Ficção e realidade da catástrofe

A ficção pós-apocalíptica é produzida sobre paisagens de mundos que num dado momento colapsaram. Propõe sempre uma dupla tensão: entre a consciência do fim de um tempo, associado a uma ideia de felicidade perdida, e a necessidade humana de sobreviver às consequências da devastação, promovendo um reinício. Este configura uma nova realidade, não uma reprodução do passado. Neste processo desenvolve-se uma consciência dos erros ocorridos, associada a uma mudança radical dos comportamentos individuais e coletivos. Era esse já o sentido tomado pela narrativa bíblica, incluída no Génesis, sobre Noé e a sua arca, salvos da destruição diluviana de uma civilização sacrílega para fazerem emergir uma sociedade nova e que se pretendia retificada. Em Waterworld, o filme de Kevin Reynolds, de 1995, deparamos com o mesmo cenário de um planeta submergido e de uma espécie humana sobrevivente, com a agravante de a vida ser aqui a de uma guerra feroz de todos contra todos pelo domínio dos raros territórios firmes.
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