Arquivo de Categorias: Memória

Carros

Um divertido texto de Tony Judt publicado em O Chalet da Memória, de 2010. Onde se aprende muito sobre alguma das transformações sociais e culturais ocorridas na Europa durante o período que imediatamente antecede e sucede à Segunda Guerra Mundial. Tradução parcialmente apoiada na publicada pelas Edições 70.

Para a minha mãe, o meu pai era «obcecado» por carros. Para ela, a eterna fragilidade da nossa economia doméstica devia-se à tendência do marido para gastar com eles as nossas poupanças. Não posso avaliar se ela tinha ou não razão em relação a isso – é evidente que, deixada por conta própria, teria limitado a família a um carro pequeno por década, se tanto – mas mesmo aos olhos compreensivos de um filho que o admirava, o meu pai parecia de facto viver absorto com os seus carros; especialmente com os Citroën, a marca francesa cujos produtos idiossincráticos enfeitaram o pátio da frente da nossa casa durante a minha infância e adolescência. Tivemos uma ou outra ocasional aquisição inglesa, feita por impulso, da qual rapidamente nos arrependemos – um Austin A40 descapotável, um AC Ace desportivo -, além de um capricho que durou algum tempo com um DB Panhard, do qual falarei mais à frente; mas durante anos Joe Judt conduziu, consertou e falou sobre Citroëns.

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    Cidades, Ensaio, História, Memória, Olhares

    Agora mesmo, em Predappio

    Práticas e rituais de devoção popular erguidos sobre túmulos ou lugares associados à vida de personagens famosas, tenham elas sido chefes de Estado ou dirigentes partidários, santos ou mártires, atores de cinema ou escritores, músicos ou desportistas, são práticas universais e muito antigas que se mantêm em uso. Funcionam em boa parte, usando o conceito proposto em 1984 pelo historiador Pierre Nora, como «lugares da memória»; através dos quais, no plano simbólico, numerosas pessoas, ou mesmo grupos inteiros, procuram estabelecer uma relação forte com sinais, exemplos e vestígios do passado, destinada a celebrá-lo, mas também a «revivê-lo», potenciando ao mesmo tempo o seu eco e a sua influência no presente.

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      Democracia, Memória, Opinião

      O «caso Dreyfus» e o intelectual público

      O entendimento da dimensão ética interventiva do intelectual surgiu tardiamente, apenas durante o episódio que envolveu Alfred Dreyfus, o capitão de artilharia do exército francês, de origem judaica, acusado de alta traição por atos de espionagem e logo preso, despromovido e enviado em regime de prisão perpétua particularmente severa para a ilha do Diabo, na Guiana Francesa. Quando foi possível averiguar e descobrir que afinal se tratara de um erro judicial, abafado pelas autoridades militares para evitar o escândalo e salvar o verdadeiro traidor, e a sua defesa foi publicamente assumida por Émile Zola, a partir da escrita e publicação no diário Aurore, a 13 de Janeiro de 1898, do libelo coletivo «J’Accuse», o episódio transformou-se no conhecido «Caso» que apaixonou a opinião pública francesa e teve então um grande impacto internacional.

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        Democracia, Direitos Humanos, História, Memória

        Loucos Anos 20? Quais Loucos Anos 20?

        De repente, não sei precisar em que momento, começaram a chegar-me às turmas de história contemporânea na universidade estudantes que traziam na cabeça uma grande léria sobre os «loucos anos 20». Como se a vida de toda uma década do século passado tivesse sido moldada à imagem da fruída pelo grupo diletante de Scott Fitzgerald e Zelda Sayre. Como um reverso elitista, saído da paisagem parisiense e da Riviera, do que aconteceu a milhões de humanos depois do crash bolsista de 1929. Passando para segundo ou terceiro plano aquilo que foi nesses anos a brutal exploração, as duríssimas condições do trabalho, as perseguições de natureza étnica e política e a explosão dos fascismos. Por vezes, para tentar diluir o que trazem na cabeça sobre o brilho ofuscante da vida experimentada apenas por um pequeno setor da população privilegiada de certas capitais, e para abrir espaço a uma mistura de conhecimento com consciência crítica, leio e comento este parágrafo de «A Era dos Extremos», de Eric Hobsbawm:

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          Artes, História, Memória, Olhares

          O Zé Mário e a «volta a isto»

          Com a morte do José Mário Branco (1942-2019), para além do artista e do homem que desaparece, é uma das figuras fundadoras e matriciais da «esquerda da esquerda» que parte também. Para a minha geração, e para o pequeno núcleo da utopia de onde venho, uma voz singular e uma personalidade inesquecível que todos/as teremos para sempre na cabeça e no coração. O Zé Mário não foi só o melhor de todos os da canção de resistência e intervenção – como cantor, como músico, como compositor, como letrista, como arranjador, como produtor, tudo por junto -, foi e é também um sinal vivo e sonoro de que, sim, é possível ser-se coerente e solidário a vida inteira. Acreditando todos os dias que é preciso dar «a volta a isto».

            Apontamentos, Democracia, Memória, Música, Olhares

            Berlim 89, trinta anos depois

            9 de novembro de 1989. Anoitecia e eu começava a jantar quando tive a invulgar sensação de estar a viver em direto a História. O televisor estava ligado e pude então assistir à «primeira revolução televisionada». Diretamente das ruas de Berlim para os lares do planeta, o Muro de betão erguido em 1961 e a ordem mundial que ele simbolizava desfaziam-se às mãos de uma multidão eufórica que não sabia aquilo que se seguiria, mas parecia possuída de uma consciência clara do que não desejava. Projetado a partir daquele momento, as convulsões do biénio seguinte levariam ao fim dos regimes europeus do «socialismo realmente existente», terminando em 26 de dezembro de 1991 com a dissolução formal e definitiva da União Soviética. Era o desabar do mundo vivido e observado por várias gerações.

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              Atualidade, História, Memória, Opinião

              O perigo e o erro da História «certa»

              O regresso da extrema-direita ao primeiro plano do debate político nas sociedades democráticas tem dado um papel de relevo aos chamados «usos da História». Por isso, é um erro atribuir a esta disciplina um lugar neutro, limpo, silencioso, supostamente acima dos interesses e dos conflitos. Se vivemos a era da globalização, permanecemos ainda herdeiros das estruturas políticas nascidas no século XVIII, o que, como notou Marc Ferro, se reflete em muitos dos problemas e dos confrontos que enfrentamos. Estes continuam a passar por batalhas em redor da democracia e da liberdade, do papel do Estado e dos nacionalismos, do lugar da solidariedade e do individualismo, dos direitos humanos e da igualdade, bem como pelos processos de transformação que seguem modelos e ideais contraditórios, associados a diferentes interesses.

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                Ensaio, História, Memória, Opinião

                Rasura da memória e democracia

                Vivemos uma inquietante vaga de rasura da memória projetada a partir do apagamento, da reescrita e da trivialização de episódios da história. Uma parte produzida de forma consciente, com objetivos políticos precisos, resultando a outra apenas da leviandade, da indiferença ou da ignorância. Por isso o vínculo entre história e memória está na ordem do dia, seja para quem aproxima estas duas categorias de representação do passado, seja para os que pretendem a sua separação. Olhar com sentido crítico e pragmatismo a relação entre ambas requer um banho de realidade.

                Em 2015 duas fundações francesas de investigação divulgaram os resultados de um inquérito subordinado ao tema Mémoires à venir. Envolveu cerca de 32 mil jovens de 31 países – Austrália, Canadá, Estados Unidos, Japão, Índia, Israel, Rússia, Turquia e quase toda a Europa – com idades compreendidas entre os 16 e os 19, e visava conhecer aquilo que os cidadãos educados já neste milénio retêm dos grandes acontecimentos do século XX, com a particularidade de terem sido colocadas as mesmas questões a pessoas de regiões e culturas muito diversas. Os acontecimentos mais referenciados foram aqueles que incorporaram uma dimensão traumática: o Holocausto, as bombas atómicas sobre o Japão e as duas guerras mundiais. Dos episódios mais recentes, destacaram-se os que em 1989-1991 envolveram a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética.

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                  Atualidade, Democracia, História, Memória, Opinião

                  Contra a desmemória

                  Abaixo-assinado de 71 professores da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra relacionado com um infeliz episódio ocorrido durante as festividades de Queima das Fritas. Sendo um dos signatários, entendo que não devo juntar aqui a minha opinião individual, que darei noutros lugares. Todavia, uma vez que este post servirá também para memória futura, junto três notas objetivas: 1) o episódio em si constou de uma brincadeira com o Holocausto, servindo-se ademais da simbologia de um comboio, que deveria ser integrada no habitual cortejo da festividade; 2) os 71 professores signatários foram aqueles que foi possível reunir em menos de 48 horas durante uma semana que é de interrupção das aulas, outros transmitiram entretanto o seu apoio a este documento; 3) alguns professores entenderam não assinar, o que estava, naturalmente, no seu direito; uma pequena minoria procurou demover colegas de o fazerem, o que não pode deixar de ficar registado. [Relembro: este comentário é estritamente pessoal e não vincula os signatários do documento que a seguir se transcreve.]

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                    Coimbra, Democracia, Memória

                    «Crise de 69»: celebrar e compreender

                    Evocam-se neste Abril cinquenta anos sobre a «Crise Académica de 1969» em Coimbra. Os seus acontecimentos podem ser hoje encarados de três formas diferentes: duas mais voltadas para a celebração, uma terceira ocupada com a compreensão histórica. A primeira contém o testemunho dos que a viveram, retomando com orgulho e nostalgia uma parte memorável das suas vidas e o contributo maior dado à luta pela democracia. A segunda, a ser vista com alguns cuidados, é ocupada com perspetivas parciais ou equívocas, por vezes associadas à manipulação utilitária e institucional da memória. A terceira forma é preenchida por olhares retrospetivos e compreensivos sobre o acontecimento e a sua época.

                    Perceber a «Crise» requer, em primeiro lugar, conhecer o seu contexto, e não apenas os factos que em Abril de 1969 a projetaram. Desde logo, observando a mudança sociológica do ambiente universitário, onde crescia a presença da classe média e das mulheres. Depois a expansão da cidade, com um timbre cada vez mais cosmopolita e urbano. Crucial foi também a influência política da «abertura marcelista», notória entre 1969 e 1971 (e logo de seguida infletida), com maior flexibilidade da censura e uma moderação provisória nos processos da repressão. Importante também foi a presença de uma cultura política de oposição ao regime, em crescimento desde as eleições de 1958, e de uma diversificação das suas correntes, com uma grande influência política e vivencial do marxismo e do existencialismo. Indispensável a entrada no meio universitário da atitude hedonista, libertária e inconformista dos anos 60, associada em boa parte à nova cultura juvenil de matriz anglo-saxónica. Para além da importância da vida estudantil pautada por uma cultura de debate, informada e crítica, que em Coimbra incorporava a atividade dos organismos da AAC e envolvia a sociabilidade dos cafés e das repúblicas, enquanto a cultura da «sociedade académica tradicional» tendia a desaparecer.

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                      Coimbra, Democracia, História, Memória

                      História do presente, a «crise de 69» e alguns mitos

                      Começo por contar um episódio ocorrido comigo que já referi em público algumas vezes. Tendo há algum tempo sido convidado para participar num ciclo de conferências-debate sobre o movimento estudantil, fiz aquela que me competiu sobre a «crise de 69», o importante momento do combate da juventude universitária contra o autoritarismo do regime e das autoridades universitárias que aconteceu em Coimbra e do qual se evoca agora o cinquentenário. No final da sessão, num daqueles momentos em que os conferencistas contactam o público, fui abordado por um senhor que me disse o seguinte: «olhe, gostei imenso de o ouvir, mas tenho a dizer-lhe uma coisa: tudo o que disse é mentira, pois eu estive lá e sei que não foi assim.» É claro que tivemos de esclarecer o imbróglio. Fomos beber um café e antes de nos separarmos já essa pessoa me dera razão: «afinal estive lá, mas não vi certas coisas e não fiz algumas ligações».

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                        Atualidade, Coimbra, Democracia, História, Memória

                        Coimbra, 1969 e depois

                        A história dos últimos anos da oposição ao Estado Novo não pode ser feita sem ter em conta o movimento estudantil e, dentro deste, sem mencionar os acontecimentos que tiveram lugar em Coimbra durante a «crise académica» vivida entre Abril e Julho de 1969. A perfazer agora meio século, esta configurou um momento crítico da vida portuguesa daquela época, marcando para sempre o país, a cidade, a sua universidade e quem a viveu. Tendo sucedido numa fase de relativa abertura do regime – em plena «primavera marcelista», um tempo de esperanças rapidamente goradas –, representou, para toda uma geração de universitários, uma parte inesquecível das suas biografias pessoais e uma escola de política e de democracia. Ao mesmo tempo, ajudou a sacudir um sistema político decrépito que cinco anos depois iria ruir com estrondo.

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                          Coimbra, Democracia, História, Memória, Música, Olhares

                          Charles et moi

                          Agora já posso escrever isto. O segundo disco de 45 rpm em vinil que comprei foi Love Me Do, dos Beatles, mas o primeiro foi Et Pourtant, de Charles Aznavour. Desde a pré-adolescência, a vida toda, sem abandonar os outros gostos, para mim «o» cantor dos amores démodés, perdidos, impossíveis, finitos, implacáveis, que foram tantas vezes aqueles que efabulei ou talvez tenha vivido. Ao longo de décadas, confesso, fui estranhamente pensando no que aconteceria no dia em que Charles morresse, como sentiria uma espécie de orfandade de alguém que não conheci, mas me ajudou tantas vezes a viver a vida. E fui construindo uma playlist improvável, destinada a esse momento, que trouxe sempre no bolso. Chegou a vez de a pôr a tocar só para mim.
                          [Publicado originalmente no Facebook]

                            Apontamentos, Artes, Memória, Música

                            Os tempos mudaram

                            Bastian Kienitz

                            O recente episódio mediático ocorrido com a viagem de António Costa a Angola, quando uma evidente falha dos serviços de protocolo fez com que a indumentária mais informal do primeiro-ministro usada à chegada a Luanda se transformasse, na imprensa e nas redes sociais, em arma de arremesso contra si e o seu governo, conduziu-me até ao passado. Ao encontro de uma das vertentes dos preconceitos atávicos contra esquerda expressos por setores conservadores. Ao mesmo tempo, revisitei fantasmas a habitar ainda velhos armários.

                            Entre 1971 e 1977, ano em que dela me afastei por razões de ordem moral – as divergências políticas chegariam mais tarde –, mantive uma militância ativa na esquerda à esquerda do PCP. Na época, os setores conservadores gostavam de associar uma atitude social própria de parte dos que se afastavam da velha ordem a determinadas formas do estar e do parecer. Estas traduzir-se-iam em escolhas relacionadas com o estilo de vida, a etiqueta, o vestuário ou a higiene, que tais setores apontavam na tentativa de denegrir os que delas participavam e os ideais que partilhavam. Ao mesmo tempo, um certo senso comum, apoiado numa ética elitista que chegava à classe média e tinha em boa medida uma raiz geracional, exibida principalmente pelos mais velhos, desqualificava muitos deles como pessoas sem maneiras, que vestiam de forma descuidada e não gostavam especialmente de tomar banho. (mais…)

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                              O Maio de 68 (ainda) e a invenção do passado

                              1. É natural que uma efeméride como a que acaba de envolver os cinquenta anos decorridos sobre o movimento de Maio de 1968 em França suscite leituras contraditórias. Se elas já o eram na época, se assim se foram mantendo ao longo de décadas, não existe razão alguma para que não continue a ser assim. Como sempre, essas leituras são frequentes vezes influenciadas, a meu ver negativamente, por dimensões de sectarismo, de wishful thinking, de nostalgia e de escasso conhecimento, não só do que realmente aconteceu – e não interessa aqui se alguns dos comentadores «estiveram lá» ou não -, como dos debates sobre a interpretação do episódio que nestes cinquenta anos têm acontecido. (mais…)

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                                Maio de 68, «revolução-ficção»

                                Em Maio de 68 explicado àqueles que o não viveram, o documentarista Patrick Rotman afirmou ser este «um objeto histórico encerrado, que devemos olhar e analisar como tal». Muito pelo contrário, é possível e mesmo indispensável encarar o «Maio francês» como um dos momentos que conferem sentido aos últimos cinquenta anos da história mundial, permanecendo aberto a interpretações e a efeitos que lhe atribuem uma dimensão singular e permitem considerá-lo, pelo menos por enquanto, como memorável.

                                O ano de 1968 foi o mais turbulento do pós-guerra, carregado de acontecimentos inesperados, violentos, exaltantes ou trágicos: a ofensiva do Tet no Vietname, o auge do movimento pacifista contra o apoio dos EUA a Saigão, a explosão por todo o lado da contestação estudantil, a afirmação do Movimento de Libertação das Mulheres e do fenómeno da contracultura, a Primavera de Praga, as barricadas de Paris, o assassinato de Martin Luther King e de Robert Kennedy, os protestos de Chicago contra o racismo, a invasão da Checoslováquia pelos tanques soviéticos, o massacre de 200 estudantes na cidade do México. Neste contexto, o que ocorreu em França poderia ser um episódio sonoro, é certo, mas curto e de limitado impacto; já o não será, todavia, se o olharmos como sinal de um tempo e prenúncio de algumas transformações. (mais…)

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                                  Quatro meses do meu ano de 68

                                  Em 1968 o mundo inteiro aparentava mover-se mais depressa, ainda mais depressa. Tudo parecia estar a acontecer em Paris, em Praga, em Berlim, nos Estados Unidos, Brasil e México, envolvendo a União Soviética, Cuba, a China, o Vietname, na verdade o mundo inteiro. Combates de rua com a polícia antimotim, guerrilhas urbanas e rurais, surgimento e auge da contracultura, revoluções sucessivas nas artes, no romance, na filosofia, no cinema, na música, acompanhando a rápida expansão da indústria cultural. (mais…)

                                    Acontecimentos, Apontamentos, História, Memória, Olhares

                                    Paris-68, Coimbra-69 e depois

                                    Completa-se este mês meio século sobre a revolta de Maio de 68 em França. Sensivelmente pela mesma altura, no próximo ano decorrerá o cinquentenário da crise académica de 69 vivida em Coimbra. São temas dos quais, como professor de história contemporânea, costumo falar em aulas e seminários, e por isso estou habituado à confusão recorrente – compreensível entre quem pouco ouviu falar dos dois momentos, ou deles retém apenas vagas e imprecisas ideias –, estabelecida entre um tal «Maio de 69» e uma certa «Crise de 68». De uma coisa tenho a certeza: esta confusão alimenta-se da ideia de que uma (a crise) e o outro (o movimento) se encontram estreitamente interligados. Tenho más notícias para quem partilha desse mito ou se ocupa a alimentá-lo: não é de todo verdadeiro que essa ligação tenha acontecido. Existe um equívoco a propósito da influência imediata do Maio de 68 em Portugal. (mais…)

                                      Coimbra, História, Memória, Olhares