Se há ligação a este blogue da qual não gosto mesmo é aquela feita a partir de outros blogues apenas acessíveis, através de password, a um círculo limitado de pessoas. Sinto-me um tanto do lado oposto ao da câmara do voyeur. Como se estivesse a ser espiado a partir de uma janela com o estore semi-corrido. Tem acontecido.
Um inquérito feito junto de 3849 cidadãos e realizado pela Faculdade de Ciências Médicas da UNL revela que 22,9 por cento dos portugueses manifesta sintomas que os situam na categoria dos mentalmente perturbados. O número aproxima-se só dos 26,3 por cento que ocorrem nos Estados Unidos. A percentagem de casos está, aliás, muito longe da verificada em países maioritariamente católicos do Sul da Europa com os quais Portugal é frequentes vezes comparado em termos culturais – a Espanha tem só 9,2 por cento de pessoas com problemas e a Itália apenas 8,2 – e bem distante dos dois países com prevalências maiores, como a França (18,4 por cento) e a Holanda (14,8). Segundo o Público online, no topo dos problemas estão a ansiedade (16,5 por cento), as situações depressivas (7,9), o controlo dos impulsos (3,5) e perturbações relacionadas com o álcool (1,6). Além disso, os mais afectados são as mulheres, os jovens dos 18 aos 24 anos, as pessoas mais sós (separados, viúvos e divorciados) e aquelas com níveis baixo e médio de literacia. 33,6 por cento não recebe qualquer tratamento, mesmo em situações julgadas particularmente graves.
Não vamos agora assobiar para o lado, considerando que estes académicos são uns exagerados, ou dar de barato que são só as empresas farmacêuticas a tentarem ampliar o mercado. Nem declarar, sem provas por enquanto, que a culpa é «do Sócrates» ou «do Cavaco». Mas temos em mãos um problema em relação ao qual é necessário tomar algumas medidas e fazer alguma pedagogia, já que épocas de crise social e de empobrecimento como aquela que vivemos tenderão a agravar os quadros clínicos. Um problema tão real, tão real, que foi possível chegar-se a este ponto – mais de um quinto dos portugueses, pois, com claros problemas do foro psíquico – sem que aparentemente alguém se tivesse apercebido da situação. Quer isto dizer que existem fortes probabilidades de encontrarmos nos órgãos de decisão pessoas diminuídas pela doença mental, dada a inexistência de exames de robustez psíquica para o exercício dos cargos (e feitos por quem, já agora?). Além de que já descartámos as velhas teorias da antipsiquiatria, que sempre nos permitiriam duvidar da capacidade de quem quer que fosse para fazer diagnósticos absolutos e chegar a números tão peremptórios. Provavelmente vai ficar tudo mais ou menos na mesma, pois parece que andamos assim há bastante tempo e o país ainda não foi abaixo. No fundo, quase toda a gente acha o tema um bocado embaraçoso e prefere passar-lhe ao lado. Mas a partir de agora iremos duvidar sempre da razoabilidade do cidadão do lado. Como ele da nossa. Vai ser esquisito.
Os anticlericais mais impenitentes têm-se divertido bastante com a recente revelação em catadupa de casos de abuso de menores ou de práticas de exploração e comércio sexual levadas a cabo, durante décadas, por um número indeterminado mas seguramente alto de membros do clero católico. Claro que, neste como noutros casos ocorridos com a Igreja romana, a procissão jamais sairá do adro. Ao longo de séculos, a sexualidade ínvia determinada pelos Padres da Igreja, que encaravam o sexo como um mal necessário, apenas admissível por ser indispensável à reprodução da espécie, bem como a prática compulsória do celibato, ambas associadas a posições de poder e de influência sobre pessoas, terão contribuído para atribuir a tais práticas uma natureza inevitavelmente endémica e continuada da qual jamais será possível conhecer a verdadeira dimensão. No entanto, nem todos os casos podem ser avaliados do mesmo modo: uma coisa são os abusos, desejavelmente denunciados e eventualmente punidos, outra são as legítimas escolhas de cada um daqueles homens e daquelas mulheres para viverem a sexualidade que jamais deixaram de possuir. O que não está a ser devidamente realçado é, por isso, a dimensão de hipocrisia que preside à convivência entre este tipo de situações e a atitude formal da suprema hierarquia da Igreja católica: existem com toda a certeza dramas intensos de infelicidade e de solidão, vividos por pessoas obrigadas a habitar uma vida inteira com os seus fantasmas e as suas secretas fantasias, das quais Roma e os seus representantes jamais falarão com clareza e verdadeiro arrependimento.
No inverno de 1971-1972 (ou seria no seguinte?) fui algumas vezes ao Porto em missão de risco. O perigo era real (a prisão, talvez a tortura – não, não era pouco), mas apesar da possibilidade a convicção era mais forte. O objectivo era trabalhar na ligação orgânica com estudantes da mesma área e os encontros obrigavam-me por vezes a passar a noite na cidade. Atravessei algumas delas, enregelado e enroscado num cobertor nauseabundo, deitado sobre um velho sofá que jazia numa das duas únicas divisões da pró-Associação de Estudantes de Economia (ou foi antes no TUP, ó querida memória?). Para mim vinha algo de especial e de fantástico com aquelas noites. Uma certa sensação de façanha e de aventura, admito, já que o edifício fazia paredes-meias com um quartel da temida GNR. Tratava-se pois, praticamente, de dormir com o inimigo, concebendo, ao mesmo tempo, um poder sobre ele que apenas podia advir da dose de «razão histórica» da qual me supunha investido. Mas existia também, naquelas madrugadas, um momento sublime de exaltação para o combate antifascista: um enorme gravador de bobinas no qual encontrei, pela primeira vez, as canções combatentes e sentimentais de Jean Ferrat (1930-2010). Foi com a sua voz preenchendo a escuridão que adormeci algumas vezes, imaginando um país livre, projectando um mundo melhor e sem dúvida feliz. Não seria bem este onde agora habito, mas enfim, vocês sabem, un jour, un jour… «un jour d’épaule nue où les gens s’aimeront / un jour comme un oiseau sur la plus haute branche». Fico a dever alguma coisa, como perceberam, a Jean Tenenbaum Ferrat.
Plastic People of the Universe Oh Yeah – How Nicely You Sleep [Egon Bondy’s Happy Hearts Club Banned, 1978] PLAY
A música pop era um perigo para o Estado. E os Plastic People of the Universe (1968-), a banda mais conhecida de todas, eram perigo elevado ao quadrado. Com os seus cabelos compridos, blusões de couro, calças de ganga, t-shirts tingidas à mão, não passavam, para as rígidas autoridades socialistas, de «gente preguiçosa que foge ao trabalho». Estas consideravam que a sua música não tinha a ver com arte, «ameaçando seriamente os valores morais da sociedade», e que as letras das suas canções eram «de uma vulgaridade impressionante e com um impacte anti-socialista e anti-social, glorificador do niilismo». Muitos checos consideravam, no entanto, que «se Husák e a o regime estavam contra os Plastic People, então era porque a banda fazia aquilo que estava certo».
Apesar de, junto com outros grupos checos, terem sido proibidos de actuar em lugares públicos, conseguiam sempre arranjar forma de tocar em casamentos e festas de aniversário, em «reuniões privadas», em jardins ou pracetas de subúrbio. Mas a polícia secreta, a Stání Bezpecnost, seguia-lhes os passos, ao mesmo tempo que a sua popularidade irritava cada vez mais as vozes neo-estalinistas do regime saído da derrota da Primavera de Praga. Numa noite de Março de 1976, perfazem-se agora 34 anos, os Plastic foram finalmente detidos, acusados de «alcoolismo, toxicodependência e comportamento anti-social», e condenados a entre um e três anos e meio de prisão. Cerca de dois meses depois do julgamento, Václav Hável e outros escritores, artistas, académicos e músicos, originalmente 243 pessoas, lançaram uma campanha pela libertação da banda e a chamar a atenção para as violações dos direitos humanos na Checoslováquia e nos restantes países do leste europeu. Foi esta a origem da Carta 77. Tinha começado a contagem decrescente para o fim do regime.
O nome de Michel de Montaigne permanece ligado à arte do ensaio por ter dado a esta forma de escrita as características essenciais que, quatrocentos e tantos anos depois, ela conserva ainda. Se o francês do Périgord tem sobrevivido como escritor «para todas as épocas», tal não se deve necessariamente às suas opiniões, muitas das quais hoje já ninguém levará a sério, mas à forma intemporal como se relaciona com o leitor. Em A Arte do Ensaio Fernando Savater define com clareza o género que Montaigne inventou e «levou ao seu mais alto grau de perfeição»: experimentações literárias, autobiográficas, filosóficas e eruditas que jamais pretendem esgotar ou delimitar um campo de estudos. Visam antes o inverso, que é corromper esse campo e convertê-lo num lugar de passagem, rumo a outros que, de momento, permanecem ainda longínquos. Nesta direcção, o ensaísta é necessariamente um céptico e um «perito em divagações», uma vez que o seu esforço exclui a certeza e a convicção de se encontrar na posse da verdade.
Esta atitude é comum ao conjunto de autores e de textos fundamentais do pensamento do século XX propostos neste texto sobre «a arte de ensaiar» do filósofo e escritor de San Sebastián, servindo ao mesmo tempo como um convite à descoberta ou ao reencontro com obras-chave, todas elas intensamente inquietantes, e sob muitos aspectos arrojadas e incompreendidas no momento em que foram escritas. Sartre, Camus, Bertrand Russell, Foucault, Freud, Adorno, Ortega y Gasset, Lévi-Stauss, Miguel de Unamuno, Marshall McLuhan, Octavio Paz, Elias Canetti, María Zambrano ou Hannah Arendt são alguns dos 25 pensadores seleccionados por Savater, todos eles capazes de dar esse passo na direcção do que não sabiam, nem podiam ainda saber, mas em relação ao qual possuíam uma forte capacidade de questionamento e um desejo de superação.
Aliás, o acento colocado em cada um dos capítulos, dedicados sempre a um autor e a uma obra, não é o da procura da sistematização, ou da «síntese» catequética da mesma, mas antes o esforço para mostrar como a sua escrita resultou sempre de uma pergunta incómoda para a qual não existia resposta e, por isso mesmo, derivou de um acto solitário. Ao mesmo tempo, a sua escrita emergiu como prova de um pioneirismo criador, aberto à novidade. Na realidade, e de acordo com Lukács, o autor da Teoria do Romance aqui evocado, se o ensaísta carece dos instrumentos científicos capazes de o ajudarem a resolver os problemas da sua época, «tem a audácia suficiente para examiná-los». Foi aquilo que fizeram, para pegar apenas em dois dos casos escolhidos, autores como Albert Camus em O Homem Revoltado, uma «meditação histórica de um inconformista perplexo», ou Michel Foucault em As Palavras e as Coisas, um texto inovador não tanto pelo que trouxe de objectivo mas «por ter assinalado que havia novas áreas a descobrir». A Arte do Ensaio pode servir, em simultâneo, como elogio da ousadia e um notável mapa do tesouro.
Fernando Savater, A Arte do Ensaio – Ensaios Sobre a Cultura Universal. Trad. de Francisco Telhado e Pedro Vidal. Temas e Debates / Círculo de Leitores, 152 págs.
Partindo da correspondência, em larga medida inédita, trocada entre Hannah Arendt e Martin Heidegger, Elzbieta Ettiger, professora de Humanidades no MIT, narra com detalhes o atormentado caso de amor e de proximidade intelectual que, em fases distintas, uniu dois dos mais destacados pensadores alemães do século passado. O que lhe interessa não são, naturalmente, os detalhes, em larga medida ausentes deste livro, da relação conturbada mas persistente entre a intelectual judia que denunciou o totalitarismo e o autor de Ser e Tempo que foi um apoiante confesso e contumaz do Partido Nacional-Socialista. Aquilo a que aqui vale a pena atender é à revelação das alegrias e das mazelas de uma ligação conturbada, desafiando a imagem padronizada de um Martin observado como pensador e académico austero e subtil, e de uma Hannah vista como intelectual independente e absolutamente segura de si. Ettinger sugere uma releitura e uma relativização de marcas que num certo momento julgámos poder estabelecer sobre a obra e o carácter de cada um deles.
Hannah Arendt e Martin Heidegger. Trad. de Isabel Castro Silva. Relógio d’Água, 152 págs.
Sobre o trabalho do jornalista polaco Ryszard Kapuscinski escrevi em tempos isto. Foram-se depois adensado rumores sobre a sua actividade como agente dos serviços secretos comunistas e, nessa qualidade, como denunciante de colegas de trabalho e pessoa com privilégios que os outros não tinham. Entretanto acaba de ser editada a biografia escrita por Artur Domoslawski, seu compatriota, também ele jornalista, que o conheceu de muito perto e é agora acusado de ser excessivamente benévolo para com o amigo Kapuscinski. Trata-se de um daqueles casos, admito, em que não sou capaz de fazer um juízo moral assim da noite para o dia. É como nos amores indecisos: preciso de um tempo para pensar.
Como muitos outros intelectuais ocidentais, Slavoj Zizek não gosta que se fale de islamo-fascismo. Para explicar a recusa invoca no entanto, em entrevista ao L’Humanité (republicada na edição portuguesa do Courrier International), um argumento algo falacioso. Declara uma verdade («ainda há trinta anos havia uma esquerda laica muito forte nos países árabes») e associa-lhe uma evidência («o Ocidente tomou uma decisão totalmente catastrófica ao apontar a esquerda laica, pelas suas ligações à União Soviética, como inimigo principal, e ao apoiar, por razões estratégicas, os fundamentalistas»). Mas infere daqui que, pela mesma razão, este Ocidente perdeu a legitimidade para apontar o dedo ao modelo agressivo e totalitário com um peso crescente no universo do Islão contemporâneo.
O argumento terá sido simplificado por Zizek, dado aparecer numa entrevista curta onde é impossível detalhar razões. Mas infelizmente ele tem sido adiantado – justamente na sua versão simplista – por quem se preocupa em desculpabilizar os excessos das vertentes agressivas e intolerantes do Islão como justificáveis em função dos erros dos governos e da comunicação social do mesmo Ocidente. No limite, alguns sectores, de facto pouco ou nada preocupados com um convívio democrático e transcultural paritário, aceitam até esses excessos como parte de uma vertente da luta anticapitalista, anti-imperialista e anti-sionista que, na sua leitura míope e elementar, o radicalismo islâmico protagonizará de maneira legítima. Esquecendo, desta forma, a longa tradição histórica de um Islão tolerante para com o laicismo, incluindo o de pendor socialista, que tem sido particularmente reprimido por esse lado exaltado, fanático e totalitário de certas organizações e de determinados regimes auto-intitulados «islâmicos». Ou, se se quiser, «islâmicos de certa maneira».
Sem papas na língua comme d’habitude, Christopher Hitchens – que ainda no passado 18 de Fevereiro esteve por cá, na Casa Fernando Pessoa, a defender «a urgência do ateísmo» – estabelece, em artigo publicado em 2007 na revista Slate, um conjunto de «similitudes óbvias» entre o fascismo histórico e o islamo-fascismo, conceito que aceita sem grandes objecções:
«Both movements are based on a cult of murderous violence that exalts death and destruction and despises the life of the mind. (‘Death to the intellect! Long live death!’ as Gen. Francisco Franco’s sidekick Gonzalo Queipo de Llano so pithily phrased it.) Both are hostile to modernity (except when it comes to the pursuit of weapons), and both are bitterly nostalgic for past empires and lost glories. Both are obsessed with real and imagined ‘humiliations’ and thirsty for revenge. Both are chronically infected with the toxin of anti-Jewish paranoia (interestingly, also, with its milder cousin, anti-Freemason paranoia). Both are inclined to leader worship and to the exclusive stress on the power of one great book. Both have a strong commitment to sexual repression – especially to the repression of any sexual ‘deviance’ – and to its counterparts the subordination of the female and contempt for the feminine. Both despise art and literature as symptoms of degeneracy and decadence; both burn books and destroy museums and treasures.»
É verdade que o uso da expressão islamo-fascismo pode ser histórica e conceptualmente discutível (como se sabe, o próprio uso alargado do conceito de fascismo é-o também). E é com toda a certeza injusto para com toda a tradição do Islão e para com muitos muçulmanos que são até vítimas dos seus ditames e das suas práticas. Mas corresponde a uma experiência com a qual todo o mundo – a começar pelo islâmico – tem de se confrontar. Aceitar a realidade política e cultural do islamo-fascismo constitui uma precaução que em nada deve afectar o relacionamento pacífico com o mundo islâmico. Uma conexão que, todavia, não pode ser mantida a qualquer preço.
Adenda – Um erro de Hitchens no qual não reparei ao fazer a transcrição em copy-paste: a frase “Viva la Muerte!” foi bradada, em 12 de Outubro de 1936, durante um confronto público com Miguel de Unamuno, por José Millán-Astray – aliás, hoje recordado quase exclusivamente por estas palavras assassinas –, e não por Queipo de Llano.
Um artigo «de opinião» saído hoje no Público, assinado pelo tenente-coronel piloto aviador Brandão Ferreira («A democracia e o casamento entre géneros idênticos»), constitui um dos exercícios mais retrógrados, intolerantes, violentos e sobretudo demagógicos que tenho lido nos últimos tempos. Não se trata de um texto que exprima uma posição da qual discordemos mas que possamos respeitar: este arrazoado execrável e rancoroso ultrapassa em muito o nível do ensaio argumentativo para se transformar num exercício proto-fascista de agressão à própria democracia. Pode ser lido na íntegra num post publicado no Jugular.
Saiu este mês e ainda pode ser encontrado em alguns quiosques um número especial da revista Philosophie Magazine que tem o Corão como tema unificador de um leque alargado de documentos, citações, entrevistas e artigos. O ponto de partida é o único que possibilita uma leitura aberta e produtiva: considera-se que não existe uma leitura exclusiva do livro sagrado, reconhece-se a ambiguidade de muitos dos seus passos e aceita-se a possibilidade de uma crítica laica do seu conteúdo. Justamente os três aspectos que o islamismo radical rejeita em absoluto. Discutem-se assim, de uma forma aberta e com depoimentos contraditórios, temas como a liberdade, a sharia, o lugar das mulheres, a jihad, o papel da razão, e apresentam-se testemunhos que nos permitem humanizar e diversificar uma vivência religiosa por muitos associada a barbudos hirsutos com os olhos injectados de ódio anti-ocidental e o polegar no detonador. Um bom contributo para sobrepor riqueza analítica e compreensão aos juízos primários que, pró ou contra, têm naturalizado, e por vezes legitimado, a dimensão violenta das controvérsias políticas e religiosas envolvendo o Islão.
Não, não vivemos na fronteira ténue de um regime despótico, açaimados por uma censura que actua na escuridão para esconder «a verdade» das pessoas comuns, cegando-as para as malfeitorias do nefando ditador e dos seus cúmplices de fato completo. Por muita pressão, manipulação, troca de favores da qual seja possível captar alguns ecos, ocasionalmente algumas provas (sim, parece bem possível), por muita arrogância, autismo, sectarismo, verborreia que nos cheguem diariamente (mais do que evidentes), nada indicia que se avizinhe uma democracia musculada de tonton-macoutes e «jotinhas», prontos a tomar posições de combate num cenário de pré-catástrofe. Gritá-lo às três pancadas – nos jornais, nos blogues, nas pracetas – é infantil, é ridículo, é inútil. E é também perigoso, pois desvia a atenção dos cidadãos para os problemas reais que têm a ver, de facto, com a redução da liberdade, a coacção, o medo.
Com estes sim, convivemos cada vez mais, todos os dias, sem feriados ou fins-de-semana, até à exaustão. Eles têm vindo a ser impostos, na administração pública como em muitas empresas, por decretos e regulamentos invariavelmente desumanizados, que em nome da sacrossanta «competitividade» minam a confiança entre as pessoas, reinstalam o autoritarismo, acentuam as desigualdades, sobrecarregam os horários, precarizam o trabalho e incitam ao individualismo cego do salve-se quem puder. Envenenam assim, lentamente mas sem descanso, o espaço para falar livremente e para criticar, enquanto premeiam o seguidismo e a cobardia. Não estou, como bem sabe quem tem o seu emprego ou o perdeu há pouco tempo, a falar de fantasias. Nem a arquitectar um cenário para revoluções salvíficas e perfeitas. Refiro-me à vida, em alguns casos à sobrevivência, de gente que vive ameaçada. Isto sim, justifica a vigilância, a denúncia, a resistência.
É nestas alturas que pessoas como nós, que cruzamos as cidades de sapatos confortáveis, circulamos pelas auto-estradas a ouvir mp3 no bem-bom do ar condicionado e nos indignamos com o cheiro a pipocas no cinema, que blogamos e tuitamos e feicebucamos, digitamos teclados virtuais ou bluetooth, sabemos distinguir um iPod de um iPad, vamos a concertos e a festivais, viajamos de avião, passamos por hotéis silenciosos e restaurantes onde ninguém levanta a voz, percebemos que continua a existir um país para o qual o jogo da vida se faz do futebol da «liga dos últimos», de iscas de cebolada, de circos manhosos, bailes dos bombeiros e umas voltas de carrossel ou carrinhos de choque. Eu nasci e vivi uma parte da minha vida a vinte quilómetros de Pedrógão Pequeno e não sabia que era essa a distância que me separava da «capital do carrossel». A medida exacta da minha ignorância e da minha miopia, que é a de todos nós que vemos aqueles homens e aquelas mulheres um pouco estranhos, todos com mais de quarenta anos, corpos flácidos, camisolas puídas, calçado cheio de lama, a reivindicarem que não lhes retirem o cabo do mundo onde ainda conseguem viver. A exigirem direitos que para eles marcam a distância entre a sobrevivência e uma vida pior ainda do que aquela que levam. A fazerem com que conheçamos o tamanho da nossa indiferença.
Há quase trinta anos que por motivos familiares visito regularmente a Madeira. Apesar de em 1981, quando pela primeira vez desembarquei no Aeroporto de Santa Catarina, ainda se sentir na rua alguma relutância em relação ao «cubano» que chegava do Continente – eu era nitidamente um deles – salvo raríssimas excepções fui sempre bem tratado. E ainda que me desagrade a degradação da natureza e da paisagem urbana suscitadas ao longo destas três décadas pelo crescimento do asfalto e do betão, nunca deixei de me sentir bem na ilha. Gosto da Madeira, gosto da generalidade dos madeirenses, e, não fora detestar andar de avião e sofrer de uma certa «insulofobia», talvez nem me importasse de passar por lá bastante mais tempo.
Nunca fui ao Porto Santo mas conheço bem toda a ilha da Madeira. Sei por isso que, se retirarmos algumas áreas onde reside a população mais pobre e desamparada, por toda a parte se respira um ambiente de prosperidade: vias rápidas e eficazes, cidades organizadas, um serviço de saúde exemplar, excelentes instalações escolares, transportes públicos eficazes, um óptimo parque automóvel, pessoas geralmente bem vestidas, muitas lojas de artigos de luxo, bons hotéis e bons restaurantes. Uma prosperidade bem visível na vida e nas atitudes de muitas famílias. Como não se vê, nesta dimensão, em parte alguma do resto de Portugal. Hoje mesmo no Público Manuel Carvalho apresenta dados irrefutáveis: o rendimento per capita na Madeira é de 128 por cento da média nacional, e enquanto o rendimento nacional ronda os 76 por cento da média europeia, os madeirenses beneficiam de 97 por cento. Como lembra o subdirector do jornal, «no país mais desigual da Europa, só Lisboa está acima». Desta forma percebe-se que a maioria das pessoas continue a eleger e a adular o aparente arquitecto deste pequeno paraíso?
Só que ao mesmo tempo – não escrevo novidade alguma, mas convém relembrar – não existe no arquipélago, para além de um turismo de massas sazonal (o antigo, regular e «de qualidade», tem vindo a regredir), actividade económica que aparentemente pague uma situação que nenhuma outra região do país mantém. Não existe uma única indústria (não conta, naturalmente, a produção semi-artesanal de vimes e de bordados), o campo vive quase em regime de monocultura (a videira ou a bananeira ocupam a paisagem cultivada visível), não existe criação de gado significativa ou actividades derivadas, o comércio tradicional definha a olhos vistos. E, pior, não se pensa, não se fala, numa alternativa a este deserto económico. Há, sim, um consumo de bens elevado, condicionado pelo Governo Regional que é o principal empregador e o grande padrinho, e por uma política de subsídios que torna tudo – educação, saúde, transportes – muito mais barato do que em qualquer outra parte do país. Nestas condições, como não apelar em período de crise, à escala nacional, à contenção de quem se encontra em melhores condições para a aplicar? Justamente porque beneficiou da solidariedade forçada de quem manteve o cinto apertado enquanto a partir do palácio rosa da Quinta Vigia se abriam os cordões «à grande e à madeirense». A ser aplicada, a solidariedade não pode ter sentido único, por muito que o senhor que se sabe vocifere e estrebuche ou se faça passar por engraçadinho. Para o bem de todos, incluindo naturalmente os madeirenses.
Passou quase despercebido um despacho publicado há dias pela agência Lusa. Não noticiava nada em particular, nem anunciava algo de novo, resultando o seu interesse de nele alguém naturalizar como aceitável ou mesmo necessária uma prática preocupante. A partir do anúncio, ainda mal esclarecido, de que a TAP teria sancionado pilotos com um «curso de ética» devido a conversas mantidas no Facebook, entrevistava-se um «especialista da empresa de recrutamento Michael Page» capaz de afirmar com a maior candura que na utilização das redes sociais os trabalhadores «precisam de estar atentos à forma como as utilizam, até para não prejudicarem a sua imagem perante futuros empregadores». Considerava-se mesmo que o trabalhador deve evitar informações «pouco abonatórias» para a empresa onde trabalha como forma de proteger o seu próprio trabalho. No referido despacho, Nuno Troni lembrava ainda, e aparentemente lamentava, que para as empresas seja «muito difícil controlar toda a informação que os colaboradores trocam entre si», quer num contexto de trabalho, quer ao nível social, com amigos ou familiares.
A partir da altura em que a expressão de opiniões e a troca de informações na Internet se universalizou, a partir da altura em que aquilo que cada um escreve passou a ser mais lido e a circular com uma cada vez maior facilidade, quando a velha e já quase esquecida netiqueta cedeu lugar ao abuso do anonimato e à frequente instrumentalização da rede como arma de arremesso, as consequências passaram a ser mais pesadas e, naturalmente, o grau de responsabilidade de quem fala por aquilo que diz tendeu a aumentar. Mas para moderar os efeitos negativos, nas redes de computadores como nos jornais ou na rua, agora como dantes, existem códigos éticos e instrumentos jurídicos, bem como regras próprias de cada um dos meios, que podem humanizar um pouco a lei da selva e alargar a própria noção de responsabilidade. Agora admitir como necessárias e naturais a vigilância e a autovigilância, a coacção da opinião, a anulação da liberdade de crítica, e até, implicitamente, a construção de bases de dados contendo as opiniões dos cidadãos-trabalhadores, tal como o fez o «especialista» da Michael Page, traduz-se num ataque público à liberdade de opinião e numa defesa do silenciamento da divergência. É inquietante que a Lusa, «Agência de Notícias de Portugal», tenha olhado com indiferença para estas declarações limitando-se a passar a mensagem.
Franco ponderou e preparou uma participação espanhola na Segunda Guerra Mundial ao lado da Alemanha e da Itália. O historiador Manuel Ros Agudo interessou-se há alguns anos pelo tema, tendo chegado a algumas conclusões originais, com impacto no conhecimento renovado da nossa história recente. Desde logo porque as provas que reuniu deitam completamente por terra o mito franquista de uma neutralidade não-beligerante que supostamente teria salvo o país de se ver envolvido numa nova guerra.
A verdade, como documenta A Grande Tentação de maneira exaustiva e com recurso a informação inédita, é no entanto completamente diversa, pois Franco procurou entrar no grupo de potências agressoras do Eixo determinando, com esse objectivo em mente, a minuciosa planificação de quatro operações militares que levariam Madrid a ter um papel activo no conflito. Estas visariam um ataque, praticamente simultâneo e de surpresa, a lançar sobre Gibraltar, o Marrocos Francês, o Sudeste da França e Portugal. Os objectivos políticos da aventura parecem claros ao historiador: ela destinava-se a transformar a Espanha no terceiro parceiro dos alemães e dos italianos, conferindo-lhe «um peso e uma capacidade de decisão sem precedentes na Nova Ordem euro-africana que se preparava», para além de uma dimensão territorial consideravelmente alargada.
Esta tradução comporta um subtítulo – «Os Planos de Franco para Invadir Portugal» – que não consta do original castelhano mas realça o vector desse projecto belicista que nos dizia mais directamente respeito e que também mais nos pode perturbar, habituados de longa data a dar um grande crédito ao «Pacto de Amizade e Não-Agressão» luso-espanhol assinado em Março de 1939 e reforçado no ano seguinte com um protocolo adicional. Mas a verdade é que, por essa mesma altura, corria já a preparação da operação militar-relâmpago que deveria ter lugar nos primeiros meses de 1941 e envolveria só na fase inicial cerca de 250.000 homens.
A sua justificação formal integrava a invasão de Portugal num conjunto de movimentações de natureza táctica destinadas a isolar e a enfraquecer o poderio militar britânico, mas assentava num profundo menosprezo pela capacidade militar dos portugueses, passando uma esponja sobre o apoio de Salazar aos insurrectos franquistas durante a Guerra Civil e visando uma mais do que provável reunificação ibérica. Em conversa com Ribbentrop, o ministro alemão das Relações Exteriores, o ministro franquista Serrano Suñer terá mesmo afirmado que «geograficamente falando, Portugal na realidade não tinha o direito de existir.»
Conta-se afinal uma história do que não aconteceu. Sem as contrapartidas diplomáticas e territoriais que esperava dos alemães, o Caudilho viria a desistir dos seus desígnios hostis, convertendo essa «grande tentação» expansionista, que durante alguns anos o animou, numa «grande frustração», praticamente limitada ao controlo político de Tânger. O conhecimento destes planos permite-nos entretanto aferir melhor da verdadeira natureza do regime franquista e das intenções do seu mentor. Num exercício de história virtual, podemos também conjecturar sobre o que seríamos hoje se as coisas tivessem seguido o caminho previsto.
Manuel Ros Agudo, A Grande Tentação. Os planos de Franco para invadir Portugal. Tradução de Jorge Fallorca. Casa das Letras, 372 págs. [Publicado na revista LER de Dezembro de 2009]