Uma intervenção informal, destinada a dinamizar algum debate e concebida para um público que à partida desconhecia qual fosse. Trata-se da participação no TEDxCoimbra de 19 de Outubro de 2013, onde falei sobre «A História como Futuro» (o mote do encontro era Pelo sonho é que vamos).
Fui ver Hannah Arendt, de Margarethe von Trotta. As expectativas eram moderadas: grande parte da crítica levantava sérias objeções ao filme, mas algumas das pessoas com quem tinha falado e que já o tinham visto haviam gostado razoavelmente, se não «muito». Além disso, Arendt é Arendt, a filósofa de vida arriscada e de personalidade forte que escapou à bota antissemita e no exílio americano não deixou de assumir posições incómodas contra o governo ou as verdades convenientes. Fui portanto de espírito aberto e pronto para tudo. No entanto, esse tudo revelou-se bastante dececionante. O argumento foca-se numa espécie de pedagogia da «banalidade do mal para principiantes», com alguns passos nos quais flutuam conceitos algo ingénuos e com situações completamente caricaturais. O próprio referencial histórico – apoiado nas imagens televisivas a preto e branco do julgamento de Eichmann em Jerusalém, que por acaso me recordo de ter visto em criança na televisão – é muito simplificado, não enfatizando com o devido destaque a descrição desse «estado normal de obediência» da larga maioria dos alemães ao domínio nazi que, ele sim, poderia fundamentar com maior clareza a consideração do mal como parte da vida de todos os dias, da normalidade, «banalizando» até as suas expressões mais extremas. Salvou-se a representação excecional de Barbara Sukowa, uma Hannah forte e assertiva, mas ao mesmo tempo sensível e afetiva, como o era a verdadeira. E ficou-me no ar o aroma de um passado que já não participa do mundo que agora conheço: das aulas onde era possível fumar cigarro atrás de cigarro, do ruído único e familiar da máquina de escrever, das conversas argumentadas noite fora com inteligência e paixão.
Até ao início dos anos oitenta, principalmente na Europa e nas Américas, dois setores sociais mostravam-se particularmente sensíveis aos processos de crítica e de reforma da ordem do mundo, neles jogando um papel muitas vezes decisivo enquanto forças dinâmicas dos tempos de mudança. Pela natureza da sua formação e da sua associação ao mundo do conhecimento, da dimensão essencialmente reflexiva da sua atividade, da sua natural abertura ao mundo e das suas expectativas históricas, os intelectuais – pensadores, artistas, escritores, jornalistas – e os estudantes mostravam-se mais naturalmente dispostos a intervir como fator nuclear, estímulo ou apoio no domínio da reflexão crítica, do conhecimento e da atividade cívica. (mais…)
Fragmento do notável discurso pronunciado em 10 de Dezembro de 1957, quando, de fraque alugado para a ocasião, Albert Camus recebeu em Estocolmo o Prémio Nobel da Literatura.
«O papel do escritor (…) é inseparável dos imperativos difíceis. Por definição, ele não pode colocar-se ao serviço daqueles que fazem a História. Se o fizer, ficará só e privado da sua arte. Os exércitos da tirania, com os seus milhões de homens, serão incapazes de libertá-lo dessa solidão definitiva, ainda que possam marchar ao seu lado. Já o silêncio de um prisioneiro desconhecido, abandonado à humilhação do outro lado do mundo, bastará para retirar o escritor do exílio, de cada vez que, pelo menos, este consiga, recorrendo aos privilégios da liberdade, impedir que esse silêncio permaneça ignorado, fazendo-o ecoar pelos meios que a sua arte fornece.
Nenhum de nós é suficientemente grande para cumprir uma tal vocação. Mas em todas as circunstâncias da sua vida, obscuro ou momentaneamente célebre, atirado às feras da tirania ou livre para se exprimir, o escritor pode reencontrar o sentimento de uma comunidade viva que o legitimará, na condição única de assumir enquanto puder as duas tarefas que fazem a sua grandeza: o serviço da verdade e o da liberdade. (…) Não pode acomodar-se à mentira e à servidão que, lá onde imperam, multiplicam as solidões. Sejam quais forem as nossas fraquezas pessoais, a nobreza da atividade do escritor radica-se sempre em dois compromissos difíceis de manter: a recusa de mentir sobre aquilo que sabemos e a resistência à opressão.»
Um post com quatro anos recuperado do baú das futilidades.
Quando falamos de nós próprios é difícil esquivar a insolência. Se somos demasiado benévolos parecemos arrogantes, se nos fazemos de humildes ou despretensiosos tudo soa a contrafeito. E se procuramos parecer imparciais fazemos com que a nossa vida pareça um pântano de apatia e displicência. Mas vou correr o risco de desempenhar um desses papéis dizendo que gosto de me ver como um tipo da província. A figura faz-me uns anos mais novo e deixa que me sejam perdoados erros e omissões, bem como uma ou outra quebra das regras de etiqueta. Gosto dela porque me serve de máscara e às vezes de álibi. É pois como provinciano que me repugna um tanto o jogo social que passa pela ostentação da própria singularidade. Naquela atitude a que os decadentistas franceses da segunda metade do século XIX chamavam, à época com relativa propriedade, «épater la bourgeoisie». Ora é esta rejeição visceral do poseur que me fez gostar de ter conhecido um episódio como o relatado por Enrique Vila-Matas no Diário Volúvel. (mais…)
Começou nos estádios de futebol. Depois foram os elevadores. A seguir chegou às lojas de «roupa jovem» e aos autocarros pullman de longo curso. Mais tarde aos hipermercados e aos centros comerciais. Até aí, ainda vá: aceitámos ser constrangidos a ouvir insistentemente, naqueles espaços, música de gosto duvidoso, reproduzida aos berros em lastimáveis sistemas de som. Mas se a ideia inicial era apenas «animar» os cidadãos ou embriagá-los para comprarem mais, o horror ao silêncio – tomado como expressão de um sombrio vazio que é forçoso preencher – tornou-se no presente a causa essencial do constante e frenético ruído de fundo, das vagas de alarido supostamente ritmado, intragável para quem gosta de sossego, de conversar ou apenas de ouvir música com qualidade estética, equilíbrio acústico e adequada às circunstâncias.
Agora entramos em cafetarias de museu, galerias de arte ou livrarias, espaços tradicionalmente reservados – mas a tradição já não é o que era, bem sei – à reflexão e ao alimento do espírito, e temos de ouvir «Apache», o velho tema dos Shadows, em versão-sucedâneo de Waldo De Los Rios ou de Ray Conniff & His Orchestra and Chorus. Ou então antigas canções dos Creedence Claearwater Revival passadas de forma aleatória. Ou ainda decrépitas antologias de b-sides da Tamla Motown e temas esquecidos do Top of the Pops. É demais. Apetece perguntar: para quando drum’n’bass nas repartições de finanças? E quando teremos techno ou trance com a amplificação no máximo nos cemitérios? Para animar os cidadãos mais sorumbáticos e introspetivos, claro. Os utentes sempre poderão seguir o ritmo e esquecer-se de que estão a matá-los. Ou mesmo de que já estão mortos.
À medida que vamos avançando no nosso próprio roteiro, cresce o número dos que vão morrendo e com eles levam uma parte de nós. Não acontece só com os familiares mais chegados, os amigos queridos, as ex-namoradas, os colegas de todos os dias, os rancores mal resolvidos, aqueles que foram parte mais ou menos sólida do nosso universo. Acontece também com os que, à distância, sem o verem, sem o suspeitarem, ajudaram a alimentar a fábula da nossa existência. De cada vez que partem, já se sabe, levam sem devolução possível alguma coisa nossa. Sem Lou Reed, a minha perfeição dos dias jamais será a mesma.
Não se percebe qual o espanto por os serviços secretos americanos terem escutado conversas telefónicas mantidas por diversos líderes europeus. Como o terão feito com dignitários asiáticos, dirigentes africanos ou governantes sul-americanos. Pelo menos. Tal como as autoridades inglesas, francesas, alemãs, israelitas, iranianas, russas ou chinesas espiam e escutam toda a gente que conta para as suas contas. E mais alguma por atacado, para o que der e vier. Isto faz-se, com o devido distanciamento tecnológico, pelo menos desde o aparecimento dos Estados. Aliás, só mesmo se fossem completamente incompetentes é que o não fariam. Os trejeitos de contrariedade de Frau Merkl são mero teatro e a indignação hiperfocada em Obama não cola aqui.
Este blogue tem estado completamente parado nas últimas duas semanas. E bem pouco movimentado a partir de Agosto. Mais tempo de lassidão, bem mais, do que alguma vez aconteceu desde que abriu as portas nos inícios de 2006. Por nenhuma razão particular: só, só mesmo, alguma falta de tempo e curtos desvios por outros caminhos. Mas está de volta ao ativo como quem nunca saiu daqui.
Todos temos, daquela fase da vida que medeia entre os 6 e os 12 anos, lembranças ténues, esparsas e invariavelmente aleatórias. Nada recordamos de factos reconhecidamente importantes – um exame decisivo, o passamento de um familiar, o primeiro devaneio vagamente amoroso – e, de repente, percebemos que alguma coisa na qual ninguém mais reparou, insignificante para os outros mas para nós decisiva, ficou cravada na memória que nos cabe. Perfazem-se hoje exatos 50 anos sobre o desaparecimento de Edith Piaf e lembro-me muito bem da estrada do norte, da paisagem húmida e verde, sobre as quais, sentado no banco de trás do Volkswagen carocha, pude ouvir na rádio em onda média a notícia da sua morte. Logo seguida da passagem desse hino à vida, tão pessoal e triste e redentor, que é «Non, je ne regrette rien». Com a idade que tinha, não conhecia uma palavra de francês, não sabia que a Piaf falava da vida vivida, mas julgo ter sido aquela a primeira vez que percebi, de uma forma silenciosa mas inesquecivelmente intensa, que a presença de alguém nem sempre se dissolve com a sua morte.
A partir do blogue 1 dia atrás do outro cheguei à imagem que acompanha este post. Trata-se do exterior de um banco brasileiro em Manaus. Cito: «Os sem-abrigo costumavam abrigar-se ali do sol e da chuva. O banco acabou com o “abuso” (se é sem-abrigo não se pode abrigar, ora essa) mandando colocar pedras pontiagudas no passeio.» Segue-se a descrição ilustrada de um caso análogo, ocorrido com uma agência local do BBVA. Não se trata, porém, de situações raras, casuais, esporádicas, mas de um sintoma, de uma tendência, que representa algo de avassalador para a experiência do mundo, pelo menos do mundo «desenvolvido» num processo de respeito consensualizado pelos direitos humanos mais elementares, tal qual ainda há menos de uma década o podíamos entender. (mais…)
Mais que qualquer outra cidade portuguesa, a meio de setembro Coimbra reanima-se com o regresso às aulas. É verdade que já não se nota tanto a diferença, ainda percetível há uma vintena de anos, entre o deserto que eram as férias do verão e o movimento que depois delas ia lentamente regressando. Muitas coisas mudaram entretanto: o número de residentes disparou mas o dos alunos universitários manteve-se idêntico, e o crescimento da classe média, dos serviços, do comércio e do turismo fez com que a urbe passasse a depender menos dos estudantes. A própria vida universitária sofreu uma mudança, ampliando-se a rede de vivências e de relações com outras regiões e tornando-se menos exclusiva a ligação dos universitários com a cidade. No entanto, quem nela mora ou frequenta as suas áreas mais ocupadas pela vida estudantil continua a dar conta de que, de repente, quando o verão se aproxima do fim, há um novo ruído no ar e ocorre uma metamorfose da paisagem humana. (mais…)
Qualquer professor, independentemente do grau do ensino no qual exercita a profissão, depara-se a todo o instante com problemas da comunicação associados a erros do português escrito, alguns deles crónicos, que os seus alunos cometem. Quem andasse distraído poderia, no entanto, pensar que no ensino superior essa praga – que tanto deforma os textos e prejudica a sua clareza – se sentiria bastante menos que noutros graus de ensino, mas os últimos anos, e os últimos cinco ou seis em particular, terão servido para desfazer tal ideia. Lemos agora relatórios, trabalhos, testes escritos, e-mails dos alunos, nos quais as palavras incorretamente escritas, a par de uma sintaxe cada vez mais trôpega ou simplificada, por vezes inadequada ao padrão de discurso no qual se está a procurar comunicar, representam um verdadeiro tormento, prejudicando a expressão fluida mas rigorosa do conhecimento. (mais…)
António Guerreiro escreveu há dias numa crónica para o Ípsilon, que «o analfabetismo funcional, próprio das classes baixas», é agora «parte da panóplia de atributos das chamadas elites». É verdade que Guerreiro se serviu da frase para tratar um tema muito objetivo – o significado simbólico do padrão de linguagem utilizado nas caixas de comentários das edições online dos jornais – tendo em conta a incorporação, por parte de certos responsáveis editoriais, de alguns dos valores, dos códigos e das palavras utilizados por pessoas maioritariamente semiletradas e sem grande capacidade analítica. Intervindo naqueles espaços, elas têm agora direito a uma palavra que ali lhes estava vedada, a um espaço que não fazia parte do seu universo de comunicação, rebaixando ou impedindo qualquer debate mais complexo e fundamentado. Vou servir-me da ideia ampliando o seu alcance como chave interpretativa de uma outra situação. (mais…)
Hoje passeava por um lugar público quando ouvi diluído, saído de algures entre ruídos vários e dispersos, um fragmento de um velho tema de Francis Lai. Aquele murmurado por Claudine Longet e usado por Claude Lelouch em Un Homme Et Une Femme. E por instantes realizei a falta que me fazem, que nos fazem, os grandes «temas de filmes» que empurravam o argumento bem para fora da sala escura. Tornando-nos cúmplices, intérpretes e legatários de cada história inacabada.
O Tribunal Constitucional fez aquilo que tinha de fazer para ser coerente com os seus objetivos e processos de funcionamento: votou com base numa interpretação razoável dos termos da chamada lei da limitação de mandatos. Por isso, dado ser esta claramente insuficiente e ambígua, o ónus da culpa lançada sobre aquilo que de mau ela irá ajudar a conservar no funcionamento do poder autárquico pesará diretamente sobre as costas do legislador. E também sobre os partidos (no caso, PSD e PCP) que tudo fizeram para que vingasse a interpretação que vingou. O PCP chegou mesmo a comentar, já depois da votação do TC, que «ganhou a democracia», escudando-se na defesa dos direitos democráticos dos candidatos crónicos como se falássemos apenas de santos servidores da coisa pública e não de eventuais, ou por vezes certos e seguros, pecadores. (mais…)
À medida que nos aproximamos das eleições autárquicas, áreas nucleares da paisagem urbana de cidades e vilas – as suas praças e rotundas, as principais vias de acesso, os espaços de utilização comunitária – estão a ser ocupados por gigantescos cartazes de propaganda das candidaturas. Herdeiro do antigo design construtivista russo e da escola da Bauhaus, o cartaz sobreviveu à manipulação pelos regimes totalitários e ao surgimento das novas técnicas de comunicação oferecidas pela televisão e pela Internet, sendo profusamente utilizado pelas democracias. É fácil perceber porquê: sob a forma de outdoor é um instrumento de acesso fácil, impõe-se por si mesmo e não precisa ser descodificado, integrando slogans de captação rápida, otimizados para ficar na memória de quem os observa num piscar de olhos ou em movimento. (mais…)
Resulta sempre difícil defender a liberdade da crítica e lamentar ao mesmo tempo o uso que dela é feito em determinados espaços de comunicação. Mas existe uma diferença muito grande entre aceitar as opiniões dos outros, por mais avessas que elas possam ser às nossas próprias convicções, uma diferença entre defender o direito à expressão de quaisquer pontos de vista, e admitir que tal seja feito recorrendo a meios de comunicação que, pelo seu prestígio e alcance, legitimam a incoerência dos argumentos e mascaram a falsidade ou a desonestidade das afirmações. (mais…)