Uma nova servidão

A colmeia

«The government is to stop funding “pointless” university research, forcing academics to prove that their academic inquiry has some relevance to the real world, funding chiefs will announce today.

Universities will have to show that their research influences the economy, public policy or society in order to secure the biggest research grants, the government’s funding body for higher education said.»

De acordo com um artigo publicado hoje no Guardian, do qual retirei os dois parágrafos anteriores, os planos do governo britânico para o financiamento da investigação – e o custeamento das próprias universidades – deverão rapidamente excluir a pesquisa pura, considerada perdulária, supérflua e até risível. A outra, a «útil», aquela «que serve para alguma coisa», será, presume-se, superintendida por gestores, aplicados amanuenses, software avançadíssimo e laboriosos gabinetes de marketing. Arrumada num mundo perfeito, inspeccionado, sem desperdício.

Ainda não se chegou tão longe por cá, mas sabendo-se como os burocratas domésticos aprendem depressa, e conhecendo-se alguns indicadores espalhados já por regulamentos conhecidos dos centros de investigação e das universidades, não surpreenderá ninguém se em breve habitarmos idêntica paisagem siberiana. E se, pouco tempo depois, alguém nos vier propor que a imaginação exibida em público passe a pagar imposto. Até que num dia não muito distante, se tudo correr bem aos polícias do conhecimento e nos formos conservando quietos, distraídos e veneradores, estudar pelo insano prazer de saber, ou adiantar ideias contrárias à «paz social» por serem absurdamente criativas, serão considerados crimes. Castigando-se os criminosos com trabalhos forçados em «projectos de conhecimento relevante». A ver se aprendem, esses inúteis.

    Atualidade, Olhares, Opinião

    O caso do pirómano egípcio

    Fahrenheit 451

    Por vezes é necessário tomar posições frontais contra a lógica da diplomacia dúctil e puramente defensiva. Como o fez Manuel Maria Carrilho, contra a vontade do ministro Luís Amado, no caso da prevista escolha do egípcio Farouk Hosni, o pirómano de livros «semitas», para secretário-geral da Unesco. Por esse e por outros actos é que felizmente acabou por ser eleita a búlgara Irina Bokova. Sem o voto português, pois Carrilho foi acabou por ser substituído nas votações por um funcionário do MNE. Como escreveu Pedro Correia, «o simples facto de essas instruções terem sido transmitidas ao nosso embaixador na Unesco (…) revela bem até que ponto chegou o temor reverencial do Ocidente».

      Atualidade, Democracia

      Prémios e galardões

      Tal como acontece com outros, este blogue recebe de vez em quando prémios de qualidade e galardões concedidos individualmente por amigos e leitores que o visitam e lhe reconhecem algum mérito. O último é o «Vale a pena ficar de olho nesse blogue». Há cerca de dois anos, porém, após uma vaga de distinções, resolvi não participar mais em cadeias do género, tendo-o explicado na altura às pessoas envolvidas. A minha escolha teve e mantém dois motivos: primeiro, penso que apenas são relevantes como prémios públicos aqueles atribuídos por um colectivo com base em critérios conhecidos; segundo, a multiplicação de distinções desta natureza acaba por banalizá-las. Sei que a opção é muito discutível, e por isso peço a quem simpaticamente tem premiado este blogue que a entenda e aceite.

        Oficina

        Com um ténue sorriso nos lábios

        Talk Talk

        Não posso senão concordar com o óbvio, transformado em evidência nestes últimos dias de campanha: se o revanchismo marca-PSD não ganhar as eleições por uns módicos milhares de votos, o cenário inevitável será o da vitória de um PS em queda, com uma subida bastante acentuada do Bloco de Esquerda e outra, menos resplandecente embora perceptível, do Partido Comunista. O passo seguinte deverá passar – pois alguém terá de ficar com as chaves da quinta e geri-la – pela materialização de uma aproximação à esquerda. Seja esta aproximação traduzida num «pacto de governo» ou em acordos pontuais no interior do espaço parlamentar. O segundo cenário é menos complexo e esboçá-lo é menos urgente, pois as soluções serão encontradas a médio prazo, caso a caso, num esforço de negociação que em alguns momentos regressará ao centro, podendo mesmo incluir sectores do PSD. Já um «pacto de governo» supõe uma decisão mais rápida mas também mais difícil.

        Em artigo publicado hoje no Público, o meu amigo e colega Elísio Estanque desenha muito bem o cenário provável e algumas das dificuldades colocadas na sua construção. Transcrevo-o parcialmente, em total concordância:

        «Entre uma cultura de rigidez e de autismo como é a do PCP (um partido que, queira-se ou não, está em processo lento de implosão) e uma cultura de maior dinamismo e democraticidade interna como é a do BE (um partido que, queira-se ou não, está em fase de consolidação como terceira força política), terá por isso mais lógica esperarmos uma aproximação entre o PS e o Bloco (caso consigam, em conjunto, uma maioria de deputados).»

        Para depois continuar:

        «Se admitirmos que os socialistas e o seu actual líder já se deram conta de alguns dos erros políticos cometidos nesta legislatura, não só no estilo e no diálogo com a sociedade, mas também em áreas políticas decisivas (como a educação, o trabalho, etc.), é razoável esperar que algumas concessões ocorram nesses domínios, tendo em vista um possível acordo parlamentar à esquerda. Idealmente, esse acordo deveria abranger o PCP e o BE, mas tal parece irrealista. Assim, uma aproximação entre o PS e o BE será o requisito mínimo para um governo estável e de esquerda.»

        Também me parece ser este o cenário possível e desejável dentro das actuais circunstâncias, ainda que duvide um pouco da viabilidade da sua materialização. Esta dúvida prende-se com um problema que EE apenas aflora mas que a mim parece dever merecer especial atenção. Se olharmos bem a projecção dessa possível paisagem, a maior expectativa de quem a deseja ou prepara não se limitará ao resultado do simples somatório dos votos depositados nas urnas e à consequente solução institucional, mas antes àquilo que de autenticamente novo essa aproximação trará à história democrática da nossa Terceira República, no contexto de um processo inevitável de reidentificação tanto do PS quanto do Bloco. Ora é a existência de vontade política para dinamizar esta viragem que não consigo ainda vislumbrar.

        Para o PS, tratar-se-á de uma alteração de políticas e de comportamentos nas mais diversas áreas, bem como uma partilha parcial de cargos e de poder, com o necessário recuo dos sectores mais empenhadamente autoritaristas e defensores de um «neoliberalismo moderado» como único sistema viável. Para o Bloco, será a perda gradual de uma cultura ainda essencialmente protestativa e abertamente fracturante, com o recuo, ou mesmo o apagamento, das franjas radicais e tardo-marxistas, minoritárias na contagem dos votos mas organicamente activas, que ainda o povoam. Isto não significa o desaparecimento das diferenças, mas obrigará a uma diluição das áreas de conflito, o que poderá provocar, numa e noutra de ambas as forças, alterações irreversíveis. Significará uma coabitação em «comunhão de adquiridos» que forçará novos equilíbrios e radicalizará, numa dinâmica centrífuga, determinados sectores da margem esquerda da actual vida política. Inventario apenas alguns, não carecendo de ser adivinho para o poder fazer: um recuo da ala mais à direita do aparelho e da clientela do PS, um upgrade da cultura política do Bloco em articulação com a prática de poder, o esvaziamento formal do fugaz «alegrismo», um incremento da «urbanização» da base social de apoio do governo, a radicalização e a recomposição da extrema-esquerda supervivente, a estabilização definitiva do PCP como partido de protesto antieuropeísta ou a sua improvável adaptação ao século 21.

        Por isso não vejo a possível ou inevitável aproximação entre PS e BE como um fim em si na construção de uma solução governativa estável e mais justa dentro do sistema democrático imperfeito no qual vivemos. Vejo-a antes como um momento – possível, repito, embora pouco provável – para conter e superar os excessos anti-socialistas da política governativa simbolizada pelo actual «socratismo» rosa-cinzento. Apenas como uma etapa, como um tempo de mudança, para algo que ainda não podemos vislumbrar mas virá depois. Talvez, como escreve EE, ela possa representar «um decisivo virar de página na história da esquerda e da democracia portuguesa». Talvez. Uma fantasia boa que pode, ou poderia, tornar-se realidade. Daquelas das quais despertamos com um ténue sorriso nos lábios, antes de retornarmos à aspereza da vida de todos os dias. Mas bem sabemos como não existe uma «ciência do real» e tudo avança por processos repetidos de tentativa e erro.

          Atualidade, Opinião

          Xeque ao capitalismo

          Spassky e Fischer

          Apesar de ter hoje nacionalidade eslovaca, faz agora 25 anos vivia ainda em Brno. Julgo que foi pelo diário Právo, e por algumas notícias que passavam no canal estatal de televisão, que segui o primeiro encontro para o título mundial de xadrez travado entre Gary Karpov a Anatoli Kasparov. A minha recordação desse tempo é muito vaga. É curioso mas lembro-me muito melhor, talvez por causa da propaganda, dos duelos anteriores de Boris Spassky com Bobby Fischer, que no princípio dos anos setenta nos eram mostrados como combates de morte entre a descomunal argúcia socialista e uma esperteza capitalista rude e sempre arrogante. Nessa época tratava-se de uma verdade inquestionável e só anos depois entendi que o mundo não era assim tão simples de interpretar.

          Iuri Bradáček

            Apontamentos, Memória

            O destino de Sofia

            Sofia Loren

            Sofia Loren faz hoje 75 anos e há sensivelmente 60 que anda por aí, revelada em filmes e fotogramas, a perturbar as horas de descanso de adolescentes com borbulhas e honestos patres familiae de diferentes gerações, origens, línguas, credos e regimes. Abençoada seja também por isso. E longa vida à camarada Sofia!

              Cinema, Etc., Memória

              Uma verdade repugnante

              Ahmadinejad

              O negacionismo histórico incorpora, como todos sabemos, diferentes perversões. Passa pela suavização ou pelo apagamento dos crimes em massa praticados no Gulag soviético e nas suas réplicas chinesa ou norte-coreana, pela contestação do Holodomor que em 1932-1933 varreu milhões de ucranianos, pela recusa da dimensão apocalíptica do genocídio arménio, pela limpeza da memória dos fuzilamentos indiscriminados de La Habana ou de Luanda, pela rasura dos terríveis crimes de guerra cometidos pelo Japão, pelo afastamento dos livros de história e das evocações do passado de iniquidades do colonialismo. Porém, porque toca mais profundamente os fundamentos democráticos da cultura europeia e a experiência em segunda mão que ainda podemos ter, a negação do Holocausto é-nos particularmente repugnante. Crescemos todos com o rastro fotográfico e literário da memória dos campos, reconhecendo o espectro sombrio do portão de Auschwitz, vendo e revendo na televisão documentários sobre os longos comboios da morte, lendo Noite ou Se Isto é um Homem, Wiesel e Levi. Por isso se nos tornam insuportáveis afirmações como as de Ahmadinejad, repetindo que se trata de «uma mentira baseada numa história mítica e impossível de provar». Quando no próximo 1º de Outubro o presidente não-eleito iraniano discursar na Assembleia-Geral das Nações Unidas, veremos como reage a estas palavras – e às provocações políticas do Irão – a habitualmente pusilâmine diplomacia europeia.

                Democracia, História, Opinião

                A marca de Zane

                Um dos meus primeiros heróis literários foi Zane Grey (1872-1939). É impossível saber quantos rapazes que se criam temerários, quantas moças ousadas às escondidas das mães, com ele descobriram o mundo selvagem, perpetuamente inquieto, no qual cowboys de génio estupendo, e caravanas de pioneiros fugindo da miséria, enfrentavam hordas de índios bravíssimos e, nas suas páginas, alucinadamente suicidas. Somente muitos anos depois soube que até se tornar conhecido pelos seus romances populares Grey passou pelo Oeste profundo apenas por uma vez, em 1906, durante uma apressada lua-de-mel. Percebi então que a imaginação de tanta gente foi alimentada, ao longo de sucessivas gerações, pela mais completa fantasia criada por aquele pacato dentista de uma pequena cidade do Ohio. O homem que ajudou a conceber os índios e os cowboys da forma como os encarnámos nas brincadeiras da infância – cientes, na nossa inocência, de um mundo que acreditávamos justo, no qual os bons e os maus conheciam o seu lugar e não desejavam outro –, entre faltas às aulas, muros de tijolo como esconderijo e arbustos que tornavam quase selvagem o cenário em que elas tinham lugar. Como acontecera com Zane, ao mesmo tempo dentro e longe das pradarias desejadas enquanto territórios de aventura.

                  Memória, Olhares

                  Edith e Zé Manel

                  Edith Piaf

                  Na viragem para a década de 1970 tornou-se muito popular em França uma cantora que os jornais consideravam «a nova Piaf». Mireille Mathieu tinha de facto uma voz interessante, num registo gutural próximo daquele que caracterizara Edith Piaf, e quem a ouvisse cantar num vulgar rádio de pilhas em onda média, ou numa longínqua instalação sonora de festa de aldeia, facilmente confundia a sua voz com a da intérprete de Non, je ne regrette rien. Mas quando se prestava maior atenção à pessoa, à música e ao tom, as diferenças tornavam-se flagrantes. O aspecto de jovem perfeita, asseada e bem comportada, o conteúdo açucarado do seu repertório, e principalmente a ausência daquele pathos que caracterizava a minúscula Edith e a tornava um animal de palco, mostravam imediatamente as debilidades de Mireille. Por isso ninguém se espantou verdadeiramente quando ela desapareceu de cena. Lembrei-me desta distância entre a Piaf e a sua cópia após ler a notícia sobre a confirmação de José Manuel Durão Barroso no segundo mandato como presidente da Comissão Europeia. Confrontando a sua presença medíocre e o discurso apenas melífluo e de circunstância com os de Monsieur Europe, o socialista Jacques Delors, uma personalidade forte que chefiou a Comissão entre 1985 e 1995 e fez com que a voz europeia fosse ouvida e respeitada muito para além do perímetro de Bruxelas, vemos como foi rápida a passagem do original para a sua indigente cópia.

                    Atualidade, Olhares

                    Por um cigarro em paz

                    Um cigarro em paz
                    Soldado republicano fotografado na frente de Madrid

                    Já sabia que tinha acontecido assim, mas a crónica de Antonio Muñoz Molina no Babelia reavivou-me a memória de uma ocorrência que sempre achei perturbante. Mesmo quando fazia por acreditar em absolutos e na límpida separação entre o bem e o mal. Sobreviventes anónimos da Guerra Civil espanhola recordam insistentemente, conta Molina, como fora das áreas de combate o mais duro de suportar era, para além da fome, a falta de tabaco. Este faltava na zona republicana, pois era produzido na Estremadura e nas Canárias, controladas desde o início pelos franquistas, mas nas áreas administradas pelos insurrectos não havia papel de fumar de boa qualidade, uma vez que as fábricas estavam em regiões nas mãos da República. Organizavam-se então encontros perto da linha da frente para que os dois produtos fossem trocados e pelo menos alguns pudessem experimentar desse «alívio plácido após uma longa privação».

                    Episódios de uma camaradagem desta natureza, entre populações situadas em campos adversos ou mesmo entre inimigos, são comuns em situações de conflito e aconteceram também durante as nossas Guerras Coloniais. Um antigo comandante guerrilheiro do MPLA descreveu-me certa vez o modo como os seus combatentes, sabendo que os opositores directos iriam passar pelo mesmo trilho e estavam há muito tempo isolados, deixavam afixados num papel espetado numa árvore os resultados do campeonato português de futebol da Primeira Divisão. Se fosse o caso, alguns portugueses faziam a mesma coisa. Outras vezes metiam-se uns com os outros, de maneira quase amigável, a propósito de certas simpatias clubísticas: «no domingo vão ser cinco a zero!», «vocês ontem não jogaram nada, cabrões». Episódios que reforçam o particular absurdo das guerras atravessadas por um passado partilhado e uma língua comum.

                      Apontamentos, História, Memória

                      Que mil Cíceros floresçam

                      Cícero

                      Durante a entrevista concedida ao semanário Expresso deste sábado, Judite de Sousa considera que «se recuássemos dois ou três mil anos Francisco Louçã era o Cícero da Grécia Antiga». Sim, falamos de Marcus Tullius Cicero, o versátil romano que foi um grande orador, filósofo, escritor, jurisconsulto e político lá pelo século I a.C. Segundo Judite, Marco Túlio terá também viajado no tempo (aliás, não é preciso ser-se grande erudito para saber que mil anos de décalage para ele eram ginjas). Diz ainda que Obama é «o Cícero contemporâneo». É cada vez mais perturbante a forma como certos pivôs e jornalistas considerados de topo – que deveriam, ao menos estes, possuir uma formação sólida e não se verem como vedetas a quem é permitido dizer qualquer coisinha – ostentam ignorância e proclamam banalidades em estado gasoso como se fossem  pensamentos lapidares. Já quase me esquecia: Judite declara na mesma entrevista ser levada a crer que «José Sócrates emprenha pelos ouvidos». O que não fará dele propriamente um grande Cícero. Nem dela uma especialista em freaks.

                        Apontamentos, Devaneios

                        Bandeira vermelha com banda sonora

                        Bandeira Vermelha

                        O Bloco fica-se e o PCP avança em «Um neo-reformismo de fachada socialista». Teoria de altíssima densidade, mes amis. Estão a ver as coisas agora um pouco melhor? Só falta falar – mas está quase tudo lá – da «cobardia que se encobre na bravata verbal», da embriaguez da «própria concepção do poder do verbo»,  de «sentimentos e ambições de classe», de «aliança objectiva com o capital», de «desligação das massas populares» ou de «perda de contacto com a classe operária». Apenas algumas das centenas de expressões de idêntico teor utilizadas por Álvaro Cunhal no recuado Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista, um livro de 1971, para tratar dos «esquerdalhos e outros bandalhos». Como se escreve no prefácio à 3ª edição, publicada já depois do 25 de Abril, «a luta ideológica e política contra o radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista não terminou com o derrubamento da ditadura (…), conserva plena actualidade». E dura, e dura, e dura.

                        [audio:http://aterceiranoite.org/sons/Samba De Uma Nota So.mp3]
                          Atualidade, Olhares

                          Falar barato

                          Falar barato

                          Recordava-me há dias um amigo que em período eleitoral sobrevém «uma suspensão da normalidade em todos os planos, o discursivo incluído». Concordo com ele, penso que todos concordaremos, e, quanto mais não bastasse, para lhe dar razão bastaria ver como aqui, na blogosfera – onde, se não estou equivocado, não circulam dominantemente magarefes e lutadores de wrestling –, pessoas habitualmente reputadas como estimáveis, ponderadas e inteligentes se travestem episodicamente em desbocadas, deixando entre parêntesis a politesse (a palavra «delicadeza» corre hoje certos riscos), e comportando-se como elementos radicais das claques de futebol. Muitos retomam, aliás, os velhos princípios da política provinciana, na qual, como se sabe, qualquer argumento político racional é ultrapassado por afirmações gratuitas e um «diz-se que diz-se» bastante dependente das intricadas teias locais do favor, da família e da amizade. Nessa tendência para a interrupção da normalidade integra-se o recurso à «pequena política», ao truque barato, ao «pé para o chinelo», ao uso da primeira arma de arremesso que apareça para achincalhar o adversário e reduzir a discussão ao menor denominador comum.

                          Isto vem tudo a propósito de uma espécie de notícia publicada pelo Correio da Manhã, na qual se utilizam fragmentos de uma conversa informal, off the record, ocorrida nos estúdios da RTP antes do debate da passada terça-feira entre Francisco Louçã e José Sócrates. Aí se dá destaque, como se de um escândalo se tratasse, a umas quantas graças banais ditas principalmente pelo secretário-geral do PS. Além da sua utilização jornalística ser muito condenável no plano ético, aquele tipo de piada é coisa que qualquer de nós poderia dizer, e não vejo que um político responsável, pelo facto de o ser, tenha necessariamente de controlar as emoções e as palavras 24 em cada 24 horas. Aliás, devemos desconfiar, e muito, de alguém que não saiba rir, não diga tolices e em público apenas fale a sério. Pela mesmíssima razão, fui, aliás, um dos que condenaram a manipulação do normalíssimo «porreiro, pá» (prefeririam os utilizadores um «cumprimento vossa excelência»?), ou a utilização de pequenas frases casuais retiradas do Twitter pessoal de políticos e jornalistas para os diminuir, como já ocorreu. A educação democrática, julgo sinceramente, passa também por aqui. Deve ser uma prática permanente, não um acto de circunstância. E a lógica do «vale sempre tudo» apenas contribui para reduzir a dimensão humana da actividade política e alimentar uma noção de debate público como se de um jogo de pingue-pongue contra uma parede de cimento se tratasse. São preferíveis políticos de rosto humano, falíveis, por vezes vaidosos, a autómatos previsíveis e aparentemente clarividentes. E isto nada tem a ver com a minha hipotética simpatia, ou a falta dela (muito mais provável, já agora), por José Sócrates, Manuela Ferreira Leite, Carmelinda Pereira ou aquele senhor de bigode que é o Presidente da Junta.

                            Apontamentos, Olhares, Opinião

                            Margem de outra maneira

                            Edifício Foice e Martelo
                            Edifício Foice e Martelo, de Yakov Chernikhov (1933)

                            O Zé Neves publicou no 5 Dias um excelente post onde contesta algumas reacções ao clima cinzento e aprazível no qual decorreu o «frente-a-frente» televisivo – as aspas são minhas – entre Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa. Focaliza a sua crítica nas posições, diferentes entre si mas coincidentes no teor negativo da apreciação, enunciadas por Miguel Vale de Almeida, por Daniel Oliveira e por mim, entendendo que, ao partilharem um «sentimento anti-PCP», todas elas tendem a limitar bastante as vias do possível para arquitectar o futuro da esquerda em Portugal.

                            As posições de MVA e de DO parecem ter, nos comentários do ZN, uma natureza mais táctica e causal, e provavelmente terão, uma vez que resultam de preocupações mais imediatas, mas a crítica que me é feita levanta problemas a propósito dos caminhos da esquerda num presente projectado para além do momento eleitoral. Nesta direcção, ZN salienta que a defesa que faço da necessidade de um esclarecimento das divergências e das diferenças entre o Bloco de Esquerda e os comunistas expõe uma «pulsão anti-PCP» que pode indiciar também «uma pulsão anticomunista tout court». Apesar de comigo concordar sobre a necessidade «em romper radicalmente com o legado do marxismo-leninismo». Debater de uma forma aprofundada a justeza ou os sentidos que esta apreciação incorpora é tarefa impossível de concretizar nos cinco parágrafos deste post, e evoca problemas mais densos que tenho tocado aqui e ali, aos quais procurarei regressar noutra altura, mas não quero deixar de dizer alguma coisa sobre a forma como o ZN leu as minhas palavras.

                            Talvez valha a pena sublinhar entretanto que o facto de votar BE, e de apelar a que outros o façam, não implica vínculo algum que me leve a ocultar objecções a algumas das suas escolhas. Como não significa que as minhas posições sejam admissíveis no interior do próprio Bloco. Longe disso, eu sei. Não sou militante bloquista, mas um cidadão de esquerda sem partido, e não concebo uma independência militante de outra forma que não seja como uma posição, um posto de franco-atirador, que liberta quem os assume para uma capacidade crítica mais improvável em quem, participando de uma organização partidária, se vê geralmente forçado a conformar as suas posições públicas com as da sua facção. Por isso os meus pontos de vista não visam defender qualquer estratégia eleitoral opcional para o Bloco – para isso, como partido democrático, tem o BE os órgãos e as pessoas competentes –, mas procuram apenas, mais prosaicamente, lançar pistas para uma reapreciação do futuro da esquerda. De uma esquerda que está aquém e além de atitudes, estritamente conjunturais, vinculadas ao episódio eleitoral.

                            Tendo uma visão humanista, solidária e poética do comunismo, integradora de uma carga utópica vital sem dúvida démodée e assumidamente a-científica, sei que ela não se compadece com a perspectiva realista e instrumental que algum marxismo, e sobretudo o leninismo, impuseram e aplicam com base no modelo que em determinado momento do século passado se presumiu triunfante. Sou por isso, sem dúvida, opositor ao tipo de comunismo que o PCP, e também uma boa parte da fragmentada esquerda radical supervivente, persistem em incorporar, na sua matriz política, cultural e até vivencial, como caminhos pelos quais ainda passará o futuro da esquerda da qual se consideram a parte perfeita. Nessa matriz programática resiste o anacrónico desejo de um controlo integral da sociedade, de uma manipulação redentora do indivíduo como subordinado à ditadura do colectivo, de clarificação centralista do que é ou não socialmente aceitável, da metamorfose da divergência em dissídio pela via do rancor (o desusado «ódio de classe»), de simplificação de um universo cada vez mais complexo, que não é meramente retórica. E não estou com problemas de visão. Ao mesmo tempo – não me parece que esse aspecto seja de importância menor – existe uma cumplicidade em relação aos caminhos mais tortuosos e dramáticos da história da experiência do «socialismo de Estado» que não me parece aceitável, é injusta para a memória daqueles que destruiu (não falamos de mil, ou dez mil, e ainda que falássemos de dez…), e questiona de raiz o próprio conceito de democracia. Por isso jamais aceitaria – como o fariam muitos portugueses que votam e votarão BE – pactuar ao nível da governação do meu país com uma força política que ainda desculpabiliza, quando não elogia, as atrocidades sem fim do Gulag, que cala os atropelos brutais à democracia e aos direitos humanos na China, que justifica a repressão na mitificada Cuba, que tem da justiça, da liberdade, da ética, da guerra e da própria democracia uma noção instrumental que é maleável na exclusiva medida em que essa maleabilidade convenha tacticamente aos seus objectivos operacionais subordinados ainda a uma espécie de irredentismo histórico.

                            Isto não implica, porém, a recusa de colaboração com os comunistas do PCP no plano do combate diário por causas próximas. Ela é comprovadamente e recomprovadamente difícil, mas não impossível. Não impõe também, de modo algum, a negação da grande tradição solidária e memorável que a história do movimento comunista português e internacional nos tem doado. Mas essa inesquecível grandeza não é tão forte que nos leve a fechar os olhos e a admitir, agora e aqui, uma solução governativa feita daquela espúria miscelânea. Por isso me parece que o Bloco, que incorpora, mesmo ao nível da simpatia traduzida em votos, um grande número de apoiantes de uma esquerda socialista democrática – não diria o mesmo de todos os militantes e activistas bloquistas, mas essa será outra questão –, deve reconhecer e aceitar publicamente a sua diferença. Não sendo prioritário fazê-lo a todo o momento, num debate com Jerónimo de Sousa este aspecto não deveria ter sido completamente esquecido (embora se entenda perfeitamente a opção deste em não ir por aí). Pois não o fazer corresponde, como defendi, a menorizar um pouco os muitos eleitores que votam BE pois não querem votar PCP, e também aqueles, sem partido, que ainda hesitam sobre em quem votar à esquerda. E nenhum de nós admite que eles o façam pelos lindos olhos de alguém, pela cor da gravata ou pela ausência dela, ou como se jogassem no Euromilhões.

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                              Estrada fora, sem papéis

                              Driving

                              Cristina A., 48, com cadastro, tem todas as condições para colher a simpatia de muitas pessoas. Foi julgada e condenada em Coimbra por ter sido apanhada ao volante sem carta de condução, o que declarou fazer «há 20 e tal anos» sem sequer ter passado num exame de Código da Estrada («o que me faz confusão são as perguntas ranhosas», lamentou-se ela aos jornalistas). Admitindo que já foi apanhada oito vezes em situação idêntica, disse que apreendeu a conduzir no mato, «mas graças a Deus nunca tive um acidente». Isto apesar de já ter «batido os 200 quilómetros à hora». A sua maior ambição – como a de tantos de nós, aliás – é conduzir um camião. Quem não invejará um pouco, se não a vida, o descaramento de Cristina por acelerar assim, estrada fora, sem papéis?

                                Apontamentos, Devaneios

                                Jaume los tiene

                                Tricolor

                                Jaume d’Urgell identifica-se no Twitter como «um madrileno nascido em Barcelona, preocupado com o bem comum, a cultura, os Direitos Humanos, a razão crítica e a comunicação». É militante republicano, e foi nessa qualidade que em 14 de Maio de 2006 escalou a fachada de um edifício oficial situado na Gran Vía de Madrid substituindo a bandeira nacional espanhola, de matriz monárquica e ainda conotada com o franquismo, pela tricolor. Jaume não escondeu a cara e deixou-se identificar, tal como assumiu a responsabilidade do seu acto e não aceitou pagar a multa de 4.000 euros decidida por um tribunal, optando por cumprir três meses e meio de prisão efectiva. Agir de outra forma «seria dar-lhes razão», declarou. Mantém em seu nome uma página pessoal e um blogue – La bitácora de Jaume – dedicado à causa republicana. Um bom exemplo de coerência e bravura que nada tem a ver com as brincadeiras azuladas a que temos assistido por aqui. Toda a história no Público espanhol.

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