Jaume d’Urgell identifica-se no Twitter como «um madrileno nascido em Barcelona, preocupado com o bem comum, a cultura, os Direitos Humanos, a razão crítica e a comunicação». É militante republicano, e foi nessa qualidade que em 14 de Maio de 2006 escalou a fachada de um edifício oficial situado na Gran Vía de Madrid substituindo a bandeira nacional espanhola, de matriz monárquica e ainda conotada com o franquismo, pela tricolor. Jaume não escondeu a cara e deixou-se identificar, tal como assumiu a responsabilidade do seu acto e não aceitou pagar a multa de 4.000 euros decidida por um tribunal, optando por cumprir três meses e meio de prisão efectiva. Agir de outra forma «seria dar-lhes razão», declarou. Mantém em seu nome uma página pessoal e um blogue – La bitácora de Jaume – dedicado à causa republicana. Um bom exemplo de coerência e bravura que nada tem a ver com as brincadeiras azuladas a que temos assistido por aqui. Toda a história no Público espanhol.
Sempre que falo sobre a afirmação triunfante da música e da cultura pop nos inícios da década de 1960 para um público jovem, deparo com uma boa dose de compreensão, ou mesmo de simpatia, se evocar Elvis Presley ou Jim Morrison. Mas a referência aos Beatles é invariavelmente acompanhada de sorrisos trocistas, denunciadores de uma certa dificuldade em compreender, ou em aceitar, o papel dos fab four em todo aquele movimento. «Quem? Aqueles tipos de franja ridícula que cantavam umas coisas mais ou menos melosas, mais ou menos kitsch, para damas meio passadas?» No momento em que o lançamento mundial de uma edição totalmente remasterizada da sua discografia completa faz regressar às primeiras páginas os rostos e a memória dos quatro de Liverpool, apetece-me porém voltar ao tema.
Tanto quanto sou capaz de recuar até à pré-adolescência, confino a minha percepção inicial do papel dos Beatles neste mundo a três momentos. Num primeiro, o mais antigo, recordo a descoberta em casa de uns primos de um single em vinil que destacava Love Me Do e ouvi obsessivamente, com grande demonstração de paciência da parte dos meus tios, ao longo de semanas. O segundo momento foi marcado pelo meu encontro de rapaz de província com o número especial da revista francesa Salut les copains, dedicado ao grupo inglês em plena beatlemania e repleto de imagens daquela que então me parecia ser a mais excitante forma de vida possível à face da Terra. A terceira evocação leva-me ao reencontro do meu primeiro pecado mortal, consumado quando invejei profundamente L., um tipo um pouco mais velho que eu, proprietário de um daqueles casacos de gola «à Beatle» – isto é, sem gola –, que calçava umas botas pontiagudas de elástico lateral e fazia uma imitação, a meu ver perfeita e com grande êxito entre o público feminino, de Twist and Shout.
Nessa altura, a minha percepção daquela música e daquelas imagens era totalmente acrítica e marcada pela absoluta admiração. Por uma sedução, percebi-o depois, suscitada pela desafectação melódica daquelas canções, pela simplicidade dos textos estritamente vivenciais, pelo ritmo vibrante, então único. Marcada também, como estava a acontecer com milhões de jovens em todo o mundo, pela atracção por uma atitude cénica desafiadora e sem termo de comparação, pela ostentação da alegria e da brincadeira face a uma cultura dominante «adulta» que as procurava espartilhar dentro de limites «aceitáveis». Só depois, muito depois, encontrei nas canções dos Beatles – aquelas que já não oiço mais ainda prefiro, as dos primeiros álbuns, de Please Please Me, saído em 1963, até Revolver, lançado em 1966 – alguma coisa mais: o seu papel de território pioneiro sobre o qual outros puderam depois projectar sob os holofotes uma percepção poética e hedonista do mundo, uma naturalização do amor e do sexo descomprometido, uma atitude independente e de certa maneira rebelde. Característica dessa cultura juvenil, então em formação, que inflectiu a experiência do quotidiano dos filhos do Pós-Guerra, para lançar os fundamentos de um mundo que definiu a nossa contemporaneidade.
Mas claro que, para um número crescente de pessoas, a compreensão deste papel pela via única da inteligência ou dos manuais de história, mesmo a projectada pelos média ou reproduzida – tal como vai acontecer a partir desta semana – num jogo de computador, será sempre insuficiente. Por muitas reedições que se façam da discografia parcial ou completa dos Beatles, John, Paul, George e Ringo morrerão um dia, definitivamente, com o eclipse final dos últimos daqueles que um dia de alguma forma ajudaram a libertar. Não vislumbro os nossos descendentes do século 22 a trautearem No Reply ou Ticket to Ride. Entretanto, podemos divertir-nos ainda um pouco.
Admito que hoje, ao seguir na televisão a conversa entre Jerónimo de Sousa e José Sócrates, senti pena do primeiro. Muito cansado, sem chama, quase deferente, mastigando as palavras, incapaz sequer de repetir o discurso oficial, monocórdico mas combativo, do seu próprio partido. E lembrei-me muito da voz e da presença de Álvaro Cunhal. Sócrates tratou «o Jerónimo» como se este fosse um delegado sindical de um lar para a terceira idade a quem se deva sempre uma certa dose de condescendência. Cunhal jamais admitiria que alguém o tratasse daquela forma e a ninguém passaria pela cabeça fazê-lo. Foi mau para todos e triste de ver.
De quando em vez, sem o desejarmos, somos injustos até para pessoas que não conhecemos. Uma das injustiças que tenho feito a algumas consiste em considerá-las mortas quando afinal se conservam entre nós e no uso das suas faculdades. Ainda há pouco, numa conversa, «matei» Claude Lévi-Strauss, afinal vivo e activo com 101 anos. Passou-se agora a mesma coisa com Ernst Nolte, o controverso historiador alemão conhecido, principalmente nos anos oitenta, pela polémica interpretação do nazismo como uma reacção inevitável, e de certa forma compreensível, aceitável até, à ascensão do comunismo. Sugeria mesmo o «assassinato por razões de raça», perpetrado por Hitler, como uma resposta ao «assassinato por razões de classe» projectado universalmente pelos bolcheviques. A altercação pública a propósito do tema que manteve então com François Furet apenas fez com que essa explicação ganhasse uma maior visibilidade.
Pois Nolte – que eu já «enterrara» e afinal não passou ainda dos 86 – volta agora à arena, em Die Dritte Radikale Widerstandsbewegung: Der Islamismus, já de 2009, com uma teoria nova e não menos controversa. Procura desta vez explicar a irrupção do islamismo radical como algo de «justificável», de «compreensível», surgido como expressão da resistência à presença e à envergadura do Estado de Israel. Num raciocínio marcado por um antisemitismo redivivo à medida do nosso tempo, chega ao ponto de considerar como «percursor corajoso do combate palestiniano» a Mohammed Amin a-Husseini, o mufti de Jerusalém que em 1942, aos gritos de «Matem-nos a todos!», apelou em Berlim a uma jihad contra os judeus, apoiando a «solução final» proposta pelos nazis e colaborando mesmo na organização de uma divisão das Waffen-SS composta por muçulmanos bósnios. O islamismo será então, para Nolte, uma «ideologia muçulmana defensiva» face a um Israel colonial e imperialista. Interessante, como resultado do seu raciocínio tortuoso, é a aproximação do nazismo ao islamismo como movimentos político-culturais legítimos irmanados pela sua oposição a um «mal maior». Veremos agora que eco terá esta leitura entre aqueles que condenam Israel sem olharem à complexidade dos trajectos históricos e à realidade objectiva que moldaram e moldam a sua existência. Que eco terá dentro do universo islâmico também. Ahmadinejad aplaudirá com toda a certeza.
A ideia segundo a qual ler faz as pessoas melhores, vulgarizada pelos iluministas e pelos românticos, e comum a muitas campanhas de divulgação da leitura e a «máximas» proclamadas por boas almas, acaba de sofrer mais um abalo. O historiador alemão Ulrich Sieg publicou há pouco tempo um artigo no Frankfurter Allgemeine no qual revelou que Adolf Hitler não só possuía uma enorme biblioteca pessoal – cerca de 16.000 títulos – como terá de facto lido uma grande parte deles, uma vez que dos 1.200 conservados quase todos foram cuidadosamente sublinhados e anotados. De fio a pavio. Como seria de esperar, os livros sobre a Primeira Guerra Mundial, estratégia militar, magia e esoterismo preenchiam uma boa parte daquele número, mas havia também muitas obras de filosofia (sobretudo de e sobre Kant, Schopenhauer e Nietzsche) e ficção. De facto, ler muito não faz necessariamente bem às pessoas. Pode até ser tóxico e exemplos históricos como este não faltam. O elogio e a propaganda da leitura devem procurar estratégias melhores do que aquelas que insistem em mostrá-la como território nuclear da formação da bondade de carácter. Declarando, por exemplo, a crítica e o debate como instrumentos inseparáveis do acto de ler.
O tom cordato do qual se serviram Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa no aborrecido pseudo-debate televisivo desta noite pode funcionar objectivamente como um embuste lançado sobre um sector do eleitorado, situado à esquerda e em clara ruptura com o PS, que de forma genuína hesita sobre em quem votar. Jerónimo surpreendeu um pouco mais, dadas as arremetidas anti-bloquistas antes adoptadas pelo PCP, uma vez que Louçã apenas manteve o habitual registo, sistematicamente assumido pelo Bloco, de contornar jovialmente este tipo de confronto. Ambos deram tacitamente a entender que as divergências serão pouco relevantes. Mas não são: os dois partidos têm agendas muito diferentes, uma cultura política hoje bem distinta, divergem bastante em áreas como as finanças ou as questões internacionais, e projectam expectativas separadas no que diz respeito a uma eventual participação em soluções de governo. Os cidadãos que desejarem conhecer quais as discordâncias têm por isso todo o direito a ser esclarecidos. Até para que Bloco e PCP não abonem as razões de quem anda por aí a sugerir que o medicamento é o mesmo e só as embalagens dão uma ideia do contrário.
[Uma descrição mais detalhada da pacífica conversa é feita neste post de Pedro Correia.]
Estátua erguida junto dos antigos arquivos da STASI, em Berlim
Há já umas algumas décadas que a revista L’Histoire vem dedicando artigos e números especiais à divulgação de estudos sobre o colaboracionismo, acabando de ser publicado um novo dossiê no número de Setembro. O interesse dos franceses pelo tema prende-se directamente com o rasto ainda razoavelmente fresco deixado pelas actividades de República de Vichy (1940-1944), pela capitulação de alguns sectores da sociedade francesa perante a ocupação nazi, e pela existência de um corpo notável de denunciantes e de colaboradores. O trabalho de pesquisa histórica projectado neste campo é particularmente difícil e delicado, uma vez que a afirmação da «verdade dos vencedores» transformou em perversas e criminosas as pessoas responsabilizadas por esse tipo de atitude, e tantos as sobreviventes quanto os seus familiares mostram natural relutância sempre que alguém pretende tocar no assunto. A denúncia como instrumento de política constitui uma prática antiga e universal que nem sequer é privilégio dos Estados totalitários. Na Atenas clássica, a delação era mesmo considerada um acto cívico, destinado a proteger a comunidade de determinados comportamentos desviantes, tendo provavelmente sido aí que se iniciou também a sua perversão em larga escala, uma vez que o denunciante tinha direito a parte dos bens confiscados ao denunciado.
Foi todavia sob regimes fortemente autoritários que a atitude passou a ser sistematicamente enaltecida, sendo os traidores e os delatores promovidos frequentes vezes a heróis, destinatários de honras, medalhas e benefícios oferecidos por um poder que se pretendia incontestado. As benesses destinadas, no tempo da Inquisição portuguesa, aos «familiares do Santo Ofício», que funcionavam basicamente como testemunhantes e informadores, eram dessa natureza. A guilhotina revolucionária do período do Terror foi largamente provida por esta sorte de gente. E na União Soviética ficou sobejamente conhecido o caso do «glorioso mártir» Pavel «Pavlik» Morozov, o rapaz «pioneiro» que aos doze anos denunciou ao NKVD o pai por este vender alimentos sem autorização. O desfecho seria trágico: o pai de Morozov foi deportado para um campo de concentração e os avós, tios e primos, para evitarem a continuação da delação, acabaram por matar a criança, transformada por Estaline num «herói soviético» modelar. Na Polónia, durante a Segunda Guerra Mundial, ficou também amplamente registado o papel de muitos cidadãos polacos na identificação e denúncia dos judeus, responsabilizando-se esta atitude por ser aquele o único Estado europeu no qual o «problema judaico» terá sido efectivamente solucionado. A STASI leste-alemã tinha, por sua vez, um dos mais amplos e perfeitos corpos de denunciantes, tal como se encontra hoje bem documentado.
Em Portugal – os vizinhos espanhóis, ao invés, já começaram há algum tempo este tipo de trabalho – não existe ainda um esforço sistemático e criterioso de reconhecimento das actividades de denúncia e de traição perpetradas por aqueles que, da aldeia do interior à grande cidade, em espaços públicos e privados, graciosamente ou a contar com benefícios, trataram de delatar os opositores que conheciam ou os meros gestos de desagrado ou de chacota em relação ao regime do Estado Novo aos quais assistiam. Não me refiro aos agentes da PIDE identificados, mas antes àquelas pessoas que ofereciam espontaneamente informações às autoridades, ou então que se transferiam de campo, colaborando formal ou informalmente com a repressão salazarista e actuando como traidores das causas e dos movimentos de oposição com os quais ocasionalmente se haviam cruzado. Um trabalho por fazer, à espera de quem por ele se possa interessar. Um trabalho difícil, sem dúvida, mas a História faz-se também revirando soalhos e revelando episódios infamantes. Para que possa servir de exemplo e de alimento da democracia.
Posso tornar-me suspeito de estar a fazer publicidade à editora que tem publicado alguns dos meus livros. E provavelmente estarei – embora não inteiramente, pois não a nomeio no texto do post nem colo aqui o link –, mas este cartaz justifica o regime de excepção.
Uma das causas do descontentamento popular que fez ruir as experiências europeias do «socialismo real» teve provavelmente a ver com os ditames da indústria nacionalizada do calçado e com os escassos modelos impostos aos cidadãos. Afinal quem não desejaria alterar o estado das coisas?
Na imagem, uns sapatos Tisza Cipő fabricados em Martfű, na Hungria. Uma marca extremamente popular até aos anos oitenta, pois era a única disponível no mercado.
A história do 25 de Abril far-se-á sempre recorrendo aos depoimentos daqueles que participaram na sua preparação e que tiveram depois um papel interveniente nas sucessivas peripécias do «biénio revolucionário». Como todo o acontecimento da história recente, que conclama uma memória quente e os sentimentos ainda muito fortes de quem nela participou, os testemunhos dos seus artífices são sempre únicos e frequentes vezes polémicos. É o que acontece também com a longa entrevista de Maria Manuela Cruzeiro – efectuada entre 1992 e 1995 mas só agora publicada – ao coronel Vasco Lourenço, uma das mais relevantes e decisivas figuras do Movimento das Forças Armadas e do «Grupo dos Nove».
Aquilo que este conta é irrepetível, proposto a partir de uma perspectiva intensamente pessoal, inevitavelmente vinculada ao papel central e decisório que desempenhou em numerosos momentos que antecederam e seguiram a «revolução dos cravos». Mas é também polémico, pois contraria frequentes vezes, com grande frontalidade e uma aparente jactância, tanto o testemunho de outros actores do movimento, quase sempre bem identificados, quanto determinadas «versões oficiais» cuja veracidade por vezes contesta ou procura corrigir. Os historiadores do período deverão cruzar as diferentes leituras com as suas circunstâncias, mas esta entrevista de Vasco Lourenço será, sem dúvida, uma das referências a colocar na linha da frente do seu trabalho. [Vasco Lourenço – Do interior da Revolução. Entrevista de Maria Manuela Cruzeiro. Âncora Editora, 576 págs.]
De acordo com as palavras do engenheiro Sócrates em variante soft da entrevista de hoje à RTP, «talvez não tivesse havido da nossa parte a suficiente delicadeza na nossa relação com os professores». Demonstrar arrependimento, convenhamos, é sempre uma atitude meritória. Principalmente em campanha. E fazer o pino também. Ficamos à espera.
P.S. – Já depois deste post escrito, a ministra da Educação não fez o pino, mas rastejou, admitindo agora, já com o Juízo Final em andamento, «que existiram problemas de comunicação entre Governo e professores nos últimos quatro anos». É por estas e por outras idênticas que tantas pessoas honestas cospem para o chão e se benzem quando tal espécie de gente lhes passa por perto.
Foi no República, no distante ano de setenta e um (seguindo o calendário gregoriano, naturalmente), que pela primeira vez publiquei alguma coisa fora do circuito escolar juvenil ou do alcance de tiro da imprensa regional. Gostei pois de saber que a Hemeroteca Municipal de Lisboa começou a disponibilizar em linha a colecção de exemplares que possui do histórico diário republicano. Já acessível o ano de 1956.
Soldados alemães guardam um grupo de judeus em Sanok, Polónia (Setembro de 1939)
«Quem foi a primeira vítima de uma guerra que viria a fazer mais de quarenta milhões delas? Um prisioneiro desconhecido de um dos campos de concetração de Adolf Hitler, com toda a probabilidade um criminoso de direito comum. Numa tentativa para apresentar a Alemanha como vítima inocente de uma agressão polaca, vestiram-lhe um uniforme polaco, levaram-no para a cidade fronteiriça alemã de Gleiwitz, e a Gestapo abateu-o na noite de 31 de Agosto de 1939, na estranha encenação de um «assalto polaco» à estação de rádio local. Na manhã seguinte, quando as tropas alemãs começaram a entrar na Polónia, Hitler apresentou, como um dos motivos que justificavam a invasão, “o ataque ao retransmissor de Gleiwitz por tropas regulares polacas”.»
(in Martin Gilbert, A Segunda Guerra Mundial, editado pela Dom Quixote)
O resto da história é conhecida. Ou melhor, vai sendo conhecida.
Grande festa em Tripoli neste 1º de Setembro para comemorar 40 anos de Muammar Abu Minyar al-Khaddafi à frente da Jamahiriya Líbia. O destacado predador da liberdade de imprensa, déspota responsável por atentados sistemáticos contra os direitos humanos, ex-terrorista e antigo paladino do extinto «socialismo árabe», mas com dinheiro suficiente para comprar cumplicidades por todo o planeta, não consegue, no entanto, fugir à suprema ignomínia: o ter sido designado pela revista Time como um dos líderes mundiais mais mal vestidos da actualidade (embora, reconheça-se, a seguir a Kim Jong-Il e a Vladimir Putin).
Existe um erro básico na apreciação que o PS e alguns dos seus apoiantes fazem do actual papel do Bloco de Esquerda. Consiste ele em meterem no mesmo saco o Bloco e o PCP, quando, de facto, apesar das franjas radicais e proto-marxistas que ainda resistem no BE, este tem vindo a afirmar-se cada vez mais como uma força-charneira. Enquanto partido política, cultural e sociologicamente localizado entre um «socialismo» de direita, assumidamente defensor de uma lógica gestionária, clientelar e desenvolvimentista de tipo neoliberal, e um «comunismo» de museu, activo mas sitiado, cada vez mais radicalizado e quase incapaz de dialogar com quem não siga a sua verdade histórica e fale a sua língua de madeira.
Mais tarde ou mais cedo, PS e Bloco estarão condenados a entender-se como solução governativa de um tipo novo. Não quero com isto dizer que seja essa a solução na qual me revejo (aliás, aquela que Daniel Oliveira volta a defender na crónica publicada este sábado no Expresso). Continuo a pensar que é útil e até necessária a existência de uma força radical representativa, capaz de assumir com algum impacto uma presença de reivindicação e denúncia sem a qual a democracia pode derivar para uma lógica de gabinete ou para o autoritarismo. E que essa força já não pode ser o BE. Mas sei que a governação não se faz apenas da proclamação de princípios abstractos com os quais eu possa eventualmente simpatizar: faz-se de conciliações e de iniciativa. De algum realismo também. E será por aí que passará a aproximação da qual falo. Daí que os violentos ataques ao Bloco lançados pelos socialistas (e por alguns dos «independentes» que os apoiam) só possam voltar-se contra os próprios. Como? Simples (ou «simplex»): concorrendo para fornecer a muitos cidadãos a percepção de que tal solução de alternativa e diferença apenas poderá ser projectada se ocorrer uma votação bastante significativa no Bloco. Não sei se, para o poderem compreender, têm passado o suficiente pelo outro lado da realidade.
Um dos aspectos que mais impressiona na indicação da moça Carolina como «mandatária para a juventude» da campanha do PS é o sereno assentimento da Juventude Socialista perante escolha de tal densidade. Ou a invisibilidade pública de uma posição crítica que de algum responsável da JS tenha emanado. Esta organização, que em tempos terá funcionado, pelo menos formalmente, como «consciência crítica» do partido em relação aos seus adultos patronos, tal como acontecia com a JSD e até com a JC – mas não com a JCP, pois aí a juventude da idade foi e é temperada pela fidelidade aos «imutáveis» princípios –, parece ter perdido completamente a capacidade para definir uma voz própria e introduzir dinâmicas de reflexão. Justamente aquilo que a tornava razoavelmente respeitada fora do aparelho partidário. Hoje toda aquela precocemente responsável gente se concentra no seu papel de actores da propaganda e de rosto um pouco menos rugoso de um «modelo de modernidade» que a direcção do partido lhe destina. Afirmar por entre um chorrilho de tolices e de banalidades, como o fez a Carolina, que mais vale fazer batota do que perder, não lhes parece já constituir uma inqualificável ignomínia ética, uma distorção completa dos ideais socialistas mais elementares. Sobretudo porque, como calculam, o rosto público da jovem conquistará votos, votos significam poder, e o resto é conversa. Uma lógica muito natural, na qual só não alinham esses empedernidos radicais que dão demasiado valor aos princípios.