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O caso Weiwei

Ai Weiwei, o mestre-escultor das sementes de girassol em porcelana que é possível esmagar com os pés, o importante artista, filósofo e activista dos direitos humanos, foi preso este fim-de-semana em Pequim quando se preparava para viajar até Hong-Kong. Na mesma altura foram também detidos diversos colaboradores seus. Neste momento as autoridades da República Popular da China mantêm Weiwei incontactável.

Uma petição exigindo a sua libertação pode ser assinada aqui. Imagens de algumas das suas obras podem ser vistas neste slideshow.

    Apontamentos, Artes, Atualidade, Democracia

    Lie to Me

    Lie to Me

    Cada Primeiro de Abril parecia um dia único. E não só para as crianças. A expectativa era grande, maior até, provavelmente, do que a das vésperas do Natal. A jornada começava cedo, vasculhando nos títulos dos jornais, nos noticiários da rádio ou da televisão, na conversa do vizinho, a mentira pela qual tanto se aguardara. O embuste fazia parte do jogo e era mais saboroso se parecesse verosímil, ou pelo menos incerto, podendo ser mantido até à manhã seguinte sem que alguém tivesse a coragem de o desmentir. Mas será mesmo que…? A 2 lá vinha então o anúncio, também esperado, revelando a extensão da burla e confirmando, quase sempre com um certo pudor, que quem por ela se deixara envolver o não tinha feito por ignorância ou burrice, mas por cumplicidade ou distracção.

    Assim foi durante bastante tempo, não se sabe até quando. É provável que tudo tenha começado a mudar algures nos anos oitenta. E na década seguinte já o Dia das Mentiras tinha deixado de ser aquilo que fora. Não por se perder a magia do engano, mas por este se haver vulgarizado, deixando de corresponder a um estado de excepção. A velocidade e a imprevisibilidade da mudança, a generalização do boato e da imprecisão, o uso jornalístico da possibilidade com um tratamento análogo àquele conferido ao facto, a criação da «inverdade», a manipulação dos acontecimentos pelas manchetes, banalizaram a boa e calorosa trapaça. Por isso o Primeiro de Abril não será mais o que foi: um dia diferente em que a mentira participava, a mentirola divertia, a mentirinha não aborrecia e o engano acendia a imaginação.

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      Apontamento malaguenho

      Combatentes republicanos

      Queridisimos intelectuales (del placer y el dolor) é um documentário que obviamente não vi, estreado ontem no Festival de Cinema de Málaga no qual certamente não estive. Dele retenho, por isso, apenas os ténues ecos, frases soltas, que chegam com as leituras em roda livre das três da madrugada. Eles contam que o filme cola intervenções avulsas, aparentemente incoerentes, de intelectuais espanhóis contemporâneos. Guardo duas. A primeira é de Carlos Moya, não o ex-tenista de sucesso mas o sociólogo emérito, que declara ter sido o haxixe, durante os anos sessenta, «a quinta coluna do Islão» no Ocidente. Fica a boutade, para reflexão eventual e memória futura da mesma. A segunda intervenção que retenho é a de Santiago Carrillo, e nela o velho resistente, o antigo secretário-geral do PCE, afirma que durante a Guerra Civil espanhola teve lugar «uma explosão de liberdade sexual».

      Esta «liberdade sexual» nas diversas frentes de combate deve ser relativizada mas foi real. Ela serviu à propaganda do franquismo, aliás, para mostrar a «imoralidade» dos republicanos, apresentados por vezes como vivendo em permanência entre Sodoma e Gomorra. Veja-se, como exemplo, a descrição dos republicanos «bolcheviques e jacobinos» traçada no conhecido filme de propaganda L’assedio del’Alcazar, rodado em 1940 por Augusto Genina. Sem querer ser simplista, julgo no entanto poder dizer, em abono da frase de Carrillo, que uma moral sexual mais rígida, fundada na condenação de ligações múltiplas, descomprometidas e fora do casamento, foi sinal, apenas sentido a partir dos anos quarenta, de uma regressão do franquismo em relação a práticas anteriores, historicamente comprováveis, que admitiam realmente uma menor rigidez no campo da sexualidade. Algo de semelhante se passou aliás em Portugal, com o recuo imposto durante o salazarismo de uma vivência social, sob este aspecto razoavelmente aberta, que havia sido posta em prática em determinados ambientes durante a Primeira República.

      Por outro lado, e esta é uma constante intemporal, a guerra intensa, e a guerra civil é uma guerra de elevadíssima intensidade, funciona sempre – como sabe quem alguma vez a viveu e os livros nos contam vezes infinitas – como um poderoso afrodisíaco. Debaixo da sua influência, os «factos da vida» acontecem então por si, mais naturalmente, por vezes violentamente, quase sempre com urgência. E nem entre os franquistas ela esteve ausente, como o comprovam diferentes testemunhos. Por isso a frase de Carrillo só pode admirar quem ande um tanto distraído ou esteja, com falta de tempo, à procura de um título para uma breve nota de reportagem. Provavelmente foi isto que aconteceu. Com êxito, pois foi ela que me chamou a atenção durante a leitura-relâmpago desta noite.

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        Desesperança (1)

        désespoir

        Escrevo enquanto a maioria desespera. A esta hora ninguém sabe muito bem aquilo que vai acontecer, mas parece certo que o governo caiará. Ou talvez não, talvez não seja já. Mas será em breve. Ganha forma o espectro da incerteza, pairando sobre um cenário de pré-catástrofe. Ninguém se atreve a arriscar previsões que não tragam consigo nuvens negras. Só os lerdos e os ignorantes podem pensar de forma diferente. E o pior é que a alternativa não é alternativa. A queda de um governo incapaz de produzir futuro trará outro, que gerirá a catástrofe prometendo-nos o Éden para dentro de trinta anos. Ambos, os que estão de saída ou aqueles que irão chegar, irão falar-nos de inevitabilidade, da impossibilidade das coisas poderem ser de outro modo. A nossa vida, projectada sobre um mundo devastado, empurrará a esperança para o tempo dos nossos netos.

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          A culpa (reprise)

          A família

          A Confederação Nacional das Associações de Família, com a argúcia e a presciência que se lhe reconhecem, diz que há um «risco de conflito geracional» pelo facto de haver «jovens frustrados» que «poderão sentir-se impelidos a pedir contas a toda uma geração que lhes deixa um legado de dívidas, de falta de oportunidades, de retrocesso nas liberdades». Se bem interpreto esta preocupação, as famílias deverão então efectuar sessões de autocrítica – ou de auto-análise, para os familiares mais instruídos – nas quais os mais velhos se deverão penitenciar por um dia terem acreditado que viviam num mundo que tendia a ser melhor do que aquele que lhes havia sido legado pelos seus pais. E assim sucessivamente, regredindo na história da responsabilidade geracional, na medida do possível, até ao instante da Criação. Perceber-se-á então que o culpado de tudo foi quem começou o movimento, ou seja, Deus. Parece-me que a Confederação Nacional das Associações de Família está a meter-se numa grande embrulhada.

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            Do passado que passou

            praxe

            Há uns meses fui desafiado pela Plataforma Anti Praxe Académica, de Coimbra, a escrever um texto para editar no seu P.A.P.A.zine. Saiu aquilo que abaixo se transcreve. Sei que não é fruta da época – já passou a Latada e ainda não chegou a Queima, datas-magnas da vida estudantil para grande número de universitários – mas talvez por isso mesmo, porque seja tempo de menos adrenalina movida a superbock, seja também a altura de o divulgar aqui. Didactismo e panfletarismo qb, que há gostos para tudo.

            Para a maioria dos estudantes que nas décadas de 1960-1970 frequentaram a Universidade de Coimbra – nas outras o problema nem se punha –, a praxe académica não tinha grande peso. Simplesmente porque estava a desaparecer. Antes do «luto académico», decretado em 1969 para responder à repressão dos estudantes, já a maioria destes pouco se preocupava com esse tipo de prática simbólica. O desenvolvimento do associativismo estudantil e o alastrar de uma concepção tendencialmente democrática e igualitária da sociedade, a recusa de um certo «espírito de rebanho» que as autoridades apreciavam, iam transformando a praxe, como rotina de base corporativa e elitista, em algo de suficientemente anacrónico para ser ignorado por um número crescente de alunos. Até mesmo o uso do traje académico vivia uma fase de claro recuo, embora alguns ainda dele se servissem casualmente. Ao fechamento da batina, imposto pela decisão colectiva do «luto», seguiu-se por isso, em poucos meses, o seu quase completo desaparecimento.

            O que aconteceu nessa altura foi assim a confirmação de uma transformação de facto: não se fez desaparecer a praxe do dia-a-dia estudantil, pois aí ela já quase não existia, mas acabou-se com a festa académica tradicional e com a ostentação pública da imagem elitista do aluno universitário. Esta mudança serviu para unir os estudantes contra o governo da altura, aproximando-os do cidadão comum e mostrando que consideravam existirem situações muito mais importantes do que a ocasional exibição do destaque social e da capacidade para consumir álcool. A presença de um número cada vez maior de mulheres na academia acentuaria aliás a metamorfose, limitando o «prestígio» da boémia masculina e da «autoridade da moca» na qual se fundava parte da velha ordem estudantil. Os estudantes não se viram assim «privados da praxe», como li há meses num artigo de jornal: a larga maioria deles descartou-a porque já não a sentia como sua, servindo-se do que dela restava apenas para a sua luta anti-regime e anti-sistema. Por isso durante mais de dez anos, e com a Revolução de Abril pelo meio, ninguém mais pensou no assunto. Ele simplesmente parecia morto e enterrado. (mais…)

              Apontamentos, Coimbra, Memória, Olhares

              Escrever, não escrever

              escrita

              Talvez existam tantas explicações para a opção do escritor pela escrita quanto a soma dos que a seguiram. Ou mesmo mais, pois existe ainda um certo número, com toda a segurança bastante superior, de pessoas que a procuraram mas desistiram e seguiram outra vida. Gosto da justificação que Roberto Bolaño deixou durante uma entrevista conduzida por Carmen Boullosa e publicada na revista nova-iorquina Bomb no final de 2002, cerca de meio ano antes da sua morte. O que nela  me atrai é justamente a imponderabilidade, deixando no ar aquela que é, afinal, a única afirmação possível: escritor algum o é fora de um conjunto infinitamente variável de acasos, de escolhas e de desistências.

              Ser escritor é agradável – não, agradável não é o termo –, é uma actividade que tem a sua quota-parte de momentos divertidos, mas sei doutras coisas que são ainda mais divertidas, tão divertidas como para mim a literatura. Assaltar bancos, por exemplo. Ou realizar filmes. Ou ser chulo. Ou voltar a ser criança e jogar numa equipa de futebol mais ou menos apocalíptica. Infelizmente, a criança cresce, o assaltante de bancos é morto, o realizador fica sem dinheiro, o chulo adoece e depois não há outra opção que não seja escrever. Para mim a palavra «escrita» é exactamente o oposto da palavra «espera». Em vez de esperar, há escrever. Bem, provavelmente não tenho razão – é possível que escrever seja outra forma de esperar, ou de adiar coisas. Gostava de pensar doutra maneira.

              Em Roberto Bolaño: Últimas entrevistas. Introdução de Marcela Valdes. Trad de José António Freitas e Silva. Quetzal. 122 págs.

                Apontamentos, Olhares

                Pensem nisso

                sombras

                Está quase tudo dito e redito sobre o valor do exercício paródico da dupla Neto-Falâncio, aka Homens da Luta. Por mim, remeto quem possa andar distraído para um post do José Couto Nogueira, publicado no seu Perplexo, que vai ao essencial do que merece ser contado. Só faltará na sua leitura, talvez, uma referência à forma como o pastiche atinge no estômago o próprio Festival RTP das garganteias. O que não terá sido sublinhado o suficiente pelos comentadores – para quem desembarque na Portela recém-chegado da Tasmânia, será mesmo a parte tragicómica da coisa – é a forma como o Partido Socialista e algumas das suas ourelas reagem crispadamente a este pequeno episódio. Que vale mais pelo eco popular que está a ter, pelos sinais que arranca das sombras, do que pela coisa em si, obviamente efémera, banal, nonchalante. Pensem nisso, companheiros, camaradas, pá!

                  Apontamentos, Atualidade, Olhares

                  As musas também morrem

                  Freewheelin'

                  Aos 67, Suze Rotolo morreu ontem em Nova Iorque. Copio e colo a partir do Irish Times: «A long-haired 19-year-old strolling down a snow-covered Greenwich Village street on the arm of a 21-year-old folk singer whose words and music would shortly be affecting the world view of a generation.» A namoradinha de Dylan que o acompanha na capa do segundo álbum The Freewheelin’Bob Dylan, de 1963. O de Blowin’ in the Wind e de A Hard Rain’s a-Gonna Fall. Era Suze uma simples figurante, uma groupie ou coisa assim? Longe disso: «During their time together, Rotolo became much more than a passive muse. Thoroughly familiar with the left-wing Greenwich Village scene and already active in the civil rights movement, she acted as a cultural guide to Dylan. He had arrived in New York a few months earlier from rural Minnesota with a head full of Jack Kerouac, Woody Guthrie and Robert Johnson. She introduced him to the work of Paul Cezanne and Wassily Kandinsky, Bertolt Brecht and Antonin Artaud, Paul Verlaine and Arthur Rimbaud. Together they went to see Picasso’s Guernica and François Truffaut’s Shoot the Pianist. After she told him the story of a 14-year-old African American boy who had been brutally murdered in Mississippi in 1955, he wrote The Ballad of Emmett Till, one of his early broadsides against injustice.» As musas afinal também morrem.

                    Apontamentos, Memória, Música

                    Nadia

                    Annie Girardot

                    Depois de 1960, com a Nadia de Rocco e os seus irmãos, Annie Girardot interpretou sempre um só papel: o seu. Filme após filme, aqueles que a seguiram mudos e atenciosos pelas salas escuras habituaram-se a vê-la em qualquer género da arte, do drama à comédia, sempre com aquele rosto de pessoa comum que dispensava o glamour, aquela voz de fumadora inveterada em registo de metralhadora, electrizante, que a tornavam única. Por isso – e não é pouco – vão sentir tanto a sua falta.

                    A partir de uma evocação aparecida no Libération.

                      Apontamentos, Cinema, Memória

                      As Líbias do Manuel

                      O microfone

                      Não sendo um traço «tipicamente português», sabemos como o grau de despolitização da maioria dos nossos compatriotas é, pelo menos em termos europeus, bastante elevado. Lêem-se poucos jornais, discute-se menos, o share dos telejornais é baixíssimo e existe uma cultura do desinteresse, de raiz salazarista, que molda ainda os comportamentos. De tão distendida no tempo, é provável que tenha transmutado também os nossos genes. A falha nota-se sobretudo a propósito das questões do nosso tempo que comportam uma dimensão transnacional. Para muitos dos nossos compatriotas, elas podem até ter reflexos no comportamento sideral dos anéis de Saturno, mas jamais ecoarão no seu quintal. Apesar de nos tempos que correm os jornais, a televisão, a Internet e até a nossa conta bancária nos avisarem a todo o momento de que tudo tem a ver com tudo e de que, por mais voltas que possamos dar, não podemos fugir a esse fado.

                      A ingenuidade e a ignorância são ainda mais chocantes quando afectam pessoas que por dever de ofício deveriam manter-se informadas sobre os terrenos que pisam. É de facto impressionante o grau de desconhecimento das condições políticas que têm preservado os seus postos de trabalho, e o nível de insensibilidade em relação às pessoas com as quais partilham boa parte das suas vidas, evidenciado pela generalidade dos empresários e dos trabalhadores portugueses em missão na Líbia – os turistas têm alguma desculpa – que estão a ser ouvidos pelos telejornais como testemunhas privilegiadas da revolta anti-Kadhafi. Quase invariavelmente, falam do que está a acontecer no país onde trabalham como se tudo não passasse de um rol de desavenças burlescas entre indígenas, que depois de passarem lhes devolverão intacto o país no qual têm governado a vidinha. Existe, de facto, ainda quem alimente o estereótipo do Manuel Padeiro, o tuga ignaro das coisas do mundo para quem tudo se resume ao cálculo simples do deve e do haver e à rota certa do casa-trabalho-casa. Estão no seu direito, claro, mas é patético vê-los convertidos em comentadores idóneos. Francamente, antes um daqueles geopolitics experts que jamais passam o limiar do previsível.

                        Apontamentos, Atualidade, Olhares

                        Tobruk

                        Tobruk

                        Até agora a palavra Tobruk evocava principalmente um filme americano de Arthur Hiller, estreado em 1967, com Rock Hudson e George Peppard nos papéis principais. Inventava-se ali a epopeia de uma brigada de judeus alemães que combatiam contra o poderoso Afrika Korps, de Rommel, durante a longa e dura batalha pela posse da cidade-porto mediterrânica. De Tobruk-o filme retinha as imagens a technicolor de explosões fictícias, golpes-de-mão forjados, falsas mortes e outros ardis desses que o cinema descobre para nos enganar. A perspectiva foi radicalmente alterada hoje, com a chegada das primeiras imagens de uma cidade liberta das garras de Kadhafi. As armas agora são reais e ainda disparam, é verdade, mas desta vez de júbilo e celebração. Gostaria de não voltar a olhar para Tobruk como para uma fortaleza triste e sitiada.

                          Apontamentos, Atualidade, Cidades

                          Revolução Revolution (parte 2)

                          Momentos irrepetíveis. Em «On the Square», de Wendell Steavenson, no Cairo. The New Yorker de hoje.

                          Inside was the Republic of Tahrir, where the protesters had established a kind of revolutionary utopia. As you came through the barricades by the Qasr al Nil Bridge, a funnel of protesters cheered and dapped and chanted, «Welcome! Welcome to the free, who have joined the revolutionaries!» The scene was indescribably moving. There was no hierarchy or formal organization on the square, and yet lines of protesters guarded the barricades while others swept the garbage into neat piles and manned the checkpoints to search people for weapons. People brought food and water and medicine into the square and gave it out for free. «We are queuing up!» one activist who had named his tent the Freedom Motel told me, incredulous at the number of people flowing into the square. «When was the last time you saw an Egyptian queuing up?» I asked one young female volunteer in a floral head scarf if she was with any particular organization. «I am with no one», she replied simply. «I am with the people.»

                            Apontamentos, Atualidade, Olhares, Recortes

                            Um genocídio soft

                            Todos os meses entro numa farmácia. A doença crónica, que não assassina mas amolece, força a peregrinação. Apanho geralmente com pessoas à minha frente e fico por ali à espera de vez. São quase sempre pobres ou remediados os outros clientes. Poderei frequentar a farmácia errada, mas raramente por lá vejo pessoas com aspecto próspero. Sei que muitas destas também não têm saúde, mas encontrarão sempre quem compre os comprimidos, as gotas e os unguentos por elas. Os pobres não. Os remediados também não. Esses chegam e ficam por ali, pacientes, tristes, calados ou a falarem baixinho, a contarem os cêntimos e as desgraças. Tenho reparado, e não poucas vezes, naquilo que os jornais acabam de relatar como uma novidade filha da crise: pessoas que não levam todos os medicamentos receitados porque não os podem pagar, escolhendo os mais baratos ou aqueles com os quais mais se familiarizaram. Deixando uma parte do tratamento para dias melhores, se é que algum dia esses dias virão. Outros, também já os vi, pedem «para assentar», prometendo liquidar a dívida mais tarde, quando receberem a reforma. Outros ainda pagarão com dinheiro emprestado. O preço, os lucros e as condições de acesso aos medicamentos são dos factores de injustiça e de falta de solidariedade mais perturbantes desta sociedade que vamos partilhando. Daqueles nos quais o Estado – social sem vergonha de o ser – teria a obrigação moral e política de intervir para impedir o genocídio soft e silencioso com o qual pactua por omissão. Daqueles que deveriam ter o lugar de destaque que não têm no combate político e nos movimentos sociais.

                              Apontamentos, Atualidade, Olhares

                              24 horas de felicidade

                              Cairo

                              Não há paciência para tanto/a profeta da desgraça a denegrir a revolução egípcia, a tentar descobri-lhe os defeitos, a contar com a intervenção dos seus inimigos, a duvidar de tudo e de todos. Claro que muito em breve surgirão recuos, divisões, falhas, traições, erros, desvios, manobras, manipulações e não sei o quê mais. São as leis da História e nós até já passámos por uma experiência idêntica. Mas tentem ser felizes durante 24 horas só por verem um povo celebrar e ser feliz por 24 horas. E por a palavra democracia ser proclamada sem complexos ou adjectivos.

                                Apontamentos, Atualidade