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Carros franceses

Numa das conversas de teor autobiográfico com Timothy Snyder que fazem parte de Pensar o Século XX, um dos seus últimos livros, Tony Judt, educado principalmente em Londres, falou a dado momento da sua relação familiar com a França e com os carros franceses. O seu pai era um grande apreciador da marca Citroën, por motivos que só mais tarde compreendeu: os fundadores da marca eram, como os pais do historiador, de origem judia. Por outro lado, o velho Joe Judt não se inibia de dizer que jamais conduziria um Renault, uma vez que Louis Renault fora um colaboracionista, simpatizante confesso do regime de Vichy, tendo por isso visto a firma ser nacionalizada quando da Libertação. Quanto aos Peugeot, eram olhados com alguma indiferença mas sem animosidade, uma vez que eram de linhagem protestante e não estavam por esse motivo implicados no antissemitismo católico da França de Pétain. O que Tony Judt nunca terá sabido foi da influência de um veículo Citroën – o nefando BX com o qual em 1985 chegou ao Congresso do PSD na Figueira da Foz – na desastrosa ascensão ao poder, em Portugal, de Aníbal Cavaco Silva. Homem inteligente e de esquerda como era, se o soubesse talvez aceitasse contrariar o gosto paterno.

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    Outra escola

    Jacques Delors
    Jacques Delors

    Vi e ouvi com atenção e algum respeito a entrevista que, na noite desta sexta-feira, Adriano Moreira, um homem de direita mas um sábio, concedeu à SIC. Independentemente da lucidez da análise – e até da sua justeza, nomeadamente quando criticou a incapacidade do governo atual para ter uma política externa mais consentânea com a defesa firme da soberania («O poder da voz não é para ser usado onde a voz tem poder?») – impressionou-me a estirpe de político em vias de extinção que este veterano de 90 anos representa. Teve, como tanta gente, manchas pesadas no percurso – e foi até o jovem ministro do Ultramar de Salazar no primeiros anos da Guerra Colonial – mas é um bom exemplo do que nos podia oferecer a velha escola desses políticos de visão panorâmica que dificilmente encontramos hoje.

    Não contou para eles o terem sido formados em técnicas de contorcionismo, retórica e amiguismo nas juventudes e nos aparelhos partidários, ou nos gabinetes das comissões concelhias e das autarquias, mas o facto de serem homens de cultura, de leituras profundas, com vasta formação académica e experiência de vida que lhes permitia ver mais longe e mais fundo, usando a história, a estratégia, o conhecimento do humano, a política de longo alcance como instrumentos de orientação, que depois a inteligência e o carisma completavam. Faz-nos falta gente desta qualidade. Que não fala de ouvido e tem um desígnio. Da qual podemos discordar justamente porque nos pôs a pensar. Que nos ajuda a pensar porque não diz o que se espera, mas aquilo que poucos vêem. Mesmo quando estamos quase sempre no lado oposto ao da sua barricada.

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      O PS na grande encruzilhada

      Faço parte daquela parcela de portugueses, cujo tamanho desconheço mas que não será com toda a certeza pequena, que sem confiarem no Partido Socialista, ou mesmo sem jamais nele terem votado, o consideram, para o bem e para o mal, como peça basilar do regime democrático. Como este grupo a que pertenço é bastante heterogéneo, torna-se difícil caracterizar tal atitude de uma forma global, mas sou capaz de falar por mim. Na sua forma original, o PS é, a meu ver, o principal herdeiro local da velha tradição europeia social-democrata, reformista e anti-autoritária, aliando, pelo menos na teoria, uma preocupação com os direitos políticos dos cidadãos, com a proteção partilhada do seu bem-estar, com a salvaguarda da democracia representativa e com um ideal de mudança obtido de forma gradual e moderada. Essa é, ou foi, a sua matriz. Porém, o Partido Socialista não é apenas isso. (mais…)

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        O caladinho do Citroën

        Estão por todo o lado, embora se encontrem sobretudo em profissões mais afastadas do escrutínio público. São gente desprezível que jamais fala com clareza e olha os outros de frente, que pode passar décadas sem abrir a boca, sem nunca pôr a debate os seus pontos de vista, até ao dia em que tem a absoluta certeza de estar na mó de cima e de, enfim, poder ditar o que deseja sem a maçada do contraditório. São os caladinhos, os calculistas, os carreiristas, que lançam o veneno sem que se lhes ouça o corpo a rastejar por entre os arbustos, até poderem, já em cima da presa, engoli-la sem dificuldade. Gente na qual nunca se pode confiar, mas que, justamente por causa da sua falta de coragem e de verticalidade, nunca se comprometendo, fazendo-se sempre passar por cordata e consensual, acaba por se aproveitar do desgaste dos outros. Daqueles que suaram anos a fio, tomaram posições difíceis, mas que por cansaço ou desistência, deixaram vazios os lugares que alguém teria de ocupar. (mais…)

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          Convicções

          Por uma destas tardes, enquanto fazia algumas arrumações domésticas, revi um episódio contado por João Bénard da Costa num recorte do antigo diário Independente. O semanário, acessível nos arquivos, que nos lembra os longínquos dias em que pairava sobre o Portugal pós-revolucionário a ideia de que era possível ver uma direita jovem, culta e inteligente a nascer do nada. Contava-se nesse recorte que na noite de 17 de Maio de 1945, quando no cinema Politeama o filme Casablanca estreou em Portugal, no momento em que no ecrã A Marselhesa abafou Die Wacht am Rhein, o cântico alemão saído da Guerra Franco-Prussiana utilizado pelos nazis, o público lisboeta se pôs de pé, cantando também, em uníssono e alta voz, a canção que em 1796 se tornou o hino da França revolucionária e republicana. (mais…)

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            O Inspector das Tempestades

            Henry David Thoreau (1817-1862), o poeta, o naturalista e o filósofo de Concord, Massachussetts – no tempo em que o Massachussetts era o cu do mundo e ainda por ali se mantinham visíveis e transitáveis as antigas pistas índias –, foi professor e explicador, depois fabricante de lápis, preceptor, jardineiro e agrimensor. Gostava porém, de uma forma irónica e profundamente poética, de se apresentar publicamente como «inspector das tempestades».

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              Ser solidário

              O sociólogo Émile Durkheim falava da solidariedade como um elo moral capaz de unir os indivíduos do mesmo grupo e de funcionar como fator de coesão. Sem ela, as sociedades dissolver-se-iam e os humanos voltariam a viver em bandos, centrados na sobrevivência e numa interminável guerra de todos contra todos. Porém, ela não traduz apenas uma ética de governação que impõe a proteção dos mais fracos: integra um sentido mais completo, capaz de incluir um sentimento de proximidade, entreajuda e comunhão. Diariamente alimentado, este sentimento assegura aos diversos grupos uma lógica de autoproteção que os defende do exterior e lhes confere autonomia e protagonismo. Sob os regimes autoritários, esse dever de solidariedade foi frequentes vezes subvertido, trocado por uma escravizante diluição do indivíduo no todo. Por isso as democracias, que se desejam emancipatórias, o valorizam tanto. (mais…)

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                Memória do tango

                tango

                Ao ver uma pequena multidão de jovens turcos revoltosos a dançar o tango em plena Praça Taksim, lembrei-me deste post escrito há sete anos. Quando a minha e a nossa vida (e, talvez, também a deles) era um pouco menos preocupada.

                Por considerá-lo uma diversão imoral, em 1910 o governo argentino decidiu proibir o tango. Nessa época eram extremamente populares tangos associados a títulos másculos, como «Esta noche me emborracho» e «Metele bomba», ou então bastante ordinários, como «Tocamelo que me gusta!», «Dós sin sacarla», «Dejamelo morir adentro» e «El 69», o que não é de admirar pois o local de eleição dos tangueros e das suas acompanhantes era então a sala comum do prostíbulo. Devido àquela medida repressiva, renovada por diversas vezes até à década de 1950, muitos foram os dançarinos, dançarinas e orquestras de Buenos Aires e de Rosário que se viram forçados ao exílio, levando a música do bandoneón até Nova Iorque, Paris, Londres ou Berlim. Aí o tango foi depurado, maquilhado, transformado em espetáculo de sociedade, regressando a casa mais maduro e asseado, como «pensamiento triste que se baila». Mas jamais perdeu o odor canalha e pouco conforme a uma vida sossegada. Afinal, Carlos Gardel, El Morocho, o maior dos seus cultores, fez a maior parte da carreira cantando com uma bala alojada num pulmão, e estas coisas não se apanham com correntes de ar.

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                  A tricana

                  Não sei datar com precisão a fotografia que ilustra este velho postal de Coimbra, comprado num quiosque que existiu ao lado da Pastelaria Central. Será, muito provavelmente, dos finais do século XIX ou logo do início do seguinte. Presumo que alguns a observem com um misto de nostalgia e de subordinação à visão de uma cidade profundamente estratificada mas que sem qualquer vigilância crítica tendem a embelezar e a associar a uma certa ideia de tradição. Eu vejo-a como uma imagem quase pornográfica. Como estereótipo, mas também como vestígio de um tempo, ultrapassado embora não apagado, no qual as lavadeiras do Mondego, as «lindas tricanas» das quais ainda tratam certas versalhadas ou legendas de souvenirs locais – eu ainda conheci algumas das derradeiras, já velhas, gastas, pobres e abandonadas –, desempenhavam o papel social que ela tão tristemente documenta.

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                    O rapaz que olhava os navios

                    Memória, ensaio e elegia, eis um livro escrito como história afetiva da cidade que o autor crê habitada «de ruínas e de melancolia». Escolheu observá-la a partir dos sinais de um passado que é o da sua infância e primeira juventude, fazendo-o acompanhar de recordações familiares, fotografias a preto e branco, livros e jornais envelhecidos. Por todo o lado o hüzün, uma variedade de melancolia, de tristeza, aplicada aos istambuleses que padecem de um sentimento de perda por viverem num lugar cujos dias de glória acabaram. Não se trata, porém, de um exercício meramente nostálgico, pois Istambul não foi apenas o território físico de Pamuk: foi também a casa-mãe da sua imaginação, um espaço com o qual manteve sempre uma identificação poética, o observatório privilegiado para a sua percepção das mudanças do mundo. (mais…)

                      Cidades, Leituras, Memória, Olhares

                      Mario De Biasi

                      Mario De Biasi

                      À medida que o volume de informação vai crescendo e se desdobra, que a sua velocidade de circulação dispara, e a multidão de sound bites e de dados irrelevantes tende a sobrepor-se ao que consegue sobreviver àqueles «quinze minutos de fama» dos quais falava Andy Warhol, tendemos a perder o rastro ao que permaneceu durante décadas como âncora da nossa memória ou como fundação da nossa maneira de olhar o mundo. Se, como sugeriu Marc Augé num pequeno e luminoso texto de 1998, é verdade que sem esquecimento não existe memória, pois de outra forma iríamos perder-nos no sorvedouro imenso de um passado esmagador, também é verdadeiro que a ampliação dos meios de informação e de comunicação tende agora, cada vez mais, embora paradoxalmente, a conservar o que é fugaz e a apagar o que permanecerá na lembrança de mais do que uma geração. Só isto explica que nesta altura deixemos morrer no esquecimento, quase sem uma palavra, homens e mulheres que durante tanto tempo nos acompanharam no reconhecimento do mundo, ou que nele conduziram os que mais de perto nos precederam. (mais…)

                        Artes, Fotografia, Memória, Olhares

                        O nosso Havana Style

                        Havana

                        A decrepitude é um dos mais visíveis sinais da arquitetura civil da cidade de Havana. Há quem nela veja as marcas de uma certa honradez, exibida por quem prefere a caliça a esboroar-se e a água a pingar do teto a ver o regime mudar de azimute aceitando que nem tudo correu bem. Outros chamam-lhe patine, ligando-a à nostalgia da certa grandeza perdida. No entanto, para quem a habita, ela só seria verdadeiramente boa e aceitável se existisse uma possibilidade de escolha, ou pudesse considerar-se a vaga hipótese de mudar para um apartamento pintado de fresco, sem humidade e soalhos a ranger. Se pensarmos em como tanta gente se vê forçada a viver a vida inteira, cruzando aquele cenário de pobreza e decadência a pé ou em viaturas Buick ou Oldsmobile dos anos cinquenta, logo diluiremos a perspetiva romântica da Bela Havana que nos chega em bilhetes-postais selados com o rosto de José Martí. Trata-se afinal de uma beleza desconsolada, que lacera mais do que empolga, como o demonstra a vasta literatura habanera capaz de escapar à previsibilidade do diário Granma e aos estereótipos dos folhetos turísticos. (mais…)

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                          Cavaco, Honecker e as bananas

                          Günter Schabowski, o antigo porta-voz do Bureau Político do Partido Socialista Unificado da Alemanha, ficará para sempre conhecido por, no dia 9 de novembro de 1989, se ter precipitado ao ler numa conferência de imprensa transmitida pela televisão, ainda sem autorização superior, um comunicado oficial segundo o qual a RDA passaria a permitir aos seus cidadãos que viajassem livremente para onde desejassem. Terá sido esse lapso a determinar nessa mesma noite, sem qualquer resistência dos guardas fronteiriços do lado oriental treinados para apertar o gatilho das espingardas-metralhadoras, a queda definitiva do Muro de Berlim. Ora foi Schabowski quem há alguns anos contou a uma jornalista que numa reunião plenária do Comité Central do Partido, efetuada poucos meses antes, no preciso momento em que uma crise económica sem precedentes, a revolta popular e o aumento exponencial da fuga de cidadãos abalavam brutalmente o regime de Eric Honecker, aquele órgão se recusou a debater a situação. Limitou-se na altura a abordar os preparativos para as comemorações oficiais do 40º aniversário da chegada dos comunistas ao poder. Apenas numa conversa de corredor um alto responsável se teria referido vagamente aos protestos, sugerindo uma solução para acabar de vez com o descontentamento dos cidadãos: «Podemos dar-lhes bananas!» As bananas eram então, no território leste-alemão, um bem de consumo particularmente raro e cobiçado. Ao convocar uma reunião do Conselho de Estado para discutir,  por estes dias de derrocada da credibilidade do governo e de brutal escalada no empobrecimento da maioria dos portugueses, o que poderá vir a ser o país depois da troika nos deixar, Aníbal Cavaco Silva está a copiar a atitude autista de Honecker, tratando Portugal como uma república das bananas.

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                            45 anos depois

                            Precisamente há 45 anos, a 2 de Maio de 1968, começou o «Maio francês». Foi a revolta estudantil a acontecer em primeiro lugar, aberta nos anfiteatros de Nanterre quando, nesse dia, o reitor Grappin convocou 8 estudantes do Movimento 22 de Março para um conselho disciplinar. Seguiu-se a primeira grande assembleia estudantil e a repressão policial. A revolta operária veio também, um pouco mais tarde, mais sóbria e nunca chegando a unir-se completamente à primeira. Muitos intelectuais estiveram presentes desde a primeira hora, associando-se a ambas e sujando os sapatos nas barricadas, as mãos na tinta dos panfletos e dos graffiti. Os partidos da esquerda comportaram-se de forma desigual, nem sempre límpida («Falsos revolucionários que é preciso desmascarar» titulava o L’Humanité logo a 3, convirá não esquecer), mas nos momentos decisivos estiveram do mesmo lado da barricada. E das barricadas. (mais…)

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                              Neste 25 de Abril

                              25 de Abril

                              O processo de transfiguração do país que o 25 de Abril de 1974 abriu foi descrito como «Revolução dos Três D» (Democratizar, Descolonizar, Desenvolver). Este é o fundamento comum dos projetos políticos com os quais nos confrontámos por mais de três décadas e meia. A expressão pode parecer hoje algo redutora por não englobar as enormes mudanças que estavam para ocorrer no campo da vida privada, das relações de trabalho e das práticas culturais, mas não deixa de verbalizar princípios programáticos e uma linha de rumo que cruzaram os anos e os diferentes governos. Democratizar supunha assim abrir a gestão da coisa pública e do coletivo à voz e à vontade livremente expressa dos cidadãos, o que até ali era impossível. Descolonizar significava alijar o fardo da ideia de império e do domínio dos povos colonizados, o que até ali era impraticável. Desenvolver impunha encontrar e expandir novos ritmos para a criação de riqueza e o bem-estar das populações, o que não constava das perspetivas do velho «país habitual», idealizado por Salazar como quieto, naturalmente desigual e indiferente às tentações da vida moderna. (mais…)

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                                Antes dos tambores

                                Uma das consequências mais dramáticas da atual crise monetária é o reforço da clivagem, mais circunstancial que histórica, mais artificial que natural, entre os países do norte e os do sul da Europa, simplisticamente traduzida no afastamento daqueles que podem emprestar dos outros que apenas devem sem poder pagar. Esta separação é estimulada por dirigentes políticos e fazedores de opinião dos países do Norte, associados em regra à direita, e confirmada por outros do Sul, subservientes em relação aos primeiros, como acontece com a dupla Passos/Gaspar e a sua legião de humanas caixas de ressonância. Ou então pelos que, do lado da esquerda, lhes contrapõem a miragem de um rápido retorno aos bons tempos do Estado-Providência. O pior desta situação é que estas posições têm forte eco nas respetivas sociedades, gerando um estado de animosidade popular que instala uma perigosa incompreensão e demarca de forma violenta as duas partes do continente. (mais…)

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                                  06137973

                                  Foi há tanto tempo e não parece ter acontecido há tanto tempo. Recordo bem as oito em ponto no relógio de pulso daquela manhã de sol gelada à porta de armas do quartel. E de uma mistura suada de raiva, estranheza e expectativa. Era já um outro eu, de certa forma diminuído, pois no dia anterior, para não sofrer os horrores da máquina zero, havia reduzido o cabelo àquele humilhante mínimo regulamentarmente exigido a um militar no ativo. Não, não contava que aquilo acontecesse tão depressa, embora devesse esperar que alguma coisa pudesse acontecer depois de alguns meses antes ter sido detido durante uma manifestação estudantil contra a guerra, metido em grupo numa infeta ramona, enfiado numa cela e interrogado por um tenente-coronel do exército que viria muito depois a ser meu aluno. Era previsível uma incorporação compulsiva e ela de facto sucedeu, adiando a universidade e abrindo um enorme parêntesis na minha vida. Foram trinta e dois meses muito fortes, exaltantes algumas vezes, durante os quais se sucederam episódios previsíveis, outros completamente inesperados e um com o qual sempre contara: aconteceu na madrugada de 24 para 25 de abril de 1974 e fez daquela vida uma outra vida. Completam-se hoje precisamente quarenta anos sobre o dia em que assentei praça como «soldado-instruendo 06137973» no Regimento de Infantaria 5 das Caldas da Rainha. Foi há tanto tempo e não parece ter acontecido há tanto tempo.

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