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Cavaco, Honecker e as bananas

Günter Schabowski, o antigo porta-voz do Bureau Político do Partido Socialista Unificado da Alemanha, ficará para sempre conhecido por, no dia 9 de novembro de 1989, se ter precipitado ao ler numa conferência de imprensa transmitida pela televisão, ainda sem autorização superior, um comunicado oficial segundo o qual a RDA passaria a permitir aos seus cidadãos que viajassem livremente para onde desejassem. Terá sido esse lapso a determinar nessa mesma noite, sem qualquer resistência dos guardas fronteiriços do lado oriental treinados para apertar o gatilho das espingardas-metralhadoras, a queda definitiva do Muro de Berlim. Ora foi Schabowski quem há alguns anos contou a uma jornalista que numa reunião plenária do Comité Central do Partido, efetuada poucos meses antes, no preciso momento em que uma crise económica sem precedentes, a revolta popular e o aumento exponencial da fuga de cidadãos abalavam brutalmente o regime de Eric Honecker, aquele órgão se recusou a debater a situação. Limitou-se na altura a abordar os preparativos para as comemorações oficiais do 40º aniversário da chegada dos comunistas ao poder. Apenas numa conversa de corredor um alto responsável se teria referido vagamente aos protestos, sugerindo uma solução para acabar de vez com o descontentamento dos cidadãos: «Podemos dar-lhes bananas!» As bananas eram então, no território leste-alemão, um bem de consumo particularmente raro e cobiçado. Ao convocar uma reunião do Conselho de Estado para discutir,  por estes dias de derrocada da credibilidade do governo e de brutal escalada no empobrecimento da maioria dos portugueses, o que poderá vir a ser o país depois da troika nos deixar, Aníbal Cavaco Silva está a copiar a atitude autista de Honecker, tratando Portugal como uma república das bananas.

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    A luta comum

    Não configurando a salvação da pátria, a notícia da reunião bem-sucedida entre as direções da CGTP e da UGT, realizada a pedido desta última, é uma boa notícia. O resultado divulgado aponta para «uma grande convergência» de pontos de vista e para «90% de acordo» no que diz respeito a formas de luta comuns a adotar perante as políticas antissociais e de capitulação nacional do atual governo. Independentemente da herança do passado – da sobrançaria de uns, tantas vezes apostados em hegemonizar o movimento sindical; da tibieza de outros, em muitos momentos mais empenhados em assinar acordos «responsáveis» do que na defesa intransigente dos trabalhadores – é muito importante, neste momento dramático para a vida do país e da larga maioria dos que o habitam, que se una aquilo que houver para unir, mais com os olhos nos objetivos partilhados que na contagem calculista das espingardas. (mais…)

      Apontamentos, Atualidade, Opinião

      A minha primeira gravata vermelha

      Posso contar uma experiência em tudo parecida com a que outros contaram hoje nos jornais, nos blogues, nos murais do facebook. Em maio daquele ano fiz o exame da 4ª classe na minha escola primária, a principal, a da vila. Mas os alunos das aldeias em volta tiveram de vir, alguns a pé, nos seus melhores fatos, com o ar mais sério que eram capazes de pôr, cumprir a prova que desde a 1ª classe tanto temiam e para a maioria deles iria encerrar, para sempre, o tempo de estudos. Depois, em junho, como fazia parte do pequeno grupo dos que deveriam entrar no ensino secundário, fui à grande cidade fazer o exame «de admissão ao liceu» com prova escrita e oral. Lembro-me de tudo: do átrio enorme e assustador, dos corredores em cor beije e das salas numeradas, da minha primeira gravata vermelha (com pintas brancas), da cara patibular dos professores e, no final, passada já a grande dor de barriga, de ter comido na rua um portentoso sorvete de morango. Mas não recordo mais nada: das perguntas, da forma como me desembaracei delas, do que aprendi ou inventei para poder passar aquele transe sem grandes problemas. Nada, nadinha, nicles. Hoje compreendo que afinal o essencial não era aprender mais e melhor: era antes assinalar um ritual de submissão à hierarquia dos saberes e ao sagrado lugar da autoridade. E é isso que, na verdade, pretende replicar esta ideia peregrina de ressuscitar no século vinte e um o exame do 4º ano de escolaridade. Industriar os maleáveis cérebros dos pequenos corpos, para além de uma aprendizagem rudimentar, no reconhecimento de que existe um cerimonial de aferição a cumprir. Numa vida inteira a ser-se avaliado e a fazer por passar à frente dos outros. Sabendo muito, pouco ou quase nada.

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        Explicação das ideologias

        Contrariando o anúncio precoce do «fim das ideologias», feito por Daniel Bell em 1962 e certificado nos anos oitenta como componente essencial do «fim da História», têm sido reconhecidos ao longo da última década os problemas que levantou o seu suposto desaparecimento, procurando-se vias do reencontro com a sua definição enquanto modos de interpretar e de partilhar coletivamente os sentidos, ou «o sentido», do mundo em movimento. Pois afinal, como assinala João Cardoso Rosas na introdução a este Ideologias Políticas Contemporâneas, sem elas «não existe ação política». Aliás, recusá-las «em nome do pragmatismo e da tecnocracia» não é senão «uma forma de ideologia não assumida». Partindo deste pressuposto, os organizadores deste livro passaram por cima do gasto debate sobre as características neutras ou pejorativas dessa categoria, ou da sua relação com a utopia, centrando-se antes na sua presença na arena política contemporânea. Não o fazem, todavia, com base na mera dicotomia esquerda-direita: não a negando, passam de raspão pelas chamadas ideologias transversais (o nacionalismo e o ecologismo, entre outras) centrando-se na abordagem de cinco famílias políticas que consideram suficientemente autónomas e coerentes para justificarem o realce: a esquerda radical, o comunismo, o socialismo democrático, o liberalismo e o conservadorismo. (mais…)

          Atualidade, Opinião

          O PS, a esquerda e a manhã de nevoeiro

          Imagem de Boris Voglar
          Imagem de Boris Voglar

          Uma das esperanças mais frustradas da história da democracia no Portugal saído do 25 de Abril tem a ver com a possibilidade dos partidos, movimentos e setores à esquerda do Partido Socialista encontrarem neste um parceiro certo para uma alternativa capaz de superar a mera gestão institucional do capitalismo. As responsabilidades para a inexistência de um entendimento pertencem a ambas as partes: enquanto do lado dos socialistas o genoma de esquerda foi sendo maculado, gradualmente substituído por uma corrente administrativista, aparelhista e de certa forma «apolítica», associada na década de 1990 aos tiques e vertigens da Terceira Via blairiana, as forças à sua esquerda jamais deixaram de ver nos socialistas os fiéis e irrecuperáveis seguidores da traição revisionista de Bernstein, «serventuários da burguesia» de pendor social-democrata e reformista. Quanto muito, reconhecia-se a existência de uma «esquerda do PS», aplicando-se tal designação àqueles que, de facto, como uma espécie de arrependidos, se encontravam mais próximos de quem os classificava assim que do partido ao qual pertenciam. Tais atitudes foram bloqueando continuadamente a construção de um projeto de unidade governativa à esquerda. (mais…)

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            Neste 25 de Abril

            25 de Abril

            O processo de transfiguração do país que o 25 de Abril de 1974 abriu foi descrito como «Revolução dos Três D» (Democratizar, Descolonizar, Desenvolver). Este é o fundamento comum dos projetos políticos com os quais nos confrontámos por mais de três décadas e meia. A expressão pode parecer hoje algo redutora por não englobar as enormes mudanças que estavam para ocorrer no campo da vida privada, das relações de trabalho e das práticas culturais, mas não deixa de verbalizar princípios programáticos e uma linha de rumo que cruzaram os anos e os diferentes governos. Democratizar supunha assim abrir a gestão da coisa pública e do coletivo à voz e à vontade livremente expressa dos cidadãos, o que até ali era impossível. Descolonizar significava alijar o fardo da ideia de império e do domínio dos povos colonizados, o que até ali era impraticável. Desenvolver impunha encontrar e expandir novos ritmos para a criação de riqueza e o bem-estar das populações, o que não constava das perspetivas do velho «país habitual», idealizado por Salazar como quieto, naturalmente desigual e indiferente às tentações da vida moderna. (mais…)

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              Antes dos tambores

              Uma das consequências mais dramáticas da atual crise monetária é o reforço da clivagem, mais circunstancial que histórica, mais artificial que natural, entre os países do norte e os do sul da Europa, simplisticamente traduzida no afastamento daqueles que podem emprestar dos outros que apenas devem sem poder pagar. Esta separação é estimulada por dirigentes políticos e fazedores de opinião dos países do Norte, associados em regra à direita, e confirmada por outros do Sul, subservientes em relação aos primeiros, como acontece com a dupla Passos/Gaspar e a sua legião de humanas caixas de ressonância. Ou então pelos que, do lado da esquerda, lhes contrapõem a miragem de um rápido retorno aos bons tempos do Estado-Providência. O pior desta situação é que estas posições têm forte eco nas respetivas sociedades, gerando um estado de animosidade popular que instala uma perigosa incompreensão e demarca de forma violenta as duas partes do continente. (mais…)

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                A abolição do humanismo

                Distopia, por Strelok86
                Distopia

                Numa reportagem publicada há dias pelo diário i sobre as consequências sociais da crise e da austeridade, alguém declarava ao jornalista: «O humanismo desapareceu e o que eu vi na Grécia foi mesmo isso, uma catástrofe social em que o humanismo desapareceu.» Por humanismo entende-se aqui, parece claro, não a corrente cultural antropocentrista mas uma valorização da solidariedade que reconhece no semelhante um ser humano idêntico a nós, diante do qual temos obrigações de respeito e proteção tal como ele as tem para connosco. E é esta solidariedade, essência, instrumento e objetivo do humanismo, que falha no justo momento em que mais dela necessitarmos, quando o empobrecimento e a perda de direitos exigiriam um esforço de entreajuda e uma luta comum ainda mais intensa. Mas os culpados da crise e os seus atuais gestores sabem bem como seria perigosa tal política de aproximação, tal lógica de combativa partilha: ela iria transformar-se num inoportuno fator de resistência às políticas que procuram impor. Como essa resistência as tornaria inexequíveis, tudo fazem para alimentar os antagonismos que fazem renascer o «homem lobo do homem», assim justificando, como teorizou o filósofo Thomas Hobbes há perto de 350 anos, a intervenção desse Estado-Leviatã, mais juiz e polícia que equilibrador e paternal. (mais…)

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                  Duas calamidades

                  Regresso ao debate sobre a saída deste beco escuro e infeto ao qual estamos confinados desde que a política de austeridade tutelada do exterior se tornou a pedra de toque do governo da República, servindo à medida os propósitos dos setores que de há muito pretendiam destruir o Estado social, limitar os direitos dos trabalhadores e reduzir as liberdades. Dando-lhes, pela primeira vez, força e coragem suficientes para levarem a cabo o ímpeto revanchista que, em cobarde silêncio, foram alimentando ao longo das últimas décadas. Esta é a primeira das duas calamidades à qual estamos sujeitos: ser governados por quem tem da coisa pública uma perspetiva puramente instrumental, transpondo a salvaguarda do interesse coletivo, ou do bem comum, em favor da assumida defesa do interesse dos que fazem da desigualdade o fundamento da vida social. Por sua vez, tratando-se de uma ação levada a cabo em nome de uma imposição apresentada como imperativa e irrecusável – materializada no caráter prioritário do pagamento, a todo o custo e a toda a velocidade, da dívida soberana –, tal política é-nos apresentada da pior maneira: como exercício arbitrário de uma autoridade insensível aos direitos das pessoas comuns, aos fundamentos da democracia e até ao quadro mais essencial da independência do país. (mais…)

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                    Depois de Alcácer-Quibir

                    Retirando a atitude respeitosa patenteada pelo já pequeníssimo grupo de indefetíveis disseminado pelo país, pessoas de duvidoso sentido da realidade ou de espírito piedoso que ainda dão o benefício da dúvida à justeza e à dimensão avisada da intervenção pública de Aníbal Cavaco Silva, são de três tipos os qualificativos aos quais a generalidade dos portugueses recorre agora para tentar explicar o inexplicável. Uns consideram-na uma prova do caráter timorato e indeciso da pessoa em causa, traços considerados evidentes por quem sabe desenhar perfis psicológicos. Outros julgam-na resultado de uma senilidade algo prematura, documentada por sinais visíveis que os especialistas em gerontologia rapidamente identificam. Outros ainda, menos condescendentes, vêm nela o resultado de um mal-disfarçado calculismo, fruto de uma leitura apressada mas convicta do bê-á-bá amoral do maquiavelismo político. Se bem que negativas e preocupantes, cada uma destas três características seria, ainda assim, relevável se assumida de forma isolada. Mas e se todas elas se encontram a cumprir, em simultâneo, o seu papel na incoerente e irresponsável ação do Presidente da República? Depois dos reis Sebastião e Afonso VI – que acabaram a carreira pública da pior forma para eles e para o país – poder-se-á a História repetir?

                      Apontamentos, Atualidade, Opinião

                      O mal dos «bons alunos»

                      Desde que dei as minhas primeiras aulas, no ano de 1973, defini um padrão de apreciação dos alunos que ainda mantenho. Dividi-os em quatro grupos: os maus, os medianos, os bons e os excecionais. Os «maus», felizmente em minoria, são sempre os maus: aqueles que não sabem, não querem saber e detestam quem sabe, pouco ou nada havendo a fazer com eles que não seja manter algum grau de paciência e conservar a conveniente distância. Os «medianos», em regra a maioria, são aqueles que não estudam muito, parecem distraídos, faltam quando podem, não se esforçam por ter grandes notas, mas conservam, lá no fundo do seu fundo, um grau de curiosidade e capacidades que ao longo da vida os podem transformar em pessoas ativas, válidas e até notáveis. Há depois os «bons». Esses são os que tomam apontamentos de tudo, leem e sublinham várias vezes a bibliografia recomendada, são metódicos no estudo e geralmente reproduzem sem pestanejar as palavras e as interpretações dos seus professores, mas jamais superarão os «excecionais». Já estes mostram-se feitos de outra matéria: são os insaciáveis, que querem saber tudo de tudo, que possuem visível capacidade crítica, que procuram informar-se por si mesmos, que desenvolvem um pensamento próprio, que não aceitam sem pestanejar aquilo que os professores lhes dizem e sabem até ir mais além, por sua conta e risco. Se preciso for, emendando-se a si mesmos. Por isto me parece por demais evidente que um governo de «bons alunos», como aquele que supostamente temos – principalmente agora que se foi embora o cábula-mor –, jamais será capaz de se regenerar e de aceitar os próprios erros: o seu modelo não o permite, pois são incapazes de ultrapassar o nicho de «saber certo», adquirido acriticamente, no qual se empoleiraram. Falta-lhes o imprescindível rasgo para ir além daquilo que os mestres lhes ditaram e eles veneram.

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                        Desmantelando fronteiras

                        O que pode aproximar num manifesto comum pessoas com trajetos políticos tão diametralmente opostos como aqueles protagonizados pelos deputados europeus Daniel Cohn-Bendit (n. 1945), antigo libertário e atual copresidente do Grupo dos Verdes/Aliança Livre Europeia, e Guy Verhofstadt (n. 1953), do Grupo Democrata e Liberal, primeiro-ministro da Bélgica durante quase uma década? De forma condensada mas nem por isso mutilada, pode responder-se a esta pergunta falando de uma constatação e de uma proposta. A constatação é imposta por uma imagem que hoje poucos terão coragem de negar: «a Europa é um edifício que vacila nos seus alicerces», imersa numa crise profunda e assustadora, simultaneamente económica, demográfica, ecológica, política e institucional, pela qual europeu algum passa incólume e que questiona um paradigma de desenvolvimento, de bem-estar, de cooperação e de liberdade que ainda há pouco parecia robusto e irreversível. (mais…)

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                          A distopia da qual se fala

                          Quando se buscam os fatores partilhados de disfunção da grande utopia comunista que conduziram os Estados do «socialismo realmente existente» à situação cataléptica que decidiu a sua morte, alguns revelam-se particularmente evidentes. Desde logo aqueles que se reportam às rígidas políticas de engenharia social que determinaram êxodos de povos inteiros, fomes que poderiam ter sido evitadas ou uma atitude política de exclusão determinada pela origem social do reprimido, ainda que esta se encontrasse associada a uma quota significativa da população. São também recorrentemente mencionadas as condições de ausência de liberdade de crítica, que bloquearam as sociedades e até os próprios partidos no poder, assim como o espartilho de uma economia rigidamente planificada e burocratizada, através da qual se assinou a sentença de morte de um crescimento equilibrado e a incapacidade de suprir as necessidades reais da população. Outro aspeto conhecido mas habitualmente menos abordado diz respeito à formação e ao funcionamento das elites políticas e administrativas, as chamadas nomenklaturas, que emergiram da conceção leninista do partido como vanguarda e «exército de revolucionários profissionais» para se destacarem progressivamente como casta privilegiada, inamovível e cega face às transformações de um mundo em constante e cada vez mais rápida mudança. (mais…)

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                            Este peso sobre os ombros

                            As ondas de choque da última sondagem sobre as intenções de voto dos portugueses, a popularidade dos seus líderes políticos, a aceitação do seu governo e a confiança nas possibilidades da oposição, não deveriam ter-se dissipado tão depressa. Porque revelaram a descrença da maioria da população nos atuais governantes e ao mesmo tempo a limitada confiança que depositam nos que se lhe opõem, mostrando a necessidade de se fazer alguma coisa que altere este panorama. O Partido Socialista, mesmo falando agora num tom um pouco mais elevado, revela-se incapaz de promover uma política de alianças coerente e de se libertar dos rostos de cera produzidos e reproduzidos nos anéis concêntricos do seu próprio aparelho. O Partido Comunista mistura-se com os mais carenciados e empenha-se na luta contra o governo, mas hostiliza em idêntica medida os socialistas, por vezes até os bloquistas, impedindo à partida uma alternativa de governabilidade clara, consistente e agregadora. E o Bloco de Esquerda, apesar de ser dos três o partido mais aberto a uma solução partilhada, tem gasto precioso tempo e a escassa disponibilidade dos seus quadros em debates internos e espaços de reflexão legítimos mas cuja oportunidade é contestável. (mais…)

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                              A paz justa, um dia

                              Absorvidos pelas urgências da política doméstica ou pelas grandes preocupações que assolam a casa europeia – isto é, mais diretamente envolvidos nos assuntos que nos dizem respeito porque nos afetam os bolsos e as vidas –, temos esquecido, ou passado para segundo plano, os dramas um pouco mais distantes. É o que tem sucedido, por exemplo, com a guerra civil na Síria, empurrada para as pequenas notícias de pé de página no preciso momento em que o número de mortos, feridos, desaparecidos e desalojados continua a crescer numa escala perturbante. Mais: temo-nos dado ao luxo de a seu respeito deixar passar versões simplistas e parciais de uma realidade complexa, nas quais se transformam os carrascos em vítimas ou se simplifica, como num mero combate entre o Bem e o Mal, aquilo que, em Damasco ou Alepo, de facto não é simples. O mesmo está a acontecer com as ocorrências do interminável conflito israelo-palestiniano, do qual nos tem chegado informação aparentemente repetitiva, dando a entender que tudo está na mesma quando na realidade, embora lentamente, algo tem vindo a mudar. Parte desta novidade surge agora justamente de onde os mais distraídos ou irredutivelmente maniqueístas tendem a nada esperar de bom. (mais…)

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                                A voz dos outros

                                Não tenho muito mais a dizer sobre esta novela ruidosa, acompanhada de exacerbadas petições favoráveis ou desvaforáveis, projetada a propósito do anunciado regresso de José Sócrates, na qualidade de comentador político, a um espaço semanal na RTP. Cinco curtos parágrafos apenas:

                                1. Não conheço Sócrates em carne e osso e admito que possa até ser excelente pessoa. Mas desde que ganhou notoriedade política vi-o sempre como alguém com uma pose pouco dialogante e um discurso ideologicamente insípido, numa atitude que culminou, após a ascensão à chefia do Partido Socialista, com o isolamento da sua ala esquerda, por ele repetidamente apelidada de «velha», «caduca», em favor dos setores essencialmente técnicos e mergulhados na gestão «pura», próximos da já então moribunda Terceira Via. (mais…)

                                  Apontamentos, Atualidade, Democracia