Escrever pouco, entender menos

Neste tempo de recuo dos saberes estruturantes, substituídos por «competências» tantas vezes sem substância, um dos sinais que denuncia essa tendência negativa consiste em escrever-se de forma cada vez mais simplificada. Não falo das mudanças da língua, que não representam um mal em si, mas da simplificação dos processos de escrita. Cada vez mais, sobretudo nas redes sociais, mas já também em jornais, existe quem escreva textos de tamanho razoável usando apenas parágrafos de três ou quatro linhas, por vezes nem isso, não por incapacidade para o fazer de forma completa, mas apenas, como crê, para ser entendido.

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    Quatro polémicas que evito e o seu porquê

    Em largas décadas a escrever de forma pública, perdi a conta aos temas que abordei e às polémicas em que participei. Existem, porém, entre estas, quatro que desde há algum tempo me esforço por evitar. A primeira, associada às mais antigas preocupações humanas, é sobre afirmar ou contrariar a existência de Deus. A segunda, incontornável para quem trabalha com a língua, gira em torno do uso do Acordo Ortográfico, que aliás sigo. A terceira, supostamente trivial, mas que envolve paixões desgovernadas, respeita à desrazão do clubismo futebolístico. Por fim, a quarta polémica envolve a afirmação ou a rejeição, categórica e imposta aos outros, de rígidos princípios de moral. 

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      Totalitarismo: incerteza e atualidade de uma ideia 

      Com quase 80 anos de uso no vocabulário político, a palavra «totalitarismo» contém várias interpretações, nem sempre pacíficas. Mas as tendências antidemocráticas de hoje podem ser lidas através dela.

      O conceito de «totalitarismo» é usado com regularidade em artigos de opinião, notícias e reportagens, bem como em domínios como a história, a ciência política, os estudos culturais e artísticos ou a filosofia. O seu emprego amplo e persistente liga-o a interpretações úteis em análises, mas pode tornar-se discutível ou abusivo quando valida logros, deturpações e escolhas antidemocráticas. Acontece desde que o termo emergiu como categoria explicativa, mas ganhou novo destaque nos últimos anos, quando a recomposição da ordem global, o retrocesso do multilateralismo e a voga do populismo tornaram ambíguas ou insuficientes escolhas políticas antes inequívocas. 

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        Olga Tokarczuk e a IA

        No início deste mês, Olga Tokarczuk fez umas afirmações a meu ver inteiramente legítimas e de interesse. Ela descreveu a um jornal de que modo, na preparação de um romance, usou recursos de inteligência artificial para a informarem sobre que tipo de música os seus personagens poderiam, num dado contexto temporal e social, servir-se para dançar. Além disso, declarou ter ficado muito impressionada com os resultados e questionou-se sobre a forma como a ferramenta pode ser usada como auxiliar do processo de criação literária. Foi o que bastou para que uns quantos fanáticos anti-IA – que dela só conhecem os óbvios aspetos negativos, não sabendo, nem querendo saber, dos positivos – começassem a propagar que a grande escritora polaca e prémio Nobel usava aquele processo para escrever os seus romances. A afirmação é, obviamente, absurda, bastando conhecer a sua escrita única para o compreender, mas encarar o tema é muitíssimo pertinente.

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          Não há revoluções sem momentos de desordem

          Há semanas, numa das suas tiradas inspiradoras de reações imediatas e primárias a quem nelas crê ou se revê, André Ventura afirmou em pleno parlamento que o número de presos políticos em 1974-1975 foi muito superior ao dos detidos nas vésperas do 25 de Abril. José Pacheco Pereira contrariou-o, mostrando ser a afirmação uma completa falsidade. Da polémica resultou um debate na televisão que pouco acrescentou ao que fora dito, ampliando, todavia, a perceção de que para uma das partes verdade e mentira não carecem de prova, bastando proclamá-las de forma pública e em alta voz.

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            Simples complexo

            Já perdi a conta ao número de vezes em que alguém me disse gostar de ler textos que escrevo, em particular os de natureza ensaística ou de opinião, porque neles abordo «temas complexos» de forma «simples e clara». Considero isto um elogio, embora saiba que muitos autores, numa escolha legítima, preferem a complexidade da forma à essência do argumento, entendendo a simplicidade como defeito. O meu processo de escrita tem, como será óbvio, um trajeto de largas décadas – comecei a publicar em 1970 – e foi sendo depurado ao longo do tempo, com muitos erros, hesitações e asneiras pelo meio. Mas a razão principal daquela característica é a escolha, que assumo, do meu papel como intelectual público, que pensa e comunica para estimular a crítica, a mudança, a cidadania e o conhecimento, visando o que escreve, sempre e imperativamente, um público. «Culto», é certo, mas tão alargado quanto o possível. Jamais consegui entender um antigo colega que certa vez me disse ter uns vinte leitores «no máximo» e bastarem-lhe esses.

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              O drama e a coragem de ser apóstata

              O Dicionário Houaiss define a apostasia como «a renúncia de uma religião ou crença, o abandono da fé», mas também «a quebra de votos, o abandono da vida religiosa ou sacerdotal sem autorização superior», e ainda «o ato de renunciar a um partido, teoria ou doutrina» ao qual se pertence. Dirão as pessoas que verdadeiramente aceitam ser a democracia a melhor e mais livre forma de viver em sociedade – ou, pelo menos, como um dia disse sarcasticamente Winston Churchill, «a pior, salvo todas as outras» – que esse é um direito que, como gesto de liberdade, assiste a qualquer pessoa. 

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                25 de Abril e 1º de Maio: complementares, mas diferentes

                A celebração do 1º de Maio remonta a 1886, quando foi brutalmente reprimida em Chicago uma greve de operários pela redução da jornada de trabalho diária, então nas 14 horas. Três anos depois foi adotado, em congresso da segunda Internacional Socialista, como Dia Internacional dos Trabalhadores. Apesar de proibido pelo Estado Novo, que considerava a data subversiva, manteve-se em Portugal como momento de luta contra a ditadura e pelos direitos mais essenciais. Era evocado em jornais e panfletos clandestinos ou em celebrações privadas de grande simbolismo, sendo também pautado por arriscadas ações reivindicativas ou em manifestações de rua logo atacadas pela polícia. 

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                  A democracia em nossa casa

                  É uma tristeza, e também uma prova de sectarismo ou mesmo de medo, andar pelas redes sociais – que, a par dos muitos perigos e desvarios que comportam, podem também ser lugar de criativo debate democrático – e apenas divulgar convicções e propostas que replicam exatamente as posições formais de grupos políticos aos quais pertence quem o faz. Sem qualquer abertura a ideias e a sugestões que destas divergem um pouco, embora com elas procurem ou possam dialogar. A democracia deve começar em nossa casa, e, além disso, tende a enfraquecer, ou mesmo a morrer, quando se fecham os olhos à menor diferença. Para mim, a abertura e o diálogo são essenciais para combater com firmeza e convicção, seja de forma organizada ou individual, por uma vida melhor, mais plena e mais livre.

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                    Futebolices bem lamentáveis

                    Aviso prévio: gosto muito de futebol, joguei futebol de forma amadora e sou dos que, quando o meu clube, o Sporting CP, ganha na modalidade um jogo ou uma prova importante, dorme muito melhor e acorda mais bem disposto, acontecendo o oposto nas derrotas. Apesar de reconhecer tudo o que de muito mau envolve este desporto: demasiadas vezes negócios obscuros, informação deturpada, claques perigosas e adeptos fanáticos e de maus-fígados. Mas não considero o futebol, parafraseando a conhecida frase de Marx sobre a religião, «o ópio do povo». Sei até, bem diversamente, que para muitos ele acaba por integrar um dos poucos alimentos espirituais da sua vida, proporcionando conforto, paixão e companheirismo. Aliás, Camus, que foi guarda-redes do Racing de Argel, considerava-o uma escola de vontade e de fraternidade. Lembro muito que as últimas palavras, horas antes de morrer, a mim dirigidas por pessoa muito próxima, foram para pedir um cigarro e saber o resultado do jogo do seu clube, por acaso rival do meu.

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                      Entre a praga do «soundbite» e a arte do aforismo

                      Vivemos asfixiados pelo ruído do «soundbite». O curto fragmento de uma frase ou ideia maior, pautado pela concisão e pelo registo de fácil e imediato impacto. Prática comum na comunicação social norte-americana dos anos 70, espalhou-se depois globalmente, tornando-se um fator cada vez mais percetível e relevante da publicidade e da propaganda política. Na presente conjuntura de excesso de informação e de redução do peso da argumentação sustentada e complexa, associada a uma crescente passividade do pensamento e à dificuldade de concentração de muitas pessoas, o «soundbite» funciona, com a ajuda de televisão, jornais e redes, como poderoso fator de manipulação.

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                        No 17 de Abril: memória de uma injustiça

                        A cada 17 de Abril, data-chave da importante «crise académica de 69», que marcou a história da Universidade de Coimbra, do seu movimento estudantil e da resistência ao Estado Novo, sou confrontado, diante do tom largamente dominante da suas evocações, com uma profunda injustiça. Explico já o que pretendo dizer, mas antes disso quero que fique bem claro um pressuposto. Isto é, reconheço a importância daquele momento, a coragem da larga maioria dos seus intervenientes, o lugar na memória que dele estes conservam, e principalmente o grande impacto na época que ele deteve em todo o país. Já escrevi, aliás, por diversas vezes sobre o episódio e as suas circunstâncias, e orientei até teses académicas sobre o tema, pelo que, como entenderão, o que irão ler de seguida de modo algum pode ser considerado uma desvalorização da «crise de 69».

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                          A Artemis II e o negacionismo

                          Já começaram a circular, sobretudo no turbilhão das redes sociais, mas não apenas aí, as estúpidas proclamações, em todas as línguas e no português também, «atestando» a dimensão de fraude e de invenção do voo espacial da Artemis II, teste para a alunagem da Artemis IV em 2028. Sabe-se que esta forma de obscurantismo circula desde a primeira viagem à Lua, a da Apolo 11, ocorrida em 20 de julho de 1969. Assisti a ela em direto, pela televisão a preto e branco e noite adentro, com espanto e emoção inesquecíveis. Porém, a atual vaga negacionista não resulta apenas da perplexidade de uma porção de ignorantes, como na época, sendo parte de uma convencida desconsideração global do conhecimento por parte dos setores da direita populista que neste processo de teor conspirativo procuram afirmar o seu poder obscurantista e escravizante.

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                            A Hungria, a Europa e os abutres

                            Independentemente do facto de Péter Magyar ser um político conotado com o centro-direita, este foi eleito com o apoio expresso da maior parte da esquerda húngara, que optou por não concorrer para não dispersar votos. Muito de complexo, instável e contraditório virá agora, sem dúvida, mas o triunfo esmagador do seu partido, para mais em eleições invulgarmente participadas, foi uma importante vitória da democracia, do projeto europeu e do apoio internacional à Ucrânia invadida e martirizada. Contra Putin, Trump e a generalidade da extrema-direita europeia, incluindo-se nesta a infelizmente nossa. Ver milhares de pessoas a dar vivas à liberdade e a cantar nas ruas de Budapeste o hino resistente Bella Ciao, não deixa de ser um sinal comovedor e bem positivo.

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                              Basta de condescendência

                              Ontem, durante a sessão comemorativa dos 50 anos da Constituição, aquilo que aconteceu no Parlamento com o discurso de Ventura não foi apenas a expressão de uma imensa ignomínia contra a democracia e de uma falta total de educação e respeito pelo trajeto plural das pessoas mais velhas ali presentes. Foi sobretudo um sinal. Um importante sinal de que as forças da democracia e do progresso não podem deixar-se intimidar – nem mesmo pelos eleitores e pela comunicação – e precisam passar à ação, legal mas direta e bem sonora, contra aquela gente delinquente. Esta deve perceber que não pode dizer ou fazer o que lhe apetece sem que isso tenha consequências, sejam elas políticas ou no domínio da lei. É tempo de tocar a reunir pela democracia e pela decência mais elementar.

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                                A complexidade de tudo acima de tudo

                                Se alguém um dia me perguntar o que de mais importante aprendi nesta vida, tenho a resposta preparada há muito. Não foi o conhecimento útil e inútil (do qual tanto gosto e que cultivo) que fui obtendo, continuo a procurar, divulguei e por vezes ajudo a produzir. Também não foi a beleza e a diversidade dinâmica do humano, que transcende em muito o peso da maldade, da desigualdade e da desgraça. Nem foi mesmo a compreensão do valor da música, para mim tão vital e omnipresente quanto o oxigénio. A mais importante das coisas, que contra ventos e marés tenho procurado praticar e transmitir a quem me escuta ou lê, é a perceção da complexidade de tudo. Absolutamente de tudo, incluindo-se aqui a das formas de fé, sejam elas as religiosas ou as formalmente laicas.

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                                  A vida coletiva entre o ódio e a moderação 

                                  De sentido oposto, «ódio» e «moderação» são palavras que têm sobressaído no discurso público em artigos de opinião, rodapés dos telejornais, manifestos partidários ou estudos de teoria política. O ódio emergiu mais cedo neste panorama, como termo rude que associamos a sentimentos extremos de cólera e repulsa, expressos através de propostas irracionais, violentas e antidemocráticas, tendentes a excluir indivíduos ou grupos, combatendo sem tréguas quem não é, não vive e não pensa como quem o exprime. Teve forte expressão nas primeiras décadas do século XX, esses «tempos sombrios», como Hannah Arendt os designou, em que emergiram os totalitarismos assassinos e genocidas, mas foi controlado no pós-Segunda Guerra Mundial, regressando em força há apenas uma vintena de anos, e não parando, entretanto, de crescer.

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                                    À esquerda: somar e protestar não basta

                                    A recuperação da esquerda à esquerda do PS – imprescindível para o equilíbrio político e social, bem como para a dinamização da utopia – não pode ser obtida só pela soma de partes, estabelecendo alianças basicamente fundadas em ideias vagas sobre uma memória histórica em parte partilhada e também sobre formas práticas de reivindicação e protesto. Apenas a pode conseguir repensando metas, atitudes, causas, alianças e linguagens, e sobretudo definindo estratégias adequadas para uma futura governação progressista e sustentada num mundo em rápida mudança. De outro modo permanecerá confinada ao seu modesto rincão, enquanto é encarada como irrelevante pela larga maioria dos cidadãos e também pelos possíveis parceiros nesse processo. A extrema-direita, essa agradece.
                                    [Originalmente no Facebook]

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