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A poesia não é para os cães

poetry

Para que serve a poesia hoje? é um pequeno livro de Jean-Claude Pinson, recém-editado pela Deriva, que nos ajuda a responder a uma pergunta completamente actual: «O que pode ainda a poesia, quando as suas ilusões líricas do passado recente (proporcionar uma vista desimpedida para o Absoluto, “mudar a vida”…) foram desacreditadas?» Com uma intensidade ampliada quando na ordem-do-dia se encontra a eliminação por decreto – e por organizado descrédito – do que se revela supérfluo, daquilo que não possui valor de uso nem serve para trocar por papel-moeda ou linha de crédito, não podendo aplicar-se a reduzir défices, a aferir «competências efectivas» ou a cumprir «objectivos estratégicos», importa olhá-la como território da clarividência e de resistência, não meramente onírico ou projectado para a evasão, que jamais deixou de ser mas deve reassumir.

(…) o poeta – o poeta baudelairiano – confia-se à musa citadina em vez da académica, e coloca-se do lado do que é «fraco, arruinado, entristecido, órfão». Canta sem refilar os «cães calamitosos que erram, solitários, nas ruínas sinuosas das imensas cidades». E talvez seja por a poesia não hesitar em encarregar-se, acrescenta Baudelaire, da «honra dos cães sujos», que pode esperar contribuir para que permaneça aberta outra habitação do mundo, menos alienada. Pois a poesia não é, apesar de tudo, feita para os cães.

    Atualidade, Poesia

    Ser, não-ser e parecer

    parecer

    A resolução do Conselho Académico da Universidade Católica sobre esse dress code mínimo pelo qual, em proveito da sua dignidade corporativa, são responsáveis professores e alunos, encerra contornos inquietantes. Ela visa banir dos espaços e instalações da instituição os «modos de trajes e formas de apresentação próprias de local de lazer e de desporto», sugerindo, como instrumento de controlo, que «todos os responsáveis pela salvaguarda do ambiente e da imagem da universidade nas suas instalações e no espaço do Campus universitário, devem chamar a atenção dos que se apresentarem de maneira imprópria». Ocorre aqui, desde logo, uma dimensão normativa que colide com a liberdade individual. Ela até pode ser aceitável em quartéis ou prisões, mas não em locais públicos frequentados por pessoas que podem entrar e sair dos espaços sob a alçada do código sem qualquer coacção. Não se percebe, além disso, a quem se aplica, dado que os cidadãos atingidos pela medida podem ser até convidados vindos de outras universidades, de outras culturas, ou simples cidadãos em viagem de férias mas interessados numa conferência ou numa exposição. Pode ainda afrontar identidades pessoais ou colectivas, ostracizadas por «impropriedade» daqueles que transportem no corpo os seus sinais «aviltantes».

    O que mais importa aqui não é, porém, o caso em si, mas sim a tendência que ele sinaliza. A insinuação da cultura antidisciplinar, nascida nos Estado Unidos na década de 1950, e que dominou o ocidente por mais de vinte anos, traduziu-se, entre outros aspectos, na apropriação de estilos de vida, modalidades de gosto, padrões de vestuário, códigos de comportamento, cambiantes gestuais, linguagens, definidos como uma espécie de prolongamento, no que à vida pessoal dizia respeito, das «estradas da libertação» então abertas. De Lisboa a Praga, ela perturbou particularmente os regimes fechados e autoritários, para os quais a emancipação e a diversidade do parecer – da cor da camisa ao corte das calças e do cabelo – constituíam uma marca de intolerável rebeldia. Para os insurrectos, por sua vez, ela era um sinal identitário, um modo de perturbação da ordem cultural, social e ética que visavam contestar. Não será, por isso, por um acaso que, nestes tempos nos quais passou a ser sinal de boa política a correcção da desordem utópica produzida e propagada durante os sixties, o resgate do fato-e-gravata se imponha como aspecto de um «regresso à ordem». Alguns pedagogos do Estado Novo falavam das universidades como lugares de formação de um «escol de mandantes». Este processo de diferenciação social passava então por uma normalização rigorosa da economia do parecer. Felizmente os tempos são outros e estes círculos já deixaram há muito de deter capacidade para imporem o seu modelo de regulação. Mas teimam em cumprir o papel de difusores de uma concepção de elite – do saber e de poder – destinada a demolir a ideia de liberdade e de igualdade que fundamenta a civilidade democrática.

      Atualidade, Olhares, Opinião

      Antes tarde que nunca

      marreta

      Antes tarde que nunca. E mais vale já que depois.

      A comissária europeia para a Justiça, Viviane Reding, acaba de propor, em declarações ao jornal alemão Die Welt, o desmantelamento das três principais agências de rating norte-americanas, a Standard & Poor’s, a Moody’s e a Fitch. «A Europa não pode permitir que o euro seja destruído por três empresas privadas norte-americanas», disse esta comissária luxemburguesa, exigindo mais transparência e mais concorrência na avaliação de Estados pelas referidas agências. Resta saber se este tipo de declaração corresponde a uma intenção sincera, a um programa a traçar e a cumprir, ou se se limita a servir para pacificar os ânimos mais exaltados.

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        Os dados estão lançados

        BE

        À hora a que termino estas linhas deve ter acabado já o encontro aberto do Fórum Manifesto destinado a debater o passado recente e o futuro do Bloco de Esquerda. Sou um daqueles seus votantes e/ou simpatizantes – com a presunção de aqui pertencer a uma maioria – que não fora a presença forte desta corrente muito dificilmente se teria conservado nessa qualidade por mais de uma década a fio. O reconhecimento desta proximidade acaba, aliás, de ser confirmado pelo documento que serviu de ponto de partida para o debate de hoje, uma vez que me revejo no essencial da sua análise da actuação recente, das debilidades, das forças e das necessidades imediatas do partido. Discordo de pouca coisa, anotando apenas a falta de uns quantos temas que me parecem decisivos, entendendo essa ausência como motivada pelo desejo de «unir em vez de dividir». Mas como sou daqueles que reconhece também a necessidade de, em alguns momentos, «dividir para unir», ou mesmo «para reinar», aqui fica, embora a destempo, o meu pequeno contributo. (mais…)

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          Euro-eunucos

          Monsieur Barroso
          imagem retirada daqui

          Da crónica de Miguel Sousa Tavares no Expresso deste sábado («O voo dos abutres»):

          «(…) Por sorte deles [os abutres americanos das agências de notação], encontraram em Bruxelas uma cambada de eunucos, uma colecção de políticos sem nenhuma visão política de futuro, aterrorizados pelas opiniões públicas locais e as suas conjunturas eleitorais, um clube de cobardes sem alma nem grandeza, que irão dar cabo da mais fascinante ideia política desde o pós-guerra, que é a da unidade europeia. Aquele triste ajuntamento de cromos fotográficos não percebeu ainda que está sob ataque concertado e ajoelha-se perante a ofensiva de três agências americanas que estiveram directamente envolvidas no eclodir da crise mundial, ao acompanharem o irresponsável senhor Greenspan, ex-presidente da Reserva Federal americana, e o idiota do ex-Presidente Bush na cobertura do mais inacreditável roubo alguma vez cometido na história da economia — que foi o roubo da economia americana por parte do seu sector financeiro, com consequências que sobraram para o mundo inteiro. Estes tipos que, com o seu aval, permitiram que os Madoffs e os Lehman Brothers roubassem as poupanças e a confiança dos que trabalharam uma vida inteira para terem a sua reforma e a sua casa; que, lá de longe, assinaram a falência de milhares de empresas do mundo inteiro e condenaram dezenas de milhões de trabalhadores ao desemprego, agora exigem que Bruxelas assine por baixo que uma nação com quase nove séculos de história, como Portugal, seja lixo, e uma nação, como a Grécia, que fundou a Europa e que fundou a democracia e a civilização mediterrânica, há dois mil anos, seja tratada ao nível de merceeiro.

          Em 1945, logo depois do final da guerra, Winston Churchill, que mobilizou a Europa e o mundo livre contra o nazismo, foi à Grécia para mostrar que a Europa livre apoiava a Grécia que resistia a ser encerrada na Cortina de Ferro de Estaline. Quando desembarcou, combatia-se uma guerra civil nas ruas de Atenas e ele nem conseguiu sair do aeroporto, porque nem sequer havia um poder estabelecido para o receber. Mas esteve lá, em nome da Europa e em nome da liberdade. Hoje, um qualquer finlandês ou polaco decide em Bruxelas sobre o futuro da Grécia, numa lógica de castigo e humilhação, e Bruxelas assiste, sem reagir, a que umas agências americanas, sem rosto nem qualificação para tal, decidam em seu nome se a Grécia deve ser reduzida a pó e Portugal a lixo. Para que a economia do planeta fique entregue ao combate final entre os especuladores financeiros da América e os piratas do dumping social asiático. Eis o que o capitalismo fez com a sua vitória histórica sobre o socialismo de Estado! (…)»

            Atualidade, Opinião, Recortes

            Doença crónica

            leninismo

            No debate sobre os caminhos mais próximos da «esquerda à esquerda» será bom reflectir sobre um aspecto, apenas aparentemente menor, que é mais fácil de abordar por quem fala do lado de fora de qualquer organização, sem compromissos com essa noção de unidade – ou de combate de tendências – que constrange sempre a liberdade crítica. O vício e a formação de historiador das ideias levam-me aqui a uma curta viagem até ao passado e a dois livros que cruzaram a história da esquerda, fundando um padrão de combate de ideias que me parece perverso e está na origem de parte considerável de alguns dos piores tiques e sintomas de doença crónica que atravessam a esquerda de matriz marxista. O primeiro foi a Crítica do Programa de Gotha, um dos mais importantes trabalhos de Marx, editado em 1891 mas escrito muito mais cedo, em 1875. O segundo foi A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky, publicado em 1918 por Lenine. Um e outro tiveram como alvo a crítica de «oportunismos», ou «desvios», em ambos os casos tomados como formas inaceitáveis de pactuar com o capitalismo. Um e outro tiveram também como objectivo a defesa de uma «tirania das maiorias» consumada no rosto, mais vago e benévolo em Marx, mais cru e objectivo em Lenine, da «ditadura do proletariado». O que importa aqui não é, porém, debater o conteúdo de cada uma das obras, mas sim observar os termos em que foram escritas. (mais…)

              Atualidade, Memória, Olhares, Opinião

              O país sem luz

              Coreia do Norte

              Em 2010 a jornalista Barbara Demick, que já havia sido premiada por Logavina Street (1996), uma corajosa e emocionante cobertura do cerco de Sarajevo (1992-1996), ganhou o Prémio Samuel Johnson de não-ficção com o livro Nothing to Envy: Ordinary Lives in North Korea. Demick segue aí o percurso de seis cidadãos norte-coreanos: dois namorados que durante mais de uma década tiveram medo de contar um ao outro a sua recusa do regime; um jovem sem-abrigo; uma médica um tanto idealista; uma operária que ama Kim Il Sung mais do que a sua própria família; e a sua filha rebelde. Apesar das enormes limitações que precisou enfrentar para fazer o seu trabalho, procurou compreender os mecanismos de sobrevivência, de aceitação ou de resistência, de pessoas comuns vivendo sob um regime totalitário que proíbe Gone with the Wind por considerar o enredo subversivo, que controla a informação e as comunicações de maneira absolutamente férrea mantendo-se o único país do mundo sem Internet, e que durante as manifestações de apoio ao regime fotografa as expressões dos cidadãos para aferir da sua fidelidade. O livro acaba de sair em edição portuguesa com o título A Longa Noite de um Povo. A vida na Coreia do Norte (Temas e Debates/Círculo de Leitores), e começa assim: «Se olharmos para uma fotografia de satélite do Extremo Oriente, à noite, vemos uma grande mancha a que, curiosamente, falta luz. Essa área de escuridão é a República Popular Democrática da Coreia.» Quanto às pessoas que habitam esse mundo com a iluminação pública em ruínas regido por um governo despótico e brutal, delas diz a jornalista que «talvez não estejam à espera de nada em particular, apenas à espera de que algo mude.»

                Atualidade, Democracia

                Já vi este filme (o caso Rui Tavares)

                Rui Tavares

                Aquilo que mais me preocupa no caso da demissão de Rui Tavares do lugar de deputado europeu independente pelo Bloco de Esquerda não é saber quem «tem razão». Ou quem cometeu mais ou menos erros. Ou se as coisas poderiam, por cada uma das partes, ter sido conduzidas de outra forma. Provavelmente poderiam. Como provavelmente todos deram passos em falso, embora aceitando que alguns desses passos em falso foram mais passos em falso do que outros.

                Também não é coisa que me perturbe a evidente divergência das posições públicas do Rui Tavares em relação ao que parecia ser a linha oficial do partido. Aliás, foi justamente a sua condição de independente, foi o trabalho dele, e, em regra, foram as suas posições públicas muitas vezes autónomas, que aproximaram muitos eleitores do Bloco ou impediram outros de dele se afastarem. No que me diz respeito, foram pessoas como o Rui, o José Manuel, o Miguel, a Marisa, e tantas outras em quem confio, ou cujo trabalho aprecio mesmo quando não penso exactamente como elas, que, contra ventos e marés – para não atribuir nomes próprios a esses ventos e a tais marés – me fizeram votar uma outra vez, apesar de certas perplexidades, no BE.

                O que de facto alarma, e muito, é ver a divergência política tratada com recurso ao processo – historicamente ancorado na tradição da esquerda velha, autoritária e rezingona – da calúnia, da insinuação, da ideia de «traição», da deturpação, avançados com uma violência desproporcionada em relação à que se utiliza para atacar os verdadeiros adversários políticos. E numa altura e que essa divergência deveria servir, justamente, para estimular o debate, que se torna imperativo travar, em torno das escolhas, dos métodos, e sobretudo da orientação política e dos objectivos, complementarmente dos rostos, de um Bloco de Esquerda capaz de recuperar do recente e significativo desaire.

                Para quem já passou por isto noutros carnavais – pelo que ouviu, pelo que leu, e sobretudo pelo que viveu – há aqui uma sensação pesada de déjà vu. De voltar atrás no tempo, na história, regressando às mesmas injustiças personalizadas, aos mesmos exageros pautados por uma rígida agressividade, à mesma sensação de tempo perdido. Aquilo de que a esquerda, esta esquerda, precisa, não é de acusar, de diabolizar, de apontar hipotéticos traidores, de empurrar figurantes para fora do tablado, de alimentar uma qualquer caça às bruxas. É, justamente ao contrário, de ouvir, de confrontar, de discutir e de traçar caminhos partilhados, abertos, com base numa pluralidade que se faz das ideias e das escolhas mas também das pessoas.

                  Apontamentos, Atualidade, Opinião

                  Luta pelo socialismo ou combate pela democracia?

                  BSS

                  Durante um entrevista concedida neste sábado, dia 18 de Junho, à Antena 1, Boaventura de Sousa Santos fez algumas considerações de um enorme interesse sobre os objectivos e reorganização da esquerda, justificando a maior atenção de quem, dentro deste campo, procure verdadeiramente uma maneira de sair do actual impasse que não seja a da habitual e suicidária fuga para a frente. Depois de afirmar que agora «a esquerda tem que se repensar muito», ou mesmo «completamente», Boaventura recorda que a «esquerda à esquerda», na qual engloba o Bloco e o PCP, foram construídos e conservam-se dentro de um imaginário fundado no princípio de acordo com o qual «a luta é uma luta anticapitalista», tendo o socialismo como horizonte único. Aceita, evidentemente, que este horizonte existe e continuará a existir durante muito tempo, «enquanto houver capitalismo», mas enfatiza que «neste momento a questão fundamental não é o capitalismo, é a democracia». Insistindo em que «o que está em causa é a sobrevivência da democracia». Daí que «das duas uma: ou esta esquerda quer participar na defesa desta democracia, ou não quer participar.». Precisa escolher. Boaventura entende também que o carácter imperativo de tal escolha se aplica a ambos os partidos, mas considera que aquele que está em condições de defrontar mais rapidamente este problema é o BE, uma vez que o Partido Comunista existe ainda, fundamentalmente, como força de protesto, enquanto o Bloco pode desenvolver-se na perspectiva de vir a participar «num arco de governabilidade» – obviamente assente em princípios – destinado em primeiro lugar a defender os valores essenciais, que são também sociais, do Estado democrático. A entrevista encontra-se aqui.

                    Atualidade, Democracia, Opinião

                    O Bloco no seu labirinto (4)

                    Último post da série, um pouco mais comprido que os anteriores. Aspectos avulsos poderão ser desenvolvidos mais tarde. Recordo que escrevo estas notas a partir de fora, como simpatizante crítico, eleitor e «compagnon de route» do BE, do qual não sou militante. O meu objectivo é apenas estimular inquietações.

                    Anoto quatro possíveis áreas de intervenção no debate sobre a reorganização do Bloco e o seu papel na construção de uma alternativa à esquerda. Com a solidariedade social, o desenvolvimento económico e da qualidade de vida e a defesa da liberdade como elementos incontornáveis e comuns de um cenário com futuro.

                    1. No centro da necessária renovação encontra-se uma definição tão clara quanto possível do paradigma político a adoptar e uma identificação da base social que o pode apoiar. É preciso escolher de forma segura e consistente entre a construção de uma alternativa socialista e democrática, voltada para a produção de convergências no campo da governabilidade – uma «social-democracia de esquerda», sem dúvida, e não há que ter medo das palavras quando se nomeia esta tendência fundadora do movimento operário e popular –, ou a insistência num «comunismo modernizado», aparentemente arejado mas ao mesmo tempo nostálgico da intervenção redentora de uma vanguarda omnisciente e do papel de um Estado despótico. Escolher entre o protesto como uma necessidade, destinada a defender direitos e a melhorar a vida dos cidadãos, e o protesto como parte da «luta final», enquanto instrumento de uma transformação violenta da sociedade. É também preciso esclarecer o espectro sociológico que o Bloco está em condições de reunir. Com toda a probabilidade, a crescente mas empobrecida classe média urbana, os intelectuais e profissionais liberais desprezados pelo «desenvolvimentismo» capitalista, os estudantes e as mais novas e melhor formadas gerações de trabalhadores efectivos ou precários. Aceitando que outros partidos à esquerda, a começar pelo PCP, agregarão diferentes sectores. O «povo do Bloco» terá um rosto fundado nos interesses e expectativas sociais que podem convergir, mas sem a fantasia de um dia englobar toda a gente que confia na esquerda como território de um projecto solidário. (mais…)

                      Atualidade, Opinião

                      O Bloco no seu labirinto (3)

                      Terceiro texto da série sobre o presente e o futuro do Bloco de Esquerda. Depois do anterior, um tanto ácido no diagnóstico da situação, segue-se uma curta reflexão sobre a necessidade do debate. No quarto post identificar-se-ão alguns dos dilemas por onde este poderá passar.

                      Estando do lado de fora, só me chegam alguns ecos. Por isso não sei se a observação interna dos problemas com os quais se defronta agora o Bloco tem sido feita da melhor maneira. Mas existem sinais evidentes de crispação, traduzidos na rejeição liminar, por vezes pública, da posição de militantes e de simpatizantes que não se limitam a observar a espuma, a apontar pequenos erros de natureza táctica, pretendendo que se vá mais ao fundo dos problemas e que se debatam as escolhas centrais que parecem bloquear o partido. Não que estes sectores tenham necessariamente razão, ou razão em tudo, ou razão até ao fim, mas nem é isto que de momento está em causa. Preocupante, sim, é observar alguma resistência a um debate radical, isto é, que vá à raiz dos problemas e das escolhas, obviamente necessário e que nesta altura do calendário político se pode fazer sem riscos inultrapassáveis. Contrapondo-se uma reflexão que aparenta ser epidérmica, destinada a retocar a maquilhagem sem mexer nas rugas.

                      A verdade é que na esquerda, e na esquerda do Bloco também, parece permanecer ainda em algumas consciências um atávico «síndroma da linha justa», que insiste na dificuldade em questionar de cima a baixo as escolhas políticas fundamentais, aceitando que elas resultaram de logros ou de erros. Apesar dos múltiplos e dramáticos exemplos históricos dos desastres causados à mesma esquerda pela confusão entre certeza e convicção, continua a ocorrer, por vezes, uma dificuldade em rever posições, confundindo questionamento com maledicência ou traição, que deve bastante à escola de dogmatismo imposta pela matriz orgânica e moral leninista. Mesmo quando esta é formalmente renegada. Ao mesmo tempo, porém, são muitos os militantes insatisfeitos ou descontentes, e principalmente os simpatizantes e eleitores desconfiados, que conservam a esperança de – a partir de um debate aberto e sem complexos, pontualmente alargado até a não-militantes – ser possível diagnosticar os males, se necessário reformulando e reorganizando caminhos, e abrindo um futuro de esperança e de confiança para a imprescindível intervenção do Bloco nos tempos bem críticos em que vivemos. Mesmo que tal exija um ou outro safanão em algumas consciências e hábitos. [continua]

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                        Árabes e helicópteros

                        Síria

                        Não sei se é por agora estarmos tão preocupados connosco, com o nosso emprego e com o vazio do nosso porta-moedas, que os árabes voltam a parecer-nos mais estranhos, mais distantes. Ou então se será por causa de vermos os helicópteros de Sarkozy e de Cameron a lançarem rockets sobre as posições de Khadaffi. Pode ser também porque o Avante! não se esqueceu de «informar» que por trás dos levantamentos populares na Síria está tão-somente a CIA em todo o seu esplendor. Ou então porque Bashar al-Assad ainda há pouco mimava com desembaraço o papel sinistro, mas popular na imprensa cor-de-rosa ocidental, de príncipe encantado. A verdade é que os acontecimentos libertadores de Tunes e do Cairo já vão longe e aquilo que está agora mesmo a acontecer na Líbia ou na Síria, com o exército a lançar os tanques contra cidades inteiras ou sobre caravanas erráticas de refugiados, quase não tem lugar nos nossos jornais e televisões, para não falar no discurso autocentrado de uma classe política sem rasgo e uma perspectiva do mundo para além dos arrabaldes de Badajoz. No Facebook, entretanto, até os profissionais das causas parecem acreditar que por ali no pasa nada. Ou de que, se algo está a acontecer, esse algo não terá seguramente muito a ver connosco. Envolve-nos um silêncio comprometedor a propósito dos sinais bem visíveis e muito preocupantes de esmagamento da revolta árabe.

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                          O Bloco no seu labirinto (2)

                          A caminho

                          Prossigo com a série de posts sobre os dilemas que enfrenta o Bloco de Esquerda. Se o primeiro, sobre a demissão da liderança, terá sido quase consensual, este sê-lo-á bastante menos. Contém um esboço de diagnóstico ao qual se seguirão adiante algumas hipóteses de terapêutica. A parte mais difícil, onde se diz ao doente que está doente, segue aqui. Mas o que tem de ser…

                          Os resultados eleitorais não deixam margem para dúvidas: algo correu mal. Mas ao contrário do que têm deixado entender certos dirigentes e militantes, com a capacidade crítica um pouco esmaecida pela decepção e a ressaca do day after, esse algo não foi com toda a certeza a ingratidão do eleitorado. Incluindo-se neste aquela parte da «geração à rasca» que com todas as probabilidades se absteve. É verdade que podemos, num ou noutro caso, falar com todo o sentido de um deslizamento dos números ditado pelo «voto útil» ou pelo medo. Mas a utilidade do voto não é um factor de importância menor e medo só pode ter quem enfrenta a escuridão sozinho e desarmado, não quem sabe para onde vai e avança acompanhado. A verdade é outra: o que aconteceu tem uma origem profunda, com toda a certeza bem menos conjuntural do que se está a tentar mostrar. Procurá-la e compreendê-la pode ser incómodo, obrigar a algumas mudanças, eventualmente a um ou outro abandono, mas não ao enfraquecimento do projecto político solidário e adaptado aos tempos difíceis em que vivemos que o Bloco de Esquerda tem materializado e pode manter.

                          O problema central parece-me relativamente fácil de identificar: existiram duas escolhas que era preciso fazer mas que foram na direcção errada. A primeira diz respeito à identificação do BE com o que podemos considerar um «socialismo verdadeiro», assumindo uma componente democrática e intensamente solidária, mas voltada para a afirmação de programas materializáveis, ou então, no sentido oposto, com um «comunismo moderno», próprio dessa esquerda caviar – um epíteto lançado pela direita e rapidamente adoptado pela ortodoxia – que habita o sistema e dele recolhe alguns benefícios mas tem dificuldade em renunciar à nostalgia maximalista e revolucionária. Aos olhos do eleitorado reformista da classe média urbana, que representa o grosso dos eleitores do Bloco, a segunda opção tem vindo a surgir como dominante. E isto foi fatal. A segunda escolha ocorreu numa área completamente diferente e que parece (mas não é) contraditória em relação à primeira: o partido tem-se concentrado em excesso, tem-se esgotado, em termos públicos e organizativos, no trabalho parlamentar e nas agendas eleitorais, subvalorizando outros campos da vida colectiva e do combate social. (mais…)

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                            O Bloco no seu labirinto (1)

                            O Bloco no seu labirinto

                            Este é o primeiro de um conjunto de curtos posts sobre o passado recente e o futuro do Bloco de Esquerda que publicarei ao longo dos próximos dias. Quero esclarecer que não sou seu militante, embora seja apoiante e votante, e seu crítico também, desde a primeira hora. E que estou suficientemente próximo para controlar a margem de erro do que escrevo.

                            Quem veja a política, e em particular a política partidária, como uma experiência fundada no modelo unipessoal do líder que determina a linha, tem, visivelmente, uma grande dificuldade em dizer o quer que seja de razoável em relação à encruzilhada na qual se encontra neste momento o Bloco de Esquerda. O BE, convém lembrar, não funciona como o PS, o PSD ou o CDS, partidos nos quais a verdadeira força propulsora não é o programa ou a moção de orientação aprovada em congresso, mas sim a rédea e a retórica do líder e do seu pequeno grupo, que moldam a paisagem à sua volta para a adaptarem a uma intervenção carismática de tipo messiânico e a uma direcção centralizada. Foi este, aliás, um dos motivos que levou o Partido Socialista a um processo de descaracterização política que o fez perder a marca identitária de partido popular e de convicções. Mas o Bloco também não é o PCP, com uma direcção sedimentada, um corpo de funcionários profissionais e uma base social estável, que o autorizam a mudar alguns rostos e vozes sem com isso alterar significativamente a linha e o discurso. O Bloco é antes um partido de aproximações e de vontades, de convergências num ambiente de razoável liberdade, onde toda a gente fala com toda a gente, sem caciquismo instituído ou «centralismo democrático», que transforma cada militante, e mesmo cada dirigente, numa peça indispensável. Isto significa que pedir demissões a toque de caixa equivale a quebrar este clima razoavelmente aberto e democrático. E equivale também, dada a real escassez dos quadros, a propor a sua liquidação a médio prazo, eventualmente antecedida da tomada do poder por uma qualquer facção ultra-militante que o radicalize e faça sangrar até que retorne ao estado grupuscular de onde há mais de uma década partiu. [continua]

                              Atualidade, Opinião

                              Seis notas actuais

                              calçada portuguesa

                              1. A vitória da direita – ou do centro-direita, como preferem os benévolos – era esperada, mas foi bem mais ampla que o previsto. É verdade que a abstenção, somada aos votos brancos e nulos, também foi elevada, mas, queira-se ou não, e se contarmos também com os votos no PS, os resultados referendam a manifesta convicção da grande maioria dos eleitores de que as medidas de austeridade impostas do exterior são péssimas mas inevitáveis.

                              2. Ao contrário, a esquerda que se autoproclama consequente foi incapaz de provar o inverso e de apresentar propostas nas quais uma parte substancial dos cidadãos pudesse confiar como algo de realmente possível, e não apenas de vagamente desejável. Permanecem quase sempre ideias imprecisas sobre futuros melhores sem a apresentação de programas concretos – não a de meros cadernos reivindicativos – e de alianças no terreno capazes de produzirem uma governabilidade à esquerda.

                              3. A CDU ganhou pouco mas segurou os seus eternos 7 ou 8%. No entanto, festeja com grande alarido o facto de ter «mais força». Às custas do Bloco de Esquerda, como parece evidente. É preciso dizer mais alguma coisa sobre o grande futuro desse indefinido projecto de um «governo patriótico e de esquerda» hegemonizado pelo Partido Comunista Português que ninguém percebe o que seja, como se pode construir e o que nos propõe?

                              4. O Bloco agiu muito mal na gestão política da crise financeira e no ensaio «a pedido» de uma aliança com o PCP, e isso pesou na deslocação de voto de muitos dos seus agora ex-eleitores. Mas, acima de tudo, diante da alternativa entre um «socialismo verdadeiro» e um «comunismo moderno», tombou para o segundo lado, quando o seu campo natural e o espaço por onde poderia e poderá crescer e afirmar a sua identidade é e será sempre o primeiro.

                              5. A alternativa futura passará sempre por um PS pós-Sócrates renovado, que corte assumidamente com o modelo neoliberal e erradique tanto quanto possível o caciquismo que o consome e lhe mina o prestígio. Em convergência com um Bloco que se decida entre as duas vias e alije de vez o fardo tardo-leninista que ainda carrega, assumindo o seu papel de partido democrático e europeu, e, ao mesmo tempo, regressando quando necessário à «política de causas» que lhe deu identidade. E com um PCP que perca de vez a cisma da hegemonia «da classe operária», rompendo também com o projecto estatista e totalitário do qual não se viu ainda livre. Isto custa e demora, mas não é impossível, devendo todos mostrar serem capazes de transigir em algumas coisas. Não para unir – esse é um princípio errado e perigoso, com péssimas provas dadas – mas sim para aproximar.

                              6. A luta social não pode abrandar, mas no plano político e organizativo é melhor a esquerda à esquerda lamber as feridas, reflectir sobre o acidente sem pôr a culpa sobre os ombros dos eleitores mal-agradecidos – como já hoje vi fazer –, e começar a tratar da cura, do que cair na tentação da fuga para a frente, prego a fundo e fé «na luta», isolando-se no plano social e dilatando o tempo de espera para ser possível a construção de uma alternativa de governo capaz, credível e mobilizadora.

                              Adenda: Votei neste domingo – como o tenho feito desde a sua fundação, mas admito que desta vez com algumas reservas – no Bloco de Esquerda. Daí também a minha preocupação. Regressarei mais desenvolvidamente a alguns destes tópicos.

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                                Feminismos em Portugal

                                feminismos

                                Uma ideia disseminada considera que o percurso dos feminismos, ou pelo menos o da sua presença visível e com impacto público, é em Portugal relativamente recente, circunscrito às duas últimas décadas do regime democrático. Feminismos – Percursos e desafios, um livro de Manuela Tavares publicado há poucos meses, vem provar o equívoco desse juízo injusto e apressado, mostrando, precisamente em sentido contrário, que o rasto dos movimentos promotores dos direitos das mulheres é afinal razoavelmente dilatado e tem uma agenda própria. Duas das razões que determinaram esse erro de perspectiva são anotadas logo no início da obra: de um lado, a possante influência do regime autoritário do Estado Novo, vinculado a «uma ideologia de submissão das mulheres» que silenciou as ténues mas reais posições de natureza emancipatória projectadas durante a Primeira República; do outro, o peso do «pensamento dogmático das esquerdas políticas», que não souberam «captar a dimensão plural dos feminismos» e aquilo a que a autora chama «as contradições de género na sociedade», sistematicamente subsumidas na lógica da unidade na acção. (mais…)

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                                  queixa não censurada de um democrata do ano inteiro

                                  campanha

                                  sei que não são todos iguais, mas a excepção faz a regra. não gosto, não gosto mesmo, de políticos em campanha. por muito honestos que sejam ou aparentem ser, nas suas propostas como nas suas vidas, existe sempre um sorriso a mais, uma palmada nas costas que parece supérflua, um beijinho claramente excedentário, um panfleto que se impõe a contragosto, um cheiro, ainda que ténue, a axila e a demagogia do qual bem podemos prescindir. pior ainda é o espectáculo dado por muitos daqueles que os recebem lá na terra ou no bairro. com banda trajada a preceito, criteriosas palavras de circunstância e uma incontida alegria artificial, lá estão eles nas praças e nas ruas à espera do audi, vestidos de varinas, de bombeiros, de moços-forcados, de noivas minhotas, de judocas, de meio-maratonistas, de zés-pereiras, de  mulheres partidárias, de jovens jotas, de povo-povo, com lenço e boné a condizer com a cor da bandeira. e há depois os mega-almoços, com cantores entre o proto-pimba e a pós-intervenção, copos de plástico atestados de sumol de ananás, croquetes marados, feijoadas mete-nojo, azeitonas manhosas e pães com manteiga que todos enfiam na boca atulhada enquanto se tratam por companheiros, por camaradas, por ó pá, ó doutor, ó engenheiro, olhe qu’agora é que vai ser. as campanhas, digo-vos eu, deviam ser interditas a grandes grupos. afinal sempre há a televisão, a internet, os jornais, a caixa do correio, a sessão de esclarecimento, os outdoors identificados, ou o contacto porta-a-porta como o fazem os mórmones, as testemunhas de jeová, os angariadores da cabo-tv e os mordomos das festas da padroeira. deveria criar-se um serviço grátis de desintoxicação eleitoral. e uma ponte aérea para que todos nós, os democratas do ano inteiro, pudéssemos emigrar nestas alturas para uma estância termal nas ilhas faroë. retornando, claro está, a tempo de votar em quem merece. ou quase.

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