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Graça e realidade

Na tentativa de explicar os primeiros indícios de mudança e o esforço de aproximação às pessoas comuns do novo papa, sinais que têm tornado ainda mais evidente o caminho de imobilismo e afastamento do mundo contemporâneo que marcou os dois últimos pontificados, muitos católicos têm declarado esta aparente metamorfose, e em particular a sua face mais afirmativa e calorosa, como «uma graça do Senhor». No entanto, dado que o conceito de «graça» se encontra associado à dádiva e à misericórdia divina, sendo por isso, e nessa medida, da exclusiva responsabilidade de Deus, tal não parece suficiente. A explicação da graça é a de quem acredita num ser superior, omnipotente e omnisciente, na sua bondade e na sua capacidade para intervir na esfera do humano, mas esta é uma justificação necessariamente incompleta, dado reforçar uma atitude de mera recetividade humana face à vontade divina. A verdade é que as eventuais mudanças, tal como os sinais que as estão a anteceder, estes já inequívocos, representam na prática – independentemente das boas intenções – uma resposta de parte da Igreja católica ao atoleiro de vícios e de ensimesmamento no qual esta se tem deixado submergir. A mudança é pois, para os não-crentes, não um ato de graça, mas antes o resultado de uma iniciativa humana personificada neste papa. Representa uma resposta a uma necessidade, determinada pelos problemas da própria Igreja e pela imprescindível reinscrição, ou reinicialização, do seu lugar no mundo. Se desta resultar uma Igreja católica melhor e mais próxima dos anseios, expectativas e necessidades que partilhamos, tanto melhor. Para todos, inclusive para aqueles não-crentes que sabem estender a mão.

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    As sandálias do pescador

    Quando alguém pede que declare a identidade religiosa costumo descrever-me como um agnóstico cristão. Não é difícil explicar o aparente paradoxo: não concebo racionalmente, nem creio, na existência de um Deus superior, entidade sobre-humana que não esteja apenas dentro de nós e como parte de nós. E muito menos acredito nas virtudes de uma religião capaz de tomar principalmente a forma de Igreja. Prezo muito no entanto a mensagem, revolucionária à época do seu surgimento, proposta por Jesus Cristo. Admiro-a pelo que então trouxe de radicalmente novo: pela defesa da paz e da aceitação numa era marcada pela guerra e pela tirania, pelo acento no ecumenismo num tempo de ódio religioso e poder imperial, pelo reconhecimento da igualdade numa sociedade esclavagista, pela valorização da compaixão e do amor quando a ética dominante assentava na violência, pelo reconhecimento das mulheres dentro de uma sociedade acentuadamente patriarcal, pela ênfase colocada na humildade quando a soberba pontuava a conduta daqueles que se elevavam acima dos outros. (mais…)

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      Demissão ou revolução

      Demissão Já!

      Nenhum governo se demite ou deve ser demitido só porque os seus adversários o exigem em todas as partes, com todas as forças e numa grande algazarra. Se assim fosse, o poder estaria sempre na boca do megafone, o que tornaria qualquer república ingovernável. Mas é verdade que a revolta não se faz em silêncio, com punhos de renda e pezinhos de lã. Faz-se sempre com estrondo, em alta voz, porque aponta para uma mudança urgente e completa, porque corresponde a um clamor pela justiça justa ou porque exprime uma sentida indignação. Mas, ainda assim, ela acontece dentro da ordem constitucional que só uma revolução terá condições para superar. No entanto, existe um limite para a legitimidade desta ordem: quando qualquer forma de poder põe em cheque a soberania popular, governando em nome do povo mas contra ele, apoiando-se no valor do voto mas subvertendo os programas com os quais esse voto foi obtido, cessa então o seu direito a mandar e a sua autoridade transforma-se em tirania.

      Quando, como ontem, o principal ministro do governo PSD-CDS reconheceu publicamente a falência do programa eleitoral, assumiu como um falhanço as medidas de emergência com as quais se subverteu esse programa e declarou solenemente a hipoteca austeritarista do nosso futuro – «o ajustamento [proposto por este governo] terá de continuar durante décadas, exige o esforço de uma geração», disse Gaspar – então nada mais existe que justifique o lugar que ocupa e o ambiente de aceitação que os cidadãos podem ter em relação a quem ainda governa. Diante deste panorama, só existem então três caminhos: ou o governo se demite ou quem tem a capacidade constitucional para o fazer toma essa iniciativa. Mas eu falei de três caminhos, não falei? Pois então o terceiro deles, o que faltava, pode ser a rua a ditá-lo. Demissão rimará então com revolução. Teremos mesmo de chegar aí?

      Nota: Este texto será partilhado na página Demissão do Facebook. Onde se espera que outros surjam e os leitores cliquem. Por mim, na condição dos próprios se sentirem envolvidos na iniciativa, passo o desafio ao Marco Santos, ao Miguel Cardina, ao Nuno Serra, ao Tomás Vasques e ao Zé Neves. Esta proposta, tinha-a recebido do João José Cardoso.

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        Teremos papa

        Face às previsíveis demonstrações de «enorme felicidade», «grande satisfação» e «esperança imensa» mecanicamente debitadas pelos católicos que em relação ao seu papa mantêm um relação de inquestionável fidelidade, surgiram também, logo após a escolha de Francisco para bispo de Roma, os juízos diametralmente opostos de quem, tal como em forma de caricatura alguém escreveu no meu mural do Facebook, ficou logo de pé atrás por se encontrar, provavelmente, «à espera da eleição de um hippie comunista, de um informático libertário ou de um transsexual saído dum bairro da lata.» Tentemos então escapar a este tipo de julgamento, fugindo de juízos apressados. De facto, a biografia do cardeal Ratzinger e o seu comportamento como papa Bento XVI, por constituírem um exemplo recente, deveriam ser suficientes para mostrar que a condição papal, pela dimensão e responsabilidades que envolve, pode reescrever muitos comportamentos e perspetivas. A mesma coisa se passa noutras áreas: assumir uma tarefa de responsabilidade máxima numa instituição de poder e prestígio investe, quem viva tal experiência, numa nova condição. A pessoa continua a ser quem é, mas ao mesmo tempo deixa de ser a mesma. Por isso será preferível esperarmos um pouco, sem crucificar já o novo papa por não se ter comportado neste ou naquele momento como eventualmente gostaríamos que se tivesse comportado. E sobretudo evitemos julgá-lo antes de fazer o quer que seja, para além de pronunciar umas palavras de circunstância na Praça de São Pedro e de dar aos fiéis a tradicional benção urbi et orbi. Ou por um passado com episódios mal conhecidos, que pode até não ter sido propriamente simpático, mas sobre o qual existem também muitos boatos e suposições. Cá estaremos para escrutinar aquilo que, na nova e pesada qualidade de sucessor de Pedro, o argentino Francisco vai dizer, escrever e fazer para os seus e perante o mundo inteiro. Ou pelo lado obscuro que possa eventualmente ter omitido do currículo. O «tempo de graça», como se sabe, é sempre curto. Mas um pouco de esperança, ainda que passageira, não faz mal a ninguém.

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          Péssimo sinal

          Pergunto-me, tal como se perguntará uma larga franja de portugueses interessados na queda do atual governo e na construção de uma solução de governabilidade à esquerda, se o PCP e o Bloco se darão conta da extrema gravidade que comporta o gesto de recusarem (o PCP abertamente, o Bloco implicitamente, dada a visível falta de empenho) a proposta do Partido Socialista e de António José Seguro para discutir eventuais alianças nas eleições autárquicas. É verdade que um dos flancos politicamente mais discutíveis, pessoalmente mais duvidosos e administrativamente mais obscuros do PS se define ao nível de boa parte das suas escolhas autárquicas. Vivendo e sendo desde há muito eleitor na cidade de Coimbra, estou particularmente habilitado para confirmar esta triste realidade. E sei perfeitamente que existe, aqui como em todo o país, um longo caminho a percorrer para que a aproximação à esquerda ocorra e sem desenvolva de um modo dinâmico e transparente, no respeito mútuo e no interesse da maioria dos cidadãos. Boa parte desse caminho será, aliás, forçosamente da responsabilidade do próprio PS. Mas não dar sequer ensejo a conversas sobre hipotéticas alianças a nível local, reagindo «de pedra na mão», constitui não só um ato de hostilidade em relação à possibilidade de construir alianças voltadas para a política do país como uma forma de mostrar publicamente que o sectarismo está longe de ser ultrapassado. Aceitando aproximações apenas se forem as «nossas regras» a determiná-las ou colocando sempre o acento tónico nas diferenças e nas divergências, apesar do tempo que vivemos, no qual uma rápida mudança de políticas associada a um vasto consenso eleitoral é, obviamente, a única solução para evitar o estado de calamidade e o salto do país para o mais negro dos abismos. O sinal que está a ser dado é negativo e deixará sequelas. E é também um fator de redução dessa dimensão de esperança sempre decisiva em tempo de mudança.

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            Mulheres e Mulherzinhas

            O Dia Internacional da Mulher, evocado como momento de rebelião e protesto no Portugal pré-Abril – devido ao lugar visivelmente secundário, marcado pela exploração material e pela depreciação cultural, que nele ocupavam as mulheres – foi-se banalizando nos últimos anos, e, tal como aconteceu com o Dia das Mentiras ou o dos Namorados, transformando num engodo para o consumo. Não que a data tivesse deixado de ser importante e não tenha permanecido na agenda dos movimentos e dos cidadãos cientes de que a emancipação das mulheres é uma tarefa apenas iniciada. Mesmo no mundo no qual estas são formalmente iguais em direitos e deveres e não precisam sair à rua com o rosto tapado ou vigiadas pelo marido. O que acontece é que a trivialização da data fez com que ela passasse a ser evocada também por mulheres com uma noção frágil da sua própria emancipação, confundindo-a apenas com a presença na rua e no mercado de trabalho, e ainda por homens que com o seu gesto de «homenagem às senhoras» apenas reforçam a desigualdade e o preconceito. São as mesmas e os mesmos que têm pavor do feminismo – grosseiramente julgado como expressão de uma hipotética luta «das mulheres contra os homens» ou de uma «recusa do feminino» – e que alimentam esta versão caricatural do 8 de Março. Na verdade, do que falam é do «Dia da Mulherzinha», essa criatura débil, frágil e desejavelmente rosada, decalcada do livro autobiográfico de Louisa May Alcott publicado há quase século e meio. A mulherzinha que se realiza no «final feliz», eventualmente consumado no casamento e na maternidade, mas, de facto, que permanece no seu lugar decorativo, dependente e subalterno. Mesmo quando sobe à tribuna, conduz um trator com presteza, toca pandeireta numa tuna ou dirige a economia familiar.

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              Como arruinar um projeto em 144 páginas

              Na História Politicamente Incorreta do Portugal Contemporâneo (De Salazar a Soares), editada há pouco pela Guerra & Paz, Henrique Raposo, o cronista do Expresso também «licenciado em História e mestre em Ciência Política», considera existir um padrão dominante no interior da historiografia nacional que é preciso meter na ordem. Este funcionaria como uma espécie de vírus, desvirtuando e falsificando o conhecimento que temos do século passado a partir da perspetiva vitoriosa da esquerda. Considerando-a intrinsecamente nefasta e objetivamente falsa, propõe-se então contribuir para atenuar essa influência. Resume-a neste livro através de um complexo de «mitos» que pretende questionar. Identifica essencialmente cinco: o de Salazar como mera criatura da Igreja católica, o de um Mário Soares sem o qual Portugal de facto não teria entrado na Europa, o do Estado Novo vergando os portugueses à irrevogável pobreza, o de uma esquerda que vez alguma fora «colonialista», e, por fim, o da hegemonia cultural da mesma esquerda como tendo começado antes do 25 de Abril e fechado as portas logo no final de 1975. A narrativa de Raposo procura negar radicalmente estes juízos, anunciados como fábulas. (mais…)

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                Tudo depende de nós

                Fotografia de Vesselin Vitanov
                Fotografia de Vesselin Vitanov

                Em A Ironia do Projeto Europeu parte-se de uma constatação: estamos de regresso a um ponto de partida do qual, ao longo das últimas décadas, jamais ponderámos reaproximar-nos. Há um século, como lembra Rui Tavares no início deste ensaio, a Europa contava com condições económicas, políticas e tecnológicas excecionais para construir «um sistema de cooperação entre nações fundado sobre a emancipação pessoal». Porém, muitos dos problemas verificados, «da finança descontrolada à legitimidade política esvaziada», antecipavam já aqueles com os quais hoje de novo nos confrontamos. Sabe-se que nessa época foi a Primeira Guerra Mundial a solução encontrada para supostamente resolver o dilema, mas tal não significa que estejamos hoje em condições de repetir a péssima receita. Existem demasiados interesses, combinados e sem um responsável identificado, para escolher um território físico e um inimigo contra o qual fazer agora marchar os exércitos. Ainda assim, e é essa uma das preocupações presentes neste livro: paira uma pulsão de violência imposta pela exacerbação das contradições e dos consequentes conflitos entre os Estados, os grupos sociais e os indivíduos. Por isso este livro apresenta uma reflexão sobre a contradição, em cenário de crise, entre crescimento e desigualdade, e também sobre a sua possível superação, procurando mostrar de que modo, apesar da propensão para o bloqueio e o conflito, existem condições para reconquistar uma democracia transformadora capaz de ajudar a Europa a regenerar-se e os europeus a lançarem-se num novo estádio de desenvolvimento. (mais…)

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                  Esperar desesperando

                  Fot. Paulo Pimenta / Público
                  Fot. Paulo Pimenta / Público

                  Encontrei na semana passada uma amiga brasileira que não via há algum tempo. M. vivera uma época em Portugal, que então percorrera de uma ponta à outra e conhecera bastante bem, até que há cerca de dois anos regressara por motivos familiares à sua cidade de origem. Agora de volta, depois de todo este tempo, para nós aparentemente sem fim, durante o qual o país sofreu o choque imenso que conhecemos, ocorreu-me perguntar-lhe se sentia alguma diferença visível entre o Portugal que deixara e aquele ao qual agora retornava. Aquilo que me respondeu não me deixou surpreendido: «Com certeza que sim, de imediato. E o que mais me impressionou foram as mudanças na cara das pessoas. Um ar de contrariedade, de desgosto, um semblante de tristeza e de falta de confiança, um rosto rígido que eu não conhecera antes, um olhar diferente e talvez um pouco perdido.» A nossa memória diz-nos a mesma coisa, mas pronunciada desta forma, a partir do ângulo de observação de quem não viveu o dia-a-dia da nossa dramática mudança, a descrição de M. funciona como um abalo. (mais…)

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                    Uma sombra de medo

                    De repente, uma sombra de medo começou a pairar sobre as cabeças de muitos dos nossos políticos de tribuna e comentadores de cátedra. Um medo não declarado, mas certo e percetível. Medo da atual vaga de protestos «antidemocráticos» e não conduzidos – materializados, veja-se a desfaçatez, na propagação pacífica da bela canção de fraternidade que anunciou o fim da ditadura – poder mostrar ao comum dos cidadãos que o exercício da democracia não se limita a depositar o voto na urna e, de seguida, a hibernar durante quatro anos com a consciência tranquila e a boca fechada. Passando uma procuração com plenos poderes aos governantes e aos deputados eleitos, inimputáveis durante toda uma legislatura ainda que já nem se recordem do rosto dos seus eleitores e, sem ponta de vergonha, tenham rasgado o contrato que com eles assinaram. (mais…)

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                      Para quem é…

                      Os acontecimentos que nos últimos dias envolveram a presença pública de Miguel Relvas e a violenta contestação da qual esta tem sido objeto por parte de alguns grupos de cidadãos mais destemidos, levantam uns pequenos problemas. Não penso que, em democracia, a contestação dos governantes deva passar pelo cerceamento da sua liberdade de opinião e de expressão. Ou pelo insulto público. Existem formas e lugares para a demonstração do descontentamento, mesmo quando esta é muito veemente, e que podem passar por outras iniciativas sem que tal diminua o seu impacto. Porém, no caso deste governante, e do seu trajeto oportunista, obscuro, mercantil e politicamente desprestigiado, exibido com a conivência de um governo empenhado em pôr em causa a própria Constituição da República, justifica-se uma exceção. Perante a desfaçatez, enorme e insultuosa, que é a sua manutenção teimosa, artificial e até imprudente como responsável governamental da mais alta responsabilidade, a soberania pode ser transferida para os governados e estes adquirem todo o direito, desde que o não façam com recurso à violência física – o que jamais aconteceu, diga-se –, de fazerem ouvir a sua voz. Da forma, com a intensidade e nos lugares onde entendam por bem fazê-lo. O protesto e a indignação, para serem eficazes como protesto e indignação, não podem ser bradados em surdina, cantados em becos, mastigados em vãos de escada e exibidos à socapa com punhos de renda. Precisam ser visíveis e sonoros, e, de hoje em dia, de ganhar projeção mediática. Só que cantar o Grândola, Vila Morena em tal situação parece-me um pouco desprestigiante para este grande hino-canção, tão importante para a tradição democrática e a memória coletiva dos portugueses. É que «para quem é bacalhau basta», e por isso, como escrevia alguém com piada e carradas de razão no meu mural do Facebook, mais valia cantar a Relvas A Mula da Cooperativa.

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                        As faturas e a apoteose do ridículo

                        Contou-me certa vez um amigo açoriano que a imagem do medo da sua mais recuada memória de infância associava três elementos: a proximidade de hipotéticos navios russos, a intervenção certa e segura do diabo e a convicção de que, por onde quer que passeasse na sua ilha, existiriam fiscais do isqueiro para o autuarem por falta de licença de uso daquela ferramenta manual de ignição, imprescindível para os fumadores, como ele era na altura. Este terceiro medo era afinal o único que tinha razão de ser: a necessidade de porte de licença para uso de acendedores e isqueiros antes de 1974 não é uma invenção de pessoas com imaginação e prova-nos de que forma, naquela época, a vigilância policial dos cidadãos combinava por vezes a rigidez do controlo com a intervenção do ridículo. O aviso, feito agora pela Secretaria de Estado dos Assuntos Fiscais, de que, onde quer que se transacionem bens, poderão ser realizadas ações de fiscalização «que incidam sobre a obrigação de exigir a emissão de fatura por parte dos consumidores finais», ações que «podem ser realizadas à saída dos estabelecimentos comerciais para garantir que os consumidores exigem efetivamente as faturas pelas compras realizadas», reconduz-nos perigosamente a esse tempo. Pondo portugueses a vigiarem portugueses, de livro de autos na mão, inclusive à porta de capoeiras nas quais se possam transacionar clandestinos galináceos, ou encostados às carroças dos assadores de castanhas, como «medida de combate eficaz à economia paralela, à evasão fiscal e às situações de subfaturação». Para reequilibrar as contas do Estado, naturalmente. De volta pois à apoteose do ridículo.

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                          De um Portugal português

                          Enquanto este blogue respira uns dias para ganhar outro balanço, aqui vai um post publicado há um pouco mais de quatro anos. Talvez não esteja muito desatualizado.

                          Portugal Anos 50Numa tarde destas, enquanto me esforçava uma vez mais por dar algum sentido aos livros acumulados sem grande nexo, reencontrei um conjunto de postais reproduzindo fotografias de Gérard Castello Lopes tiradas ao Portugal dos anos 50. Foram editadas em 1999 na companhia de pequenos textos de dois Antónios. «Outros tempos, outros lugares», sublinhava um deles, o Tabucchi, na contracapa. O outro, o Barreto, falava de um país passado que Castello Lopes revirou e nos ofereceu contrariando uma quase crónica escassez de imagens. Mas será realmente assim? Estaremos a olhar aqui para um país inteiramente outro, mergulhado num sono coletivo e prolongado do qual só na década de 1960 teria sido possível despertar? Revejo as imagens e encontro em quase todas elas vestígios de um Portugal que me parece o de sempre, diverso daquele que hoje habitamos mas nem por isso imóvel, nem por isso falho do movimento que é parte da memória comum. Na qual continua a apoiar-se aquilo que nos aproxima, ajudando a desenhar a comunidade que imaginamos. (mais…)

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                            Por uma cultura mais sóbria

                            Gilles Lipovetsky é um dos filósofos, críticos da superação hedonista e individualista da modernidade, mas ao mesmo tempo adversários de um coletivismo historicista que constrange a liberdade, cuja obra mais cedo e de forma mais substancial foi traduzida em Portugal. A Era do Vazio, saída em 1983, indiciava já aquela que, sob diferentes formas, será mantida como a sua interrogação maior, a saber: perante as contingências de uma época na qual deixou de existir a noção de finalidade histórica, como olhar o fenómeno inverso de em nada crer, por nada se bater, pois tudo é efémero? Em A Sociedade da Deceção (Edições 70), pequeno livro resultante de uma entrevista concedida a Bertrand Richard em 2006 e agora traduzido, Lipovetsky aborda os malefícios morais produzidos por essa «sociedade da abundância» que tende a depreciar, a esvaziar, o valor de todas as coisas, conduzindo à ideia de que nada, nem mesmo o sentimento de posse de determinados bens, a todo o instante substituídos por outros, vale realmente a pena. Nestas condições, prevê um aumento do mal-estar, mas pensa que o consumismo capitalista acabará por se cansar de si mesmo, invertendo a marcha rumo a uma cultura necessariamente mais sóbria e mais humana. Capaz de produzir os seus próprios anticorpos, entre estes o papel do voluntariado, um ecologismo responsável, a ideia de comércio justo e de desenvolvimento sustentável, e até a capacidade crítica induzida pelas redes sociais. Associado à errância das convicções, o mercado conseguiu alterar valores e estados de espírito, mas não comercializá-los de todo. Para Lipovetsky é, pois, possível o levantar de uma democracia pós-consumista. (Gilles Lipovetsky, A Sociedade da Deceção. Trad. Luis Filipe Sarmento. Edições 70. 114 págs.)

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                              Galão escuro

                              Não sou propriamente um admirador do estilo e do discurso pessoal, a meu ver um tanto obreirista, despojado de jogo de cintura e de léxico geracionalmente datado, de Arménio Carlos. E menos ainda o sou, apesar de lhe respeitar o lastro de dedicação e luta, da forma como a política sindical do seu partido tem orientado a atividade da CGTP. Mas estou inteiramente do lado de Arménio quanto a esta «questão do escurinho». Refiro-me à forma como o secretário-geral da central sindical se referiu publicamente a Abebe Selassié, o etíope que qualificou como o «terceiro rei mago» desta Troika alienígena que nos governa e empurra para o precipício. A obsessão do politicamente correto faz destas coisas: vigia até os pequenos detalhes, desvia-se do que é realmente importante, e erra o alvo com inábeis tiros de pólvora seca. Será preferível, para quem se entreteve a dissecar esta liberdade verbal, o discurso cinzento, permanentemente examinado e autovigiado, que retira humanidade ao combate político e faz de quem assume responsabilidades públicas um cidadão permanente acossado? Ou ficarão os críticos neste particular de Arménio Carlos menos perturbados com as sobrevivências dessa previsível «língua de madeira» que contamina tantas vezes, e em momentos decisivos, o seu discurso? Quando ressurgem estes fantasmas lembro-me sempre de um amigo que conheceu o antigo presidente moçambicano Samora Machel – nos anos que se seguiram ao 25 de Abril objeto regular de piadas racistas, bastante acintosas, que a generalidade dos portugueses de esquerda e de direita contava no meio de grande galhofa – e me garantiu terem sido as mais engraçadas de todas as que ouviu aquelas saídas da boca do próprio Samora. O antirracismo pratica-se e combate-se em muitas frentes, mas o policiamento severo, maníaco e por vezes demagógico da linguagem – sobretudo quando aplicado a pessoas insuspeitas de partilharem essa detestável atitude social – não será seguramente uma delas.

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                                Mudança em Israel?

                                Existe um equívoco, partilhado por muitas pessoas que têm o cuidado de separar o antissemitismo do antissionismo, fundado na ideia errada de acordo com a qual o sionismo foi e é, da base ao topo, sempre agressivo, expansionista e basicamente de direita. Como se sabe, a explicação mais simples aponta o antissemitismo como preconceito ou hostilidade contra os judeus, fundado no ódio contra a sua identidade histórica, étnica, cultural e religiosa. Esta é uma tendência que uma grande parte da esquerda sempre recusou ou continua a recusar, ainda que, na prática, a sua vertente mais dogmática com ela tenha pactuado ou continue muitas vezes a pactuar. Por sua vez, o antissionismo prevê uma oposição frontal ao direito do povo judeu à autodeterminação e à existência de um Estado nacional judaico independente e soberano. Simplificando: um grande número de bons cidadãos e de consciências democráticas admite que os judeus não devem ser perseguidos pelo facto de o serem, mas, sendo-o e vivendo no único estado judaico existente, devem tratar de empacotar os haveres e tornar à errância, devolvendo a integralidade do território àqueles, palestinianos principalmente, que dele foram espoliados quando do processo que conduziu à independência e depois, pela via da guerra e dos colonatos, à expansão territorial de Israel. O antissionismo alimenta assim o antissemitismo. (mais…)

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                                  A História e as escolhas de Israel

                                  Tony Judt

                                  Quem se interessa um pouco pela história recente, ou por aquela que com esta se relaciona, conhecerá provavelmente, pelo menos de ler alguns comentários a propósito do tema, as teses revisionistas, inevitavelmente polémicas, do historiador Shlomo Sand, um descendente de judeus polacos sobreviventes de Auschwitz que é, entre outros empregos académicos, professor na Universidade de Tel Aviv. O seu Como o Povo Judeu foi inventado, acaba de ser publicado em Portugal, numa edição da Figueirinhas, e traz-nos de volta ao essencial da tese que defendeu e o título desta obra limpidamente revela. Sand procura aí provar que o povo judeu jamais existiu como «raça-nação» com uma origem comum, resultando antes de uma mistura de grupos muito diferentes que, em diversos momentos da história foram aderindo à religião judaica. O que, a ser aceite, pode reduzir parte da legitimidade histórica que fundamenta a existência de Israel. Por vezes o seu trabalho – discutível, sem dúvida, mas não negligenciável – tem sido aproximado daquele produzido pelos «historiadores» que desenvolveram teorias negacionistas a respeito do Holocausto, considerando-o essencialmente uma «invenção dos judeus», mas essa é uma ideia de modo algum partilhada por Sand. (mais…)

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                                    Nós, albaneses

                                    Apesar de já ter sido mais usada, a palavra «albanização» continua a fazer o seu curso no vocabulário político ordinário. Originalmente, reportava-se a uma vinculação às características do Estado albanês nos tempos da República Popular, proclamada no final da Segunda Guerra Mundial e governada com pulso de ferro por Enver Hoxha e o seu Partido do Trabalho. O território da Albânia, outrora local de um trânsito, nem sempre pacífico mas ruidoso e constante de povos muito diversos, servira de base de apoio nos Balcãs aos fascistas italianos e depois aos nazis. Expulsos estes, passou, após curto período de conflito civil que levou os comunistas ao poder, a fechar-se completamente ao exterior. Uma situação ampliada a partir de 1948 com a rutura completa com a Jugoslávia, à qual se seguiria, em 1961, o corte de relações com a União Soviética, e depois, em 1978, o distanciamento da China. A «albanização» tomou então dois rostos complementares: exprimiu, por um lado, a dimensão de um «Estado-pária», fechado sobre si próprio e que procurou viver de forma autossuficiente, na ignorância das mudanças que ocorriam à sua volta; e por outro, em consequência desses limites e do caráter totalitário do regime, marcou também a instauração de uma política interna de rígida contenção do desenvolvimento económico, cultural e social e de efetivo limite dos direitos individuais. (mais…)

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