É sempre difícil fazer uma apreciação dos resultados das eleições autárquicas fundada apenas em operações simples feitas com a máquina de calcular. A dificuldade é imposta pela intervenção de fatores pessoais (como as capacidades ou o prestígio público de determinados candidatos), circunstâncias locais (entre eles as redes clientelares ou a existência de problemas regionais muito concretos) e particularidades orgânicas (sobretudo no que diz respeito à apresentação de coligações eleitorais e, agora, também ao crescente papel das listas de independentes). Por isso, nada como tentar transformar o complexo em simples e olhar as eleições não na mera perspetiva dos números, mas sob um ângulo mais amplo, capaz de permitir a observação de algumas das suas dinâmicas. (mais…)
1. Voltou a reacender-se o interminável debate público sobre as «praxes académicas». Trata-se de uma discussão quase sempre bastante crispada, opondo os que nelas vêm uma forma de viver a academia e, presumem, de salvaguardar as suas tradições, aos que as recusam liminarmente como inúteis, obtusas e detestáveis. Deste debate autoexcluem-se infelizmente os atuais estudantes «praxistas», que a põem em prática de forma automática, quase sem qualquer preocupação crítica com as suas origens, formas, significados e consequências. Deixo claro que não sou neutro neste debate, pois rejeitei-as há muito, antes até de ser estudante universitário, não tendo mudado de opinião. Não o faço, porém, a partir de uma atitude cega e intransigente. (mais…)
Viver numa cidade de tamanho médio como o é Coimbra, que possui além disso marcas históricas, sociológicas e culturais muito próprias, leva-nos ao confronto com uma gestão autárquica que tem, frequentes vezes, demasiadas vezes, caminhado a contracorrente daquilo que essas marcas reclamam. O que impõe o anseio e a necessidade de uma mudança rápida e substancial. (mais…)
Mais que qualquer outra cidade portuguesa, a meio de setembro Coimbra reanima-se com o regresso às aulas. É verdade que já não se nota tanto a diferença, ainda percetível há uma vintena de anos, entre o deserto que eram as férias do verão e o movimento que depois delas ia lentamente regressando. Muitas coisas mudaram entretanto: o número de residentes disparou mas o dos alunos universitários manteve-se idêntico, e o crescimento da classe média, dos serviços, do comércio e do turismo fez com que a urbe passasse a depender menos dos estudantes. A própria vida universitária sofreu uma mudança, ampliando-se a rede de vivências e de relações com outras regiões e tornando-se menos exclusiva a ligação dos universitários com a cidade. No entanto, quem nela mora ou frequenta as suas áreas mais ocupadas pela vida estudantil continua a dar conta de que, de repente, quando o verão se aproxima do fim, há um novo ruído no ar e ocorre uma metamorfose da paisagem humana. (mais…)
António Guerreiro escreveu há dias numa crónica para o Ípsilon, que «o analfabetismo funcional, próprio das classes baixas», é agora «parte da panóplia de atributos das chamadas elites». É verdade que Guerreiro se serviu da frase para tratar um tema muito objetivo – o significado simbólico do padrão de linguagem utilizado nas caixas de comentários das edições online dos jornais – tendo em conta a incorporação, por parte de certos responsáveis editoriais, de alguns dos valores, dos códigos e das palavras utilizados por pessoas maioritariamente semiletradas e sem grande capacidade analítica. Intervindo naqueles espaços, elas têm agora direito a uma palavra que ali lhes estava vedada, a um espaço que não fazia parte do seu universo de comunicação, rebaixando ou impedindo qualquer debate mais complexo e fundamentado. Vou servir-me da ideia ampliando o seu alcance como chave interpretativa de uma outra situação. (mais…)
À medida que nos aproximamos das eleições autárquicas, áreas nucleares da paisagem urbana de cidades e vilas – as suas praças e rotundas, as principais vias de acesso, os espaços de utilização comunitária – estão a ser ocupados por gigantescos cartazes de propaganda das candidaturas. Herdeiro do antigo design construtivista russo e da escola da Bauhaus, o cartaz sobreviveu à manipulação pelos regimes totalitários e ao surgimento das novas técnicas de comunicação oferecidas pela televisão e pela Internet, sendo profusamente utilizado pelas democracias. É fácil perceber porquê: sob a forma de outdoor é um instrumento de acesso fácil, impõe-se por si mesmo e não precisa ser descodificado, integrando slogans de captação rápida, otimizados para ficar na memória de quem os observa num piscar de olhos ou em movimento. (mais…)
Resulta sempre difícil defender a liberdade da crítica e lamentar ao mesmo tempo o uso que dela é feito em determinados espaços de comunicação. Mas existe uma diferença muito grande entre aceitar as opiniões dos outros, por mais avessas que elas possam ser às nossas próprias convicções, uma diferença entre defender o direito à expressão de quaisquer pontos de vista, e admitir que tal seja feito recorrendo a meios de comunicação que, pelo seu prestígio e alcance, legitimam a incoerência dos argumentos e mascaram a falsidade ou a desonestidade das afirmações. (mais…)
Nas últimas linhas de um dos derradeiros textos que ditou para a New York Review of Books, quando as palavras ainda lhe corriam fluídas pelo cérebro enquanto sentia já dificuldade em pronunciá-las com a clareza que sempre procurou, Tony Judt reflectia sobre os problemas da comunicação contemporânea: «Se as palavras se deterioram, o que poderá substituí-las? Elas são tudo aquilo que nos resta.» Não se referia, porém, ao seu problema pessoal, ao fim à vista da sua capacidade para comunicar, que sabia irrevogável: no artigo «Words» falava principalmente da preocupação com o recuo do antigo modelo de educação humanista, que tanto tem vindo a ser desacreditado pelos arrogantes campeões do «saber técnico». Falava da perda de voz dos que usam a língua, central nesse modelo que formou o seu e o nosso mundo, para conhecer sem coacções, para ocupar os espaços públicos do debate, para transformar a controvérsia num factor de dignidade e de liberdade. Falava da perda do lugar central da «fala pela fala», como processo de aproximação e de verdadeiro conhecimento. Dessa perda que, neste tempo que promove o triunfo do prático, do lógico, do eficaz, do «útil», muitos de nós sentimos, todos os dias, com dor e com preocupação. Dessa perda que Tony Judt observava mesmo em lugares, como as universidades, originalmente concebidas justamente para impedi-la de ocorrer: «A “profissionalização” do discurso académico – e a deliberada apreensão por parte dos humanistas da segurança da “teoria” e da “metodologia” – favorece o obscurantismo.» Judt via nas palavras, no uso e no abuso das palavras, na sua troca sem compromissos, o espaço ideal de resistência perante a incompreensão e o individualismo impostos pela falta de vozes críticas ou pelo ruído daquelas que tanto falam e nada dizem.
Republico este post no dia em que, se por cá estivesse a aturar a corja e a dar-nos força para a pôr a andar, José Afonso perfaria 84.
Não, não vou invocar uma relação de proximidade com José Afonso. Falei com ele uma única vez, por curtos instantes, e ouvi-o cantar uma dúzia, se tanto, sempre com a cábula por perto. Ouvi-o desafinar. Vi-o até tocar violão, coisa que, como lembra Rui Pato e posso confirmar, fazia pessimamente. Mas mais nada. Por isso não o chamo de Zeca, tratamento carinhoso e plebeu que sempre olhei como um exclusivo dos seus íntimos. Gostei medianamente de alguma da sua música (das primeiras baladas, de forte carga simbólica mas ainda demasiado próximas, para o meu esquisito gosto, do fado de Coimbra), muito de outra (com aquelas linhas poéticas inesquecíveis), muitíssimo de dois ou três discos, tão bons, tão bons, nos textos e nas composições. Vejo Cantigas do Maio, arranjado por José Mário Branco, como um dos três maiores álbuns de sempre da música popular portuguesa (a par do Com que Voz, da Amália, e do Mudam-se os Tempos…, do mesmo José Mário). Mas aquilo que sempre olhei como um seu lado singular, estimável e verdadeiramente exemplar foi o bravo quixotismo, a perene inquietude, o pendor para a anarquia, a atitude crítica, o modo poético de falar, de pensar, até de parecer, a capacidade para fazer amigos (lembram aqueles que o foram), a coragem que o fez circular pela vida sempre sobre parapeitos, o antidogmatismo pelo qual foi criticado por parte dos que agora, numa vaga de unanimismo acrítico, o incensam como um dos seus (nem sempre foi, sabiam?). Será esse lado independente e solidário, simples e desassossegado, convicto mas aberto à fantasia, que, tanto quanto a sua música, dele podemos recolher ainda como exemplo. Faz-nos falta. Faz, faz, porque isto agora, José…
Um dos resultados da crise financeira iniciada em 2008 foi a propagação de um conjunto de fábulas que, sob a forma de inquestionáveis «verdades», aparentemente tendem a determinar a inevitabilidade do «modelo neoliberal», apesar do seu estado comatoso. Dito de outra forma: a gravidade dos problemas surgidos em catadupa provocou em boa parte da opinião pública, não a rejeição mais ou menos radical deste modelo, mas antes a afirmação, aparentemente consensual, do princípio segundo o qual tudo o que aconteceu de mau se ficou a dever a décadas de políticas que ampliaram o papel do Estado social, restringiram a liberdade dos mercados e impediram a hegemonia da iniciativa privada. É com este pano de fundo, e com uma intenção assumidamente militante determinada pela necessidade de dissolver tais fábulas e de desconstruir falsos consensos, que um sociólogo, um historiador e um geógrafo compilaram testemunhos de especialistas capazes de os contestarem de forma documentada, consistente e ao mesmo tempo pedagógica. Na introdução, declaram a necessidade de se oporem a essa «fabricação do consentimento» que tem nas ideias do senso comum uma das mais poderosas forças motrizes. «Repetidas pelo discurso político, reproduzidas nas conversas de autocarro, reforçadas pelas histórias de alguma comunicação social», estas ideias são, na sua opinião, «essenciais no jogo de representações» que tem transformado o evitável em inevitável e tendido a qualificar como luxos um conjunto de direitos sociais e de fatores de qualidade de vida conquistados ao longo de décadas. (mais…)
Numa das conversas de teor autobiográfico com Timothy Snyder que fazem parte de Pensar o Século XX, um dos seus últimos livros, Tony Judt, educado principalmente em Londres, falou a dado momento da sua relação familiar com a França e com os carros franceses. O seu pai era um grande apreciador da marca Citroën, por motivos que só mais tarde compreendeu: os fundadores da marca eram, como os pais do historiador, de origem judia. Por outro lado, o velho Joe Judt não se inibia de dizer que jamais conduziria um Renault, uma vez que Louis Renault fora um colaboracionista, simpatizante confesso do regime de Vichy, tendo por isso visto a firma ser nacionalizada quando da Libertação. Quanto aos Peugeot, eram olhados com alguma indiferença mas sem animosidade, uma vez que eram de linhagem protestante e não estavam por esse motivo implicados no antissemitismo católico da França de Pétain. O que Tony Judt nunca terá sabido foi da influência de um veículo Citroën – o nefando BX com o qual em 1985 chegou ao Congresso do PSD na Figueira da Foz – na desastrosa ascensão ao poder, em Portugal, de Aníbal Cavaco Silva. Homem inteligente e de esquerda como era, se o soubesse talvez aceitasse contrariar o gosto paterno.
Vi e ouvi com atenção e algum respeito a entrevista que, na noite desta sexta-feira, Adriano Moreira, um homem de direita mas um sábio, concedeu à SIC. Independentemente da lucidez da análise – e até da sua justeza, nomeadamente quando criticou a incapacidade do governo atual para ter uma política externa mais consentânea com a defesa firme da soberania («O poder da voz não é para ser usado onde a voz tem poder?») – impressionou-me a estirpe de político em vias de extinção que este veterano de 90 anos representa. Teve, como tanta gente, manchas pesadas no percurso – e foi até o jovem ministro do Ultramar de Salazar no primeiros anos da Guerra Colonial – mas é um bom exemplo do que nos podia oferecer a velha escola desses políticos de visão panorâmica que dificilmente encontramos hoje.
Não contou para eles o terem sido formados em técnicas de contorcionismo, retórica e amiguismo nas juventudes e nos aparelhos partidários, ou nos gabinetes das comissões concelhias e das autarquias, mas o facto de serem homens de cultura, de leituras profundas, com vasta formação académica e experiência de vida que lhes permitia ver mais longe e mais fundo, usando a história, a estratégia, o conhecimento do humano, a política de longo alcance como instrumentos de orientação, que depois a inteligência e o carisma completavam. Faz-nos falta gente desta qualidade. Que não fala de ouvido e tem um desígnio. Da qual podemos discordar justamente porque nos pôs a pensar. Que nos ajuda a pensar porque não diz o que se espera, mas aquilo que poucos vêem. Mesmo quando estamos quase sempre no lado oposto ao da sua barricada.
Estamos já, aqui no retângulo, bem entrados no âmago da fase «Per’aí!». Depois de duas horas passadas a ver na televisão debates sobre a atual situação política, pode concluir-se que, independentemente do quadrante a que pertencem, todos os comentadores seguem a mesma linha de raciocínio. Dispõe-se ela por sete etapas, sucessivas e muito rápidas, que passo a enumerar.
1º) Faz-se a arqueologia da crise, que remonta aos tempos remotos (há 17 dias já, repare-se bem!) em que Vitor Gaspar escreveu uma carta de demissão; 2º) Resume-se o último discurso de Aníbal António Cavaco Silva; 3º) Colocam-se os diversos cenários plausíveis para uma solução minimamente racional do imbróglio causado pelo mesmo Aníbal António; 4º) Conclui-se rapidamente que nenhum desses cenários é certo e seguro («salvo seja»); 5º) Diz-se porém «a não ser que…» e avança-se com uma ideia mais ou menos estapafúrdia; 6º) Breves instantes de risota geral e vários encolher de ombros; 7º) Finalmente, alguém ergue um dedo e diz «Per’aí!», concluindo, com o aplauso geral, que a tal ideia estapafúrdia até pode vingar. «A não ser que…», naturalmente. E tudo recomeça no debate seguinte.
Uma conversa de manicómio ao pé disto será sempre qualquer coisa de tremendamente enfadonho e carente de uma dose razoável de imaginação delirante.
Faço parte daquela parcela de portugueses, cujo tamanho desconheço mas que não será com toda a certeza pequena, que sem confiarem no Partido Socialista, ou mesmo sem jamais nele terem votado, o consideram, para o bem e para o mal, como peça basilar do regime democrático. Como este grupo a que pertenço é bastante heterogéneo, torna-se difícil caracterizar tal atitude de uma forma global, mas sou capaz de falar por mim. Na sua forma original, o PS é, a meu ver, o principal herdeiro local da velha tradição europeia social-democrata, reformista e anti-autoritária, aliando, pelo menos na teoria, uma preocupação com os direitos políticos dos cidadãos, com a proteção partilhada do seu bem-estar, com a salvaguarda da democracia representativa e com um ideal de mudança obtido de forma gradual e moderada. Essa é, ou foi, a sua matriz. Porém, o Partido Socialista não é apenas isso. (mais…)
Estão por todo o lado, embora se encontrem sobretudo em profissões mais afastadas do escrutínio público. São gente desprezível que jamais fala com clareza e olha os outros de frente, que pode passar décadas sem abrir a boca, sem nunca pôr a debate os seus pontos de vista, até ao dia em que tem a absoluta certeza de estar na mó de cima e de, enfim, poder ditar o que deseja sem a maçada do contraditório. São os caladinhos, os calculistas, os carreiristas, que lançam o veneno sem que se lhes ouça o corpo a rastejar por entre os arbustos, até poderem, já em cima da presa, engoli-la sem dificuldade. Gente na qual nunca se pode confiar, mas que, justamente por causa da sua falta de coragem e de verticalidade, nunca se comprometendo, fazendo-se sempre passar por cordata e consensual, acaba por se aproveitar do desgaste dos outros. Daqueles que suaram anos a fio, tomaram posições difíceis, mas que por cansaço ou desistência, deixaram vazios os lugares que alguém teria de ocupar. (mais…)
«Eu sei que vocês vão primeiro, mas depois vamos nós.» Estas palavras de António José Seguro, pronunciadas ontem na convenção autárquica do PS, podem ser palavras de circunstância, um modo de incutir ânimo e confiança nos militantes, mas contêm também um sinal negativo. Tanto para quem as receba com fervor, como para quem as leia criticamente do lado de fora do partido. Elas traduzem uma estratégia de pura assunção do poder (vós ides, nós vamos, para «lá») pouco conforme com uma lógica abrangente, unitária e de revisão das caducas estratégias partidárias de assalto aos lugares da administração pública, que uma larga maioria dos portugueses exige. Um líder partidário de dimensão nacional deve congregar esforços e apontar metas ao seu próprio partido, evidentemente, mas não pode esgotar nele, nem mesmo aparentar fazê-lo, uma lógica de solução para o destino democrático partilhado por todos. Particularmente numa altura destas, na qual a fronteira que separa o país do abismo, e o Estado dos cidadãos, é ténue e perceptível.
No princípio o 10 de Junho metia-me medo. A partir dos treze ou catorze passei a odiá-lo. Apesar da atitude ter mudado, o motivo era o mesmo: a experiência traumática de ver na televisão de canal único, a preto e branco, a cerimónia integral com a «veneranda figura do Chefe de Estado», de alva farda marítima, ou com os ministros do governo, invariavelmente de escuro cinza, a aporem medalhas de bronze – as de ouro e prata estavam reservadas para os mais dignos – em homens e mulheres trajados de negro, recém-chegados nos seus fatos domingueiros de aldeias recônditas ou de bairros degradados. Lá estavam eles nervosos e chorosos no Terreiro do Paço, com «as tropas dispostas em parada», a receber, ano após ano, em complemento de um cumprimento rápido e ritual, o pequeno símbolo metálico com o qual a Pátria, supostamente reconhecida, premiava os seus filhos mortos, os seus maridos desaparecidos, os seus irmãos que haviam perdido a razão, a alma ou os tímpanos numa guerra sem saída. Mesmo após a instauração da democracia, aqueles que haviam crescido a observar esse rito anual jamais esqueceram as manhãs de verão durante as quais, a cada ano, se transformava aquele feriado num funeral da pátria. (mais…)
A decrepitude é um dos mais visíveis sinais da arquitetura civil da cidade de Havana. Há quem nela veja as marcas de uma certa honradez, exibida por quem prefere a caliça a esboroar-se e a água a pingar do teto a ver o regime mudar de azimute aceitando que nem tudo correu bem. Outros chamam-lhe patine, ligando-a à nostalgia da certa grandeza perdida. No entanto, para quem a habita, ela só seria verdadeiramente boa e aceitável se existisse uma possibilidade de escolha, ou pudesse considerar-se a vaga hipótese de mudar para um apartamento pintado de fresco, sem humidade e soalhos a ranger. Se pensarmos em como tanta gente se vê forçada a viver a vida inteira, cruzando aquele cenário de pobreza e decadência a pé ou em viaturas Buick ou Oldsmobile dos anos cinquenta, logo diluiremos a perspetiva romântica da Bela Havana que nos chega em bilhetes-postais selados com o rosto de José Martí. Trata-se afinal de uma beleza desconsolada, que lacera mais do que empolga, como o demonstra a vasta literatura habanera capaz de escapar à previsibilidade do diário Granma e aos estereótipos dos folhetos turísticos. (mais…)