Arquivo de Categorias: Atualidade

Riscos e problemas da inteligência artificial 

O tema desta crónica impõe um reparo. De modo algum sou especialista ou estudioso das possibilidades, vertentes e consequências da inteligência artificial (IA), mas apenas um cidadão atento à sua crescente presença, olhando-a estimulado pelas possibilidades que oferece, mas também preocupado com os problemas que levanta. De todos, os mais perigosos serão, sem dúvida, a sua possível e arriscada autonomização em relação ao fator humano, bem como o seu uso pelas formas autocráticas e manipuladoras dos grandes poderes políticos e empresariais. Neste quadro, se não vejo como útil a contestação cega e passadista do seu uso, feita por quem apenas teme a novidade ou não sabe do que fala, também não aceito um entusiasmo acrítico perante algumas das hipóteses que abre.

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    Redes sociais: os prós e os contras

    De vez em quando, embora cada vez mais nos últimos tempos, amigos e amigas que usam com regularidade as redes sociais começam a mostrar um compreensível incómodo face ao que de mau diariamente presenciam. Vários deles acabam mesmo por abandoná-las, ou, pelo menos, por reduzir a sua presença ao mínimo, o que é praticamente a mesma coisa. Não é escolha que já não me tenha ocorrido em momentos mais negativos, mas como uso a Internet, de forma sempre muito ativa, desde 1994 – em boa parte da minha vida, pois – passei por tantas experiências, algumas bem conturbadas, que acabo sempre por relativizar o que acontece. O que não me impede de pesar periodicamente os prós e os contras que esta presença contém.

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      Problemas de compreensão

      Li hoje no Público, assinado por Elsa de Barros, professora do 1º ciclo, um artigo tão útil quanto preocupante («A falta de vocabulário representa uma forma de desigualdade social: como contribuir para a colmatar?»). A partir da sua experiência pessoal, a autora refere a dificuldade em fazer-se compreender nas aulas, pois «não só os alunos não conheciam vocábulos aparentemente simples, como era difícil explicitá-los, porque lhes faltavam muitas outras noções que lhes permitissem compreender a explicação». Essa dificuldade passa em boa parte por dinâmicas de exclusão social, como bem refere com exemplos. Mas também por outros fatores, onde se integram, acrescento agora eu, o défice de leitura, aquilo que ouvem em casa e o que lhes passa pela frente, ou não passa, na televisão e nos jogos de computador. O problema é ainda maior se constatarmos como, falo de experiência própria, esta dificuldade de compreensão quase generalizada já chegou há pelo menos uma década mesmo aos alunos do ensino superior. A verdade é que, com cada vez menos palavras, a ignorância tende a aumentar, a variedade do mundo a encolher e a incompreensão do outro a espalhar-se.

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        Porque não escrevo sobre Coimbra

        O título desta crónica contém um equívoco intencional. A verdade é que até tenho escrito bastante, no formato da crónica ou em artigos e livros de história, sobre a cidade onde assentei no outono de 1969, chegado para concluir o secundário. Foram muitas páginas sobre a história de Coimbra na relação com o ativismo político estudantil, com os movimentos sociais anteriores ao 25 de Abril ou que o acompanharam, com pessoas e grupos que nela resistiram ao Estado Novo e à Guerra Colonial, com organismos e práticas culturais da academia. Também sobre formas de olhar e de viver a cidade, episódios da sua memória coletiva, a nostalgia que tantas vezes a envolve ou limita, ocasionalmente escolhas da política autárquica ou vivências pessoais.

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          A bandeira a adejar entre os destroços

          Ontem, 24 de agosto, completaram-se 35 anos sobre a independência da Ucrânia. Uma data de particular simbolismo – de festa, mas também de resistência e de combate – nesta fase dramática da vida do país, quando a invasão militar da Rússia continua a fazer vítimas diárias e a forçar um esforço de guerra que, para além da morte, da destruição e do sofrimento provocados de ambos os lados, prejudica em muito o desenvolvimento do país, o bem-estar do seu povo e a própria democracia ucraniana, limitada devido ao estado de guerra. Como prejudica a afirmação de uma Europa forte e democrática. Uma realidade que só não reconhecem a extrema-direita, em regra incondicional apoiante de Putin, e aquela parte da esquerda mais ortodoxa que continua a observar o mundo como se o Muro de Berlim jamais tivesse sido derrubado, conservando um sentimento de nostalgia por um passado mais imaginado que real.

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            A praga e o seu necessário antídoto

            Nem a relativa calma e o descanso de agosto nos livram da praga quase bíblica de vendedores da banha da cobra que a extrema-direita mobiliza sem parar um só dia para iludir o povo ou mobilizá-lo para os seus objetivos, sejam estes os confessos ou os ocultos. Dúzias de empertigados comentadores da televisão, a chusma disforme de influenciadores digitais, mais uns quantos políticos profissionais com défice de vergonha e untuosos propagandistas com abrigo em jornais que se presumiriam responsáveis, desdobram-se no afã de normalizar o ódio, a violência, a divisão, o medo, a ignomínia, a mentira.

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              Os belos anos dos vinte anos

              É comum o uso da referência ao numeral da década para marcar o caráter, para elas único e inigualável, que para muitas pessoas detiveram certos períodos das suas vidas. Consideram que quase tudo o que neles viveram foi perfeito e nunca visto, desde a moda à música, do cinema à literatura, dos hábitos aos divertimentos, das sociabilidades aos consumos ou mesmo às manias pessoais. Foram os «maravilhosos anos 50», os «loucos anos 60», os «incríveis anos 70», os «fantásticos anos 80», e por aí afora. Depois deles «nada voltou a ser o que era».

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                A Embaixada de Israel e a escória humana

                Pertenço ao grande grupo de cidadãos, politicamente de esquerda, que repudiando sem hesitação os hediondos crimes de genocídio cometidos por sucessivos governos israelitas de direita e de extrema-direita na Palestina, em particular em Gaza, não deixa de defender o direito à existência histórica do Estado de Israel. A par do da Palestina, evidentemente, sempre numa solução de dois Estados pacíficos e dialogantes que é a única justa e com futuro. Este é assunto sobre o qual tenho vontade de escrever um artigo fundamentado, o que farei lá mais adiante. Declaro isto apenas para poder afirmar que a espécie de desqualificada escória humana de «influencers» portugueses encaminhada para Gaza pela Embaixada de Israel em Lisboa, numa patética operação de propaganda e embelezamento da ocupação, só lhe fica muito mal e acaba até por prejudicar Israel, estimulando ainda mais o antissemitismo.

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                  O perigo de generalizar sobre outros povos

                  A par dos traços comuns desenvolvidos por sucessivas gerações nos domínios da história, da língua, da religião, das leis ou dos costumes, um dos instrumentos usados na construção identitária dos Estados-Nação, acentuada na Europa a partir do século XVI, foi a comparação com o comportamento dos outros povos. A sinalização das caraterísticas a estes apontadas recorreu sempre a duas atitudes: uma, maioritariamente negativa ou de incompreensão, vincava as diferenças, enquanto a outra as associava a um padrão consistente e constante, por vezes desenhado como caricatura ou fantasia.

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                    A mutabilidade dos princípios e das certezas

                    A maioria das pessoas prefere a segurança dos princípios e o conforto das certezas para dar um sentido estável ao seu mundo e escapar às ameaças da incerteza e do caos. Contra a mecânica tradicional de Newton, a física quântica provou, com Heisenberg, como a variabilidade das partículas torna impossível prever cada movimento de forma total. Ora, sabendo-se hoje que esta dimensão de incerteza se alarga a todos os aspetos da realidade física ou espiritual, nada pode ser dado como inteiramente certo, seguro e definitivo. Por sua vez, o caos define um estado primordial de desordem e tumulto, concebido pelas religiões para justificarem o papel criador e regulador da intervenção divina, destinada a conferir um sentido inteligível à ação humana. 

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                      Cabo Verde e a beleza das mulheres

                      A grande visibilidade que o Mundial de futebol está a dar a Cabo Verde tem trazido consigo, sobretudo nas redes sociais, apreciações simpáticas, aliás merecidas, sobre aspetos vários da sua realidade. Muitos deles, recorrentes, têm enfatizado «a beleza das mulheres caboverdianas», que é agora possível encontrar em abundância nas reportagens da televisão e na Internet. Não só concordo subjetivamente com a apreciação, como a estendo aos homens, pois grande número de naturais de Cabo Verde ou da sua diáspora, têm realmente, sob o meu olhar, uma beleza invulgar. Talvez advinda do processo de mestiçagem do qual resultam desde o povoamento inicial das ilhas, a partir de 1462, por portugueses e depois por pessoas escravizadas vindas de África.

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                        O grande equívoco «social-democrata»

                        A história ajuda-nos a entender o presente de uma forma mais completa. Pode, por isso, servir para dissipar o equívoco que entre nós persiste há décadas a propósito da designação do Partido Social-Democrata. Sem diluir o logro histórico em que ele assenta, é difícil compreender a essência política do partido, bem como as escolhas que adota e as expetativas que projeta no eleitorado. Vamos então viajar no tempo, até à origem e à gradual identificação da social-democracia como a ideologia que orienta a atividade de muitos partidos e movimentos que integram uma influente corrente do panorama político contemporâneo. 

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                          Usar a historicidade para não falsificar o passado

                          A «historicidade» inscreve factos, pessoas ou ideias do passado no tempo, no lugar e no contexto aos quais pertenceram. O seu uso é essencial para compreender a história de forma ajustada e mais completa, já que, quando pensamos qualquer passado fora das suas circunstâncias e apenas com o olhar do presente, a perspetiva resulta sempre distorcida ou falsificada. Surge então o anacronismo (do grego ἀνά χρόνος, aná chrónos, «contra o tempo»), essa falha cronológica que atribui a dada época factos e sentidos que pertenceram a outra, ou que são explicados a partir de prismas desajustados, deturpando tanto o passado que se pretende ler quanto o lado do presente que o interpela.

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                            Fanáticos do futebol & lunáticos antifutebol

                            Sempre que chega uma grande competição do futebol ao nível de seleções, lá emerge nas redes sociais a obsessão de quem papa tudo e, a par dela, a lengalenga de quem precisa odiar alguma coisa. Aviso à navegação: eu gosto muito de futebol, já joguei futebol e sei, como o meu mestre Camus, que o futebol é um dos melhores lugares públicos da confraternização humana, dando até sentido à vida de milhões de pessoas.

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                              Escrever pouco, entender menos

                              Neste tempo de recuo dos saberes estruturantes, substituídos por «competências» tantas vezes sem substância, um dos sinais que denuncia essa tendência negativa consiste em escrever-se de forma cada vez mais simplificada. Não falo das mudanças da língua, que não representam um mal em si, mas da simplificação dos processos de escrita. Cada vez mais, sobretudo nas redes sociais, mas já também em jornais, existe quem escreva textos de tamanho razoável usando apenas parágrafos de três ou quatro linhas, por vezes nem isso, não por incapacidade para o fazer de forma completa, mas apenas, como crê, para ser entendido.

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                                Quatro polémicas que evito e o seu porquê

                                Em largas décadas a escrever de forma pública, perdi a conta aos temas que abordei e às polémicas em que participei. Existem, porém, entre estas, quatro que desde há algum tempo me esforço por evitar. A primeira, associada às mais antigas preocupações humanas, é sobre afirmar ou contrariar a existência de Deus. A segunda, incontornável para quem trabalha com a língua, gira em torno do uso do Acordo Ortográfico, que aliás sigo. A terceira, supostamente trivial, mas que envolve paixões desgovernadas, respeita à desrazão do clubismo futebolístico. Por fim, a quarta polémica envolve a afirmação ou a rejeição, categórica e imposta aos outros, de rígidos princípios de moral. 

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                                  Totalitarismo: incerteza e atualidade de uma ideia 

                                  Com quase 80 anos de uso no vocabulário político, a palavra «totalitarismo» contém várias interpretações, nem sempre pacíficas. Mas as tendências antidemocráticas de hoje podem ser lidas através dela.

                                  O conceito de «totalitarismo» é usado com regularidade em artigos de opinião, notícias e reportagens, bem como em domínios como a história, a ciência política, os estudos culturais e artísticos ou a filosofia. O seu emprego amplo e persistente liga-o a interpretações úteis em análises, mas pode tornar-se discutível ou abusivo quando valida logros, deturpações e escolhas antidemocráticas. Acontece desde que o termo emergiu como categoria explicativa, mas ganhou novo destaque nos últimos anos, quando a recomposição da ordem global, o retrocesso do multilateralismo e a voga do populismo tornaram ambíguas ou insuficientes escolhas políticas antes inequívocas. 

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                                    Olga Tokarczuk e a IA

                                    No início deste mês, Olga Tokarczuk fez umas afirmações a meu ver inteiramente legítimas e de interesse. Ela descreveu a um jornal de que modo, na preparação de um romance, usou recursos de inteligência artificial para a informarem sobre que tipo de música os seus personagens poderiam, num dado contexto temporal e social, servir-se para dançar. Além disso, declarou ter ficado muito impressionada com os resultados e questionou-se sobre a forma como a ferramenta pode ser usada como auxiliar do processo de criação literária. Foi o que bastou para que uns quantos fanáticos anti-IA – que dela só conhecem os óbvios aspetos negativos, não sabendo, nem querendo saber, dos positivos – começassem a propagar que a grande escritora polaca e prémio Nobel usava aquele processo para escrever os seus romances. A afirmação é, obviamente, absurda, bastando conhecer a sua escrita única para o compreender, mas encarar o tema é muitíssimo pertinente.

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