Arquivo de Categorias: Direitos Humanos

O «pessoal do óleo»

A meu ver, não é especialmente grave que uma pessoa chamada Cristina Espírito Santo, ao que consta filha de um administrador do BES, desconhecida fora do seu círculo familiar e dos restritos ambientes mostrados pelas revistas de sociedade, tenha dito ao Expresso que passar umas férias um bocadinho mais simples na herdade da Comporta «é como brincar aos pobrezinhos». Pronunciar-se uma frase como esta, em público ou mesmo em privado, só atesta estupidez, insensibilidade e, já agora, mau-gosto também. E disso encontramos nós todos os dias quando folheamos os rostos ultrabronzeados, os blazers com monograma e as bolsas Michael Kors que ilustram os magazines ocupados com o nosso suposto jet-set. O grave, grave mesmo, é intuir-se daqui que alguém, algum dia, na sua infância brincou mesmo «aos pobrezinhos». É uma frase como essa sinalizar uma atitude, construída desde pequenino, de menosprezo real por aqueles que não fazem parte do círculo de privilegiados dentro do qual vive. E dos quais geralmente depende, aliás, o próprio conforto. (mais…)

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    Wstawać

    Primo Levi

    Mais um post com algum tempo, neste caso quatro anos, que recupero do arquivo.

    Primo Levi é figura nuclear da literatura testemunhal do Holocausto. Nasceu em 1919 em Turim e parece ter-se suicidado em 1987 na mesma cidade. Participou na resistência contra a ocupação nazi e a República de Saló, acabando por ser preso por milícias fascistas e, após ser descoberta a sua ascendência judia, enviado para o campo de extermínio de Auschwitz. Sobreviveu apenas por uma conjugação de acasos, um deles a condição de engenheiro químico que o tornou momentaneamente útil para os seus carcereiros. Foi com base nessa experiência-limite pessoal, e como expressão de um sentido «dever de testemunho», que Levi escreveu o primeiro livro, Se Isto é um Homem, com uma edição inicial de 1947 da qual – numa época em que grande parte dos potenciais leitores preferia não encarar relatos desta natureza – se venderam apenas 1.500 exemplares. Só em 1958 a editora Einaudi publicaria uma edição revista e com tiragem condigna. É desta obra – uma discrição objetiva, serena, contida, estranhamente desprovida de amargura, do brutal dia-a-dia de um prisioneiro de Auschwitz que se esforça a cada minuto por não esquecer a sua humanidade – que se transcreve um fragmento. (mais…)

      Direitos Humanos, História, Leituras, Memória