Na eleição do próximo domingo, mais do que eleger uma pessoa essencialmente decente, tranquila e progressista como PR, importa que o candidato da extrema-direita não tenha mais de 30%. Tudo o que for acima disso, mesmo não se traduzindo em eleição, representa um enorme reforço daquele setor, bem como da sua capacidade para se preparar para governar, passando a disseminar com maior à-vontade o ódio, a mentira e a demagogia. Por este motivo, autoproclamar-se antifascista e decidir abster-se – apenas para não votar ao lado de pessoas, algumas sem dúvida detestáveis, da direita democrática – não se trata apenas um gesto de cegueira, é também um grave erro político. Mesmo sabendo que umas quantas pessoas jamais o farão, é muito importante mobilizar quem pudermos para não cair neste logro e para não deixar de votar.
Ponto da situação
Chegámos a um ponto, aqui no retângulo e ilhas, em que a oposição entre entre tranquilidade e fúria, consenso e polarização, ponderação e imprudência, decência e desonestidade, tolerância e ódio, diálogo e gritaria, civilidade e crime, se sobrepõe a todas as outras, determinando as nossas escolhas bem mais do que as diferenças complexas e naturais com as quais nos habituámos a conviver ao longo de décadas.
O perigo da irredutibilidade
Continuo a ver, sobretudo nas redes sociais, uma posição de recusa de um apoio à vitória na segunda volta de António José Seguro chegado de pessoas que formalmente se consideram de esquerda. Ela advém, por um lado, do facto de sobrevalorizarem o que de menos positivo para as suas opções contém a candidatura de Seguro, desvalorizando até a sua dimensão inquestionavelmente democrática e a favor da Constituição de Abril. Mas vem também, e até principalmente, de ela ter agora, à última hora, o apoio de muitas personalidades da direita, algumas efetivamente detestáveis, mas que se demarcam do caos e da violência associados à extrema-direita.
ler mais deste artigoContra a desmobilização e a teimosia
Na segunda volta das presidenciais a democracia enfrenta, para além do candidato da extrema-direita, duas posições igualmente perigosas. A primeira é a de quem, perante as sondagens favoráveis a Seguro, considera que não vale a pena votar, pois a eleição «está ganha». Não só pode não estar, como será de grande importância que Ventura não ultrapasse os 30%, se possível menos. De outra forma terá no resultado um balão de oxigénio e, como hoje lembra David Pontes, diretor do Público, passará a liderar de facto a direita, preparando o assalto final ao poder. A segunda posição perigosa, que já começa a escutar-se, é a de setores da esquerda teimosa para quem o apoio a Seguro de pessoas conservadoras e/ou de direita faz com que elas decidam não votar na democracia. Uma cegueira ciclicamente retomada por quem não aprende com a história e até com os próprios erros.
Corredores, Antecâmaras e WhatsApp
Quem realmente tem um conhecimento razoável e alargado da história – não apenas aquele que se cinge aos momentos mais sonantes, às batalhas, aos tratados, às decisões de conselhos e assembleias – sabe que a maior parte dos avanços, sejam os do trajeto da humanidade ou os da vida das instituições, mesmo das mais democráticas, são preparados ou condicionados em encontros de corredor, em reuniões de antecâmara, em telefonemas noturnos, quiçá em bilhetinhos ou, de hoje em dia, mensagens de mail e WhatsApp. Sem estes momentos e vias informais, que não são a céu aberto e o cidadão comum jamais conhecerá, o conflito seria a norma e provavelmente viveríamos no caos.
Um combate urgente pela decência e pela democracia

Vivemos um confronto de amplitude e intensidade sem precedentes nas cinco décadas da nossa Terceira República. Ele não se limita à expressão verbal e nas urnas das diferenças políticas, natural e necessária em democracia, mas liga-se sobretudo a uma tentativa de subversão do regime e das formas mais essenciais do convívio social. Esta traduz-se na atividade antidemocrática de um setor que visa alcançar o poder e instalar uma ordem autoritária, servindo-se para o efeito de mecanismos e processos oferecidos pela própria democracia. Tem um rosto visível, o do Chega e do seu líder, mas integra também grupos, alguns de natureza criminosa, que aceitam ou levam ainda mais longe os seus objetivos e a sua retórica incendiária.
ler mais deste artigoPresidenciais: agora é centro-esquerda
Algumas notas muitíssimo breves e rápidas sobre a primeira volta das presidenciais, originalmente deixadas no meu mural do Facebook.
• Os resultados finais só podem surpreender quem andasse bastante distraído (incluindo, talvez, as próprias empresas de sondagens). Nenhum dos resultados, nem mesmo o paupérrimo do Marques Mendes ou o do bufão Vieira, determinou o inesperado;
ler mais deste artigoDe novo o papel do voto útil
Em democracia, a valorização positiva ou negativa do «voto útil» depende sempre, passe a forçada redundância, da utilidade política que ele serve e materializa. Este modo de votar no que se pode considerar um mal menor não é intrinsecamente «bom» ou «mau», mas é vantajoso ou não, de acordo com as circunstâncias. Em eleições legislativas ele quase sempre possui mais de negativo, uma vez que tende a esvaziar a pluralidade das propostas, acentuando a distância entre os grandes partidos, os do poder, e aqueles que fundamentalmente atuam como contrapoder, contribuindo para silenciar as perspetivas que se assumem como alternativas às que são momentaneamente dominantes.
ler mais deste artigoInacreditável ou talvez não
A revolta popular, em especial aquela que está a acontecer nas grandes cidades, e a repressão do regime dos aiatolás, estão a acentuar-se no Irão, com a ditadura religiosa a usar a força bruta para sobreviver, usando balas reais e fazendo prisões em massa. Ontem deixei no meu mural do Facebook um pequeno apontamento chamando a atenção para o que de poderoso e dramático neste capítulo ali está a ocorrer. Como se tratou de um post aberto a comentários, recebi um de uma pessoa que não consigo perceber como era minha «amiga» – já o não é, felizmente -, pois sempre pondero com o cuidado possível os pedidos feitos nesse sentido.
ler mais deste artigoO perigoso desaparecimento do «assunto menor»

No meio da avalanche imensa que é hoje a sucessão de informação noticiosa e a abundância da opinião, vemo-nos cada vez mais empurrados, queiramos ou não, para temas considerados urgentes ou prioritários. Estes são logo substituídos – por vezes, bastam dois dias para que aconteça – por outros de igual forma julgados urgentes e prioritários, fazendo os mais recentes destaques com que os anteriores sejam logo abandonados. E fazendo também, num processo contínuo, com que determinados assuntos se tornem irrelevantes, salvo para nichos de audiência, acabando por ser confinados à irrelevância da memória ou ao silêncio.
ler mais deste artigoO lugar do voto útil
No nosso regime constitucional, em eleições como as presidenciais o voto útil não é em si um mal ou um crime – como alguns setores por ele inevitavelmente prejudicados insistem em apregoar -, uma vez que nelas se escolhe mais uma personalidade agregadora do que um projeto político específico de natureza partidária, este sim, necessariamente diferenciado e diferenciador. Mais ainda num tempo de forte bipolarização da sociedade, de profundo terramoto no equilíbrio mundial, e de elevado risco para a democracia, como o que estamos a atravessar. Não o entender – mesmo que isso não signifique praticá-lo, direito que a cada um felizmente assiste – possui a marca, queira-se ou não, goste-se ou não, da cegueira ou do sectarismo, no mínimo da ingenuidade política.
Camus e uma política para o nosso tempo

Completa-se o 65º aniversário da morte trágica de Albert Camus. O escritor, filósofo e jornalista morreu numa estrada secundária perto de Villeblevin, na Borgonha, ao início da tarde de 4 de janeiro de 1960. Regressava de umas curtas férias no Facel Vega do seu editor, Michel Gallimard, de quem aceitara a boleia, apesar de detestar andar de automóvel e de ter já no bolso um bilhete de comboio para Paris. Apenas com 46 anos, possuía uma obra de projeção internacional, que continuou, e assim permanece, a suscitar atenção e aplauso, mas também polémica e incompreensão. Sobretudo porque tudo o que escreveu – romances, contos e peças de teatro, ensaios e crónicas, diários, cartas e discursos – conserva uma carga política de elevada intensidade.
ler mais deste artigoAs estratégias da demagogia
As estratégias da demagogia têm por objetivo instigar, provocar e mobilizar a emoção do público, evitando estimular o seu raciocínio. O uso de apelos à paixão, em detrimento da razão, pode ser identificado em dois processos: a hipérbole e a simplificação. A hipérbole sobrevaloriza uma dada situação, atribuindo-lhe características de uma gravidade extrema (ou então euforicamente positiva). Já a simplificação reduz uma situação complexa a um único fator causal, apresentado como a única explicação que se afirma fazer sentido e como a única solução apresentada como possível. Ambas são instrumentos de logro e de servidão.
Catarina, Jorge e as divergências
O debate televisivo de ontem entre Catarina Martins, candidata do Bloco de Esquerda, e Jorge Pinto, apoiado pelo Livre, foi cordial e equilibrado, permitindo observar duas coisas fundamentais. A primeira é a de que é muito mais aquilo que aproxima o seu campo político – não diria o mesmo em relação ao PCP, bastante mais fechado e inamovível – do que aquilo que o separa. Tanto em termos de escolhas, quanto de sensibilidades e até de base cultural. A segunda é que existem, apesar disso, discordâncias que não são de somenos importância, principalmente tendo em conta os objetivos de uma campanha presidencial.
ler mais deste artigo«Memória inventada» e civilidade
Uma das consequências de ter uma vida razoavelmente longa e de (pelo menos por enquanto) conseguir reter alguma memória dela, consiste em ser capaz de identificar de maneira fácil os anacronismos. Claro que, em pessoas como eu, esta capacidade é apurado pela formação de historiador e, mais ainda, pela personalidade «picuinhas» que tenho desde que me conheço. Por isso me perturba um tanto quando encontro pessoas mais ou menos da minha idade que referem como memória sua, dada como certa, situações, realidades, práticas ou gostos que eu sei não serem exatamente daquele tempo e não poderem ter vivido. Vou dizer-lhes isso? Claro que não, ou raramente, até porque sei que, muitas das vezes, essa confusão resulta da chamada «memória inventada», ou «cumulativa», aquela que junta episódios vividos ou informações adquiridas em diferentes momentos e os combina num só. Trata-se de uma confusão natural e eu próprio, apesar da mania do rigor, já o fiz inadvertidamente. Mas confesso que me perturba escutar alguém a afirmar, a pés juntos, ter vivido experiências que sei de facto impossíveis, tendo eu a obrigação, por dever de civilidade e para que se não zangue comigo, de ficar calado.
Comunicar: o digressivo contra o linear
Ao escrever ou ao falar, seja em público ou em privado, mas também ao ler e ao escutar os outros, sempre preferi o pensamento e a comunicação digressivos. Aqueles que se desviam frequentes vezes do tema principal, avançando até um assunto secundário, e integrando recorrentemente reflexões ou memórias pessoais, embora conservando sempre, para serem razoavelmente inteligíveis, a ligação temática fundamental. Assim foram também quase sempre as minhas aulas, tantas vezes, sem modéstia, oferecidas perante um número apreciável de alunos que dessa forma aprendiam e ao mesmo tempo se divertiam – os testemunhos positivos, felizmente, têm sido inúmeros ao longo do tempo -, embora reconheça que talvez exasperasse um tanto a minoria de «certinhos», «marrões» e criaturas menos ágeis no processo de compreensão.
ler mais deste artigoAtualidade do combate entre Luz e Trevas

Todas as cosmogonias – os conjuntos de histórias, mitos ou teorias sobre a origem e a formação do cosmos e da humanidade, apoiados em narrativas que envolvem forças divinas ou princípios filosóficos – assentam no combate, julgado essencial entre quem as partilha, entre a Luz e as Trevas. A primeira servindo como metáfora do conhecimento, da razão e da felicidade, as segundas para nomear simbolicamente a ignorância, o caos e o infortúnio. No Antigo Testamento, a ideia de criação traduziu-se na ordem divina inicial de um «Faça-se Luz!», enquanto a revolução cultural do iluminismo, que pelo século XVIII procurou entregar aos humanos o controlo dos seus destinos, se fundou na ideia de uma vitória do esclarecimento sobre a escuridão escravizante da ignorância.
ler mais deste artigoSignificativo, embora nada surpreendente
A frase «Há algum partido mais distante do senhor Putin do que o PCP?», deixada ontem por António Filipe no debate televisivo das presidenciais com Jorge Pinto, é de uma acentuada hipocrisia sectária por diversos motivos. Desde logo, porque a suave denúncia de Putin pela direção do PCP começou meses após a invasão da Ucrânia, quando a generalidade dos seus militantes de base já o verbalizavam todos os dias como herói. Aliás, basta irmos a blogues e murais do Facebook de pessoas deste partido para observarmos como, no mínimo, nem uma palavra de denúncia da agressão militar e do poder ditatorial interno do atual inquilino do Kremlin se pode ainda hoje encontrar.
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