O caladinho do Citroën

Estão por todo o lado, embora se encontrem sobretudo em profissões mais afastadas do escrutínio público. São gente desprezível que jamais fala com clareza e olha os outros de frente, que pode passar décadas sem abrir a boca, sem nunca pôr a debate os seus pontos de vista, até ao dia em que tem a absoluta certeza de estar na mó de cima e de, enfim, poder ditar o que deseja sem a maçada do contraditório. São os caladinhos, os calculistas, os carreiristas, que lançam o veneno sem que se lhes ouça o corpo a rastejar por entre os arbustos, até poderem, já em cima da presa, engoli-la sem dificuldade. Gente na qual nunca se pode confiar, mas que, justamente por causa da sua falta de coragem e de verticalidade, nunca se comprometendo, fazendo-se sempre passar por cordata e consensual, acaba por se aproveitar do desgaste dos outros. Daqueles que suaram anos a fio, tomaram posições difíceis, mas que por cansaço ou desistência, deixaram vazios os lugares que alguém teria de ocupar. ler mais deste artigo

    Atualidade, Olhares, Opinião

    Convicções

    Por uma destas tardes, enquanto fazia algumas arrumações domésticas, revi um episódio contado por João Bénard da Costa num recorte do antigo diário Independente. O semanário, acessível nos arquivos, que nos lembra os longínquos dias em que pairava sobre o Portugal pós-revolucionário a ideia de que era possível ver uma direita jovem, culta e inteligente a nascer do nada. Contava-se nesse recorte que na noite de 17 de Maio de 1945, quando no cinema Politeama o filme Casablanca estreou em Portugal, no momento em que no ecrã A Marselhesa abafou Die Wacht am Rhein, o cântico alemão saído da Guerra Franco-Prussiana utilizado pelos nazis, o público lisboeta se pôs de pé, cantando também, em uníssono e alta voz, a canção que em 1796 se tornou o hino da França revolucionária e republicana. ler mais deste artigo

      Apontamentos, Democracia, Olhares, Opinião

      Cagliostro, o charlatão

      Cagliostro

      O falso conde Alessandro di Cagliostro (1743-95), Giuseppe Balsamo de seu verdadeiro nome, foi um distinto impostor, mágico e aventureiro. Filho de pobres, nascido e criado nas ruas de Palermo, viu-se forçado a fugir da Sicília após ser dado como culpado de uma série de pequenos crimes. Viajou então pela Grécia, Egipto, Pérsia, Arábia e Rodes, tendo aproveitado o périplo para estudar alquimia e a Cabala. Em 1768 encontrava-se em Roma onde casou com a (diz-se) bela Lorenza Feliciani, Serafina de petit nom. Cagliostro deambulava nessa época por muitas das maiores cidades europeias, vendendo elixires e afrodisíacos, praticando episodicamente como alquimista, fazendo-se passar por adivinho, medium e curandeiro. Nos anos que imediatamente antecederam a Revolução, era visita assídua nos palácios da alta aristocracia parisiense. A queda começou com o seu envolvimento ocasional na venda fraudulenta do diamante Necklace, tendo por esse motivo passado nove meses na Bastilha. Pouco tempo depois, em Roma, foi de novo preso, acusado por Serafina de ser herético, mágico, conspirador e impenitente maçon. Condenado à morte, viu a pena comutada em prisão perpétua no castelo de Sant’Angelo. Após uma tentativa de fuga, foi enviado para a fortaleza de San Leo, nos Apeninos, onde, praticamente esquecido, terminou os seus dias.

        Apontamentos, Biografias, História

        História a debate

        diogorc

        Nos últimos vinte anos teve lugar em Portugal uma nítida ampliação do conhecimento histórico, tanto ao nível do volume, da qualidade e da diversidade temática dos trabalhos académicos, quanto nos domínios da atividade editorial, da repercussão pública de determinados temas e da produção jornalística a eles associada. No entanto, tal alargamento não tem sido acompanhado por uma reflexão sistemática e convenientemente aprofundada sobre os sentidos da história como saber e sobre a dimensão do historiador como agente produtor e reprodutor de cultura. Investiga-se e escreve-se mais, sem dúvida, mas não se pensa de forma sistemática aquilo que vai sendo produzido. Existem todavia exceções e uma delas está associada à intervenção de Diogo Ramada Curto. Este Para que serve a história?, composto por vinte e quatro reflexões da sua autoria, editadas maioritariamente no diário Público, parte justamente da constatação dessa ausência. Não é por acaso que, no sentido de a contrariar, toma Marc Bloch – o pioneiro da renovação historiográfica dos Annales e o defensor do compromisso do historiador com a cidadania que os nazis assassinaram – como uma referência primordial. ler mais deste artigo

          Ensaio, História, Leituras

          O Inspector das Tempestades

          Henry David Thoreau (1817-1862), o poeta, o naturalista e o filósofo de Concord, Massachussetts – no tempo em que o Massachussetts era o cu do mundo e ainda por ali se mantinham visíveis e transitáveis as antigas pistas índias –, foi professor e explicador, depois fabricante de lápis, preceptor, jardineiro e agrimensor. Gostava porém, de uma forma irónica e profundamente poética, de se apresentar publicamente como «inspector das tempestades».

            Apontamentos, Biografias, Olhares, Poesia

            Fases

            Nessa época era muito magro, naturalmente tímido e vagamente taciturno, e só lhe apetecia ver filmes franceses a preto e branco. De preferência com sequências filmadas em manhãs de inverno (chuvosas) e actores de estatura mediana que usassem camisolas de gola alta.

            Originalmente publicado em Julho de 2007.

              Apontamentos, Cinema, Devaneios, Ficção

              O Holocausto e os portugueses

              Após décadas de silenciamento ou desinteresse, os últimos anos têm conhecido o gradual desvendamento da história das relações do Estado português com a política de antissemitismo militante da Alemanha nazi e a perceção, finda a guerra, do reconhecimento público dos processos de barbárie do Holocausto. Neste livro, Irene Flunser Pimentel e Cláudia Ninhos, duas historiadoras de gerações diferentes, oferecem um contributo valioso para superar essa falha, fazendo-o através de um trabalho que integra o reconhecimento do pouco e disperso que sobre o assunto foi publicado associado a um enorme manancial de informação nova e relevante, impondo-o como de leitura obrigatória para quem estude ou pretenda conhecer melhor a evolução da política externa e da sociedade portuguesa durante a Segunda Grande Guerra. Divide-se em duas partes separadas pelos assuntos abordados e pela cronologia: uma sobre o «problema judeu» em Portugal e na Alemanha nas vésperas do conflito; a outra ocupando-se da forma como este foi vivido na Europa e em particular no nosso país, enfatizando o papel do Holocausto e os processos que aqui levaram ao seu reconhecimento público. ler mais deste artigo

                História, Leituras, Memória

                O impertinente de serviço

                George Orwell

                George Orwell conviveu toda a vida – porque a percorreu na fase mais crítica da inquietante «era dos extremos» que preencheu a parte maior do século vinte – com a hostil incompreensão sempre dirigida aos que pensam de forma pessoal, definindo um padrão de comportamento ético avesso às absolutas certezas, à ditadura das maiorias ocasionais ou à orientação mecânica dos cata-ventos. Por isso a sua ação, as suas convicções e a sua memória foram sempre, tanto durante os anos de intensa atividade como jornalista e escritor quanto (e talvez sobretudo) após a sua morte, acompanhadas de difamações e de equívocos, certas vezes de rancores completamente insanos. Embora o tenham sido também de paixões profundas por parte de quem se foi aproximando dos ideais libertários, do amor pela humanidade do mundo e do direito ao testemunho que Orwell sempre reivindicou. Mas a semente do mal foi permanecendo: os conservadores e a direita julgaram-no e julgam-no como perigoso esquerdista, enquanto a esquerda estalinista e os «idiotas úteis», subservientes do velho Kremlin, bem como os seus esparsos herdeiros contemporâneos, o consideraram um «espião», um divisionista e um snob. ler mais deste artigo

                  Apontamentos, Biografias, História

                  Lincolnmania

                  Ao mesmo tempo que a vida de Abraham Lincoln tem sido objeto de um interesse frequentemente imerso em estranhas lendas e narrativas muito diversas, o seu assassínio tem-se debatido, como parte da mitografia americana, com um sem-fim de teorias da conspiração. Talvez por isso, no recente Lincoln, filmado por Steven Spielberg e protagonizado por Daniel Day-Lewis, o episódio tenha sido omitido, dele aparecendo apenas, e mesmo no final, uma mera referência. E no entanto, se fosse intenção do realizador atribuir ao crime consumado no Teatro Ford, em Washington, um lugar central, bem mais intrincada seria a trama e a complexidade dos personagens envolvidos. O Assassínio de Lincoln, um livro que anda por aí nas livrarias, escrito como um policial mas recheado de informação fidedigna, cumpre pois o papel de catalisador de informação, não tendo sido por um acaso que durante mais de um ano ocupou o primeiro lugar da tabela de vendas do New York Times na área da não-ficção. ler mais deste artigo

                    Biografias, História, Leituras

                    Não aprender

                    «Eu sei que vocês vão primeiro, mas depois vamos nós.» Estas palavras de António José Seguro, pronunciadas ontem na convenção autárquica do PS, podem ser palavras de circunstância, um modo de incutir ânimo e confiança nos militantes, mas contêm também um sinal negativo. Tanto para quem as receba com fervor, como para quem as leia criticamente do lado de fora do partido. Elas traduzem uma estratégia de pura assunção do poder (vós ides, nós vamos, para «lá») pouco conforme com uma lógica abrangente, unitária e de revisão das caducas estratégias partidárias de assalto aos lugares da administração pública, que uma larga maioria dos portugueses exige. Um líder partidário de dimensão nacional deve congregar esforços e apontar metas ao seu próprio partido, evidentemente, mas não pode esgotar nele, nem mesmo aparentar fazê-lo, uma lógica de solução para o destino democrático partilhado por todos. Particularmente numa altura destas, na qual a fronteira que separa o país do abismo, e o Estado dos cidadãos, é ténue e perceptível.

                      Apontamentos, Atualidade, Opinião

                      Ser solidário

                      O sociólogo Émile Durkheim falava da solidariedade como um elo moral capaz de unir os indivíduos do mesmo grupo e de funcionar como fator de coesão. Sem ela, as sociedades dissolver-se-iam e os humanos voltariam a viver em bandos, centrados na sobrevivência e numa interminável guerra de todos contra todos. Porém, ela não traduz apenas uma ética de governação que impõe a proteção dos mais fracos: integra um sentido mais completo, capaz de incluir um sentimento de proximidade, entreajuda e comunhão. Diariamente alimentado, este sentimento assegura aos diversos grupos uma lógica de autoproteção que os defende do exterior e lhes confere autonomia e protagonismo. Sob os regimes autoritários, esse dever de solidariedade foi frequentes vezes subvertido, trocado por uma escravizante diluição do indivíduo no todo. Por isso as democracias, que se desejam emancipatórias, o valorizam tanto. ler mais deste artigo

                        Apontamentos, Democracia, Olhares, Opinião

                        Arsène, ladrão e cavalheiro

                        Arsène Lupin

                        Jamais possuiu corpo físico, dado ter preenchido a sua inusitada vida como herói dos romances de Maurice Lablanc (1864-1941). Mas Arsène Lupin, fora-da-lei com lugar cativo nos camarotes da Opéra, na Wagons-Lits ou nos melhores hotéis de Paris, Londres e Veneza, teve uma existência intensa. Elegante e sedutor, adepto do vegetarianismo (e no princípio do século passado!), dos banhos turcos e dos pijamas em seda, amigo de Diaghilev, Poincaré e Caruso, evidenciou sempre um sentido de humor que associava sem peso ou medida ao lado pueril que tem sempre o desafio. A inteligência, a destreza e a coragem, essas usava-as para perturbar a ordem da distribuição da propriedade, espoliando os ricos para ajudar aqueles que considerava «perseguidos e inocentes». Tem, por isso, um lugar reservado no estranho panteão dos anarquistas aristocráticos. E também por isso conquistou vida própria.

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                          Memória do tango

                          tango

                          Ao ver uma pequena multidão de jovens turcos revoltosos a dançar o tango em plena Praça Taksim, lembrei-me deste post escrito há sete anos. Quando a minha e a nossa vida (e, talvez, também a deles) era um pouco menos preocupada.

                          Por considerá-lo uma diversão imoral, em 1910 o governo argentino decidiu proibir o tango. Nessa época eram extremamente populares tangos associados a títulos másculos, como «Esta noche me emborracho» e «Metele bomba», ou então bastante ordinários, como «Tocamelo que me gusta!», «Dós sin sacarla», «Dejamelo morir adentro» e «El 69», o que não é de admirar pois o local de eleição dos tangueros e das suas acompanhantes era então a sala comum do prostíbulo. Devido àquela medida repressiva, renovada por diversas vezes até à década de 1950, muitos foram os dançarinos, dançarinas e orquestras de Buenos Aires e de Rosário que se viram forçados ao exílio, levando a música do bandoneón até Nova Iorque, Paris, Londres ou Berlim. Aí o tango foi depurado, maquilhado, transformado em espetáculo de sociedade, regressando a casa mais maduro e asseado, como «pensamiento triste que se baila». Mas jamais perdeu o odor canalha e pouco conforme a uma vida sossegada. Afinal, Carlos Gardel, El Morocho, o maior dos seus cultores, fez a maior parte da carreira cantando com uma bala alojada num pulmão, e estas coisas não se apanham com correntes de ar.

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                            Um feriado mal passado

                            No princípio o 10 de Junho metia-me medo. A partir dos treze ou catorze passei a odiá-lo. Apesar da atitude ter mudado, o motivo era o mesmo: a experiência traumática de ver na televisão de canal único, a preto e branco, a cerimónia integral com a «veneranda figura do Chefe de Estado», de alva farda marítima, ou com os ministros do governo, invariavelmente de escuro cinza, a aporem medalhas de bronze – as de ouro e prata estavam reservadas para os mais dignos – em homens e mulheres trajados de negro, recém-chegados nos seus fatos domingueiros de aldeias recônditas ou de bairros degradados. Lá estavam eles nervosos e chorosos no Terreiro do Paço, com «as tropas dispostas em parada», a receber, ano após ano, em complemento de um cumprimento rápido e ritual, o pequeno símbolo metálico com o qual a Pátria, supostamente reconhecida, premiava os seus filhos mortos, os seus maridos desaparecidos, os seus irmãos que haviam perdido a razão, a alma ou os tímpanos numa guerra sem saída. Mesmo após a instauração da democracia, aqueles que haviam crescido a observar esse rito anual jamais esqueceram as manhãs de verão durante as quais, a cada ano, se transformava aquele feriado num funeral da pátria. ler mais deste artigo

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                              Coimbra, cidade aberta

                              coimbra69
                              Coimbra69 – Fot. Fernando Marques «Formidável»

                              A partir de hoje passo a reproduzir aqui alguns dos artigos de opinião publicados regularmente no Diário As Beiras, de Coimbra. Por vezes com pequenas revisões. Num caso ou noutro – como acontece com este texto – os temas abordados poderão ter maior relevância para os leitores (ou para os passageiros) da cidade.

                              A primeira memória que tenho de Coimbra liga-se a uma frase enigmática do meu pai. Um dia, ao passarmos na Portagem, junto ao antigo Café Montanha, apontou para um grupo de rapazes e de raparigas de roupa negra, muito justa, e avisou-me: «Olha, aqueles ali são os existencialistas». Deve ter acontecido por volta de 1960 e muitos anos depois, ao folhear uma coleção do jornal Via Latina, percebi que nessa época estava de facto em curso na academia coimbrã um combate de ideias entre estudantes católicos mais ou menos conservadores e um grupo de defensores do «existencialismo francês», reconhecendo estes sermos nós os primeiros responsáveis pelo destino que escolhemos. O episódio ficou registado e creio ter sido ele a fazer com que passasse a ver a cidade, apesar da sua estreita dimensão – então menos de metade dos habitantes de hoje –, como um território aberto à novidade do mundo e aos seus dilemas. ler mais deste artigo

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                                A tricana

                                Não sei datar com precisão a fotografia que ilustra este velho postal de Coimbra, comprado num quiosque que existiu ao lado da Pastelaria Central. Será, muito provavelmente, dos finais do século XIX ou logo do início do seguinte. Presumo que alguns a observem com um misto de nostalgia e de subordinação à visão de uma cidade profundamente estratificada mas que sem qualquer vigilância crítica tendem a embelezar e a associar a uma certa ideia de tradição. Eu vejo-a como uma imagem quase pornográfica. Como estereótipo, mas também como vestígio de um tempo, ultrapassado embora não apagado, no qual as lavadeiras do Mondego, as «lindas tricanas» das quais ainda tratam certas versalhadas ou legendas de souvenirs locais – eu ainda conheci algumas das derradeiras, já velhas, gastas, pobres e abandonadas –, desempenhavam o papel social que ela tão tristemente documenta.

                                  Apontamentos, Coimbra, Memória, Olhares