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Um genocídio soft

Todos os meses entro numa farmácia. A doença crónica, que não assassina mas amolece, força a peregrinação. Apanho geralmente com pessoas à minha frente e fico por ali à espera de vez. São quase sempre pobres ou remediados os outros clientes. Poderei frequentar a farmácia errada, mas raramente por lá vejo pessoas com aspecto próspero. Sei que muitas destas também não têm saúde, mas encontrarão sempre quem compre os comprimidos, as gotas e os unguentos por elas. Os pobres não. Os remediados também não. Esses chegam e ficam por ali, pacientes, tristes, calados ou a falarem baixinho, a contarem os cêntimos e as desgraças. Tenho reparado, e não poucas vezes, naquilo que os jornais acabam de relatar como uma novidade filha da crise: pessoas que não levam todos os medicamentos receitados porque não os podem pagar, escolhendo os mais baratos ou aqueles com os quais mais se familiarizaram. Deixando uma parte do tratamento para dias melhores, se é que algum dia esses dias virão. Outros, também já os vi, pedem «para assentar», prometendo liquidar a dívida mais tarde, quando receberem a reforma. Outros ainda pagarão com dinheiro emprestado. O preço, os lucros e as condições de acesso aos medicamentos são dos factores de injustiça e de falta de solidariedade mais perturbantes desta sociedade que vamos partilhando. Daqueles nos quais o Estado – social sem vergonha de o ser – teria a obrigação moral e política de intervir para impedir o genocídio soft e silencioso com o qual pactua por omissão. Daqueles que deveriam ter o lugar de destaque que não têm no combate político e nos movimentos sociais.

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    24 horas de felicidade

    Cairo

    Não há paciência para tanto/a profeta da desgraça a denegrir a revolução egípcia, a tentar descobri-lhe os defeitos, a contar com a intervenção dos seus inimigos, a duvidar de tudo e de todos. Claro que muito em breve surgirão recuos, divisões, falhas, traições, erros, desvios, manobras, manipulações e não sei o quê mais. São as leis da História e nós até já passámos por uma experiência idêntica. Mas tentem ser felizes durante 24 horas só por verem um povo celebrar e ser feliz por 24 horas. E por a palavra democracia ser proclamada sem complexos ou adjectivos.

      Apontamentos, Atualidade

      Tudo ao monte

      RSS

      Como muitos sabem, a tecnologia RSS serve para agregar conteúdos originários de diversas fontes, permitindo aos utilizadores da Internet, através de programas ou de sites vocacionados para a função, reunir num único lugar informações provenientes de serviços que mudam ou se actualizam regularmente. O sistema tem já alguns anos e é extremamente útil para quem deseje estar a par das novidades associadas a sites de notícias, a blogues, etc., sem precisar de visitá-los a toda a hora e um a um. Sirvo-me dele há bastante tempo e tenho a certeza de que se não fosse dessa forma muita da informação à qual consigo aceder passar-me-ia completamente ao lado. Já nem sei, por exemplo, ler blogues de outro modo, uma vez que é impossível visitar, semanalmente sequer, muitos daqueles que me agradam ou que me podem ser úteis. Leio então os cabeçalhos e as primeiras linhas no agregador e depois, se o assunto e o tom me interessarem, viajo até à fonte.

      O processo não me trazia problemas até há pouco tempo, mas agora as coisas mudaram. Explico-me: os computadores tablet permitem instalar agregadores – como o Early Edition ou o Flipboard, para falar dos que tenho no iPad – que se comportam como verdadeiros jornais em papel ou portais de notícias, com uma disposição gráfica e processos de leitura e de apreensão da informação idênticos aos tradicionais. Até aí tudo bem, não fora toda a informação, apesar de condicionada pelas nossas escolhas, surgir ali de uma forma algo aleatória. Significa isto que aparecem referências e notícias chegadas da BBC, da Reuters ou do El País, lado a lado, e sem hierarquia visível, com aquela que é fornecida por um blogueiro da Marmeleira ou um enragé de Almofarizes de Cima (sem ofensa para os enragés de Coimbra). Isto é, novidades provenientes de agências ou publicações credenciadas visualmente misturadas com aquilo que possa escrever, num repente e sem intermediação, um cidadão alfabetizado e infoincluído. Desconfio que isto ainda vai provocar transtornos em muitas cabeças.

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        Adeus Maria

        Maria

        As filas, «bichas» num português de outras eras, nunca foram o meu forte. De cada vez que me meto numa um pouco mais comprida e visivelmente demorada, rapidamente avalio se se justifica a espera e não será preferível trocá-la por uma actividade mais autónoma. Nessas alturas desisto sem ponta de remorso e vou-me embora. Mas não foi isso que aconteceu naquele final de tarde de um Verão dos idos de 75, ali nas imediações das bilheteiras do Cine-Atlântico (ou teria sido no Cine-Miramar?) de Luanda. Munido de toda a paciência deste mundo e do outro, deixei-me ficar bem mais de duas horas na bicha, ou «fila» em português do século vinte e um, que dava a volta ao quarteirão. O objectivo assumido: comprar um bilhete para ver O Último Tango em Paris (1972), de Bernardo Bertolucci. Mais do que muitas famílias, libertas da censura pelas liberdades de Abril, seguiam pacientes em formatura, visivelmente interessadas em conhecer a dimensão estética da lubrificação na fantasia sodomita protagonizada por Paul (Marlon Brando) e Jeanne (Maria Schneider). A Maria morreu hoje de cancro e só consigo recordar-me de como estava esplêndida, na pele de uma mulher jovem e desconhecida, naquela noite luandina.

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          Meio milhão

          500.000

          Há dois dias este blogue ultrapassou o meio milhão de visitantes. Em números mais ou menos rotundos isto significa uma média de quase 300 visitas únicas diárias ao longo de um pouco menos de cinco anos. Já a visualização total de páginas por dia, essa ronda as mil. Para um blogue a solo que quase não fala de política local, das chicanas da blogosfera, de sexo explícito ou das transferências do futebol, que mantém um registo relativamente intimista e um padrão de escrita pouco popular, não parece nada mau. Aliás, quando o número de visitantes quotidianos ultrapassa os quinhentos pigarreio um pouco e penso logo que alguma coisa não está bem. Dá portanto para as despesas. Isto é, para manter noite adentro, extorquindo horas ao sono, entre cigarros e bebidas quentes, o prazer de escrever para pessoas que se aqui entram uma vez e depois regressam é porque se sentem bem. É sobretudo para elas – algumas transformadas entretanto em amizades das verdadeiras – que segue um imenso abraço. Acompanhado de um obrigado pela companhia e pela persistência.

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            Frio polar

            frio polar

            A manhã estava de sol mas estava triste. Votei às dez, depois de ultrapassar uma barreira aparentemente inabalável de pequenos lobitos em calções e lenço à Baden Powell, com as caras vermelhas e contorcidas pelos 2 graus Celsius, que por ali se mantinham comandados por um matulão de dezassete anos devidamente agasalhado. Tentavam vender calendários impressos a jacto de tinta aos cidadãos eleitores, que resistiam a tirar as mãos dos bolsos ou a descalçar as luvas. Não havia fila: entrei directamente para a mesa de voto e ainda me dei ao luxo de conversar durante dois minutos com os esforçados cavalheiros da mesa e a notória companheira bloquista. Sobre trivialidades, claro. Mas aproveitei para me queixar de ter sido deslocado de uma mesa de voto que ficava a 100 metros de casa para outra a três quilómetros bem medidos. Na minha insana sanha anticavaquista, lá depositei então o voto na urna. Não, não foi naquele senhor doutor médico que é todo ele boa pessoa, não foi no chefe da oposição na Madeira, não foi no funcionário cansado, mas sim no outro, aquele do verbo retumbante que o Sr. Lello detesta. O entusiasmo – o meu e o de toda a gente que vislumbrei – era nenhum. Suspeito, julgo que com algum fundamento, que não terá sido por causa do frio polar. Só vi pessoas a circularem de cá para lá, de lá para cá, com cara de quem acabou de tirar da caixa Multibanco um extracto de conta e está a precisar de um café bem forte e bem quente. Tenho a impressão de que não é assim que se levantam futuros, mas às tantas também estou a exigir demasiado da vida.

            Nota importante – Ao escrever este apontamento constatei que anticavaquista (sem hífen) já consta entre as palavras reconhecidas pelo corrector ortográfico Flip, versão 8, como fazendo parte da língua portuguesa. Valha-nos isso.

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              Reflexão

              reflexão

              Sempre vi o «dia de reflexão» que antecede cada acto eleitoral como um disparatado sinal de imaturidade democrática. Como se por decreto nos mandassem tomar um duche frio. Ou desviar os olhos dos outdoors, tapar a boca e fechar os ouvidos às mensagens que chegam de todo o lado. «Pensa bem, rapaz, não te precipites.» «Vá lá, respira fundo e conta até dez.» «Vê lá bem o que fazes.» «Tu tem-me juizinho nessa cabeça.» De certa maneira faz de nós crianças. Ou seres impulsivos e um pouco tolos. Não será agora que vou mudar de opinião. [Que tanta reflexão não vos faça esquecerem-se de votar neste domingo.]

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                A cultura popular do salazarismo

                cultura popular

                A Angelus Novus editou no final de 2010, na série de História (que coordeno) da colecção «Biblioteca Mínima», o livro A Cultura Popular no Estado Novo, de Daniel Melo. Este constitui uma excelente e actualizada introdução a um tema sobre o qual o autor vem trabalhando desde há anos. A editora acaba entretanto de divulgar no seu blogue uma entrevista com o historiador. Nesta se fala, entre outros aspectos, da forma como o modelo de cultura popular estimulado ou construído pelo salazarismo serviu na época de «’almofada’ social». Ele oferecia, sublinha Daniel Melo, «um conforto existencial face aos receios que a mudança pode compreensivelmente despertar», mas funcionava também como «pilar ideológico, guia da acção e inculcador de certos valores, práticas, vivências e comportamentos, fortemente unidimensionais.» Pode seguir-se aqui toda a entrevista.

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                  Bom conselho

                  Chico

                  A esquerda em campanha parece incapaz de falar para os que precisam realmente de campanha. A fazer chover no molhado quando a savana está ali mesmo ao lado. Bate em Cavaco 24 horas sobre 24 junto daqueles que jamais votarão em Cavaco e não precisam de que lho lembrem. Dando ao mesmo tempo a este oportunidades para ir dizendo ao bom povo hesitante que é atacado pelos que «só sabem dizer mal» e que, no fundo, «nada fazem». A esquerda em campanha denuncia as trapaças e as malfeitorias de Cavaco de segunda a segunda como se parte importante do povo eleitor que decide não visse em muitos desses actos actos sinais de uma «esperteza» que cobiça ou lhe é indiferente. Porque não uma preocupação maior em explicar pacientemente e com imaginação, boca a boca, porta a porta, debate a debate, comício a comício, post a post, a tanta gente que hesita ou ainda duvida, AS RAZÕES pelas quais vale a pena votar positivamente no seu candidato? (Quase três da madrugada. Desligo o computador, apago a luz e desço as escadas trauteando a velha canção de Chico Buarque. «Oiça um bom conselho, que lhe dou de graça.»)

                    Apontamentos, Olhares, Opinião

                    Onde estará você a 23 de Janeiro? (2)

                    verderubra

                    Como não me prende qualquer dever de solidariedade para com um partido ou movimento dotado de programa, estatutos ou objectivos a curto prazo – com Albert Camus, reconheço apenas que «se existisse um partido daqueles que não têm a certeza de terem razão, eu faria parte dele» – posso dar-me ao luxo de ser sincero e de falar com quem me lê sem preocupações exageradas com o impacto do que escrevo. Posso dizer, por exemplo, que sendo adepto obstinado de uma intervenção cívica atenta e permanente, neste momento mais facilmente me revejo na expressão resistente da recusa e do protesto do que na associação a propostas programáticas voltadas para a acção organizada. Haverá quem diga que essa é uma posição cómoda, e provavelmente é-o, mas vivendo numa sociedade sem projectos políticos mobilizadores, sem movimentos nos quais confie ao ponto de aderir fisicamente a eles – já que a alma, lamento, essa só ao velho diabo a doarei –, não é nada de particularmente singular que faça parte da multidão de cidadãos politizados que se não revêem na militância de papel passado. Serão tentações de anarquista? Sim, um pouco, pois admito que entre o vermelho e o negro o meu coração já balançou mais. Mas as circunstâncias não carecem de grandes justificações: muito simplesmente, incomoda-me gritar palavras de ordem, vivas, hurras ou morras quando o meu apoio às ideias, instituições ou pessoas às quais elas se aplicam conserva uma razoável distância crítica.

                    Sim, já o disse aqui e repito-o agora: no dia 23 votarei em Manuel Alegre. Dele afasta-me muita coisa. Afastam-me desde logo certos pressupostos culturais e modos de estar. Não gosto da exibição de «moralina», essa palavra inventada por Nietzsche para designar uma arrebatada agitação declamatória, em forma de pregação, que nega a dimensão crítica e convicta da intervenção política. Não me agrada a sua concepção protocolar e estritamente canónica de cultura. Não me agrada o vínculo com um Portugal simbolicamente virilizado, taurino e venatório, que me parece de outras eras. Afasta-me também um trajecto recente marcado por atitudes de hesitação ou pouco claras, apesar da afirmação pública de inegável coragem que tem pontuado a sua vida. Aproximam-nos, todavia, factores que se relacionam com muito daquilo que representa, ou pode vir a representar, que é basicamente a reconstrução de territórios de política solidária, a activação de expectativas de mudança, de prioridades sociais, de uma sensibilidade centrada nas pessoas, que se encontram nos antípodas do que Cavaco Silva exprime. É este o campo de combate que agora interessa, muito mais importante do que o espaço para os gostos e os desagrados de pessoas mais ou menos como eu. Por isto, apesar de não andar por aí em desfiles ou comícios a gritar os tais vivas e hurras – sem nada, mas mesmo nada, contra quem o faz –, agirei a 23 sem hesitações. Não me posso refugiar em esquisitices pessoais, não me posso abster, quando, para além de Manuel Alegre, não existe alternativa capaz de impedir que por mais cinco anos tenhamos de conviver diariamente com a cabeça rústica mas perigosa daquele senhor esguio, azedo e de direita.

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                      Édipo na Austrália

                      Marie B

                      Sobrinha-bisneta do imperador Napoleão I, a princesa Marie Bonaparte (1882-1962) foi uma figura central para a definição da psicanálise enquanto prática clínica e saber autónomo e reconhecido (ou antes, razoavelmente reconhecido, uma vez que ao fim de mais de um século de combate os seus inimigos permanecem activos e vigilantes). Muito próxima de Freud, a quem ajudou pessoalmente quando em 1938, já com 71 anos, este precisou de sair de Viena para escapar dos nazis, Marie usou a sua enorme fortuna – em boa parte herdada do avô, François Blanc, fundador do Casino de Monte Carlo – para financiar encontros científicos e trabalho de investigação na disciplina que ela própria viria a adoptar profissionalmente. O eco longínquo de um destes trabalhos acaba de me chegar através de uma referência num artigo de Evan Osnos saído na New Yorker («Meet Dr. Freud», sobre a recente voga da psicanálise na China após longas décadas de perseguição e clandestinidade). Ali se refere a dada altura o financiamento, por parte de Marie, de uma viagem do psicanalista e antropólogo húngaro Géza Róheim à Austrália com o objectivo de determinar se entre os aborígenes existia complexo de Édipo. Róheim concluiu que sim, em apoio da ocorrência de uma estrutura edipiana universal. A conclusão é respeitável, mas é também irresistível a analogia que pode ser feita entre aquela pesquisa e os esforços dos evangelizadores católicos do século XVI para determinarem pela observação empírica – por vezes com recurso à tortura – se os ameríndios possuíam alma (já que, de acordo com a opinião à época dominante, os negros não a tinham de todo). Fica a declaração urbi et orbi de que esta analogia vale por si, não transportando consigo qualquer preconceito em relação à teoria e à prática da psicanálise, à bondade da princesa Marie ou ao trabalho do notável ex-bolseiro húngaro.

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                        Medidas da felicidade

                        Ando a ler/reler trabalhos publicados nas décadas de 1970 e 1980 por João Martins Pereira. Este é o segundo fragmento seguido de um texto (muito) de circunstância que tenho vontade de partilhar.

                        «31 de Janeiro [de 1985] Sempre que a minha filha chega a casa e diz «Hoje foi um dia tão bom!» – correram-lhe bem as aulas, ganhou o jogo de basquete, trocou olhares cúmplices com um colega, sei lá que mais — não consigo evitar lembrar-me, abusivamente, das últimas palavras de Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, de Soljenitsine (de que então apenas conhecia esse livro e nada mais: se fosse hoje, voltando ao tema de há dias, tê-lo-ia lido da mesma maneira?): «No campo de prisioneiros Sukhov adormeceu completamente satisfeito, feliz. Fora bafejado por vários golpes de sorte durante aquele dia: não o haviam posto no xadrez; não tinham enviado a brigada para o Centro; surripiara uma tigela de kasha ao almoço; o chefe de briga­da fixara bem as rações; […] comprara tabaco. E não caíra doente. Um dia sem uma nuvem carregada, sombria. Quase um dia feliz»

                        E um desempregado, que calcorreia por trabalho, ou se arrasta pelas ruas? E um empregado, que diariamente repete, a horas cer­tas, os mesmos gestos maquinais e desinteressantes? E um velho, que frequenta, dias sem fim, os mesmos cantos da casa ou os mesmos bancos de jardim? Que pequenos nadas lhes conseguirão fazer «um dia feliz»? Que sociedade é esta, de tão baixas expectativas, que a simples pausa de uma máquina, o tempo de uma beata, ou um banco livre batido pelo sol cheguem talvez para tornar «feliz» um dia igual a todos os outros?» [João Martins Pereira, O Dito e o Feito. Cadernos – 1984-1987]

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                          Incomunicar

                          incomunicar
                          ©2007-2011 melezartworks

                          «22 de Fevereiro [de 1985] – Por vezes cruzamo-nos com rostos que nos reconciliam com o mundo. Na maior parte dos casos são rostos de crianças, ou de adolescentes. Algumas vezes, de velhos. Quase nunca de adultos, esses crispados, tensos, ruminando frustrações, pressas, responsabilidades, preocupações – rostos sem desejo, sem alegria. Incomunicáveis.» [João Martins Pereira, O Dito e o Feito. Cadernos – 1984-1987]

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                            Bananas

                            Banana

                            Günther Schabowski, um ex-membro do Politburo do partido do poder na antiga República Democrática Alemã que trabalhou como chefe de redacção do Neues Deutschland, o diário oficial, contou há alguns anos a uma jornalista que numa reunião plenária efectuada em 1989, no preciso momento em que uma crise económica sem precedentes, a revolta popular e o rápido crescimento da fuga de cidadãos para o ocidente abalavam definitivamente o regime, aquele órgão se recusou a debater a situação. Limitou-se na altura a abordar os preparativos para as comemorações oficiais dos quarenta anos da chegada dos comunistas ao poder. Só numa conversa de corredor um alto responsável se terá referido vagamente aos protestos, sugerindo uma solução para acabar de vez com o descontentamento dos cidadãos cujo rumor parecia não chegar à vida ultraprotegida da nomenklatura leste-alemã: «Podemos dar-lhes bananas!» A ideia parece absurda, e naquele contexto era-o particularmente, mas tinha a ver com a forma como, para muitos cidadãos da antiga Europa do «socialismo realmente existente», o consumo de bananas, um fruto raro e caríssimo, se encontrava ligado a uma certa ideia de abundância e de felicidade, ingenuamente associada ao consumo de certos bens no lado ocidental. Contam-se episódios tragicómicos, como o daquele cidadão acabado de cruzar o recém-aberto Muro, que após ter uma na mão – na noite da Queda as bananas esgotaram em Berlim-Oeste – comeu rapidamente a casca deitando fora o «caroço».

                            Ainda que não a tal escala, também do lado de cá da velha Cortina o consumo de bananas foi sinal de bem-estar e de prazer. Ainda pelas décadas de 1950-1960 era um produto raro nas regiões da Europa mais distantes dos portos e das principais vias de comunicação terrestre, funcionando o seu consumo, em muitos lados, como sinal de distinção social. Foi também factor de configuração de uma certa ideia de exotismo, da qual é exemplo o seu lugar na composição do arranjo floral-frutístico que se tornou parte destacada da imagem exuberante e tropical de Carmen Miranda, nos anos trinta e quarenta a portuguesa mais brasileira do Brasil. A definição de «república das bananas», parodiada em 1971 por Woody Allen, não se distancia muito dessa projecção icónica: uma área politicamente periférica na qual o poder arbitrário de um qualquer ditador latino-americano assentava na protecção de grandes empresas americanas, como a United Fruit Company ou a Standard Fruit, cuja riqueza se baseava na exportação do produto para regiões nas quais era vendido a preços elevados sem qualquer benefício para as populações dos países produtores. Mas não pode dizer-se que esta seja uma tradição com grande futuro. E não é pelo facto do seu consumo se ter democratizado. Em artigo saído num número recente da New Yorker, Mike Peed alerta para uma realidade preocupante: um conjunto de factores de natureza climatológica e genética está a provocar uma rápida redução da produção de bananas – ainda assim o 4º produto alimentar mais produzido em todo o mundo –, ao mesmo tempo que introduz transformações radicais na definição biológica das suas diferentes variedades, com alterações de textura, formato e sabor. Pode assim acontecer que, num tempo não muito distante, a banana, ou pelo menos a banana como a conhecemos hoje, venha a transformar-se numa espécie de dinossauro, ou de dodó, das plantas herbáceas. Reconvertida na recordação mitificada de um mundo que já não existe.

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                              Manifesto da juventude de Gaza pela mudança

                              Chegou-me às mãos este manifesto que merece ser lido com atenção. Pelo que mostra sobre a possibilidade, ou a necessidade, de também em relação ao problema de Gaza afastarmos do horizonte as posições estritamente maniqueístas a propósito dos «bons» e dos «maus».

                              Este é o manifesto da juventude de Gaza pela mudança!
                              publicado pelo Gaza Youth Breaks Out (GYBO) a 29 de Dezembro de 2010

                              Que se foda o Hamas. Que se foda Israel. Que se fodam as Nações Unidas, o UNWRA. Fodam-se os EUA! Nós, os jovens em Gaza, estamos fartos de Israel, do Hamas, da ocupação, das violações dos direitos humanos e da indiferença da comunidade internacional! Queremos gritar e quebrar este muro de silêncio, injustiça e indiferença assim como os F16 israelitas quebram a barreira do som; gritar com todo o poder nas nossas almas, de maneira a libertar esta enorme frustração que nos consome por causa da situação fodida em que vivemos; Somos como piolhos entre duas unhas a viver um pesadelo dentro de um pesadelo, sem lugar para esperança, sem espaço para liberdade. Estamos enjoados de nos vermos metidos nesta luta política; enjoados de noites frias e escuras com aviões a sobrevoar as nossas casas; enjoados de ver agricultores inocentes serem abatidos em zonas de contenção, porque estão a tomar conta das suas terras; enjoados de tipos barbudos que caminham com as suas armas abusando do seu poder, espancando ou encarcerando jovens que manifestam os seus ideais; enjoados do muro de vergonha que nos separa do resto do nosso país e, nos mantém presos num bocado de terra do tamanho de um selo; enjoados de sermos retratados como terroristas, fanáticos amadores com explosivos nos bolsos e maldade nos olhos; enjoados da indiferença recebida da comunidade internacional, especialista em expressar preocupação e esboçar resoluções mas, covarde em reforçar qualquer coisa sobre a qual chega a acordo; estamos enjoados e cansados de viver esta vida de merda, sermos aprisionados por Israel, espancados pelo Hamas e completamente ignorados pelo resto do mundo.

                              Existe uma revolução a crescer dentro de nós, uma imensa insatisfação e frustração que nos irá destruir a não ser que encontremos uma forma de canalizar esta energia para algo que possa desafiar o estado actual das coisas e nos dê algum tipo de esperança. A última gota que fez os nossos corações tremerem com frustração e sem esperança foi lançada no dia 30 de Novembro, quando oficiais do Hamas chegaram ao Fórum juvenil Sharek, uma organização de jovens (www.sharek.ps), com as suas armas, mentiras e agressividade, expulsando todos, prendendo alguns e impendindo a  Sharek de funcionar. Alguns dias mais tarde, manifestantes em frente à Sharek foram agredidos e alguns presos. Nós estamos realmente a viver um pesadelo dentro de um pesadelo. É difícil encontrar palavras para a pressão a que estamos sujeitos. Mal sobrevivemos à Operação Cast Lead na qual Israel, de forma bastante eficaz, nos bombardeou violentamente, destruindo milhares de casas e ainda mais vidas e sonhos. Eles não se livraram do Hamas, como pretendiam, mas assustaram-nos sem sombra de dúvida e espalharam a síndrome de stress pós-traumático por todos, como se não houvesse para onde fugir.

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