Riscos e problemas da inteligência artificial 

O tema desta crónica impõe um reparo. De modo algum sou especialista ou estudioso das possibilidades, vertentes e consequências da inteligência artificial (IA), mas apenas um cidadão atento à sua crescente presença, olhando-a estimulado pelas possibilidades que oferece, mas também preocupado com os problemas que levanta. De todos, os mais perigosos serão, sem dúvida, a sua possível e arriscada autonomização em relação ao fator humano, bem como o seu uso pelas formas autocráticas e manipuladoras dos grandes poderes políticos e empresariais. Neste quadro, se não vejo como útil a contestação cega e passadista do seu uso, feita por quem apenas teme a novidade ou não sabe do que fala, também não aceito um entusiasmo acrítico perante algumas das hipóteses que abre.

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    Atualidade, Cibercultura, Democracia, Opinião

    Redes sociais: os prós e os contras

    De vez em quando, embora cada vez mais nos últimos tempos, amigos e amigas que usam com regularidade as redes sociais começam a mostrar um compreensível incómodo face ao que de mau diariamente presenciam. Vários deles acabam mesmo por abandoná-las, ou, pelo menos, por reduzir a sua presença ao mínimo, o que é praticamente a mesma coisa. Não é escolha que já não me tenha ocorrido em momentos mais negativos, mas como uso a Internet, de forma sempre muito ativa, desde 1994 – em boa parte da minha vida, pois – passei por tantas experiências, algumas bem conturbadas, que acabo sempre por relativizar o que acontece. O que não me impede de pesar periodicamente os prós e os contras que esta presença contém.

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      Apontamentos, Atualidade, Cibercultura, Democracia

      Sobre a série Fauda

      Este não será um texto lido de forma pacífica. Vem na sequência de outros que tenho escrito, associados a um esforço, cada vez mais difícil de levar a cabo, e cada vez mais inglório, devido sobretudo às ações criminosas do governo de Tel Aviv, para não generalizar a todos os/as israelitas a culpa pelo comportamento crescentemente genocida de quem desde há décadas – com o apoio da direita política, da extrema-direita sionista e de algumas organizações judaicas ultraortodoxas – maioritariamente tem governado Israel. Partindo sempre do princípio, a meu ver fundamental e justo, segundo o qual a única solução possível para o terrível conflito israelo-palestiniano passa pela afirmação de dois estados independentes, pacíficos, viáveis, cooperantes, democráticos e, tanto quanto o possível, laicos, deixando «a Deus o que é de Deus».

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        Artes, Etc., História, Memória, Olhares

        Nada pode ser dado por adquirido

        A maior das novidades trazidas, no correr do século XVIII, pela cultura do iluminismo, foi a afirmação triunfante da ideia de progresso. Procurava-se então, com recurso a um saber científico renovado e a uma atividade intelectual arrojada, afirmar que o tempo, como se acreditara até então, não era circular e repetitivo, num eterno processo de retorno a um passado perfeito. Considerava-se agora que ele era, afinal, historicamente progressivo, num percurso linear, apoiado no conhecimento e na razão humana, que se acreditava ser dinâmico e infinito. Pensando-se também que teria pela frente um horizonte otimista de liberdade, solidariedade e bem-estar que era necessário conquistar.

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          Democracia, História, Opinião

          «Bichanar», nein danke

          Faço parte de uma das gerações para as quais grande parte do trabalho profissional ou do horário lúdico de leitura e escrita, de estudo e de reflexão, se faz no espaço público dos cafés. É, todavia, cada vez mais difícil manter este hábito, pois num número crescente destes sítios, além de se promover o desconforto por troca com o design, como se estes fossem incompatíveis, existe um ambiente demasiado ruidoso, sobretudo pela introdução de música ambiente ou de televisores. Mas ainda continuo a passar muitas manhãs a exercê-lo. Neste esforço, auscultadores e auriculares têm sido auxiliares preciosos, sobretudo com os novos modelos sem fios que, além de vedarem, cortam eletronicamente boa parte do som ambiente. Sem eles, por certo já teria passado por algumas crises de nervos e deixado o hábito.

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            Apontamentos, Etc., Olhares

            Para que serve a história das ideias

            Tornou-se um lugar-comum afirmar que a história, como forma de conhecimento, possui um valor que vai muito para além da evocação ou da celebração repetitiva do passado. Em Para que serve a história?, de 2013, Diogo Ramada Curto mostrou – retomando no título a pergunta que abria o belo Apologie pour l’histoire ou Métier d´historien, obra póstuma do historiador Marc Bloch, fuzilado pela Gestapo – que ela agrega fatores tão diversos como a curiosidade por todo o tipo de atividade humana, a vontade de conhecer a sociedade no seu todo e no curso do tempo, e acima de tudo o desejo de compreender a vida real no quotidiano e nas práticas recorrentes, devendo por isso distanciar-se da conceção morta de um passado enterrado em museus, monumentos e manuais. 

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              Problemas de compreensão

              Li hoje no Público, assinado por Elsa de Barros, professora do 1º ciclo, um artigo tão útil quanto preocupante («A falta de vocabulário representa uma forma de desigualdade social: como contribuir para a colmatar?»). A partir da sua experiência pessoal, a autora refere a dificuldade em fazer-se compreender nas aulas, pois «não só os alunos não conheciam vocábulos aparentemente simples, como era difícil explicitá-los, porque lhes faltavam muitas outras noções que lhes permitissem compreender a explicação». Essa dificuldade passa em boa parte por dinâmicas de exclusão social, como bem refere com exemplos. Mas também por outros fatores, onde se integram, acrescento agora eu, o défice de leitura, aquilo que ouvem em casa e o que lhes passa pela frente, ou não passa, na televisão e nos jogos de computador. O problema é ainda maior se constatarmos como, falo de experiência própria, esta dificuldade de compreensão quase generalizada já chegou há pelo menos uma década mesmo aos alunos do ensino superior. A verdade é que, com cada vez menos palavras, a ignorância tende a aumentar, a variedade do mundo a encolher e a incompreensão do outro a espalhar-se.

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                Porque não escrevo sobre Coimbra

                O título desta crónica contém um equívoco intencional. A verdade é que até tenho escrito bastante, no formato da crónica ou em artigos e livros de história, sobre a cidade onde assentei no outono de 1969, chegado para concluir o secundário. Foram muitas páginas sobre a história de Coimbra na relação com o ativismo político estudantil, com os movimentos sociais anteriores ao 25 de Abril ou que o acompanharam, com pessoas e grupos que nela resistiram ao Estado Novo e à Guerra Colonial, com organismos e práticas culturais da academia. Também sobre formas de olhar e de viver a cidade, episódios da sua memória coletiva, a nostalgia que tantas vezes a envolve ou limita, ocasionalmente escolhas da política autárquica ou vivências pessoais.

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                  A bandeira a adejar entre os destroços

                  Ontem, 24 de agosto, completaram-se 35 anos sobre a independência da Ucrânia. Uma data de particular simbolismo – de festa, mas também de resistência e de combate – nesta fase dramática da vida do país, quando a invasão militar da Rússia continua a fazer vítimas diárias e a forçar um esforço de guerra que, para além da morte, da destruição e do sofrimento provocados de ambos os lados, prejudica em muito o desenvolvimento do país, o bem-estar do seu povo e a própria democracia ucraniana, limitada devido ao estado de guerra. Como prejudica a afirmação de uma Europa forte e democrática. Uma realidade que só não reconhecem a extrema-direita, em regra incondicional apoiante de Putin, e aquela parte da esquerda mais ortodoxa que continua a observar o mundo como se o Muro de Berlim jamais tivesse sido derrubado, conservando um sentimento de nostalgia por um passado mais imaginado que real.

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                    Trotsky, 86 anos depois

                    Completam-se neste 21 de agosto de 2026, 86 anos sobre o assassinato no seu exílio do México, por Ramón Mercader, um agente do NKVD, a temível polícia política de Estaline, de Leon Trotsky. Falo do escritor, eminente intelectual marxista e revolucionário bolchevique, presidente do Soviete de Petrogrado, organizador do Exército Vermelho e figura central da vitória dos comunistas na Guerra Civil Russa de 1918–1922, que após a morte de Lenine se tornou o principal rival de Estaline na disputa pela hegemonia do Partido Comunista da União Soviética. Trotsky foi também o criador da teoria da revolução permanente, defensor do internacionalismo revolucionário, crítico incansável da burocratização estalinista e fundador da Quarta Internacional, destinada a levar a cabo uma revolução socialista de dimensão mundial.

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                      A praga e o seu necessário antídoto

                      Nem a relativa calma e o descanso de agosto nos livram da praga quase bíblica de vendedores da banha da cobra que a extrema-direita mobiliza sem parar um só dia para iludir o povo ou mobilizá-lo para os seus objetivos, sejam estes os confessos ou os ocultos. Dúzias de empertigados comentadores da televisão, a chusma disforme de influenciadores digitais, mais uns quantos políticos profissionais com défice de vergonha e untuosos propagandistas com abrigo em jornais que se presumiriam responsáveis, desdobram-se no afã de normalizar o ódio, a violência, a divisão, o medo, a ignomínia, a mentira.

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                        Salazarismo do quotidiano (1)

                        Chamo «salazarismo do quotidiano» às práticas, instaladas no dia a dia, que, a par da atividade política e cultural imposta, durante o Estado Novo moldaram a sociedade portuguesa no desprezo pelo outro (por vezes travestido de complacente caridade cristã) e na desconfiança diante de tudo o que escapava à «normalidade» instalada. Algumas dessas práticas sobreviveram, aliás, ao 25 de Abril, e talvez só já neste século se tenham tornado raras. O que não significa que tenham desaparecido de todo, sobretudo entre pessoas que vivem imersas na cultura da violência e do ódio. É sobre este fenómeno que começo uma série espaçada, apoiada sobretudo em vivências pessoais do ante-1974. Evocando um tempo que alguns dos que o não viveram apontam como exemplar.

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                          Ladrões de livros

                          Este apontamento de não-ficção pode causar-me problemas. Desde logo, como se diz agora, «de índole reputacional», mostrando que já fui pessoa em quem talvez não se devesse confiar. Mas também outros, mais prosaicos, a ocorrer com a polícia e os tribunais. Confio, todavia, na prescrição dos crimes descritos, na omissão dos nomes envolvidos e na indolência causada pelo calor de agosto. Contém o breve relato de dois episódios, ocorridos no ano distante de 1972, ambos ligados a uma prática então comum entre estudantes universitários, sobretudo entre aqueles que se dedicavam a compor uma pequena biblioteca pessoal, algo que hoje será por muitos considerada uma excentricidade. Refiro-me ao roubo de livros em livrarias, prática que, entre alguns de nós, comportava ainda a ideia de que era essa uma forma suplementar de combater o capitalismo.

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                            Os belos anos dos vinte anos

                            É comum o uso da referência ao numeral da década para marcar o caráter, para elas único e inigualável, que para muitas pessoas detiveram certos períodos das suas vidas. Consideram que quase tudo o que neles viveram foi perfeito e nunca visto, desde a moda à música, do cinema à literatura, dos hábitos aos divertimentos, das sociabilidades aos consumos ou mesmo às manias pessoais. Foram os «maravilhosos anos 50», os «loucos anos 60», os «incríveis anos 70», os «fantásticos anos 80», e por aí afora. Depois deles «nada voltou a ser o que era».

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                              A Embaixada de Israel e a escória humana

                              Pertenço ao grande grupo de cidadãos, politicamente de esquerda, que repudiando sem hesitação os hediondos crimes de genocídio cometidos por sucessivos governos israelitas de direita e de extrema-direita na Palestina, em particular em Gaza, não deixa de defender o direito à existência histórica do Estado de Israel. A par do da Palestina, evidentemente, sempre numa solução de dois Estados pacíficos e dialogantes que é a única justa e com futuro. Este é assunto sobre o qual tenho vontade de escrever um artigo fundamentado, o que farei lá mais adiante. Declaro isto apenas para poder afirmar que a espécie de desqualificada escória humana de «influencers» portugueses encaminhada para Gaza pela Embaixada de Israel em Lisboa, numa patética operação de propaganda e embelezamento da ocupação, só lhe fica muito mal e acaba até por prejudicar Israel, estimulando ainda mais o antissemitismo.

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                                O perigo de generalizar sobre outros povos

                                A par dos traços comuns desenvolvidos por sucessivas gerações nos domínios da história, da língua, da religião, das leis ou dos costumes, um dos instrumentos usados na construção identitária dos Estados-Nação, acentuada na Europa a partir do século XVI, foi a comparação com o comportamento dos outros povos. A sinalização das caraterísticas a estes apontadas recorreu sempre a duas atitudes: uma, maioritariamente negativa ou de incompreensão, vincava as diferenças, enquanto a outra as associava a um padrão consistente e constante, por vezes desenhado como caricatura ou fantasia.

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                                  Decomposição

                                  Ao ler o volume Para Lá do Muro: Alemanha de Leste: 1949-1990, de Katja Hoyer (edição Vogais), uma recomendável, bastante completa e tão imparcial quanto o possível resenha da experiência histórica da República Democrática Alemã, deparei, inevitavelmente, com referências ao seu duro e eficaz sistema repressivo, aplicado na vigilância, no controlo e na punição da menor dissidência política ou social. Mesmo a daquela que pudesse ocorrer com alguém situado dentro do partido no poder (o Partido Socialista Unificado da Alemanha, SED) ou que no passado tivesse sido considerado como seu próximo.

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                                    A mutabilidade dos princípios e das certezas

                                    A maioria das pessoas prefere a segurança dos princípios e o conforto das certezas para dar um sentido estável ao seu mundo e escapar às ameaças da incerteza e do caos. Contra a mecânica tradicional de Newton, a física quântica provou, com Heisenberg, como a variabilidade das partículas torna impossível prever cada movimento de forma total. Ora, sabendo-se hoje que esta dimensão de incerteza se alarga a todos os aspetos da realidade física ou espiritual, nada pode ser dado como inteiramente certo, seguro e definitivo. Por sua vez, o caos define um estado primordial de desordem e tumulto, concebido pelas religiões para justificarem o papel criador e regulador da intervenção divina, destinada a conferir um sentido inteligível à ação humana. 

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