A autoria como gato por lebre

Até ao século XVIII a condição de autor de uma obra escrita era de tal forma desvalorizada que o seu nome surgia no rosto sempre na última linha em caracteres muito pequenos. O destaque era conferido ao patrono – quem pagava o trabalho ou a quem a obra era dedicada -, de seguida a um título invariavelmente muito longo, e depois ao impressor, que também editava. O justo triunfo do autor foi, em larga medida, um produto do movimento romântico e, se a ele raramente passou a corresponder uma compensação justa pelo trabalho – salvo se for um best-seller, daqueles que se vendem hoje nas estações de comboio e nos hipermercados, ao lado de pastilhas elásticas e bolachas -, ocorre ao mesmo tempo um reconhecimento visual do seu papel, sendo agora identificado com clareza.

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    «Que tempos estes!»

    Vejo por aqui, repetidas até à náusea, muitas vezes por amigos e amigas que prezo, frases como a que encima este apontamento. A história mostra que ela traduz uma atitude muito antiga, defendida de forma consciente ou inconsciente por quem no passado, sobretudo no seu próprio passado, vê um mundo melhor, mais «correto» ou mais feliz que o atual. Em décadas de investigação sobre diferentes passados, frases como esta passaram por mim largas centenas de vezes, embora a referência mais básica seja sempre aquela, pronunciada por Cícero pelo menos em quatro discursos, que pelo século I antes da nossa era bradava «O tempora, o mores», isto é, «ó tempos, ó costumes!». Como quem dizia «malditos estes tempos sem valores», ou «esta juventude está perdida», ou ainda «antigamente é que era bom». Existem, sem dúvida, no curso do tempo, momentos críticos e de alteração brusca de valores e de práticas, nem sempre compreendidos e muitas vezes tomados como negativos, mas não existem épocas boas e épocas más. Na realidade, todas combinam experiências que cada pessoa vive ou interpreta da sua forma e em contexto. Aliás, dizer-se «que tempos estes!» aplicando-a a um país que, com todos os problemas inerentes à vida no planeta e às suas injustiças, atravessa a época de maior bem-estar, de mais direitos e de mais liberdade do seu longo trajeto de oito séculos e meio é, no mínimo, imerecido e absurdo.
    [originalmente no Facebook]

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      Pela militância

      Li numa reportagem que a Iniciativa Liberal, atormentada por alguns fantasmas, se recusa a designar os seus inscritos como «militantes», antes lhes chamando «membros». Amigos do Bloco de Esquerda corrigem-me de vez em quando fazendo-me ver, aparentemente com orgulho, que também não têm «militantes», mas «aderentes» ou «ativistas». Por mim, continuo a considerar nobre e de profundo sentido a palavra «militante», historicamente associada, sobretudo na grande área da esquerda, a quem combate por uma causa, dando por ela o melhor de si, diariamente e com empenho. Militantemente, portanto. Se alguém pode ver como negativo o qualificativo, associando-o a uma relação de dependência e de apagamento individual, esse será um problema do partido ou do movimento que a impõe, ou então da pessoa que dessa forma a vive e aceita, não da nobre e necessária condição de militante. Porque sê-lo foi e permanece uma forma de liberdade e de cidadania.
      [originalmente no Facebook]

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        Promiscuidade entre política e negócios

        Apesar de determinada por episódios recentes envolvendo dois ou três membros de segunda linha do governo do Partido Socialista – de uma forma que, sendo inaceitável, foi artificialmente ampliada pelas oposições, em especial as de direita, empenhadas em generalizar as críticas a partir de casos singulares – existe nas democracias contemporâneas, e na nossa também, um problema sério que pode ser relacionado com esta situação. Diz respeito ao modo como certo número de pessoas, em lugares de responsabilidade pela coisa pública, e que deveriam colocar em primeiro lugar o espírito de serviço à comunidade que determinou a sua eleição ou escolha, se envolvem ao mesmo tempo em atividades que visam sobretudo o rápido enriquecimento pessoal, tornando-se esta uma das fontes da crescente opinião «antipolíticos».  

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          O estalinismo e quem o alimenta

          O estalinismo representa a maior perversão do grande ideal de socialismo, justiça e progresso que o movimento operário do século XIX duramente construiu. Tomou na antiga União Soviética, sobretudo a partir de 1928-1929, a forma de um regime unipessoal e de culto da personalidade, de uma ditadura feroz e sanguinária, de um sistema rigidamente policial e censório, e também de uma forma de fazer política que colocou os objetivos do partido único, como suposta vanguarda, acima das pessoas que um dia proclamou servir.

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            A democracia e as feras

            O factor mais impressionante de toda a barbárie que passou por Brasília, e que tende a emergir noutras paragens, consiste em a espécie de seres que a protagonizou – tendo a nem lhe chamar gente – apenas reagir aos slogans vagos que lhe inculcam e ser «anti» algo que nem sabe explicar. Não tem reivindicações objetivas, não possui um manifesto, não é capaz sequer de respeitar os valores patrimoniais comuns, como se viu na destruição indiscriminada de valiosas peças de arte, de mobiliário, de computadores e dos próprios edifícios públicos. Lula disse ontem, durante a visita que fez ao local após uma reunião com os governadores estaduais, que «a democracia é a coisa mais complicada para a gente fazer, porque exige gente suportar os outros, exige conviver com quem a gente não gosta.» Palavras justas, sem dúvida, mas construí-la e mantê-la terá de ser sempre com homens e mulheres, na sua diferença, jamais com feras ululantes, incapazes de agir fora do bando e que apenas respondem ao instinto.

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              A nostalgia do «Expresso» que foi

              Completaram-se ontem, 6 de janeiro de 2023, cinquenta anos de vida do semanário «Expresso». Fui seu leitor desde o primeiro número, saído ainda em pleno marcelismo como expressão de uma oposição consentida pelo regime, e durante mais de quatro décadas não perdi um só. Mesmo quando fora do país ou em algum lugar onde o jornal não chegava, tinha sempre um quiosque que guardava o meu exemplar. Boa parte desse tempo integrou um ritual das manhãs de sábado, comprando o «espesso» e lendo-o depois normalmente no café. Em particular o bom suplemento cultural, durante uma boa época designado «Revista», e deixando de lado a volumosa publicidade e o caderno de Economia, uma área que infelizmente jamais foi a minha praia. A partir de certa altura passei para a edição digital, que assinei e lia no tablet, libertando-me de vez daquele saco de papel que alguns leitores costumeiros e mais tradicionais ainda exibem como um emblema geracional.

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                Totalitarismo: um conceito plural e útil

                Usado hoje de uma forma constante em artigos de opinião, notícias e reportagens, mas também em campos do conhecimento como a história, a ciência política, a filosofia ou a sociologia, o conceito de totalitarismo é, ao mesmo tempo, útil e questionável. Para ser útil deve utilizar-se em contexto, e não como um chavão aplicado indiscriminadamente, segundo formas que chegam a tocar o absurdo. Exemplificando, ainda há pouco tempo encontrei uma referência ao estilo de direção pouco dialogante do presidente de um grande clube de futebol caraterizando-a como «totalitária», o que é, obviamente, tão impreciso quanto disparatado. Já a sua dimensão questionável depende do caráter não consensual da pluralidade de significados que realmente encerra. A mesma que faz com que parte da esquerda o rejeite liminarmente e certa direita dele se sirva de uma forma politicamente obscena.

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                  «Pegada digital», vida pública e solidão

                  A rápida transformação nos processos de comunicação que teve lugar nos últimos trinta anos, associada ao papel dos meios eletrónicos, determinou alterações bruscas e extremas nas diferentes formas de qualquer de nós se relacionar em sociedade. À distinção tradicional entre os que procuravam o reconhecimento pessoal e o das suas ideias, e aqueles que preferiam viver no completo anonimato, juntou-se um campo híbrido intermédio e em constante expansão: o daqueles que, tendo ou não produzido «obras valerosas», podem ser escutados por bom número dos seus semelhantes.

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                    Semente de esperança vinda do passado

                    Dizia-me alguém, num registo ao mesmo tempo pedagógico e trocista, que «iluminismo não é palavrão». Não posso estar mais de acordo. A afirmação cega de um relativismo radical, assente na ideia absurda segundo a qual a tradição cultural europeia – sem dúvida associada também a formas de injustiça, opressão e desigualdade – é pobre e nociva, levando muitas pessoas sectárias ou sem informação a ignorar o papel emancipatório dos princípios basilares dessa corrente cultural laica que se afirmou no século XVIII. Na direção contrária, sectores do pensamento contemporâneo, defensores de formas de autoritarismo e de controlo dos cidadãos, olham-na como instrumento fundador de um conceito de liberdade e progresso municiador nos séculos seguintes de dinâmicas democráticas e revolucionárias, que rejeitam e pretendem destruir. 

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                      «Etc.»

                      Como sabem muitas pessoas, «Etc.» é a abreviatura da expressão latina «Et cetera», ou «Et coetera», que significa «e outras coisas mais», ou «e assim por diante». Durante o meu (antigo) ensino secundário diversos professores nos avisaram repetidamente para evitarmos a expressão, sobretudo se quiséssemos exprimir-nos com clareza e de forma completa. Como professor fiz o mesmo a muitos milhares de alunos: poderiam usar a abreviatura nos seus apontamentos, ou então em mensagens privadas, mas jamais em teste, exame ou trabalho escrito, sabendo toda a gente que o que apresentavam seria muito desvalorizado se o fizessem. Não era um mero capricho: «Etc.» traduz uma forma de preguiçoso facilitismo, por vezes de descrédito, que tende a apagar conhecimento ou a afirmar a ideia segundo a qual onde existe diversidade «é tudo mais ou menos a mesma coisa». Hoje mesmo escutei uma alta responsável ligada a um orgão de gestão de uma prestigiada universidade portuguesa usar de forma repetida esta miserável muleta durante uma comunicação pública e admito que senti algo entre a náusea e o arrepio.

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                        A grande arte do aforismo

                        «A verdadeira eloquência consiste em dizer tudo aquilo que é preciso,
                        e não em dizer seja lá o que for.» (La Rochefoucauld, 1613-1680)

                        Insisto na declaração de amor pela grande arte do aforismo. Vindo do grego ἀφορισμός, «aphorismós», que significa «definição breve» ou «sentença», o termo traduz essencialmente a enunciação sucinta de um pensamento de natureza moral. A sua brevidade, todavia, pode ser enganadora a respeito do seu valor. Na verdade, ela articula reflexão, saber e experiência num todo em que determinados aspetos da vida do indivíduo ou da coletividade emergem sob a forma de mensagem de uma humanidade e de uma profundidade intemporais. Parecendo semelhante ao adágio, vai mais longe que este pois apela mais ao conhecimento, à sabedoria transmitida, que à simples evidência. Também não emerge como mera intuição, como «achismo» mais ou menos repentista, sendo sempre resultado, por parte de quem o produz, de um trabalho de amadurecimento. «Aforismistas» essenciais foram Erasmo de Roterdão, provavelmente o criador do género, Rabelais, La Rochefoucauld, Voltaire, Benjamim Franklin, Flaubert, Nietzsche, Kafka, Karl Kraus, Sartre ou Adorno, mas os meus favoritos são Montaigne, Emil Cioran e, é claro, Camus. Nessas curtas linhas plenas de sensibilidade e sabedoria que nos foram legando tenho encontrado o que de mais essencial pude aprender.

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                          Cheias: ditadura e democracia

                          Quem mora na região de Lisboa está a sentir com especial gravidade, também devido à concentração populacional, os efeitos desta chuva intensa e que não para, mas grande parte do país vive idêntico problema. Após largos anos de seca, com aguaceiros intermitentes, tínhamos esquecido por cá o poder das verdadeiras tempestades. Tento recordar um temporal destes em Portugal e preciso recuar até aos anos 70, para recuperar algo assim. Os meteorologistas é que têm os dados certos, mas é esta a imagem que tenho.

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                            A «ortodoxia suave» do PCP

                            Talvez mais em resultado da conjugação dos astros que por um efeito do mero acaso, no mesmo dia desta semana de dezembro os jornais «Público» e «Diário de Notícias» atribuem um grande destaque ao que consideram ser sinais de moderação, ou de distanciamento e de suavização da ortodoxia, por parte do PCP. Os sinais que referem não permitem, no entanto, inferir com clareza essa dinâmica, e apontam a aspetos que até nem seriam os mais importantes num processo de eventual e efetivo «aggiornamento» do partido. Os articulistas, porém, entendem que assim é.

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                              O papel do trabalho de revisão

                              Como sabe quem escreve com regularidade livros e artigos, o trabalho de revisão de um original realizado por alguém competente e sensível é crucial, podendo salvar a correção e a elegância do texto, embora possa também traduzir-se em alguns desastres. Muitos autores consagrados, certos deles premiados, sentiriam vergonha ao ler os seus originais publicados sem estes terem passado por essa etapa. E os leitores habituais nem os reconheceriam. Erros e gralhas, repetições de frases ou de palavras, parágrafos pouco claros, falhas de concordância, pontuação deficiente, e por aí afora. Basta, para quem preste atenção, ver como alguma dessas pessoas atabalhoadamente escrevem nas redes sociais e depois o modo como os seus originais são publicados impressos ou no digital.

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                                Extrema-direita e apatia da democracia

                                Com dezenas de prisões de pessoas com algum destaque social e político, acaba de ser desmantelada na Alemanha uma conjura, sustentada em teorias da conspiração, destinada a preparar a tomada do parlamento e a provocar um golpe de Estado, da qual sairia de seguida uma revisão das condições de rendição do país após a Segunda Guerra Mundial. A reação imediata de muitos de nós foi de incredulidade, pois geralmente damos como assente que a Alemanha é uma democracia estabilizada e que os traumas associados à ascensão e à queda do nazismo estariam enterrados. Esta é, todavia, mais uma prova da ascensão da extrema-direita revanchista fundada agora nas dinâmicas do populismo, nas falhas da memória coletiva e na visível apatia da democracia.

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                                  Contra o referendo sobre a morte assistida

                                  Salvo em momentos de total bloqueio político, sou absolutamente contrário ao recurso, em democracia, à experiência do referendo. Se nos colocarmos no plano estrito dos princípios, ele pode, sem dúvida, parecer uma forma de democracia direta que completa as da democracia representativa. Todavia, tende a minimizar a reflexão e o debate, cingindo-se a respostas primárias, de «sim» ou «não», face a perguntas muito simples, o que tenderá sempre a dar maior poder de decisão aos setores menos informados e mais despolitizados. Por isto mesmo é uma arma perigosa, sempre bastante apreciada pelos populistas.

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