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Intriga Internacional

Ia ver o Prós e Contras sobre as eleições europeias «directamente do Museu da Electricidade», mas descobri que estava a passar na TCM North by Northwest (Intriga Internacional), de Alfred Hitchcock, e a escolha acabou por ser fácil. Lá fiquei de novo a perambular por uma América sem placas toponímicas (e quase sem negros), a torcer por Mr. Thornhill, a balbuciar diálogos únicos, como o outro.

Roger O. Thornhill: Tell me… How does a girl like you get to be a girl like you?
Eve Kendall: Lucky, I guess?
Roger O. Thornhill: Oh, not lucky. Naughty. Wicked, up to no good. Ever kill anyone? Because I bet you could tease a man to death without half trying. So stop trying, ha?

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    Cinema, Devaneios

    Mahler on the beach

    Gustav Mahler

    Não sou mahleriano suficientemente conhecedor das maquinações da arte para reconhecer sem pestanejar qualquer intérprete ou leitura da obra do boémio. Apenas um melomaníaco suficientemente tenaz e q.b. treinado de ouvido para separar o irrepetível, o excepcional, do que é apenas técnica, competência e gosto da arte. Das versões que conheço da Sinfonia No. 2, «Ressurreição», de Gustav Mahler, aquela que me chega agora aos ouvidos, com o venezuelano da moda, Gustavo Dudamel, à cabeça da Orquestra Sinfónica Juvenil Simón Bolívar, destaca-se como espantosa e absolutamente única. Uma música ecuménica, jogando a todo o instante com o risco, com uma vibração cantante, latina, que dilui o eco sombrio e funesto, em regra associado ao trabalho do compositor, que tem condicionado a maioria dos seus intérpretes. Notável numa peça que possui a morte e a possível eternidade da vida como motivo central. O encontro feliz com um Mahler estival. Eu gosto muito, alguns mahlerianos provavelmente não.

      Etc., Música

      «Foleiros & doutores»

      Já antes falei por aqui – e muitas vezes noutros lugares – do espectáculo lamentável em que se transformou, após a sua gradual «ressureição» na década de 1980, a vivência das praxes e de certos momentos das chamadas festas académicas. Não pelos elementos lúdicos e festivos que podem conter, aceitáveis apesar de tantas vezes discutíveis, mas pelos actos de violência que frequentemente comportam, pelos atentados à liberdade individual que certas vezes configuram, pelo conteúdos aviltantes, sexistas e mesmo boçais que quase sempre integram (embora uma boa parte dos eufóricos participantes, e até alguns dos seus orgulhosos paizinhos, não saibam sequer identificar para o que apontam tais adjectivos). Nas actuais condições, que reajustaram completamente o lugar social do estudante universitário, a tudo isto pode somar-se a ostentação de um «elitismo» anacrónico. Desta vez, para não me repetir, tinha escolhido não falar do assunto, mas uma crónica que Manuel António Pina acaba de publicar no Jornal de Notícias fez-me mudar de ideias. Como infelizmente os textos do JN depressa desaparecem da edição em linha, transcrevo-a numa página interior. Fica aqui.

        Apontamentos, Atualidade, Olhares, Recortes

        ABC das Palavras Obsoletas – 1

        Palavras e frases em vias de extinção que pressagiam problemas de comunicação para quem insista em usá-las. Uma série sob a forma de serviço público para os mais distraídos.

        Chapéus de cowboy

        Brincar aos cowboys

        Tirando os momentos de exasperação de alguns políticos locais e treinadores de futebol quando se esforçam por defender a sisudez avisada do seu trabalho – insistindo em que não andam «a brincar aos cowboys» – a expressão já quase não corre. «Brincar aos cowboys» é uma actividade inusual numa época em que a celebração ficcionada do passado parece limitar-se ao cinema, ao romance e aos jogos de computador. Os heróis americanos são agora menos importantes para a fundação das paisagens quiméricas das gerações mais novas, e, a existirem, habitam apenas cenários de fantasia povoados por monstros ou por seres com poderes especiais. As crianças já não se divertem com «índios e cowboys» porque eles não fazem parte do seu mundo.

        Todavia, como herói favorito da literatura do Oeste americano construída na segunda metade do século XIX a partir do modelo do James Fenimore Cooper, o cowboy viveu uma época de ouro no imaginário da primeira metade do século passado. O sorriso de Gary Cooper, o olhar cortante de Clint Eastwood e a insolência de John Wayne, como as constantes peripécias da família Cartwright na série televisiva Bonanza, deram várias voltas ao mundo. A realidade histórica que fundara o personagem – marcada quase sempre pela dureza de uma vida de solidão, miséria e incerteza – foi dando lugar a uma imagem artificial, embelezada, desenhada sobre um horizonte atraente, que durante décadas se tornou sedutora para gerações de crianças e de jovens necessitados de uma utopia de aventura, individualismo e amizade. Uma incarnação do sonho americano que parecia integrar, na sua definição formal, essa dimensão, lúdica porque incerta, que as fazia «brincar aos cowboys» com pistola de fulminantes ou um arco artesanal. Projectando, sobre um árido mas exaltante panorama, a vida que não tinham e, isso elas não sabiam, que jamais teriam.

        O mito permanece agora associado à tradição cultural promovida nos folhetos turísticos de algumas cidades da América, mas a sombra do chapéu desapareceu definitivamente das nossas ruas. Já ninguém quer «brincar aos cowboys» ou tem sequer saudades deles. Resta o frágil vestígio no falar desatento de uns quantos. Ou as velhas revistas que foram inventando os passos do incansável Texas Jack. Ou a voz country de Linda Ronstadt. Ou a imagem fugidia de Heath Ledger em Brokeback Mountain.

          Etc., Olhares

          Discordar, custa

          Tony Judt

          Após a publicação, em 2005, do excelente Pós-Guerra. História da Europa desde 1945, Tony Judt transformou-se num dos historiadores do mundo contemporâneo mais conhecidos fora dos meios académicos. Mas o aumento da sua visibilidade e influência foi acompanhada, por parte de alguns sectores, de uma tentativa de descredibilização como «inimigo de Israel», concretizada em declarações de ódio e pequenos gestos de retaliação por parte de organizações sionistas, particularmente de algumas sediadas nos Estados Unidos.

          Pode parecer estranho, conhecendo o seu percurso. De ascendência judaica, o sobrenome não engana, viveu parte de uma juventude militante e idealista envolvido na experiência inicial dos kibutzim, tendo trabalhado durante algum tempo, como motorista e tradutor, para as forças armadas de Israel, mas existe uma explicação para o aparente volte-face que determinou a sua lapidação pública. O trabalho como historiador e crítico atento à actualidade mundial, inevitavelmente associado à percepção das mudanças verificadas dentro de um universo que conhecia bem, levou-o a reflectir sobre a história recente de Israel e a escrever alguns artigos sobre a forma como a realidade no interior do seu território, e a sua projecção internacional, mudaram muito desde os tempos pioneiros de David Ben-Gurion e dos activistas do Hashomer Hatzair. Sobre o tema, podemos ler em português o importante posfácio a Pós-Guerra («Da Casa Dos Mortos»), e agora dois artigos editados na compilação O Século XX Esquecido («Vitória Sombria» e «O País Que Não Queria Crescer»). O primeiro apareceu em 2002 na New Republic e foi o último ali publicado antes da retirada compulsiva de Judt da ficha técnica da revista. O segundo saiu em 2006 no diário israelita Ha’aretz.

          Correndo o risco de parecer, ou de ser, excessivamente conciso, acredito que o essencial das divergências, e a raiz, aos olhos de alguns, da sua «traição», se pode relacionar com uma atitude (a crítica de uma arrogância belicista que não parou de crescer a partir da Guerra dos Seis Dias) e com uma proposta (a defesa, bastante incomum, de um «Estado binacional») avançadas por Judt.

          De facto, não caiu bem entre certos sectores israelitas, e entre muitos judeus da diáspora, o seu entendimento da retumbante vitória na Guerra dos Seis Dias, em 1967, como marco do fim do caminho de um sionismo socialista, igualitário, e de alguma forma tolerante, maioritário ainda entre as comunidades judaicas que pesavam na sociedade israelita da época da independência, em 1948. O episódio terá aberto o caminho ao triunfalismo e à arrogância militarista, em parte associados a uma nova imigração judaica para os territórios conquistados – novos sionistas que «não traziam consigo os velhos textos socialistas de emancipação, redenção e comunidade, mas antes um Bíblia e um mapa» – e à nova classe política que dela emergiu. Estes terão convertido a maioria do país a uma atitude de indiferença diante do universo árabe com o qual convivia todos os dias, normalizando o espectáculo da humilhação sistemática dos palestinianos, e passando a tomar imediatamente como «anti-semita» quem, mesmo no interior do país, se atreva a divergir da atitude dominante.

          Por outro lado, a consideração, por parte de Tony Judt, da simples possibilidade de se aceitar uma soberania partilhada com os palestinianos, considerada «fraca» e capitulacionista, tornou intolerável a simples consideração da sua voz aos olhos daqueles que nos últimos tempos decidem as coisas a partir de Tel Aviv e de Jerusalém, ou dos lobbies judaicos de orientação belicista sediados na América. Judt paga por isso. Mas, ao mesmo tempo, a sua voz sinaliza de certa forma a afirmação pública da possibilidade de se não considerar a guerra como o último e o único recurso para assegurar os direitos históricos de Israel e dos seus povos. Uma vez mais, discordar, principalmente discordar dos seus, tem custos. Como todos sabemos.

            Atualidade, História

            A coragem

            coragem

            Não vivemos em guerra, pelo menos por enquanto, nesta parte do mundo que nos cabe habitar. E todavia precisamos de coragem para enfrentar um dia, depois o outro, num tempo em que o nosso futuro material se tornou imprevisível, quando os laços pessoais são cada vez mais instáveis, quando o horizonte ecológico se mostra mais sombrio, quando a História acelera e desafia a todo o instante as nossas capacidades de adaptação. Mas onde encontrar hoje modelos de coragem? Diferentemente do tempo no qual se destacavam as figuras modelares do herói ou do santo, agora não existe um, ou dois, mas sim inúmeros exemplos de coragem, medidos por diferentes bitolas. No limite, cada um de nós pode servir-se do que lhe parecer conveniente: Aquiles, o guerreiro homérico, ou o  ser «condenado a ser livre» de Sartre, o grande homem ou o homem comum, o sábio eminente ou o herói por um dia que vemos no telejornal. Aqui não há lugar para o relativismo: todos eles põem em campo, cada um à sua maneira, paciência e perseverança, acção e reflexão, conhecimento e ousadia. É da essência da coragem, dos seus novos padrões, e de algumas pessoas corajosas, que trata o último número, o 29, da revista francesa Philosophie Magazine. Para perceber um pouco melhor como eles mudaram e não mudaram ao mesmo tempo. [Este texto apropria-se parcialmente, reescrevendo-o, de um parágrafo da PM.]

              Etc., Memória, Olhares

              A Ponte

              A ponte

              Já faz parte da sabedoria popular: o melhor e o pior do regime democrático encontram-se associados à administração localizada dos recursos. Daí a «pulsão da regionalização» ser qualquer coisa que merece as maiores reservas, mesmo quando se reconhece a justeza de algumas das razões invocadas pelos seus mosqueteiros. A teia de cobrimentos e de encobrimentos é necessariamente maior à escala da freguesia, do concelho, da região, e as coisas pioram quando o assunto é dinheiro, influência ou responsabilização. Um bom exemplo disto é o que se passou em Coimbra com a construção da Ponte Europa. Rebaptizada Rainha Santa talvez para que alguém possa inocentar junto do Criador os pecados que lhe ficaram associados.

              O escândalo é público, vem desde há muito e acabam de ser revelados mais dados altamente comprometedores para quem incentivou, geriu ou conviveu com a fraude e o despesismo faraónicos. De acordo com o Público, o Tribunal de Contas classifica agora a gestão do projecto – que calcula ter tido uma derrapagem de 137 por cento, o que significa mais 41 milhões de euros a somar aos quase 30 milhões estimados inicialmente – como «muito má». O Tribunal pormenoriza o desastre: «A obra apresentou um índice de desperdício elevado, resultante de erros e falhas graves na gestão e no controlo de que se destacam: o erro de lançar a obra em fase de anteprojecto, a falta de liderança e de capacidade técnica do dono da obra, a subversão dos princípios da contratação pública (concorrência, transparência e equidade, a nomeação tardia de um gestor de empreendimento, a fragilidade de actuação do dono da obra face ao empreiteiro e a ineficácia das acções da equipa de fiscalização por inércia do dono da obra». Conclui-se que «todas estas graves deficiências contribuíram para uma gestão e coordenação do empreendimento ineficazes que resultaram encargos adicionais avultadíssimos para o erário público».

              Bem sei que a gestão do projecto foi de empresas cuja dimensão ultrapassava quase sempre os limites da cidade, e que o enorme caldeirão alimentou bocas de diferentes procedências, mas é impossível justificar aquilo que se passou sem a ocorrência de fortes cumplicidades, pelo menos por omissão, ao nível local. E sem o desencadear de pesados reflexos, passados e presentes, na vida dos cidadãos e até no prestígio da cidade. Ora, diante desta enormidade agora relembrada e publicamente redimensionada, o que informa a imprensa local, a quem também competiria manter viva e necessidade de apurar responsabilidades? Calcule-se que nada. As capas dos diários locais, tradicionalmente ocupadas apenas com «notícias positivas», efe-érre-ás, assaltos à mão armada ou desastres de viação, ignoram o documento do Tribunal de Contas. Existe gente de peso envolvida nisto, presumir-se-á com naturalidade, e o melhor é não levantar problemas. Afinal, se já tudo passou, os carros rodam sobre os tabuleiros e, contra as expectativas dos habituais maledicentes, a água do Mondego até continua a correr por debaixo da ponte, o que é que isso importa agora?

                Atualidade, Cidades, Olhares

                Audácia precisa-se

                aborrecimento

                Sublinho aqui, a traço grosso, o recente post de Joana Lopes a propósito das limitações de um sistema político que gira apenas à volta de duas categorias ultrapassadas (e não necessariamente antitéticas): «bloco central» e «maioria absoluta». Discursos desvitalizados como o do «inenarrável» Vitalino Canas, ou, pior ainda dadas as anteriores responsabilidades e o passado do seu autor, o mais recente adoptado por Jorge Sampaio, caminham no sentido contrário ao da ousadia da procura e do apelo à capacidade para pensar novos caminhos, para os cruzar, para os associar a um esforço, duro mas imprescindível, de mobilização dos cidadãos para a resolução de problemas comuns. Justamente aquilo que este tempo, de crise generalizada e desinteresse pela coisa pública, tanto requer. O post fecha proclamando a necessidade dramática de «arrojo, audácia, tenacidade». Concordo e subscrevo sem a menor hesitação. Só que com os actores que temos será difícil sair do actual estado de sonolência e aborrecimento.

                  Atualidade, Opinião

                  Um pequeno roteiro

                  Relativismo

                  Eis um pequeno livro que oferece bases razoáveis para uma compreensão crítica dos fundamentos, dos caminhos e das vacilantes saídas do relativismo, após a «morte de Deus» talvez a tendência filosófica dominante no mundo ocidental. No quadro sinóptico apresentado por Raymond Boudon, esta assume cambiantes ajustadas a dois grandes modelos. Um, o do relativismo cognitivo, permite considerar que não existe conhecimento certo, nem sequer no domínio da ciência, sendo a única bússola aquela oferecida pelo paradigma que cada um é capaz de adoptar. O segundo, o do relativismo normativo, entende que os princípios e os valores são apenas convenções culturais e que afinal todos eles se equivalem e legitimam. Distingue-se também um relativismo «bom», que tende a estimular a aceitação do Outro na sua especificidade, de um outro tipo, reputado como «mau», tendencialmente negativo e simplista, incapaz de situar o pensamento nas suas circunstâncias. De acordo com o autor, este último conduz inevitavelmente à perda de referências culturais, alimentando um certo niilismo e acabando por lesar a própria vida democrática. Boudon defende então, como via para contornar os excessos, inevitáveis sempre que se toma apenas um dos sentidos, a prática de um determinado padrão de «senso comum». O Relativismo pode ser uma ajuda, sob a forma de um pequeno roteiro, para quem chega a estes temas através de cartilhas e, achando-se perdido entre a cegueira e o ódio, decide procurar uma saída. [Raymond Boudon, O Relativismo. Trad. de António Alfredo. Gradiva, 120 págs.]

                    Atualidade, Democracia

                    Só para começar

                    A murro

                    Não vem ao caso qualquer simpatia pessoal por Vital Moreira, na realidade nenhuma. Ou a concordância com alguma das suas sucessivas posições públicas, que por acaso nunca ocorreu. Ou o gosto que possa ter em ler os seus longuíssimos textos de opinião, que quase sempre me provocam algum tédio. Como não vem ao caso a infeliz escolha do PS ao designar como cabeça de lista às eleições europeias alguém cujo pensamento político é sinuoso e demasiado imperativo, e cujo estilo é claramente incapaz de agregar empatias. Mas não me é indiferente a forma como os seus direitos enquanto cidadão eleitor e elegível, a sua liberdade de circulação, a sua honorabilidade, e até a sua integridade física, foram ontem colocados em causa, quando do desfile do 1º de Maio organizado pela CGTP, por uns quantos energúmenos cujas simpatias políticas não serão difíceis de estabelecer (aquele repetido epíteto de «traidor» revela-as sem equívocos).

                    Claro que a direcção do PCP não pode ser responsabilizada pelos desacatos que simpatizantes ou militantes seus possam provocar no pleno uso da sua exaltação e da mais-do-que-declarada ausência de respeito pelas escolhas dos outros. Mas já é responsável – e esta é agora a questão que realmente importa – por não fazer pedagogia democrática ensinando aos seus indefectíveis prosélitos, antes e depois do episódio, que em sistemas políticos multipartidários existe, ou deve existir, um direito irrevogável ao exercício de opinião e à mudança de perspectiva. Bem como regras de convivência. Nestes casos, quem cala ou assobia para o lado, quem desculpabiliza, consente, e afinal todos sabemos como no país ideal que a generalidade dos quadros e militantes comunistas tem na cabeça a voz do adversário e, mais ainda, a do apóstata, deve ser emudecida. Só para começar. Não é novidade alguma, mas convém relembrar de vez em quando.

                      Atualidade, Opinião

                      Por uma ciência da civilização

                      Peter Sloterdijk

                      Partidário de uma reflexão iconoclasta projectada sobre alguns dos temas contemporâneos mais problemáticos, em A Loucura de Deus Peter Sloterdijk ocupa-se do inquietante potencial de violência que os três monoteísmos mantêm no mundo actual. Ele pode preludiar, de certa forma, uma «guerra mundial» de um novo tipo, na qual as três grandes religiões com pretensões universalistas se defrontariam num combate total de morte e destruição destinado a obter o monopólio do absoluto e da verdade. Desde logo pela interferência da religião judaica, apoiada numa espécie de contrato «entre um psiquismo grave e grande e um Deus grave e grande». Depois, um cristianismo que conserva muitas das características que o ligam ao judaísmo mas integra «acentos cristológicos» de uma novidade ainda subversiva que lhe conferem uma dinâmica de proselitismo. Por fim um Islão que procurou, desde o seu atribulado início histórico, corrigir as falhas, as «errâncias», dos monoteísmos que o precederam, integrando desde a primeira hora «impulsos religiosos e político-militares» de uma natureza prática e belicosa.

                      Relacionando-se e opondo-se através dos tempos, num dado momento histórico estas três religiões viram-se confrontadas com o aparecimento do comunismo, que emergiu revogando as antigas proposições proféticas e reformulando-as «numa linguagem do real» como quarta figura do universalismo militante. «A estafeta do profetismo», escreve o filósofo alemão, teria assim «passado de Moisés a Jesus, de Jesus a Maomé e de Maomé a Marx». Porém, o aparente fim do comunismo terá emancipado essas religiões tradicionais de um inimigo comum, libertando-as para o regresso a uma lógica de radicalidade e confronto agora transformada, sob a forma de «loucura de Deus», num risco real para a humanidade no seu todo. Tanto mais que cada uma delas integra um número crescente de zeladores, ávidos de impor a sua fé através da radicalidade e de uma lógica de confronto que lhe é crescentemente associada. A guerra israelo-palestiniana, as movimentações planetárias do islão radical e o fundamentalismo protestante americano estão diante dos nossos olhos para comprovar a consistência deste perigo.

                      O fármaco para combater esta pandemia de violência que parece alastrar a cada momento encontra-se então, provavelmente, na transformação desses zeladores, apóstolos irredutíveis da incomunicabilidade e da supremacia da sua crença, em actores civis de uma sociedade que deve construir-se pela via do diálogo, modificando as religiões no sentido destas se requalificarem como instrumentos preservadores de cultura, capazes de metamorfosearem todo o universalismo militante e agressivo num cosmopolitismo consistente e civilizado. A «ciência da civilização», uma ciência da coexistência assim erguida, seria para Sloterdijk «a verdadeira moderadora do espaço habitável da superfície terrestre». Vislumbre de uma teoria optimista do improvável.

                      Peter Sloterdijk, A Loucura de Deus. Do combate dos três monoteísmos. Tradução de Carlos Correia Monteiro de Oliveira. Relógio d’Água, 146 págs.

                      Publicado originalmente na revista LER de Abril

                        Atualidade

                        O jogo da mala

                        A mala

                        A forma quase unânime como os deputados aprovaram ontem as alterações à lei do financiamento dos partidos, permitindo um volume muito maior de dinheiro vivo a circular sem controlo, é qualquer coisa de inevitavelmente repulsivo aos olhos dos cidadãos sem telhados de vidro. Ou daqueles que se vêm coagidos, por vezes justificadamente, a severas medidas de fiscalização das transacções que envolvem o seu próprio dinheiro. Ou ainda daqueles que gerem instituições públicas com a corda na garganta. Mas até o Bloco de Esquerda – com a identidade política e a imagem pública vinculadas a um papel de «força de denúncia» – alinhou neste acordo. Um passo mais na descredibilização pública dos organismos partidários, crescentemente voltados para o seu próprio umbigo e olhados pelo cidadão comum como associações de interesses. O fiscalista J. L. Saldanha Sanches asseverou que voltamos assim «às malas cheias de notas, das quais uma parte chega aos partidos e outra fica com as pessoas que as recebem». Poderá não acontecer, mas da suspeita já ninguém se livra, o que será sempre um mau presságio para a qualidade da vida democrática. E também uma maneira de ampliar a desconfiança e a desmobilização.

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                          Atualidade, Olhares