Arquivo de Categorias: Apontamentos

Palavras em luta

Fotografia de Enrique Jardim
Fotografia de Enrique Jardim

A propósito do projeto de resolução do Bloco de Esquerda que visa sugerir uma designação mais inclusiva para o Cartão de Cidadão, tenho lido e escutado posições que me têm deixado estarrecido. Muitas chegam de pessoas de quem gosto, com quem partilho muitas opiniões, e que considero sensíveis, sensatas e inteligentes, mas que neste caso mostraram um lado intempestivo e desnecessariamente agreste que desconhecia, colocando-se até ao lado de gente de quem em regra se distanciam. Desde logo pelo tom agressivo e liminarmente depreciativo – porquê tanto fel e sarcasmo por uma matéria destas? –, mas também pela natureza meramente reativa e não racional de alguns dos argumentos e comentários utilizados. (mais…)

    Apontamentos, Democracia, Olhares, Opinião

    Banana

    Velvet Underground

    Alguém insinuou que estava a mentir quando, a meio de conversa sobre o modo como na década de 1960 os jovens portugueses de classe média se dividiam entre adeptos dos Beatles e fãs dos Rolling Stones, disse que era antes seguidor dos Velvet Underground. Que não podia ser, e tal, porque a música deles ainda não chegara cá. Que sim, disse eu, porque ia todos os dias à missa. Isto é, ouvia religiosamente o programa Em Órbita, no Rádio Clube Português, e este, pioneiro contumaz da música moderna, passava regularmente a banda nova-iorquina fundada em 1964 sob os auspícios de Andy Warhol. E assim era. Este sábado, 16 de Abril, até se perfazem 50 anos sobre o início da gravação do seminal The Velvet Underground & Nico. Quase toda a gente sabe qual é: aquele álbum “da banana”, reunindo Lou Reed, John Cale, Sterling Morrison, Maureen Tucker e, claro, a inefável Nico. 50 anos, com mil diabos.

      Apontamentos, Artes, Memória, Música

      Dias de folga

      Creio que não tem sido dada completa importância ao que representa, no plano social, a recuperação dos quatro feriados e «dias santos» que a Assembleia da República aprovou durante esta semana. Insistiu-se sobretudo na dimensão cívica e religiosa das datas em causa, em particular a propósito do 5 de Outubro e do 1º de Dezembro, e na forma como a sua recuperação tem um importante valor político e simbólico. Falou-se também de como a sua eliminação pelo governo anterior foi uma decisão fútil, sem verdadeira utilidade económica. Tendo até, ao contrário do que na cegueira administrativista que a caraterizou a anterior maioria supôs, sido prejudicial para a fluidez do consumo. (mais…)

        Apontamentos, Atualidade, Democracia, Direitos Humanos

        Cozido «à angolana»

        Isto vem a propósito de nada. É apenas um episódio quase divertido que nunca contei em público e hoje resolvi partilhar. Lembrei-me dele quando, ao almoço, fui atendido, num balcão de self-service, por uma mulher africana, muito simpática e sorridente, com fortíssimo sotaque caluanda, vestindo uma t-shirt azul-escura com o dizer «cozinha portuguesa» desenhado a letras que um dia tinham sido alvas. A memória deu então sinal de si e um pedaço de passado tomou a palavra. (mais…)

          Apontamentos, Devaneios, Memória, Olhares

          Metamorfoses

          Fotografia de Paolo
          Fotografia de Paolo

          Perante a possibilidade de um governo de esquerda, tem sido, por muitos dos políticos e comentadores que o contestam, invocada como um espetro e reiterada como um mantra a hipótese de regressarmos ao ambiente, aos desígnios e aos conflitos vividos no período, inevitavelmente agitado como o são todos os tempos de revolução, de 1974-1975. Para quem não o faz por cegueira ou por ignorância, essa aproximação só pode ser determinada pelo oportunismo e pela demagogia, e é tão facilmente refutável quanto rapidamente redutível a zero. A realidade é outra, o contexto internacional é diverso, os protagonistas são diferentes, o tecido social mudou, os partidos também foram mudando, e por aí adiante. E o tempo jamais volta para trás. A tal respeito, a conversa pode ficar por aqui e não vale a pena gastar muito mais latim. (mais…)

            Apontamentos, Democracia, Opinião

            Catalunha, 27

            LLUIS LLACH, 2015
            LLUIS LLACH, 2015

            «Si estirem tots, ella caurà / i molt de temps no pot durar, / segur que tomba, tomba, tomba / ben corcada deu ser ja.  // Si jo l’estiro fort per aquí / i tu l’estires fort per allà, / segur que tomba, tomba, tomba, / i ens podrem alliberar.» (Lluis Llach, em L’Estaca, 1968)

            Este domingo, 27, é muito provável que os adeptos da independência vençam as eleições autonómicas na Catalunha. Por cá, o tema passa bastante ao lado do interesse público. No passado, quando Franco governava a Espanha «por la gracia de Dios», o apoio aos independentistas – fossem eles catalães, galegos, bascos, andaluzes, valencianos ou outros – era para bastantes portugueses inquestionável. Defender a democracia, era defender a emancipação da tutela de Madrid, logo significava uma posição contra a ditadura e os seus aliados. Salazar, por exemplo. Aliás, esse era um tempo de emancipações, no qual «o direito de cada povo a seguir o seu próprio destino» surgia, para muitos, entre os quais eu me contava, como inquestionável. Tínhamos aliás uma dívida de gratidão: em 1640, fora a revolta da Catalunha que permitira aos portugueses ter uma frente de guerra menos desfavorável e assegurar, após 28 anos de combates, a restauração da independência. (mais…)

              Apontamentos, Atualidade, Olhares, Opinião

              Hoje, a Grécia

              Neste domingo, 20, parece que decorrerão eleições legislativas na Grécia. Digo «parece» porque o assunto desapareceu praticamente dos nossos noticiários, dos títulos dos jornais, dos debates, dos murais do Facebook. Sabemos do caráter efémero que hoje tomam todas as novidades, do justo destaque dado à crise dos refugiados e, no caso português, do inevitável desvio dos olhares suscitado pela campanha eleitoral. Mas já custa entender o desinteresse e o silêncio de muitas das pessoas que ainda há menos de dois meses se inflamavam a defender e a explicar a experiência grega protagonizada pelo Syriza. (mais…)

                Apontamentos, Atualidade, Democracia, Opinião

                A «esquerda trabalhista» e nós

                Se excluirmos o PCP, que não embarca facilmente em devaneios, desde há décadas que a esquerda portuguesa mantém, em relação ao Labour britânico, uma posição de simpatia e expectativa. A proximidade do PS é natural: afinal, existe uma matriz social-democrata comum, indiretamente ancorada na velha II Internacional, tal como existe uma deriva partilhada em relação à prevalência dessa matriz ou à sua exclusão. Lembro que a emergência da Terceira Via e de Tony Blair reuniu, no PS português, muitas vozes entusiásticas – enfim, tanto quanto os seus prosélitos se conseguem entusiasmar – e outras claramente críticas. Já a «esquerda mais à esquerda», nas suas diferentes modalidades e variantes orgânicas, desenvolveu uma atitude menos ambígua. Recusando, naturalmente, as direções do Labour, ao contrário do que aconteceu em relação à realidade política espanhola, francesa, italiana, alemã ou grega, não procurou na Grã-Bretanha a fraternidade exemplar de movimentos «irmãos», fixando-se, por longos anos, numa quase-mítica «esquerda do Partido Trabalhista». Vista sempre, com esperança e afeição, como a guarnição do Cavalo de Tróia pronta a tomar a fortaleza. (mais…)

                  Apontamentos, Atualidade, Memória, Opinião

                  A campanha «da confiança»

                  A que propósito alguém que não é eleitor do Partido Socialista, discorda de muitas das suas escolhas passadas e presentes, suspeita de posições publicamente assumidas (em casos excepcionais até da idoneidade democrática) de vários dos seus responsáveis nacionais e locais, e para mais é candidato nas listas de uma força política concorrente às eleições de 4 de Outubro, se preocupa com a desastrosa pré-campanha que os socialistas têm vindo-a desenvolver? Tenho uma resposta simples: não me é indiferente, nem me parece que possa ser indiferente à maioria dos portugueses, e à esquerda política em particular, que o PS perca as eleições para a direita. Sabendo que não existe alternativa no que diz respeito à vitória nas urnas neste Outono e à constituição de um novo governo, prefiro Costa a Passos como primeiro-ministro de Portugal. Ainda que, se necessário for, cá esteja depois – e provavelmente estarei – para me opor às escolhas das quais discorde que nessa qualidade venha a procurar impor. Dizer o contrário é prova de cegueira, própria de quem, embarcado na sua arca de Noé, não se importe que rompa o dilúvio. (mais…)

                    Apontamentos, Atualidade, Democracia, Opinião

                    Svetlana

                    Svetlana Boym

                    Acaba de desaparecer prematuramente, aos 49, a professora, escritora e artista multimédia russo-americana Svetlana Boym. Empenhou-se particularmente num trabalho caleidoscópico capaz de cruzar utopia, kitsch, literatura, história, memória e modernidade. Os dois livros que dela li e reli – The Future of Nostalgia, sobre o passado que se ergue das ruínas recentes de Moscovo, Berlim ou Praga, e Another Freedom, uma história alternativa da ideia de liberdade – foram uma descoberta e um estímulo.

                      Apontamentos, Biografias, História, Memória

                      Ana Hatherly

                      Ana Hatherly

                      Ana Hatherly (1929-2015) morreu esta quarta-feira, 5. Escritora, poeta, artista visual, professora e outras coisas mais. Conheci-a por interposto livro quando, provavelmente por causa do título, aos dezassete comprei o Eros Frenético em edição da Moraes. Fisicamente cruzámo-nos poucas vezes, e apenas uma com mais tempo. Quando no início dos anos 80 me lancei, sozinho e a contracorrente, a estudar a dimensão visual e feérica do barroco sob a perspectiva da história política, foi das pouquíssimas pessoas do meio universitário português com quem falei do assunto que não achou o tema exótico nem me disse para “ter cuidado” com ele, estimulando-me a continuar e propondo-me mesmo colaborar na sua revista Claro-Escuro. Nunca lhe falei do conforto que então me ofereceu esse seu estímulo. E agora é tarde para fazê-lo pessoalmente.

                        Apontamentos, Biografias, Memória

                        O viajante equivocado

                        Ao contrário dos guias turísticos oficiosos, organizados para impor, como um produto, uma leitura uniforme dos lugares e dos comportamentos daqueles que os habitam, os relatos de viagem, principalmente aqueles escritos pelos viajantes solitários, são sempre desordenados, tendenciosos, plenos de enganos. Observam apenas o que é dado a ver aos seus autores a partir de escolhas forçosamente pessoais e aleatórias, das circunstâncias móveis de uma presença que é fugaz, das trajetórias escolhidas em função daquilo que pode observar quem se desloca por sua conta e risco, sem roteiro estabelecido.

                        Este é o aspeto tomado pelos registos nos quais o poeta e viajante escocês Kenneth White (n. 1936) tem vindo a narrar as suas experiências de observação «geopoética» – a um tempo territorial, filosófica e poética – aplicadas aos lugares que entendeu percorrer à sua maneira. Sempre com a certeza de que «o nómada não segue para qualquer lugar», pouco lhe importa o fim, o destino, mas sim a experiência irrepetível do próprio movimento. Aquilo que apenas ele vê. Não deixa, apesar disso, de surpreender a descrição que faz de Portugal num capítulo do seu livro Across the Territories. (mais…)

                          Apontamentos, Devaneios, Olhares

                          Fumador, mas não perverso

                          J.-P. Léaud em Antoine et Colette, de Truffaut
                          J.-P. Léaud em Antoine et Colette, de Truffaut

                          Sou, sempre fui, aquilo a que se chama um fumador moderado. Não sorvo o fumo – o meu pai, que consumia dois maços por dia e a última coisa que me pediu, dois dias antes de morrer, foi um cigarro, fazia aliás a mesma coisa – e, talvez por isso, sou capaz de passar vários dias sem exercer. Sendo para todos os efeitos um fumador, respeito no entanto os direitos daqueles que o não são, e desde cedo me habituei a perguntar a quem de mim perto estivesse, numa sala, num restaurante ou numa carruagem de comboio, se o meu fumo incomodava. Quando respondiam afirmativamente, nem pensava mais no assunto. Aceito, aliás, algumas das restrições que entre nós entraram em vigor no início de 2008, destinadas a proteger os não-fumadores e a reduzir o consumo do tabaco. (mais…)

                            Apontamentos, Atualidade, Memória, Olhares

                            Corpo, cabeça e cauda

                            Fotografia de Yannis Behrakis
                            Fotografia de Yannis Behrakis

                            Publicado originalmente no blogue Observatório da Grécia

                            Há trinta anos, quando Mário Soares assinou nos Jerónimos o tratado de adesão de Portugal à CEE, era habitual a imprensa nacional fazer comparações com a Grécia para tentar identificar qual dos dois Estados se situava, como então se dizia e repetia, «na cauda da Europa». O processo decorria como numa corrida de estafetas, pois a cada momento, de acordo com as circunstâncias e os indicadores escolhidos, um deles superava provisoriamente o outro.

                            A absurda competição – desconheço se entre os gregos ela teve também lugar – impunha, de acordo com um raciocínio viciado que ainda não desapareceu de todo, a depreciação sistemática dos números apresentados pelos nossos concorrentes, no sentido de mostrar que, se nos mantínhamos longe dos «países desenvolvidos», a verdade é que tínhamos iniciado um processo que conduziria mais cedo ou mais tarde a entrar no seu clube de elite. Deixando aos gregos a triste sina de se manterem afastados dessa dose certa de desenvolvimento e prosperidade que configuraria aquela que um dia Hegel considerou a etapa perfeita e terminal da História. (mais…)

                              Apontamentos, Atualidade, Democracia, Memória

                              Escrever é difícil, a vida também

                              Imagem Lloyd Hughes

                              Há algumas semanas, quando consultava uma pasta de folhas datilografadas contendo dezenas de comunicações apresentadas em Maio de 1975 ao I Congresso dos Escritores Portugueses, surpreendeu-me – embora já para tal estivesse avisado – a multiplicidade de opiniões sobre a arte de escrever emergentes num tempo, o da nossa revolução democrática, do qual se possui por vezes uma visão demasiado simplificada. É verdade que nos debates então travados entre gente que dela fazia a sua profissão ou o seu destino surgiram juízos e propostas em apertada consonância com alguns dos fortes imperativos políticos da época. O escritor neorrealista Faure da Rosa não parecia ter dúvidas sobre o caminho que julgava dever ser percorrido: «Nada tendo de deuses, trabalhadores como os outros, a função do escritor de hoje é a de escrever para as massas.» Muitos dos presentes, embora de forma não tão simplificada, seguiram de facto o princípio de acordo com o qual a arte de pensar e de escrever deveria corresponder em larga medida à celebração de um compromisso social e político. (mais…)

                                Apontamentos, Atualidade, Leituras, Opinião

                                A fúria do cinzento

                                Nos anos 60/70, a dinâmica do parecer servia por vezes, principalmente em ambientes urbanos, para distinguir esquerda e direita. Alguns códigos do vestuário possuíam «marca de classe», ou então enunciavam condições de pertença cultural. A qualidade da roupa, mas também o seu padrão ou o uso de determinados acessórios – como o cachimbo, o isqueiro, o lenço, a pulseira ou a esferográfica – davam-lhe forma. Claro que existiam características excessivamente tipificadas, como algumas associadas a certos mitos sobre a higiene íntima, separando uma direita que podia ter a alma negra mas supostamente se perfumava de uma esquerda cheia de boas intenções para os destinos do mundo e que no entanto se presumia tresandar. Sem entrar em detalhes sórdidos, posso confirmar que por vezes a vida copiava a caricatura. (mais…)

                                  Apontamentos, Democracia, História, Olhares

                                  Quatro notas sobre o Tempo de Avançar

                                  Enrique-Vives-Rubio
                                  Fotografia de Enrique Vives-Rubio | Público

                                  Quatro curtas notas sobre o modo como decorreu a convenção da candidatura cidadã Tempo de Avançar, que durante o último sábado reuniu no Fórum Lisboa perto de 800 pessoas. O seu objetivo expresso e comum foi o de preparar uma alternativa de esquerda em condições de se apresentar às próximas eleições legislativas como escolha consistente, construtiva, autónoma e mobilizadora. (mais…)

                                    Apontamentos, Atualidade, Democracia, Opinião

                                    Talvez Natal

                                    Fotografia de Zofia
                                    Fotografia de Zofia

                                    Estamos em Dezembro e por isso na época em que se abusa do Natal, tantas vezes transformado, embrulhado em insuportáveis clichés, num tempo de hipocrisia ou de um insano consumismo. Atitudes que nada têm a ver com o sentido original do instante fundador do cristianismo e da sua mensagem de paz e humildade. Devem, todavia, evitar-se as generalizações, pois são muitas as almas, crentes ou nem por isso, que nas culturas de raiz fundacional cristã procuram observar a quadra demonstrando um genuíno cuidado para com o seu semelhante próximo ou distante. Para não falar das distantes paragens, ou dos ambientes menos observáveis à luz do dia, nos quais o momento muitas vezes serve o conforto dos fracos ou de minorias silenciadas e oprimidas.

                                    E no entanto muitos são os adeptos de um discurso autocensurado, «correto», que evitam pronunciar sequer a palavra «Natal», substituindo-a por eufemismos como «festas», «quadra» ou outros. Parece-me um processo de automutilação cultural. Sendo homem sem fé, nada me incomoda apresentar a outro, sobretudo se presumir ser alguém crente sincero de uma qualquer religião, ou que com ela conviva numa relação tranquila, os votos de um Bom Natal. Como, noutros momentos ou lugares, apresentaria os de Feliz Hanukkah, de Tranquila Hijra, de Óptima Joya Kane, de Próspero Losar, de Reconfortante Diwali. A assertividade das convicções não reside no policiamento da língua nem se alimenta da fuga ao real social. E o respeito pelo outro passa também pelas palavras que usamos para falar com ele.

                                    Feliz Natal, pois, para quem o viver ou desejar.

                                      Apontamentos, Democracia, Olhares