Arquivo de Categorias: Olhares

A tricana

Não sei datar com precisão a fotografia que ilustra este velho postal de Coimbra, comprado num quiosque que existiu ao lado da Pastelaria Central. Será, muito provavelmente, dos finais do século XIX ou logo do início do seguinte. Presumo que alguns a observem com um misto de nostalgia e de subordinação à visão de uma cidade profundamente estratificada mas que sem qualquer vigilância crítica tendem a embelezar e a associar a uma certa ideia de tradição. Eu vejo-a como uma imagem quase pornográfica. Como estereótipo, mas também como vestígio de um tempo, ultrapassado embora não apagado, no qual as lavadeiras do Mondego, as «lindas tricanas» das quais ainda tratam certas versalhadas ou legendas de souvenirs locais – eu ainda conheci algumas das derradeiras, já velhas, gastas, pobres e abandonadas –, desempenhavam o papel social que ela tão tristemente documenta.

    Apontamentos, Coimbra, Memória, Olhares

    O rapaz que olhava os navios

    Memória, ensaio e elegia, eis um livro escrito como história afetiva da cidade que o autor crê habitada «de ruínas e de melancolia». Escolheu observá-la a partir dos sinais de um passado que é o da sua infância e primeira juventude, fazendo-o acompanhar de recordações familiares, fotografias a preto e branco, livros e jornais envelhecidos. Por todo o lado o hüzün, uma variedade de melancolia, de tristeza, aplicada aos istambuleses que padecem de um sentimento de perda por viverem num lugar cujos dias de glória acabaram. Não se trata, porém, de um exercício meramente nostálgico, pois Istambul não foi apenas o território físico de Pamuk: foi também a casa-mãe da sua imaginação, um espaço com o qual manteve sempre uma identificação poética, o observatório privilegiado para a sua percepção das mudanças do mundo. (mais…)

      Cidades, Leituras, Memória, Olhares

      Mario De Biasi

      Mario De Biasi

      À medida que o volume de informação vai crescendo e se desdobra, que a sua velocidade de circulação dispara, e a multidão de sound bites e de dados irrelevantes tende a sobrepor-se ao que consegue sobreviver àqueles «quinze minutos de fama» dos quais falava Andy Warhol, tendemos a perder o rastro ao que permaneceu durante décadas como âncora da nossa memória ou como fundação da nossa maneira de olhar o mundo. Se, como sugeriu Marc Augé num pequeno e luminoso texto de 1998, é verdade que sem esquecimento não existe memória, pois de outra forma iríamos perder-nos no sorvedouro imenso de um passado esmagador, também é verdadeiro que a ampliação dos meios de informação e de comunicação tende agora, cada vez mais, embora paradoxalmente, a conservar o que é fugaz e a apagar o que permanecerá na lembrança de mais do que uma geração. Só isto explica que nesta altura deixemos morrer no esquecimento, quase sem uma palavra, homens e mulheres que durante tanto tempo nos acompanharam no reconhecimento do mundo, ou que nele conduziram os que mais de perto nos precederam. (mais…)

        Artes, Fotografia, Memória, Olhares

        O nosso Havana Style

        Havana

        A decrepitude é um dos mais visíveis sinais da arquitetura civil da cidade de Havana. Há quem nela veja as marcas de uma certa honradez, exibida por quem prefere a caliça a esboroar-se e a água a pingar do teto a ver o regime mudar de azimute aceitando que nem tudo correu bem. Outros chamam-lhe patine, ligando-a à nostalgia da certa grandeza perdida. No entanto, para quem a habita, ela só seria verdadeiramente boa e aceitável se existisse uma possibilidade de escolha, ou pudesse considerar-se a vaga hipótese de mudar para um apartamento pintado de fresco, sem humidade e soalhos a ranger. Se pensarmos em como tanta gente se vê forçada a viver a vida inteira, cruzando aquele cenário de pobreza e decadência a pé ou em viaturas Buick ou Oldsmobile dos anos cinquenta, logo diluiremos a perspetiva romântica da Bela Havana que nos chega em bilhetes-postais selados com o rosto de José Martí. Trata-se afinal de uma beleza desconsolada, que lacera mais do que empolga, como o demonstra a vasta literatura habanera capaz de escapar à previsibilidade do diário Granma e aos estereótipos dos folhetos turísticos. (mais…)

          Atualidade, Cidades, Olhares

          Cavaco, Honecker e as bananas

          Günter Schabowski, o antigo porta-voz do Bureau Político do Partido Socialista Unificado da Alemanha, ficará para sempre conhecido por, no dia 9 de novembro de 1989, se ter precipitado ao ler numa conferência de imprensa transmitida pela televisão, ainda sem autorização superior, um comunicado oficial segundo o qual a RDA passaria a permitir aos seus cidadãos que viajassem livremente para onde desejassem. Terá sido esse lapso a determinar nessa mesma noite, sem qualquer resistência dos guardas fronteiriços do lado oriental treinados para apertar o gatilho das espingardas-metralhadoras, a queda definitiva do Muro de Berlim. Ora foi Schabowski quem há alguns anos contou a uma jornalista que numa reunião plenária do Comité Central do Partido, efetuada poucos meses antes, no preciso momento em que uma crise económica sem precedentes, a revolta popular e o aumento exponencial da fuga de cidadãos abalavam brutalmente o regime de Eric Honecker, aquele órgão se recusou a debater a situação. Limitou-se na altura a abordar os preparativos para as comemorações oficiais do 40º aniversário da chegada dos comunistas ao poder. Apenas numa conversa de corredor um alto responsável se teria referido vagamente aos protestos, sugerindo uma solução para acabar de vez com o descontentamento dos cidadãos: «Podemos dar-lhes bananas!» As bananas eram então, no território leste-alemão, um bem de consumo particularmente raro e cobiçado. Ao convocar uma reunião do Conselho de Estado para discutir,  por estes dias de derrocada da credibilidade do governo e de brutal escalada no empobrecimento da maioria dos portugueses, o que poderá vir a ser o país depois da troika nos deixar, Aníbal Cavaco Silva está a copiar a atitude autista de Honecker, tratando Portugal como uma república das bananas.

            Apontamentos, Atualidade, Olhares

            45 anos depois

            Precisamente há 45 anos, a 2 de Maio de 1968, começou o «Maio francês». Foi a revolta estudantil a acontecer em primeiro lugar, aberta nos anfiteatros de Nanterre quando, nesse dia, o reitor Grappin convocou 8 estudantes do Movimento 22 de Março para um conselho disciplinar. Seguiu-se a primeira grande assembleia estudantil e a repressão policial. A revolta operária veio também, um pouco mais tarde, mais sóbria e nunca chegando a unir-se completamente à primeira. Muitos intelectuais estiveram presentes desde a primeira hora, associando-se a ambas e sujando os sapatos nas barricadas, as mãos na tinta dos panfletos e dos graffiti. Os partidos da esquerda comportaram-se de forma desigual, nem sempre límpida («Falsos revolucionários que é preciso desmascarar» titulava o L’Humanité logo a 3, convirá não esquecer), mas nos momentos decisivos estiveram do mesmo lado da barricada. E das barricadas. (mais…)

              Apontamentos, História, Memória, Olhares

              Neste 25 de Abril

              25 de Abril

              O processo de transfiguração do país que o 25 de Abril de 1974 abriu foi descrito como «Revolução dos Três D» (Democratizar, Descolonizar, Desenvolver). Este é o fundamento comum dos projetos políticos com os quais nos confrontámos por mais de três décadas e meia. A expressão pode parecer hoje algo redutora por não englobar as enormes mudanças que estavam para ocorrer no campo da vida privada, das relações de trabalho e das práticas culturais, mas não deixa de verbalizar princípios programáticos e uma linha de rumo que cruzaram os anos e os diferentes governos. Democratizar supunha assim abrir a gestão da coisa pública e do coletivo à voz e à vontade livremente expressa dos cidadãos, o que até ali era impossível. Descolonizar significava alijar o fardo da ideia de império e do domínio dos povos colonizados, o que até ali era impraticável. Desenvolver impunha encontrar e expandir novos ritmos para a criação de riqueza e o bem-estar das populações, o que não constava das perspetivas do velho «país habitual», idealizado por Salazar como quieto, naturalmente desigual e indiferente às tentações da vida moderna. (mais…)

                Atualidade, Olhares, Opinião

                Antes dos tambores

                Uma das consequências mais dramáticas da atual crise monetária é o reforço da clivagem, mais circunstancial que histórica, mais artificial que natural, entre os países do norte e os do sul da Europa, simplisticamente traduzida no afastamento daqueles que podem emprestar dos outros que apenas devem sem poder pagar. Esta separação é estimulada por dirigentes políticos e fazedores de opinião dos países do Norte, associados em regra à direita, e confirmada por outros do Sul, subservientes em relação aos primeiros, como acontece com a dupla Passos/Gaspar e a sua legião de humanas caixas de ressonância. Ou então pelos que, do lado da esquerda, lhes contrapõem a miragem de um rápido retorno aos bons tempos do Estado-Providência. O pior desta situação é que estas posições têm forte eco nas respetivas sociedades, gerando um estado de animosidade popular que instala uma perigosa incompreensão e demarca de forma violenta as duas partes do continente. (mais…)

                  Apontamentos, Atualidade, Olhares, Opinião

                  06137973

                  Foi há tanto tempo e não parece ter acontecido há tanto tempo. Recordo bem as oito em ponto no relógio de pulso daquela manhã de sol gelada à porta de armas do quartel. E de uma mistura suada de raiva, estranheza e expectativa. Era já um outro eu, de certa forma diminuído, pois no dia anterior, para não sofrer os horrores da máquina zero, havia reduzido o cabelo àquele humilhante mínimo regulamentarmente exigido a um militar no ativo. Não, não contava que aquilo acontecesse tão depressa, embora devesse esperar que alguma coisa pudesse acontecer depois de alguns meses antes ter sido detido durante uma manifestação estudantil contra a guerra, metido em grupo numa infeta ramona, enfiado numa cela e interrogado por um tenente-coronel do exército que viria muito depois a ser meu aluno. Era previsível uma incorporação compulsiva e ela de facto sucedeu, adiando a universidade e abrindo um enorme parêntesis na minha vida. Foram trinta e dois meses muito fortes, exaltantes algumas vezes, durante os quais se sucederam episódios previsíveis, outros completamente inesperados e um com o qual sempre contara: aconteceu na madrugada de 24 para 25 de abril de 1974 e fez daquela vida uma outra vida. Completam-se hoje precisamente quarenta anos sobre o dia em que assentei praça como «soldado-instruendo 06137973» no Regimento de Infantaria 5 das Caldas da Rainha. Foi há tanto tempo e não parece ter acontecido há tanto tempo.

                    Apontamentos, Memória, Olhares

                    O mal dos «bons alunos»

                    Desde que dei as minhas primeiras aulas, no ano de 1973, defini um padrão de apreciação dos alunos que ainda mantenho. Dividi-os em quatro grupos: os maus, os medianos, os bons e os excecionais. Os «maus», felizmente em minoria, são sempre os maus: aqueles que não sabem, não querem saber e detestam quem sabe, pouco ou nada havendo a fazer com eles que não seja manter algum grau de paciência e conservar a conveniente distância. Os «medianos», em regra a maioria, são aqueles que não estudam muito, parecem distraídos, faltam quando podem, não se esforçam por ter grandes notas, mas conservam, lá no fundo do seu fundo, um grau de curiosidade e capacidades que ao longo da vida os podem transformar em pessoas ativas, válidas e até notáveis. Há depois os «bons». Esses são os que tomam apontamentos de tudo, leem e sublinham várias vezes a bibliografia recomendada, são metódicos no estudo e geralmente reproduzem sem pestanejar as palavras e as interpretações dos seus professores, mas jamais superarão os «excecionais». Já estes mostram-se feitos de outra matéria: são os insaciáveis, que querem saber tudo de tudo, que possuem visível capacidade crítica, que procuram informar-se por si mesmos, que desenvolvem um pensamento próprio, que não aceitam sem pestanejar aquilo que os professores lhes dizem e sabem até ir mais além, por sua conta e risco. Se preciso for, emendando-se a si mesmos. Por isto me parece por demais evidente que um governo de «bons alunos», como aquele que supostamente temos – principalmente agora que se foi embora o cábula-mor –, jamais será capaz de se regenerar e de aceitar os próprios erros: o seu modelo não o permite, pois são incapazes de ultrapassar o nicho de «saber certo», adquirido acriticamente, no qual se empoleiraram. Falta-lhes o imprescindível rasgo para ir além daquilo que os mestres lhes ditaram e eles veneram.

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                      Contra o abuso das aspas

                      Uma crónica publicada em 2002, aqui retomada em 2007 e agora de novo. Porque infelizmente permanece atual.

                      Nem sempre é fácil sinalizar a escrita. Arrumar as palavras, separando-as com pontos, vírgulas, pontos e vírgulas, hífenes ou travessões, mais dois pontos, parênteses curvos ou retos, colchetes… reticências. Mas também com aspas («_»), esse adorno – análogo às comas duplas ou vírgulas dobradas (“_”), usadas para citar ou introduzir uma expressão em língua estranha – que confere um valor significante diverso do habitual à palavra ou à expressão que entre elas se insere. Com «indecorosa» intenção normativa, D’Silvas Filho, autor de um Prontuário editado há uns anos pela Texto, declara que a aposição das aspas constitui uma prática que serve para grafar «termos ou expressões que se devem evitar, termo estrangeiro, reserva no que se escreve (ortográfica, fonética, semântica, eventualmente autoria)». Preceito que a ser seguido com rigor, neste tempo de contínua mudança da fala e da escrita, faria de toda a leitura um labirinto cravado de armadilhas. (mais…)

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                        Por onde andam?

                        imigrante

                        Enquanto este blogue passa por uns dias de pousio, retomo um apontamento já com dois anos.

                        As preocupações são constantes, muitas, em demasia. A maioria dos portugueses conta e reconta o que tem ou pode obter para conservar uma vida digna. Alguns já nem isso conseguem. O horizonte permanece instável, da cor negra da tempestade. E em épocas como esta, cada um, cada família, cada grupo, cada rua ou vilarejo, procura acima de tudo preservar o seu nicho de vida, a bolha de oxigénio que ainda lhe permite respirar um pouco e seguir em frente. Ainda assim, como é possível – se retirarmos as notícias doentias sobre eletricistas assassinos ou tristonhas mulheres da noite que aparecem nos tablóides – que os imigrantes, ou a inquietação com as suas precárias existências, tenham desaparecido por completo dos telejornais, das capas dos diários, das nossas preocupações? Por onde andam as suas vidas silenciosas e invisíveis?

                          Apontamentos, Democracia, Olhares

                          Ainda «o lado brilhante da vida»

                          Christopher Hitchens

                          Não sei se existe alguma dissertação académica sobre o tema, mas é muito provável que sim, apesar dele requerer uma disposição psicológica especial. A «literatura de estado terminal», a escrita de leito de morte, é um género que se impõe por si mesmo, uma vez que os escritores, os críticos, os historiadores, os jornalistas, também morrem, e, por certo, a maioria daqueles que perto do fim estejam em condições físicas e com discernimento para o fazerem terá sempre a tentação, por vezes transformada em ato, de escrever, de escrever uma vez mais, talvez pela derradeira vez. Agora sobre essa experiência única pela qual está a passar, do convívio com o fim iminente da própria vida no limite da capacidade de se fazer ouvir. Walt Withman terá sido um dos que foi mais longe, ao completar em 1892, já muito perto da morte e totalmente dependente dos outros, a derradeira versão de Leaves of Grass, declarando-a como a única fidedigna e completa. (mais…)

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                            A distopia da qual se fala

                            Quando se buscam os fatores partilhados de disfunção da grande utopia comunista que conduziram os Estados do «socialismo realmente existente» à situação cataléptica que decidiu a sua morte, alguns revelam-se particularmente evidentes. Desde logo aqueles que se reportam às rígidas políticas de engenharia social que determinaram êxodos de povos inteiros, fomes que poderiam ter sido evitadas ou uma atitude política de exclusão determinada pela origem social do reprimido, ainda que esta se encontrasse associada a uma quota significativa da população. São também recorrentemente mencionadas as condições de ausência de liberdade de crítica, que bloquearam as sociedades e até os próprios partidos no poder, assim como o espartilho de uma economia rigidamente planificada e burocratizada, através da qual se assinou a sentença de morte de um crescimento equilibrado e a incapacidade de suprir as necessidades reais da população. Outro aspeto conhecido mas habitualmente menos abordado diz respeito à formação e ao funcionamento das elites políticas e administrativas, as chamadas nomenklaturas, que emergiram da conceção leninista do partido como vanguarda e «exército de revolucionários profissionais» para se destacarem progressivamente como casta privilegiada, inamovível e cega face às transformações de um mundo em constante e cada vez mais rápida mudança. (mais…)

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                              Graça e realidade

                              Na tentativa de explicar os primeiros indícios de mudança e o esforço de aproximação às pessoas comuns do novo papa, sinais que têm tornado ainda mais evidente o caminho de imobilismo e afastamento do mundo contemporâneo que marcou os dois últimos pontificados, muitos católicos têm declarado esta aparente metamorfose, e em particular a sua face mais afirmativa e calorosa, como «uma graça do Senhor». No entanto, dado que o conceito de «graça» se encontra associado à dádiva e à misericórdia divina, sendo por isso, e nessa medida, da exclusiva responsabilidade de Deus, tal não parece suficiente. A explicação da graça é a de quem acredita num ser superior, omnipotente e omnisciente, na sua bondade e na sua capacidade para intervir na esfera do humano, mas esta é uma justificação necessariamente incompleta, dado reforçar uma atitude de mera recetividade humana face à vontade divina. A verdade é que as eventuais mudanças, tal como os sinais que as estão a anteceder, estes já inequívocos, representam na prática – independentemente das boas intenções – uma resposta de parte da Igreja católica ao atoleiro de vícios e de ensimesmamento no qual esta se tem deixado submergir. A mudança é pois, para os não-crentes, não um ato de graça, mas antes o resultado de uma iniciativa humana personificada neste papa. Representa uma resposta a uma necessidade, determinada pelos problemas da própria Igreja e pela imprescindível reinscrição, ou reinicialização, do seu lugar no mundo. Se desta resultar uma Igreja católica melhor e mais próxima dos anseios, expectativas e necessidades que partilhamos, tanto melhor. Para todos, inclusive para aqueles não-crentes que sabem estender a mão.

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                                Filosofia ao domicílio |7

                                Após algumas semanas de silêncio relacionado com outras preocupações, retoma-se hoje a série de posts que tem vindo a sugerir uma hipotética biblioteca básica da filosofia contemporânea. Desta vez a escolha recai no grosso tomo da Teoria do agir comunicacional, publicada em 1981 pelo filósofo alemão Jürgen Habermas (n. 1929). (mais…)

                                  Olhares, Séries

                                  As sandálias do pescador

                                  Quando alguém pede que declare a identidade religiosa costumo descrever-me como um agnóstico cristão. Não é difícil explicar o aparente paradoxo: não concebo racionalmente, nem creio, na existência de um Deus superior, entidade sobre-humana que não esteja apenas dentro de nós e como parte de nós. E muito menos acredito nas virtudes de uma religião capaz de tomar principalmente a forma de Igreja. Prezo muito no entanto a mensagem, revolucionária à época do seu surgimento, proposta por Jesus Cristo. Admiro-a pelo que então trouxe de radicalmente novo: pela defesa da paz e da aceitação numa era marcada pela guerra e pela tirania, pelo acento no ecumenismo num tempo de ódio religioso e poder imperial, pelo reconhecimento da igualdade numa sociedade esclavagista, pela valorização da compaixão e do amor quando a ética dominante assentava na violência, pelo reconhecimento das mulheres dentro de uma sociedade acentuadamente patriarcal, pela ênfase colocada na humildade quando a soberba pontuava a conduta daqueles que se elevavam acima dos outros. (mais…)

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