Arquivo de Categorias: Apontamentos

Humor e resistência

Conta o ator e apresentador australiano Ben Lewis que uma das fontes das quais se serviu para escrever «Foice e Martelo», um divertidíssimo livro sobre o manancial de piadas que circularam à socapa por todo o leste europeu antes da queda do Muro de Berlim (edição portuguesa da Guerra & Paz), foi «1001 Anedotas», volume da autoria do professor eslovaco Jan Kalina publicado em 1969 na cidade de Bratislava. Nele se compilavam pequenas histórias que corriam nos países do «socialismo realmente existente» satirizando os vícios dos regimes de partido único e dos seus burocratas. Vale a pena retomar a pequena história desta obra e dos efeitos que ela teve na vida do seu autor. (mais…)

    Apontamentos, Democracia, Devaneios, História, Leituras

    Sonho diurno

    Vivemos um tempo no qual o sonho é geralmente desvalorizado. Não me refiro à experiência particular da imaginação, nascida no inconsciente e intensamente vivida enquanto dormimos, que continua a povoar as longas noites nas quais procuramos descansar o corpo, mas antes a esse «sonho diurno» do qual falava o filósofo Ernst Bloch. Esse nascido da nossa capacidade parar fantasiar, para desenhar aquilo que aparentemente não é desenhável, que continua a alimentar a dinâmica das grandes utopias. Estas, sim, têm sido menosprezadas, relegadas pelos meios de comunicação de massa – hoje as mais importantes máquinas de produção e de mascaramento da realidade – para o reino das irrelevâncias que desencaminham as sociedades e lhes conferem um excesso, tido como «não rentável», de humanidade. (mais…)

      Apontamentos, Direitos Humanos, História

      O poder das palavras

      Nas últimas linhas de um dos derradeiros textos que ditou para a New York Review of Books, quando as palavras ainda lhe corriam fluídas pelo cérebro enquanto sentia já dificuldade em pronunciá-las com a clareza que sempre procurou, Tony Judt reflectia sobre os problemas da comunicação contemporânea: «Se as palavras se deterioram, o que poderá substituí-las? Elas são tudo aquilo que nos resta.» Não se referia, porém, ao seu problema pessoal, ao fim à vista da sua capacidade para comunicar, que sabia irrevogável: no artigo «Words» falava principalmente da preocupação com o recuo do antigo modelo de educação humanista, que tanto tem vindo a ser desacreditado pelos arrogantes campeões do «saber técnico». Falava da perda de voz dos que usam a língua, central nesse modelo que formou o seu e o nosso mundo, para conhecer sem coacções, para ocupar os espaços públicos do debate, para transformar a controvérsia num factor de dignidade e de liberdade. Falava da perda do lugar central da «fala pela fala», como processo de aproximação e de verdadeiro conhecimento. Dessa perda que, neste tempo que promove o triunfo do prático, do lógico, do eficaz, do «útil», muitos de nós sentimos, todos os dias, com dor e com preocupação. Dessa perda que Tony Judt observava mesmo em lugares, como as universidades, originalmente concebidas justamente para impedi-la de ocorrer: «A “profissionalização” do discurso académico – e a deliberada apreensão por parte dos humanistas da segurança da “teoria” e da “metodologia” – favorece o obscurantismo.» Judt via nas palavras, no uso e no abuso das palavras, na sua troca sem compromissos, o espaço ideal de resistência perante a incompreensão e o individualismo impostos pela falta de vozes críticas ou pelo ruído daquelas que tanto falam e nada dizem.

        Apontamentos, Atualidade, Opinião

        O «pessoal do óleo»

        A meu ver, não é especialmente grave que uma pessoa chamada Cristina Espírito Santo, ao que consta filha de um administrador do BES, desconhecida fora do seu círculo familiar e dos restritos ambientes mostrados pelas revistas de sociedade, tenha dito ao Expresso que passar umas férias um bocadinho mais simples na herdade da Comporta «é como brincar aos pobrezinhos». Pronunciar-se uma frase como esta, em público ou mesmo em privado, só atesta estupidez, insensibilidade e, já agora, mau-gosto também. E disso encontramos nós todos os dias quando folheamos os rostos ultrabronzeados, os blazers com monograma e as bolsas Michael Kors que ilustram os magazines ocupados com o nosso suposto jet-set. O grave, grave mesmo, é intuir-se daqui que alguém, algum dia, na sua infância brincou mesmo «aos pobrezinhos». É uma frase como essa sinalizar uma atitude, construída desde pequenino, de menosprezo real por aqueles que não fazem parte do círculo de privilegiados dentro do qual vive. E dos quais geralmente depende, aliás, o próprio conforto. (mais…)

          Apontamentos, Direitos Humanos, Memória, Olhares

          Regresso a Nostalgia Futura

          Nostalgia Futura

          Durante algum tempo mantive um outro blogue pessoal. Nostalgia Futura foi, desde o início, um espaço diferente deste. Aparentemente menos associado à actualidade política e mediática, tratava-se de um bloco de apontamentos pessoais, contendo memórias, fragmentos de livros, poemas, diálogos, vídeos, músicas, frases soltas outras miudezas. Retomo-o agora como espaço para respirar fora das urgências deste ciclo infernal para o qual fomos empurrados. A proposta permanece a mesma: trilhar, sem compromissos mas com uma missão, «rotas próximas, paisagens à parte, como no cinema». Está aqui mesmo.

          [Naturalmente, A Terceira Noite manterá o seu próprio caminho.]

            Apontamentos, Oficina, Olhares

            Carros franceses

            Numa das conversas de teor autobiográfico com Timothy Snyder que fazem parte de Pensar o Século XX, um dos seus últimos livros, Tony Judt, educado principalmente em Londres, falou a dado momento da sua relação familiar com a França e com os carros franceses. O seu pai era um grande apreciador da marca Citroën, por motivos que só mais tarde compreendeu: os fundadores da marca eram, como os pais do historiador, de origem judia. Por outro lado, o velho Joe Judt não se inibia de dizer que jamais conduziria um Renault, uma vez que Louis Renault fora um colaboracionista, simpatizante confesso do regime de Vichy, tendo por isso visto a firma ser nacionalizada quando da Libertação. Quanto aos Peugeot, eram olhados com alguma indiferença mas sem animosidade, uma vez que eram de linhagem protestante e não estavam por esse motivo implicados no antissemitismo católico da França de Pétain. O que Tony Judt nunca terá sabido foi da influência de um veículo Citroën – o nefando BX com o qual em 1985 chegou ao Congresso do PSD na Figueira da Foz – na desastrosa ascensão ao poder, em Portugal, de Aníbal Cavaco Silva. Homem inteligente e de esquerda como era, se o soubesse talvez aceitasse contrariar o gosto paterno.

              Apontamentos, Atualidade, Devaneios, Olhares

              Como viver sem otimismo?

              O pessimista. Img. de Elif Sanem Karakoç
              O pessimista. Fot. Elif Sanem Karakoç

              Em 1949 a terra ainda estava empapada de sangue e cheirava a pólvora. As recordações dos que haviam sobrevivido à Guerra continuavam, como continuariam por muitos anos, a preencher-lhes as insónias sacudidas pelo eco das bombas e das botas militares. Alguns chegaram mesmo a dizer que já não eram capazes de se adaptarem ao sossego da paz. Quando, nesse ano, Adorno falou da impossibilidade de escrever poesia depois de Auschwitz – podia ter falado de compor uma sinfonia, de pintar um quadro, de realizar um filme, de olhar o futuro na plenitude da esperança – referia-se ao desespero que nos assola e derruba depois de olharmos o horror mais indizível. O filósofo poderia ter perguntado ainda se seria possível comer, rir, trabalhar ou amar, conjeturando sobre se algum desses gestos valeria a pena. Deixando no ar que não, que não valeria, e empurrando-nos para o fundo mais fundo do desalento. (mais…)

                Apontamentos, Democracia, Opinião

                Outra escola

                Jacques Delors
                Jacques Delors

                Vi e ouvi com atenção e algum respeito a entrevista que, na noite desta sexta-feira, Adriano Moreira, um homem de direita mas um sábio, concedeu à SIC. Independentemente da lucidez da análise – e até da sua justeza, nomeadamente quando criticou a incapacidade do governo atual para ter uma política externa mais consentânea com a defesa firme da soberania («O poder da voz não é para ser usado onde a voz tem poder?») – impressionou-me a estirpe de político em vias de extinção que este veterano de 90 anos representa. Teve, como tanta gente, manchas pesadas no percurso – e foi até o jovem ministro do Ultramar de Salazar no primeiros anos da Guerra Colonial – mas é um bom exemplo do que nos podia oferecer a velha escola desses políticos de visão panorâmica que dificilmente encontramos hoje.

                Não contou para eles o terem sido formados em técnicas de contorcionismo, retórica e amiguismo nas juventudes e nos aparelhos partidários, ou nos gabinetes das comissões concelhias e das autarquias, mas o facto de serem homens de cultura, de leituras profundas, com vasta formação académica e experiência de vida que lhes permitia ver mais longe e mais fundo, usando a história, a estratégia, o conhecimento do humano, a política de longo alcance como instrumentos de orientação, que depois a inteligência e o carisma completavam. Faz-nos falta gente desta qualidade. Que não fala de ouvido e tem um desígnio. Da qual podemos discordar justamente porque nos pôs a pensar. Que nos ajuda a pensar porque não diz o que se espera, mas aquilo que poucos vêem. Mesmo quando estamos quase sempre no lado oposto ao da sua barricada.

                  Apontamentos, Atualidade, Olhares

                  «Per’aí!»

                  Estamos já, aqui no retângulo, bem entrados no âmago da fase «Per’aí!». Depois de duas horas passadas a ver na televisão debates sobre a atual situação política, pode concluir-se que, independentemente do quadrante a que pertencem, todos os comentadores seguem a mesma linha de raciocínio. Dispõe-se ela por sete etapas, sucessivas e muito rápidas, que passo a enumerar.

                  1º) Faz-se a arqueologia da crise, que remonta aos tempos remotos (há 17 dias já, repare-se bem!) em que Vitor Gaspar escreveu uma carta de demissão; 2º) Resume-se o último discurso de Aníbal António Cavaco Silva; 3º) Colocam-se os diversos cenários plausíveis para uma solução minimamente racional do imbróglio causado pelo mesmo Aníbal António; 4º) Conclui-se rapidamente que nenhum desses cenários é certo e seguro («salvo seja»); 5º) Diz-se porém «a não ser que…» e avança-se com uma ideia mais ou  menos estapafúrdia; 6º) Breves instantes de risota geral e vários encolher de ombros; 7º) Finalmente, alguém ergue um dedo e diz «Per’aí!», concluindo, com o aplauso geral, que a tal ideia estapafúrdia até pode vingar. «A não ser que…», naturalmente. E tudo recomeça no debate seguinte.

                  Uma conversa de manicómio ao pé disto será sempre qualquer coisa de tremendamente enfadonho e carente de uma dose razoável de imaginação delirante.

                    Apontamentos, Atualidade, Devaneios

                    Convicções

                    Por uma destas tardes, enquanto fazia algumas arrumações domésticas, revi um episódio contado por João Bénard da Costa num recorte do antigo diário Independente. O semanário, acessível nos arquivos, que nos lembra os longínquos dias em que pairava sobre o Portugal pós-revolucionário a ideia de que era possível ver uma direita jovem, culta e inteligente a nascer do nada. Contava-se nesse recorte que na noite de 17 de Maio de 1945, quando no cinema Politeama o filme Casablanca estreou em Portugal, no momento em que no ecrã A Marselhesa abafou Die Wacht am Rhein, o cântico alemão saído da Guerra Franco-Prussiana utilizado pelos nazis, o público lisboeta se pôs de pé, cantando também, em uníssono e alta voz, a canção que em 1796 se tornou o hino da França revolucionária e republicana. (mais…)

                      Apontamentos, Democracia, Olhares, Opinião

                      Cagliostro, o charlatão

                      Cagliostro

                      O falso conde Alessandro di Cagliostro (1743-95), Giuseppe Balsamo de seu verdadeiro nome, foi um distinto impostor, mágico e aventureiro. Filho de pobres, nascido e criado nas ruas de Palermo, viu-se forçado a fugir da Sicília após ser dado como culpado de uma série de pequenos crimes. Viajou então pela Grécia, Egipto, Pérsia, Arábia e Rodes, tendo aproveitado o périplo para estudar alquimia e a Cabala. Em 1768 encontrava-se em Roma onde casou com a (diz-se) bela Lorenza Feliciani, Serafina de petit nom. Cagliostro deambulava nessa época por muitas das maiores cidades europeias, vendendo elixires e afrodisíacos, praticando episodicamente como alquimista, fazendo-se passar por adivinho, medium e curandeiro. Nos anos que imediatamente antecederam a Revolução, era visita assídua nos palácios da alta aristocracia parisiense. A queda começou com o seu envolvimento ocasional na venda fraudulenta do diamante Necklace, tendo por esse motivo passado nove meses na Bastilha. Pouco tempo depois, em Roma, foi de novo preso, acusado por Serafina de ser herético, mágico, conspirador e impenitente maçon. Condenado à morte, viu a pena comutada em prisão perpétua no castelo de Sant’Angelo. Após uma tentativa de fuga, foi enviado para a fortaleza de San Leo, nos Apeninos, onde, praticamente esquecido, terminou os seus dias.

                        Apontamentos, Biografias, História

                        O Inspector das Tempestades

                        Henry David Thoreau (1817-1862), o poeta, o naturalista e o filósofo de Concord, Massachussetts – no tempo em que o Massachussetts era o cu do mundo e ainda por ali se mantinham visíveis e transitáveis as antigas pistas índias –, foi professor e explicador, depois fabricante de lápis, preceptor, jardineiro e agrimensor. Gostava porém, de uma forma irónica e profundamente poética, de se apresentar publicamente como «inspector das tempestades».

                          Apontamentos, Biografias, Olhares, Poesia

                          Fases

                          Nessa época era muito magro, naturalmente tímido e vagamente taciturno, e só lhe apetecia ver filmes franceses a preto e branco. De preferência com sequências filmadas em manhãs de inverno (chuvosas) e actores de estatura mediana que usassem camisolas de gola alta.

                          Originalmente publicado em Julho de 2007.

                            Apontamentos, Cinema, Devaneios, Ficção

                            O impertinente de serviço

                            George Orwell

                            George Orwell conviveu toda a vida – porque a percorreu na fase mais crítica da inquietante «era dos extremos» que preencheu a parte maior do século vinte – com a hostil incompreensão sempre dirigida aos que pensam de forma pessoal, definindo um padrão de comportamento ético avesso às absolutas certezas, à ditadura das maiorias ocasionais ou à orientação mecânica dos cata-ventos. Por isso a sua ação, as suas convicções e a sua memória foram sempre, tanto durante os anos de intensa atividade como jornalista e escritor quanto (e talvez sobretudo) após a sua morte, acompanhadas de difamações e de equívocos, certas vezes de rancores completamente insanos. Embora o tenham sido também de paixões profundas por parte de quem se foi aproximando dos ideais libertários, do amor pela humanidade do mundo e do direito ao testemunho que Orwell sempre reivindicou. Mas a semente do mal foi permanecendo: os conservadores e a direita julgaram-no e julgam-no como perigoso esquerdista, enquanto a esquerda estalinista e os «idiotas úteis», subservientes do velho Kremlin, bem como os seus esparsos herdeiros contemporâneos, o consideraram um «espião», um divisionista e um snob. (mais…)

                              Apontamentos, Biografias, História

                              Não aprender

                              «Eu sei que vocês vão primeiro, mas depois vamos nós.» Estas palavras de António José Seguro, pronunciadas ontem na convenção autárquica do PS, podem ser palavras de circunstância, um modo de incutir ânimo e confiança nos militantes, mas contêm também um sinal negativo. Tanto para quem as receba com fervor, como para quem as leia criticamente do lado de fora do partido. Elas traduzem uma estratégia de pura assunção do poder (vós ides, nós vamos, para «lá») pouco conforme com uma lógica abrangente, unitária e de revisão das caducas estratégias partidárias de assalto aos lugares da administração pública, que uma larga maioria dos portugueses exige. Um líder partidário de dimensão nacional deve congregar esforços e apontar metas ao seu próprio partido, evidentemente, mas não pode esgotar nele, nem mesmo aparentar fazê-lo, uma lógica de solução para o destino democrático partilhado por todos. Particularmente numa altura destas, na qual a fronteira que separa o país do abismo, e o Estado dos cidadãos, é ténue e perceptível.

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                                Ser solidário

                                O sociólogo Émile Durkheim falava da solidariedade como um elo moral capaz de unir os indivíduos do mesmo grupo e de funcionar como fator de coesão. Sem ela, as sociedades dissolver-se-iam e os humanos voltariam a viver em bandos, centrados na sobrevivência e numa interminável guerra de todos contra todos. Porém, ela não traduz apenas uma ética de governação que impõe a proteção dos mais fracos: integra um sentido mais completo, capaz de incluir um sentimento de proximidade, entreajuda e comunhão. Diariamente alimentado, este sentimento assegura aos diversos grupos uma lógica de autoproteção que os defende do exterior e lhes confere autonomia e protagonismo. Sob os regimes autoritários, esse dever de solidariedade foi frequentes vezes subvertido, trocado por uma escravizante diluição do indivíduo no todo. Por isso as democracias, que se desejam emancipatórias, o valorizam tanto. (mais…)

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                                  Memória do tango

                                  tango

                                  Ao ver uma pequena multidão de jovens turcos revoltosos a dançar o tango em plena Praça Taksim, lembrei-me deste post escrito há sete anos. Quando a minha e a nossa vida (e, talvez, também a deles) era um pouco menos preocupada.

                                  Por considerá-lo uma diversão imoral, em 1910 o governo argentino decidiu proibir o tango. Nessa época eram extremamente populares tangos associados a títulos másculos, como «Esta noche me emborracho» e «Metele bomba», ou então bastante ordinários, como «Tocamelo que me gusta!», «Dós sin sacarla», «Dejamelo morir adentro» e «El 69», o que não é de admirar pois o local de eleição dos tangueros e das suas acompanhantes era então a sala comum do prostíbulo. Devido àquela medida repressiva, renovada por diversas vezes até à década de 1950, muitos foram os dançarinos, dançarinas e orquestras de Buenos Aires e de Rosário que se viram forçados ao exílio, levando a música do bandoneón até Nova Iorque, Paris, Londres ou Berlim. Aí o tango foi depurado, maquilhado, transformado em espetáculo de sociedade, regressando a casa mais maduro e asseado, como «pensamiento triste que se baila». Mas jamais perdeu o odor canalha e pouco conforme a uma vida sossegada. Afinal, Carlos Gardel, El Morocho, o maior dos seus cultores, fez a maior parte da carreira cantando com uma bala alojada num pulmão, e estas coisas não se apanham com correntes de ar.

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