Arquivo de Categorias: Memória

«Sita»: generosidade e sectarismo

Vi ontem o documentário «Sita: a vida e o tempo de Sita Valles», da realizadora Margarida Cardoso, que parte da história de uma das vítimas mais conhecidas do 27 de Maio de 1977 em Angola para falar de toda uma geração, aqui destruída e calada à força, ou que em Portugal seguiu a sua vida. É assunto, sobre o qual procurarei escrever adiante algo de mais substantivo, que me toca profundamente, não apenas por um mero interesse de origem intelectual, mas sobretudo porque convivi, aqui e também em Angola, sobretudo entre 1971 e 1977, com muita daquela gente e muitos daqueles ideais lançados no terreno. E também porque me morreram amigos que não esqueço no 27 de Maio angolano.

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    Apontamentos, Biografias, Democracia, História, Memória

    Publicidade agressiva

    Entre os anos 60 e 80 a publicidade portuguesa, pelo menos aquela que aparecia na televisão, na rádio e nos jornais e revistas de maior circulação, possuía em regra elevada qualidade, tanto no domínio do texto, sempre imaginativo e literariamente cuidado, quanto no plano gráfico e no da realização. Recebia regularmente prémios internacionais e era até, em boa parte, um espaço usado para passar mensagens subliminares contra a paisagem de «vil tristeza» cultural ou no campo dos hábitos que era imposta pelo regime. Alexandre O’Neill e Ary dos Santos, como antes deles Fernando Pessoa, por exemplo, trabalharam na área, transformando o seu esforço nesse domínio em pequenas peças literárias. Assis Pacheco também criou alguns slogãs. Muitas pessoas com memória da época recordam como a publicidade se misturava com o quotidiano, surgindo até, algumas vezes, como momento poético ou inspiração para paródias.

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      Apontamentos, Atualidade, Etc., Memória

      O passado e o presente

      Com o tempo de vida que levo e as experiências que fui juntando, péssima marca de caráter sustentaria se não tivesse muito para contar. Mais: seria por certo um tolo se em relação a muitos dos momentos que pude viver não experimentasse hoje alguma forma de nostalgia. Além disso, sendo historiador de formação e de profissão, sei muito bem como o passado nos forma e como importa invocá-lo para entender o presente e preparar o futuro. E ao mesmo tempo, aqui enquanto cidadão, sei também, como lembrou Primo Levi, que existe sempre um dever de memória para com quem se bateu, participou, sofreu, foi marginalizado ou mesmo morto por se bater por um presente mais feliz e por um futuro melhor.

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        Apontamentos, Atualidade, Memória, Olhares

        Budapeste, Praga, Berlim

        Na vida de todos os dias, seja a pessoal ou a coletiva, nunca é boa solução encarar os erros e os maus momentos como se não tivessem acontecido, silenciando-os ou escondendo-os no fundo da consciência, de onde se presume não mais saírem. Na verdade, como mostrou a psicanálise, isto jamais acontece, pois acabam sempre por voltar, por vezes da pior maneira. A história vive um idêntico problema, com omissões e apagamentos que, tarde ou cedo, ressurgirão sob outra forma. A frase imperfeita de Hegel sobre a ocorrência de factos históricos «pelo menos duas vezes» foi esclarecida por Marx, que lhe juntou «a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa».

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          Democracia, História, Memória, Olhares, Opinião

          Paul Nizan: apagado e reencontrado

          Desde o ano da sua morte em 1940, ocorrida em combate durante a terrível batalha de Dunquerque, quando o exército aliado, composto essencialmente por franceses e ingleses, sucumbiu completamente perante o avanço alemão, até à reeedição em 1960 do romance Aden Arabie, ainda a sua obra mais conhecida, Paul Nizan (1905-1940) permaneceu para uma parte da esquerda como mais um renegado. O pecado de Nizan foi – como aconteceu com outros intelectuais comunistas, que no pacto de não-agressão germano-soviético de 1939 viram, com razão, uma inaceitável cedência ao nazismo – ter-se oposto à vontade de Estaline, o que junto dos partidos comunistas era então inaceitável. Como resultado, após ter sido durante largos anos um escritor lido e prestigiado, viu, por iniciativa do PCF e de muitos dos seus simpatizantes, o seu nome desaparecer totalmente dos jornais e mesmo das livrarias.

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            Biografias, Democracia, Heterodoxias, Memória, Olhares

            Jacobitas, jacobeus e malditos jacobinos

            Um breve apontamento de domingo. As palavras que constam do título possuem a mesma raíz: Jacob, o nome do terceiro patriarca da Bíblia, filho de Isaac e neto de Abraão, cujo percurso terreno é contado no livro do Génesis. Todavia, a relação destas três palavras com esse nome materializou-se em circunstâncias históricas bem diversas.

            Os jacobitas eram os adeptos de um movimento político que visava a restauração monárquica da dinastia Stuart nos reinos de Inglaterra e Escócia. A nomenclatura é uma derivação de «Iocubus, versão latina do nome do rei James II, deposto em 1688 pela Revolução Gloriosa que concedeu o trono a Guilherme II de Orange. Por sua vez, os jacobeus foram, entre os finais do século XVII e a primeira metade do seguinte, os membros de uma seita, organizada entre católicos religiosos e leigos, que pretendia regenerar, através de exemplos de intensa espiritualidade, a vida religiosa e moral do país. A expressão aludia à «escada de Jacob» mencionada no Génesis, dado os seus primeiros cultores costumarem reunir-se na escadaria do mosteiro de Varatojo.

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              História, Memória, Olhares

              Mitografias, certezas e insónias

              Seja ele o passado, o presente ou um idealizado futuro, não podemos viver sem ficções do real que recorrem a mitos. A definição de mito – os relatos fantásticos que deram significado à vida quotidiana da Grécia antiga serão sempre o seu modelo primordial – é complexa e cheia de sentidos; todavia, para o que aqui importa, destaco dois que constam do Dicionário Houaiss: «a construção mental de algo idealizado» e, a ela ligado, «um valor social ou moral (…) decisivo para o comportamento dos grupos humanos em determinada época». O mito é, pois, indispensável para o funcionamento das sociedades humanas, ao participar como peça nuclear na construção da sua coerência e dos diferentes sentidos de pertença de quem as habita. As mitografias, por sua vez, juntam constelações de mitos, com eles compondo modos sistemáticos de representar o mundo.

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                Atualidade, Democracia, Etc., Memória, Olhares, Opinião

                Nostalgia e passadismo

                Todos/as temos passado e só quem tenha problemas sérios de memória ou seja mesmo completamente tonto o pode rejeitar de forma absoluta. Somos sempre, e somos bastante, também aquilo que fomos. Além disso a nostalgia – conceito sobre qual tenho trabalhado profissionalmente nos últimos tempos – não é apenas uma tristeza causada pelo distanciamento de algo que vivemos, nomeadamente na nossa juventude, nem sequer um mero estado melancólico causado pela ausência de algo que somos capazes de identificar. Na verdade, pode também ser uma forma positiva de uso do passado, servindo este uso, ou parte dele, para alimentar e dinamizar a nossa própria vida, seja ela a pessoal ou a coletiva. O conceito de «melancolia de esquerda», divulgado pelo historiador Enzo Traverso, aponta nesta última direção, sublinhando o papel politicamente positivo de determinados aspetos ou episódios vividos ou herdados.

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                  Atualidade, História, Memória, Olhares

                  Fim de semana de liberdade no verão de 71

                  No começo do verão de 1971, para um rapaz de 17 anos, entusiasta da música moderna transmitida pelo programa «Em Órbita» e dos horizontes mais livres que ela deixava imaginar, mas confinado à pacatez e à repetição dos dias numa pequena vila do interior do tempo da ditadura, a hipótese de ir a um festival para jovens levantava alguns problemas, mas era um desafio irrecusável. Precisava programar a ida até uma região desconhecida, e também de ajustar uma desculpa para a saída que impedisse os pais de suspeitar das suas intenções. O que se esperava acontecer, todavia, lembrava-lhe de tal forma os épicos eventos de Woodstock, em agosto de 1969, e da ilha de Wight, no ano seguinte, que não podia ignorar o desafio.

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                    Democracia, Memória, Música

                    Vilar de Mouros 1971 e política do movimento

                    Os territórios da imaginação que permitem conceber outras regiões funcionam como paragens de autoestrada, como não-lugares que pontuam os trajetos sem lhes imporem constrangimentos. O simples deambular pode então, sobretudo dentro de sociedades nas quais as autoridades se esforçam por privilegiar a imobilidade, funcionar como momento instaurador de um processo de alforria perante a prisão representada pelo pequeno mundo. Percorrer pontos no mapa, somá-los como elementos de um património individual, possibilita, nestas condições, a produção de uma cartografia do desenraizamento. Ainda que frequentemente ficcionada, presume-se que, desdobrando-se a todo o momento, esta encontra-se em condições de libertar o sujeito das inibições visuais que o prendem ao rincão do qual originalmente provém. As modalidades que, na viragem para a década de 1970, o fenómeno estava a assumir em Portugal, foram numerosas.

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                      Apontamentos, Democracia, História, Memória, Música

                      Esquecimento e desfiguração da memória da democracia

                      Num dos últimos livros que escreveu, La mémoire, l’histoire, l’oubli(2003), Paul Ricoeur falava da possibilidade de a memória permitir aceder, não a uma revisitação ou a uma réplica, mas a uma reapropriação lúcida do passado, mesmo daquele mais afastado ou ao qual se encontrasse ligada uma forte carga traumática.

                      Destacava também o poder do esquecimento, na sua capacidade para soterrar boa parte de tudo o que aconteceu, mas também na intervenção que detém na seleção, sempre parcial e fragmentária, daquilo que se considera ser merecedor de memória. Ao constatar a impossibilidade real de tudo recordar, Ricoeur vincava o caráter seletivo da memória, concluindo ser a capacidade de esquecer um dos fatores que permite reaver parte do vivido.

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                        Democracia, Ensaio, História, Leituras, Memória, Olhares

                        Otelo na história da nossa democracia

                        Muito provavelmente, de todos os protagonistas da Revolução de Abril, Otelo Saraiva de Carvalho terá sido, e assim permanece, aquele que sentimentos mais desiguais desperta. Amado e odiado, desde logo pela forma como se tornou um dos símbolos maiores do derrube da ditadura, do qual foi o principal estratega operacional e que comandou a partir de um edifício pré-fabricado instalado no quartel da Pontinha. E de seguida por ter sido um dos protagonistas do processo revolucionário na sua fase ao mais épica e dramática, nela servindo, ao mesmo tempo, como agente mobilizador e como árbitro. Mas também pela forma como viveu os anos pós-Revolução, assumindo-se durante algum tempo como um dos símbolos da resistência à institucionalização de uma democracia estritamente representativa – altura na qual aceitou ser a «consciência moral» de setores que a ela preferiam um «poder popular» que julgavam mais perfeito – e mais tarde, já perto do final da vida, aceitando com alguma amargura que o regime democrático tivesse esquecido o ideal de utopia inscrito na sua matriz fundacional.

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                          Vasco (1935-2021)

                          Quase a completar 86, desapareceu hoje Vasco de Castro, Vasco, o grande cartunista e resistente, que tão vasta e singular colaboração deixou, em jornais de referência e outros que já poucos recordam, e o emigrado político a quem, sobretudo em Paris, tantos recorreram nos anos finais da ditadura. Nunca o conheci em pessoa, mas quando estive em vias de seguir o trilho da saída para resistir à guerra, só o não fazendo porque aconteceu Abril, o nome do Vasco foi um dos que diversos camaradas indicaram como alguém a procurar quando arribasse «là-haut». Ao contrário da maioria dos jovens militantes ultrapolitizados que começaram a chegar à cidade sobretudo nas vésperas de 68, ele viera mais cedo, em 1961, e, de algum forma, era, então, um homem já integrado no meio político e cultural parisiense, ajudando muitos desses imigrados a instalar-se e a superar as dificuldades de adaptação. Nada, todavia, que lhe tivesse esgotado o amor da terra onde nascera. O livro de memórias Montparnasse. Até ao esgotamento das horas, de 2008, que retomou um anterior Montparnasse, Mon village, termina com a evocação da chegada, a 30 de Abril de 1974, ao país agora libertado: «Quando a voz do piloto anunciou que se estava a entrar em Portugal, suponho bem que todos nos calámos e fomos espreitar por cima das nuvens, ingénuos como meninos, de que eram feitos os campos, a cor das árvores e adivinhar o nome dos casarios.»

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                            Conhecimento do passado e democracia

                            A produção e a perda da memória são fenómenos inerentes à vida de todos os dias, seja esta individual ou coletiva. Não se considera aqui o processo essencialmente biológico, traduzido na capacidade humana para recordar experiências anteriores inserindo-as numa narrativa, que a passagem do tempo tende a deteriorar, ou por vezes a embelezar, referindo-se antes o eterno fenómeno da evocação memorial do passado. Ao contrário da história, que é um saber analítico associado a rigorosos meios de prova, contendo uma forte componente de objetividade e segurança, a memória, encarada nesta segunda perspetiva, é em larga medida uma construção livre, subjetiva, ancorada em evocações que chegam, se transformam e logo partem, sempre pautadas por uma dose de incerteza.

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                              A vida incomum de Asja Lācis

                              A banalidade é a expressão acabada da insignificância, bem como da incapacidade para contrariar a repetição e produzir o novo. É irmã do conformismo, essa tendência para a passividade e a resignação que exclui a coragem de discordar ou resistir. Quem cultiva a banalidade não desenvolve a capacidade humana para pensar de forma autónoma e com audácia, alimentando as formas de autoritarismo e de ordem injusta. Provavelmente pela primeira vez no curso da história, atualmente fama e reconhecimento tendem a tomar como modelo – destacado em capas das revistas ou concursos televisivos – não as figuras singulares, capazes de gestos de rasgo pautados pela inteligência, pelo sentido crítico e pela coragem, mas justamente personalidades banais, destacadas porque o cidadão anónimo, que os populismos têm vindo a empoderar como alicerce do sistema político, nelas se revê. Por isto passarei a ter nestas crónicas, como tema ocasional, a evocação de personalidades cuja vida e exemplo se levantaram contra a banalidade.

                              Apesar do papel que teve na atividade artística e intelectual, sobretudo como atriz e encenadora, da Letónia onde nasceu, da Rússia da fase mais fértil e épica da revolução bolchevique e da República alemã de Weimar, Anna Ernestova, conhecida como Asja Lacis (1891-1979), não deixou o nome registado em vultuosas bibliografias e em placas toponímicas. Profissão: revolucionária, uma autobiografia publicada em 1971 na Alemanha Federal (saída na União Soviética apenas em 1984), as memórias da sua filha Dagmāra e um punhado de artigos são tudo o que é possível encontrar da longa e movimentada vida que teve de militante, artista e mulher capaz de acordar grandes paixões. 

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                                Os cafés e a nostalgia positiva

                                Para o franco-norte-americano George Steiner, um dos marcadores centrais de uma certa «ideia de Europa» foi desenhado pelo roteiro dos cafés, desde meados do século XVIII lugares ímpares «de entrevistas e conspirações, de debates intelectuais e mexericos», como escreveu o filósofo num curto ensaio sobre o tema. Abertos a todos desde manhã cedo até quando as ruas ficavam quase silenciosas e desertas, funcionaram até há relativamente pouco tempo, desde Odessa até Lisboa, passando por Viena, Paris ou Barcelona, sempre à sombra da antiga influência turca, como espaços-fortaleza de sociabilização e de reconhecimento identitário, por vezes decisivos na evolução política e cultural das cidades e dos Estados.

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                                  Justiça e problemas do #metoo

                                  O movimento #metoo teve início nos Estados Unidos durante o ano de 2017, adquirindo uma dimensão internacional que agora chega abertamente a Portugal. Surgiu como uma iniciativa de denúncia individual lançada contra o assédio e o abuso sexual sobre mulheres em regra exercidos por homens colocados numa posição de poder que facilitou a coerção e a chantagem. Sob estas condições, teve à partida um objetivo mais do que legítimo: o de resgatar muitas mulheres assediadas ou abusadas, condenadas também a longos anos de silêncio, de trauma e de um sofrimento visível ou invisível. O que poderia ser mais justo? Todavia, o movimento apenas tem um verdadeiro impacto em sociedades onde a subalternização das mulheres já não se encontra condicionada pela lei civil ou religiosa, ou onde uma efetiva liberdade da palavra pode ampliar o impacto da denúncia e da voz que denuncia. É justamente este o motivo pelo qual, sob o tópico #metoo, as redes sociais têm cumprido um papel decisivo para fazer chegar junto da opinião pública, e também junto de outras mulheres em idêntica situação, os fortes testemunhos que lhe dão forma.

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                                    Atualidade, Democracia, Direitos Humanos, Memória, Opinião

                                    Entre a cumplicidade e a denúncia

                                    Quando se ouvem profissionais da História afirmar ser esta «um saber neutro, situado fora da política», a reação só pode ser de uma enorme estranheza, dado estas afirmações ignorarem o resultado de intensos debates que tiveram lugar dentro da própria disciplina desde há oito décadas. Marc Bloch, um dos responsáveis pela derrocada da velha historiografia positivista e factualista, que foi torturado e fuzilado pela Gestapo por ser destacado membro da Resistência francesa ao nazismo, foi dos primeiros a fazê-lo. Bloch defendia já – num texto de 1941 incluído em livro ainda hoje usado em cursos de introdução ao ofício de historiador – que o objetivo da disciplina não era apenas de natureza científica, mas comportava também uma dimensão cívica e moral, tendo quem nela trabalha a inequívoca responsabilidade de «prestar contas» a propósito da complexidade do que outrora aconteceu e cujo eco se propaga.

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