei ou reencontrei, ou com quem comecei a conviver, por vezes até de forma física, através do contacto humano e intelectual que este espaço proporciona. Para não falar daquelas outras com quem, por motivos culturais, geracionais ou de temperamento, a distância se mantém, mas cuja personalidade, tantas vezes rica e solidária, neste espaço estou todos os dias a conhecer melhor. Tenho até um vasto conjunto de amigos e amigas apenas «do Facebook» com quem jamais troquei uma palavra ou mesmo um «like», mas que todos os dias me dão testemunho de conhecimento, de vivência, de compromisso e de humanidade. E a quem, todos os dias também, silenciosamente agradeço a dádiva. Mesmo, o que com regularidade vai acontecendo de modo inevitável, após o seu desaparecimento.

                          Publicado originalmente no Facebook
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                            «Barão Negro», parte 3

                            Dois anos após ter visto no Canal 2 as primeiras duas temporadas de Barão Negro (Baron Noir), terminei ontem a terceira, agora na HBO. O essencial do argumento permanece: tendo como personagem central Philippe Rickwaert (Kad Merad), desenhado a partir da figura real de um político de bastidores ligado ao Partido Socialista, a série francesa – nesta dimensão, um pouco à escala da dinamarquesa Borgen – sobre os jogos de influência e poder que ao mesmo tempo alimentam e fragilizam os partidos políticos dentro do sistema representativo. Destaca-se nesta temporada a abordagem dos perigos do populismo que o sistema mediático e as redes sociais muito ampliam, bem como os problemas inerentes à dificuldade de contra ele conseguir unir as esquerdas.

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                              Avatares da bibliometria

                              Como muito bem sabe quem circula pelo mundo académico, a bibliometria, tendo surgido por algumas boas razões – nomeadamente para tentar impedir que certas pessoas progredissem na profissão sem provas dadas, apenas por antiguidade ou por esquemas corporativos de proteção – transformou-se numa doença. Acabou por fazer inverter, no prestígio e valorização da produção científica, a relação entre a qualidade e a originalidade, de um lado, e a quantidade e a mimetização, do outro. Hoje em dia, e por este motivo, a maioria dos investigadores preocupa-se mais em acumular referências no currículo, e assim ir somando pontos e subindo nos concursos, do que em «deixar marca» com um trabalho original, necessariamente moroso e que é escassamente classificado.

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                                Não depois, mas agora

                                O assunto é sempre relevante, embora em alguns momentos, como agora, se destaque na ordem do dia. É um enorme equívoco considerar, com o argumento de que apenas lhe amplia a projeção, que é «perigoso» combater ideias, práticas e organizações de natureza fascista – no sentido amplo e trans-histórico conferido à palavra –, e também as de teor racista e xenófobo, com palavras bem claras e sonoras, com legislação atenta e firme, e com iniciativas enérgicas do lado da cidadania. Pior ainda é afirmar que deve aceitar-se a sua existência e circulação, invocando que o sistema democrático a todos deve integrar, ouvir e respeitar. Como se fosse dever deste aceitar e proteger os seus inimigos, aqueles que o querem desvirtuar ou destruir, e que pretendem, em primeiro lugar, combater os valores e direitos mais fundamentais sobre os quais assenta a sua existência. Uma existência, não pode esquecer-se, que tantos esforços requereu e que exigiu combates com milhões de vítimas.

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                                  Em crónica sobre o episódio da fuga de Juan Carlos, o ex-rei de Espanha, Ferreira Fernandes lembrou no Público um episódio que muitos de nós, seus leitores, já conhecíamos. No que me diz diretamente respeito, vi-o em primeira mão em direto, através da televisão, e depois disso li o livro-testemunho, Anatomia de um instante, que sobre o episódio escreveu o romancista extremenho Javier Cercas. Na manhã do dia 23 de fevereiro de 1981, de tricórnio na cabeça e pistola na mão, o tenente-coronel da Guardia Civil Antonio Tejero Molina entrou nas Cortes madrilenas acompanhado de uns quantos subordinados de metralhadora em punho e, como parte de um golpe de extrema-direita que visava acabar com a transição democrática espanhola, disparou um tiro para o ar interrompendo a sessão que estava a decorrer.

                                  Quase todos os presentes, deputados e membros do governo, se atiraram então rapidamente para o chão, como pode hoje rever-se nas imagens de arquivo. À exceção de três: Santiago Carrillo, o então secretário-geral do Partido Comunista, Adolfo Suárez, que era o presidente demissionário do Governo de transição, e o general Gutiérrez Mellado, seu ministro da Defesa. O episódio continuaria com a transformação de parlamentares e governantes em reféns e terminaria no dia seguinte com a ordem de desmobilização dada ao tenente-coronel e a sua detenção, talvez o único gesto político verdadeiramente decente da vida do rei Borbón.

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                                    Democracia, História, Memória, Olhares

                                    No habitáculo das certezas

                                    A partir dos dezassete, e por cerca de oito anos, partilhei com um grupo de correligionários, pequeno e bastante jovem, embora politicamente hiperativo, de uma visão do mundo que na época considerava ser a única verdadeiramente certa e com um futuro à sua espera. Porém, ao mesmo tempo que abraçávamos as grandes causas e as dores do país e do mundo, todos vivíamos na grande solidão dos sectários, fechados no nosso círculo de centena e meia de pessoas distribuídas por apenas três ou quatro cidades. Parte dos dias era, aliás, ocupada a ampliar o espírito de seita, erguendo os muros da nossa indómita fortaleza, por vezes combatendo mesmo contra quem de nós divergia apenas em alguns detalhes.

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