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O instinto

É nas épocas difíceis que mais facilmente caem as máscaras. Quando tudo se complica e a dúvida se instaura, é mais fácil mostrar aquilo que realmente somos. Nus, sem a protecção das aparências que se cultivam com maior facilidade em tempos menos rudes e opacos, tornamo-nos mais genuínos, o que geralmente significa que cresce a imprevisibilidade e o perigo diante do que somos capazes de fazer. Solitários ou em bando, é preciso que se diga. E isso percebe-se muito bem quando vemos como a maquilhagem democrática de muitos de nós se transvestiu logo que as dificuldades aumentaram dramaticamente e o rumor da legítima revolta, moral ou física, impotente ou indignada, se afigurou no horizonte.

Em quase todo o espectro partidário saltaram os disfarces. A direita que temos, «democrática» e pluralista, deixou cair a verborreia antieuropeísta e os ímpetos «nacionalistas» e ultraliberais que ainda há pouco tempo sobejavam no seu vocabulário. Activamente ou por omissão, tornou-se radical na defesa do intervencionismo externo. A esquerda à esquerda retomou alguns devaneios, queixando-se da crise mas olhando-a ao mesmo tempo como antecâmara da tomada do poder em nome da revolta das massas. Por ela, aceita mesmo associar-se àqueles que da democracia apenas têm uma concepção instrumental. Pelo meio, os socialistas tornam-se ainda mais pragmáticos, tudo fazendo, sem disfarce, para conservar o seu núcleo identitário mais essencial: aquele que gere a conservação do poder pelo poder. Lá atrás, e como sempre, só os comunistas permanecem iguais a si próprios, uma vez que nunca procuraram enganar ninguém com apologias de uma «Europa europeia» fundada numa democracia não adjectivada.

Nesta paisagem, a dificuldade está em nos mantermos lúcidos, na claridade, e não nos deixarmos levar pelos ímpetos. Uma vida melhor, mais digna e mais democrática jamais se construirá tomando a linguagem do instinto como princípio de comunicação.

    Atualidade, Olhares, Opinião

    Diógenes e a sopinha de legumes

    óculos vermelhos

    Quando passei hoje no Público pela coluna de António Vilarigues e vi o destaque – «A alternativa existe! E exige, na sua concretização, a formação dum Governo patriótico e de esquerda» – pensei logo de mim para comigo: «É hoje. Tens andado distraído mas vais finalmente perceber que coisa é essa do ‘Governo patriótico e de esquerda’ que o PCP pressagia.» Juro que fiquei na expectativa, até porque gosto sempre de aprender coisas novas e, acima de tudo, gostaria de reconhecer a possibilidade de um modelo político e económico para o meu país que não aquele que desgraçadamente nos tem vindo a ser apresentado como inevitável. No entanto, essa expectativa durou só dois minutos. A «explicação» encontra-se no parágrafo final: «Mas a alternativa existe! Uma alternativa capaz de garantir a política necessária à resolução dos problemas nacionais. E que exige, na sua concretização, a formação dum Governo patriótico e de esquerda. Governo com uma política que corresponda ao conteúdo e valor próprio da Constituição da República e dos ideais de Abril.» Sem mais, de novo. Ou seja, não existe alternativa alguma, pois ninguém percebe como chegar a tal governo, quem o constituiria e como é que ele resolveria o problema imediato da maioria dos portugueses; a saber, com que é que a partir de Junho estes vão pagar a sopinha de legumes da qual precisam para viver. Mas garanto que vou continuar a procurar – com a mesma tenacidade com a qual o velho Diógenes, de lanterna na mão, percorria as ruas de Atenas em demanda de uma pessoa honesta – a informação que me permita desfazer as dúvidas. Não quero acreditar que o PCP proponha como solução alguma coisa que não faz a menor ideia do que possa ser ou de que forma poderemos nós, ou poderá ele em conjunto com mais não sei quem, chegar a ela.

      Atualidade, Olhares, Opinião

      Zero em economia

      easy money

      Sou um ignorante chapado em ciência económica e durante muito tempo até fiz gala disso. Um tipo que gosta é das letras, das artes, de mexer em arquivos e de idear futuros, que não se preocupa em demasia com o vil metal ou com o preenchimento do IRS, dificilmente fará melhor. Deito fora os suplementos de economia sem os ler, e quando no banco me sugerem «um novo produto» digo logo que estou com pressa. Além disso, jamais confiro os trocos, mudo de canal quando aparece o Gomes Ferreira e não ligo peva aos extractos de conta. Não tenho pois grande capacidade – melhor, não tenho capacidade alguma – para observações minimamente elaboradas e de confiança sobre a evolução económica e financeira do nosso país ao longo dos últimos 37 anos. Mas sou suficientemente ingénuo, ainda assim, para atirar uma pergunta para o ar. O que terá levado as finanças públicas portuguesas ao estado pré-cadavérico em que se encontram? Foi a construção de um Estado social projectada por uns quantos nos anos 60 e lançada ao caminho após a Revolução de Abril, como insinuam a todo o instante os urubus do neoliberalismo que «analisam» a crise em curso, ou foi a edificação de um suposto oásis de dinheiro fácil, de descontrolo das despesas públicas e de crédito sem limites projectada nos «anos dourados» do teso Cavaco e do bom Guterres? Uma pergunta insensata, de ignaro, admito.

        Apontamentos, Atualidade, Olhares

        Mudança de hábitos

        Sigo o Jacques Tati de Mon Oncle numa pré-visão realista da via acelerada do meu país rumo a esse futuro próximo que podemos vislumbrar. Sem grandes exageros. Do novo-riquismo que Cavaco projectou nos anos 80 à queda numa realidade para a qual acabaram de nos projectar.

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          A cor voltou à rua

          25A

          A sequência dos dias ia desbotando a data. Há um ano escrevi aqui: «Para os filhos e os netos de Abril tudo começou a 26 com o conta-quilómetros a zeros, e por isso para poucos deles há um «Sempre!». É assim e não há que ter pena. Há que olhar para o que está para vir e o resto é memória a guardar. Quente para muitos, sem dúvida, mas para cada vez menos porque a vida não faz pausa.» Cinquenta e duas semanas depois, estas palavras parecem-me imperfeitas. De repente, diante daquilo que até há pouco parecia improvável ou impossível,  a cor viva, agora a da resistência, voltou à rua. E com ela o reforço de uma certa memória útil, de uma memória memorável.

            Atualidade, Fotografia, Olhares

            O inevitável é inviável

            Não se trata de um programa para a acção, mas sim de uma declaração de princípios. Isso faz toda a diferença e torna este manifesto particularmente importante.

            Manifesto dos 74 nascidos depois de 74

            Somos cidadãos e cidadãs nascidos depois do 25 de Abril de 1974. Crescemos com a consciência de que as conquistas democráticas e os mais básicos direitos de cidadania são filhos directos desse momento histórico. Soubemos resistir ao derrotismo cínico, mesmo quando os factos pareciam querer lutar contra nós: quando o então primeiro-ministro Cavaco Silva recusava uma pensão ao capitão de Abril, Salgueiro Maia, e a concedia a torturadores da PIDE/DGS; quando um governo decidia comemorar Abril como uma «evolução», colocando o «R» no caixote de lixo da História; quando víamos figuras políticas e militares tomar a revolução do 25 de Abril como um património seu. Soubemos permanecer alinhados com a sabedoria da esperança, porque sem ela a democracia não tem alma nem futuro.

            O momento crítico que o país atravessa tem vindo a ser aproveitado para promover uma erosão preocupante da herança material e simbólica construída em torno do 25 de Abril. Não o afirmamos por saudosismo bacoco ou por populismo de circunstância. Se não é de agora o ataque a algumas conquistas que fizeram de nós um país mais justo, mais livre e menos desigual, a ofensiva que se prepara – com a cobertura do Fundo Monetário Internacional e a acção diligente do «grande centro» ideológico – pode significar um retrocesso sério, inédito e porventura irreversível. Entendemos, por isso, que é altura de erguermos a nossa voz. Amanhã pode ser tarde. (mais…)

              Atualidade, Democracia

              Amanhã vai ser outro dia

              São quase três da manhã a 13º Celsius, o prédio está em silêncio e da minha varanda não se vê ninguém. Aqueço a sensação de que ninguém me lê, ninguém me escuta, posso escrever aquilo que me apetecer na direcção de Saturno. Faço então as contas à contradição na qual me vejo embrulhado. Num momento em que me sentia amaciar, tendendo, quanto mais não fosse por recomendação dos licenciados, para a moderação da vida burguesa, eis que a realidade não deixa. Neste país de democracia suspensa e futuro encostado à parede, estou condenado, como tantos outros mortais – sabe-se lá o que pode a imaginação fazer à pobre realidade –, a radicalizar-me de novo. Temo pelos perigos desta radicalidade nova, construída sem projecto de futuro, sem caminho à vista e voz audível na qual seja possível confiar. No horizonte dos que resistem não se encontram agora cidades maravilhosas, lideres inspiradores, miragens de futuros perfeitos e inevitáveis. Talvez reste apenas a possibilidade longínqua de um recomeço, de um estado de esperança capaz de partir outra vez do quilómetro zero a caminho de uma Nova Califórnia. Irá doer e demorará, sem dúvida, correr-se-ão os tais riscos, mas há-de partir porque o mundo não vai acabar aqui. E não será por serem agora três da manhã, por não se ouvir sequer o motor de um carro rasgando a chuva ou o latido distante de um rafeiro, que acredito menos nisso.

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                A sombra

                a sombra

                Inteiramente de acordo com o texto do Daniel Oliveira sobre o péssimo gesto e o mau sinal que foi a recusa do PCP e do Bloco de Esquerda a apresentarem-se nas reuniões dos partidos políticos portugueses com a delegação do FMI. Não gasto tinta em argumentos, uma vez que a maior parte do que aqui poderia dizer já ficou dito pelo DO. Como a posição do PCP é coerente com aquilo que o PCP tem desde há muito tempo mantido, resta-me acrescentar, enquanto cidadão que desde a primeira hora considerou o Bloco uma peça imprescindível da democracia portuguesa – e nele tem esperançosa e persistentemente votado –, ter começado a temer que a situação crítica que vivemos tenha em alguns dos seus dirigentes retirado da hibernação os velhos fantasmas do maximalismo kamikaze. Ou isso ou então a Ruptura-FER tomou já o poder e ninguém avisou a malta.

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                  Disfunções havanezas

                  havanesa

                  Vinte e cinco anos depois, lembra-o hoje o El País, chega a Cuba um plano de reformas económicas semelhante ao imposto em 1986 no Vietname para dar algum fôlego à iniciativa privada, tentando superar as dificuldades determinadas pelo paradigma ultracentralizado e burocrático imposto pelo governo comunista. Por essa altura, já Deng Xiao Ping tinha começado a aplicar esse «socialismo de mercado» que iria transformar a China na superpotência económica, agressiva e cheia de desigualdades sociais, que hoje conhecemos. A receita, principalmente em Pequim, sabe-se bem qual foi: conjugar o pior do «socialismo de «Estado» (a total supressão da liberdade de expressão e de organização, e a repressão brutal de qualquer forma de protesto) com o pior do capitalismo (a exploração desgovernada dos trabalhadores e o crescimento selvagem de uma iniciativa privada protegida pelo Estado, conjugados com a completa proibição da intervenção moderadora dos sindicatos).

                  A diferença, em Cuba, não está assim no modelo, cujos resultados práticos no desenvolvimento dos outros dois «Estados-irmãos» são bem conhecidos. Está em tudo ir ser feito debaixo da orientação das mesmíssimas pessoas que agora apontam erros graves e deformações ao trabalho pelo qual durante mais de meio século foram responsáveis. Não é, pois, difícil presumir que tendo existido liberdade de crítica e pluralidade de opiniões muito mais cedo e com muito menos custos para os cubanos se teria chegado a idênticas conclusões. O que não significa, obviamente, que estas levem a alguma coisa de positivo, para além do que já produziram na China: um acentuar dramático das desigualdades, um crescente alheamento das responsabilidades sociais do Estado e uma sofisticação da repressão política. Cuba não precisa de continuar a afinar os velhos motores, mas sim de máquinas novas. Não precisa de uma operação de cosmética, de «corrigir disfunções», mas antes de uma vaga de liberdade e de mudança na qual todos os cubanos, sem quaisquer reservas, possam participar.

                    Atualidade, Olhares, Opinião

                    Fuga para a frente

                    fuga para a frente

                    Quando o horizonte se estreita e a vida se complica ao extremo, é fácil perdermos a paciência. Diante da crise social que se adensa e da ausência de perspectivas, a tentação de correr para a frente, vendo inimigos em todo o lado que não seja o nosso e esquecendo os princípios elementares da civilidade democrática, começa a fazer-se notar de forma preocupante. Vive-se uma realidade inaceitável, que tem os seus responsáveis e as suas vítimas, crescendo a tendência para que uns e outros se organizem em campos opostos. A velha luta de classes parece voltar a calçar as botas e a meter-se ao caminho, enquanto aumenta a distância entre os que entendem que o mal está no excesso de direitos e aqueles que lutam para evitar perdê-los.

                    Entre alguns destes corre então, de novo, a presunção de que só uma deriva radical pode reverter o curso dos acontecimentos, pensando de novo em Revoluções redentoras a caminho de outros «amanhãs que cantam». Embora ninguém saiba como despertá-los e menos ainda o que fazer com eles. A noção legítima, necessária, de que outra política é necessária, de que outro mundo é imprescindível, é então devorada por devaneios colectivos que confundem mudança com salvação. Pelo meio, a vida verdadeira, a das pessoas que não sonham com estandartes a adejar ao vento mas sim com uma vida digna, pacífica e livre numa sociedade solidária, é ignorada em nome de um retorno à luta de opostos. Esquecendo uns quantos que, tal como a história do século XX se encheu de provar, nenhum regime perfeito pode ser construído sobre a penúria e a terra queimada.

                    Aquilo que estamos a viver obriga-nos a repensar o futuro e os modelos, sem dúvida, mas também nos desafia a olhar a realidade e a procurar soluções. Por isso, na situação actual, recusar discutir com o poder questões das quais pode depender a sobrevivência das pessoas só porque se coloca à cabeça a impossibilidade de ouvir aquilo que o governo que irá negociar com o FMI tem para dizer – como fizeram hoje os dois partidos parlamentares à esquerda do PS – contribui para as deixar indefesas. Pode ser muito bom para multiplicar o descontentamento e capitalizar o devaneio de uma mudança que «tudo resolverá», mas é duvidoso que traga benefícios eleitorais e de certeza que não ajuda ninguém a sobreviver no meio da tormenta. É preciso ousadia, sim, e luta também, mas algum realismo pelo meio dará jeito. A fuga para a frente não serve para outra coisa que não seja para fornecer oxigénio, escasso oxigénio, a essas «teorias e conceitos» que, como escreveu certa vez Hannah Arendt, de pouco servem em tempos sombrios.

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                      Música e R E V O L U Ç Ã O

                      volume

                      Uma amiga criou no Facebook um grupo aberto chamado (Banda Sonora para) Uma R E V O L U Ç Ã O – assim mesmo, com espaço, para deixar a palavra respirar melhor – e inscreveu-me como membro. Ao contrário de Julius «Groucho» Henry, o meu Marx favorito, não tenho problemas em que me inscrevam como sócio de um grupo que me queira como tal, e por isso deixei-me ficar. Ocorreu ao final da tarde deste domingo, e poucos minutos depois a respectiva página continha dezenas de clips de canções de alguma forma conotadas com formas de intervenção cívica mediadas pela música popular. Poucas horas passadas, eram já centenas, com uma aparente tendência para o crescimento exponencial. Misturam-se os estilos, as línguas, as intenções, os slogans, os recados poéticos, pedaços de agitprop chegados de diferentes tempos, tudo unido pela ideia-fixa de que «a cantiga é uma arma». Combinam-se também os participantes, pessoas muito diferentes, de distintas gerações, percursos discordantes ou mesmo divergentes, perfis que por vezes parecem afastá-las. Mas é por isso mesmo, por causa desta diversidade, aproximada apenas por esse enorme sombreiro maternal que se chama (ainda) Esquerda, que não deixa de impressionar a coincidência de sensibilidades, de gostos e de memórias. Mesmo sem se simpatizar com a unidade à força – pessoalmente prefiro a ideia de proximidade na acção, que aceita e valoriza a diferença – dá para perceber de que forma, afinal, tantas vezes zangados dentro do seu próprio casulo sectário, tantos/as partilharam e continuam a partilhar devaneios semelhantes, indignações contíguas, um património musical, talvez uma noção imaterial de R E V O L U Ç Ã O, a ele unida, construída colectivamente como uma necessidade.  Se isto leva a alguma coisa, isso não sei. É assim e tenho a impressão que ainda bem.

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                        O caso Weiwei

                        Ai Weiwei, o mestre-escultor das sementes de girassol em porcelana que é possível esmagar com os pés, o importante artista, filósofo e activista dos direitos humanos, foi preso este fim-de-semana em Pequim quando se preparava para viajar até Hong-Kong. Na mesma altura foram também detidos diversos colaboradores seus. Neste momento as autoridades da República Popular da China mantêm Weiwei incontactável.

                        Uma petição exigindo a sua libertação pode ser assinada aqui. Imagens de algumas das suas obras podem ser vistas neste slideshow.

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                          A esquerda e a caça aos gambozinos

                          pára-arranca

                          Vivemos tempos difíceis para a esquerda. Na realidade eles jamais foram fáceis, uma vez que o seu trajecto aponta desde a origem para a construção de uma sociedade solidária e igualitária, e esta é, em qualquer tempo ou lugar, uma tarefa difícil, morosa e armadilhada. Se a este objectivo primordial juntarmos a defesa da liberdade e valorização da democracia, então o preenchimento das agendas da esquerda torna-se ainda mais complicado. Por isso tantos preferem pluralizar o conceito: «esquerdas» parece, de facto, mais realista do que «esquerda», uma vez que a diferença é a regra, muitas vezes o obstáculo, e só no plano dos fundamentos se admite um caminho partilhado. Em Portugal, esta separação das águas foi reforçada, na comparação com experiências geograficamente próximas, pelo facto de ser praticamente inexistente, no mínimo desde o final da Segunda Guerra Mundial e dos tempos do MUD, o simples vislumbre de um projecto comum. De um calendário capaz de congregar diferentes sectores em torno de objectivos partilhados, voltados para a edificação objectivável de um outro país.

                          Mas se a dificuldade de encontrar à esquerda um caminho de aproximação não é de hoje, ela tornou-se agora particularmente penosa e incapacitante. Para uma consciência de esquerda que coloca os interesses colectivos acima dos objectivos circunstanciais deste ou daquele agrupamento, é particularmente difícil olhar o modo como a direita se encontra isolada na defesa de um modelo de sociedade selvagem e injusto sem que isso a distancie do acesso ao poder pela via do voto popular. Pelo contrário, ela mantém-se até pronta a assumir a governação e só a «esquerda de retórica», que esquecida dos seus princípios fundadores lhe imita os passos, parece em condições de lhe fazer frente nas urnas. Por outras palavras e dando o nome aos bois: enquanto o PSD e o CDS se preparam para gerir os destinos da nação, o PS, ou a linha de conciliação com a direita e o capitalismo que hoje o domina, limita-se a confrontá-los prometendo a mesma coisa mas de uma forma mais branda, moderna e simpática. Uns e outros projectando os seus programas sobre esse cenário de proclamada inevitabilidade que tem a destruição da dimensão social do estado como ponto assente e indiscutível. (mais…)

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                            Impossível unidade

                            bicicleta
                            © 2008 brandybuck

                            Desnecessárias e até um tanto grotescas para a maioria dos cidadãos, que as observam como a um evitável render da guarda, estão a chegar as eleições antecipadas, projectadas pela Grande Crise sobre um cenário de descrença. Face a elas, a esquerda à esquerda de Sócrates vê-se perdida num labirinto de possibilidades atravessadas por duas grandes incapacidades. A de construir um modelo que refunde e adapte ao século XXI a definição programática de socialismo, e a de propor linhas credíveis para uma «governabilidade à esquerda». Nestas condições, os partidos do centro-direita – o tal «arco da governação» rotativista que vai do actual PS ao CDS – vivem uma situação paradoxal: não têm a confiança da maioria dos cidadãos, cada vez mais alheados da política institucional, mas sabem que, ainda assim, só entre eles o poder será partilhado. Principalmente porque à esquerda dos socialistas não existe alternativa de governo e o voto dos cidadãos a ela destinados representará apenas, como tem acontecido nestes quase quarenta anos de democracia, um voto de resistência ou de protesto.

                            Muitas pessoas se aperceberam deste drama e algumas tentam mesmo, mais ou  menos em desespero, uma solução de circunstância. Na Internet, alguns bloggers falam de «unidade» e circula até um abaixo-assinado «por uma alternativa de esquerda» que tenta encontrar uma forma de resolver o problema. Mas quem tem tomado estas iniciativas fá-lo geralmente da pior maneira, procurando desencadear e fechar em semanas um processo que deveria ter sido iniciado há pelo menos vinte anos, com muita pedra partida pelo caminho. Buscam uma convergência espúria onde reina a desconfiança e pouco existe de aglutinador para além da resistência comum aos sucessivos PEC, a ideia de que é necessário «defender os trabalhadores» e os primeiros acordes da Internacional. Pois como é possível desenhar uma linha de unidade, tendo em vista a governação, com base numa aproximação que inclua o Bloco de Esquerda, o Partido Comunista, a CGTP, os «movimentos sociais progressistas» e até «os partidos extra-parlamentares»? Só falta juntar à solução os Homens da Luta e os membros menos arrebatados do blogue Cinco Dias (onde teria, ainda assim, de ocorrer primeiro uma trágica cisão). (mais…)

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                              Desesperança (2)

                              desperation

                              Ser optimista é difícil, já que não se encontra à vista uma alternativa para a gestão da realidade que exclua a aflição  prometida pelo centro rosa-laranja. Continuar a trilhar a linha contínua da desesperança. Na banda da direita, o CDS apenas lhe acrescenta a nostalgia de uma sociedade desigual, o princípio da moral e da autoridade como template, a verborreia populista para seduzir campónios e varinas. À esquerda a desolação de um horizonte incorpóreo, a invisibilidade de uma intervenção que não seja apenas a do grito, a do protesto – necessária, sem dúvida, mas muito insuficiente –, ou a da margem. A falta de projecto para um futuro verosímil, para uma «política de esquerda» que se entenda, para uma alternativa real de vida e governação, que jamais se esforçou por construir. Sem medo de poder ser poder. De construir, não apenas de imaginar, outro mundo possível.

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                                Desesperança (1)

                                désespoir

                                Escrevo enquanto a maioria desespera. A esta hora ninguém sabe muito bem aquilo que vai acontecer, mas parece certo que o governo caiará. Ou talvez não, talvez não seja já. Mas será em breve. Ganha forma o espectro da incerteza, pairando sobre um cenário de pré-catástrofe. Ninguém se atreve a arriscar previsões que não tragam consigo nuvens negras. Só os lerdos e os ignorantes podem pensar de forma diferente. E o pior é que a alternativa não é alternativa. A queda de um governo incapaz de produzir futuro trará outro, que gerirá a catástrofe prometendo-nos o Éden para dentro de trinta anos. Ambos, os que estão de saída ou aqueles que irão chegar, irão falar-nos de inevitabilidade, da impossibilidade das coisas poderem ser de outro modo. A nossa vida, projectada sobre um mundo devastado, empurrará a esperança para o tempo dos nossos netos.

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                                  Indignar-se

                                  Stéphane Hessel

                                  Custa pouco mais do que um maço de cigarros o livro de Stéphane Hessel, best-seller em França, que chegou agora às nossas livrarias. Indignai-vos! é a declaração de um imperativo, escrita por alguém que tem suficiente autoridade moral para o fazer: aos 93, herói da Resistência francesa, sobrevivente dos campos de concentração nazis e um dos redactores da Declaração Universal dos Direitos Humanos, o autor continua lúcido e tão atento aos motivos para a indignação do nosso tempo quanto aos dos anos durante os quais, em vez de se calar, de pactuar, de desistir, arriscou a vida por causas imprescindíveis.

                                  Alguns destes motivos são colocados pela necessidade de resistência à barragem de informação que se tem esforçado por fazer-nos acreditar não existirem alternativas ao mundo no qual vivemos: «Ousam dizer-nos que o Estado já não consegue suportar os custos das medidas sociais. Mas como é possível que actualmente não tenha verbas para manter e prolongar estas conquistas, quando a produção de riquezas aumentou consideravelmente desde a Libertação, quando a Europa estava arruinada?» Tal é possível, conclui, «apenas porque o poder do capital nunca foi tão grande, insolente, egoísta, com servidores próprios até nas mais altas esferas do Estado.» E continua: «Os bancos, agora privatizados, preocupam-se principalmente com os seus dividendos e com os elevadíssimos salários dos seus administradores, e não com o interesse geral. O fosso entre os mais pobres e os mais ricos nunca foi tão grande, a competição nunca foi tão incentivada.»

                                  A fantasia segundo a qual não é possível actuar contra esta situação de desigualdade tem no entanto os seus agentes, responsáveis directos pelo disseminar de uma convicção de que as coisas «são como são» e de que o que há a fazer é cada um tentar arranjar maneira de passar à frente dos outros. O antigo resistente propõe então «uma verdadeira insurreição pacífica contra os meios de comunicação de massas que só apresentam como horizonte à nossa juventude uma sociedade de consumo, o desprezo pelos mais fracos e pela cultura, a amnésia generalizada e a competição renhida de todos contra todos.» Por isso, mesmo no coração das democracias – onde não é preciso atirar pedras ou pegar em armas para fruir do direito à palavra – indignar-se é preciso. Desde logo contra esta ditadura da inevitabilidade, responsável pela disseminação sedativa do princípio da desigualdade «natural». Foi isto que, ao aproximar-se do final da vida, Hessel sentiu que ainda era importante dizer. «A todos aqueles e aquelas que irão fazer o século XXI.»

                                  Stéphane Hessel, Indignai-vos! Objectiva. Prefácio de Mário Soares. Trad. Paula Centeno. 52 págs.

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