Obama «não tem a letra M nas suas iniciais». Não tem mas deveria ter. Sim porque «M poderia ser» o de Martin Luther King, o de Mahatma Ghandi ou o de Mandela. E também porque o M de Obama é, «à escala nacional», o M do Movimento Esperança Portugal, e, claro o de Marques, o seu Meritório presidente. Porque ambos concitam «dois grandes desígnios», que são «Esperança e Mudança». E é afinal no MEP – não esqueçamos, o prometedor partido de Laurinda «M» Alves («Quisque cursus ligula ut nunc»?) – que se reúnem, em Portugal, «aqueles que em conjunto com muitos outros deram a vitória a Obama». Tudo isto (e muito mais) é-nos revelado, «como o devido respeito» (como diria Manuel Monteiro, outro Maluco da política que também abusa do M), aqui na página oficial do MEP. [sigam ambos os links que não se arrependerão]
Comecei por sofrer de astigmatismo, o que me fez usar óculos desde os 10 anos. Aos 14 declarei profundamente inestético, e mau para aliciar mancebas, aquele apêndice de massa castanho-escura, tendo andado uma década ou mais sem tal objecto encavalitado no nariz. Depois dos quarenta apareceu a miopia. Assustei-me quando sem a graduação apropriada deixei de poder ler as tabuletas da autoestrada – por causa disso perdi-me certa vez em Moscavide quando devia ir a caminho de Huelva -, mas recompus-me com uma colecção de próteses para ver ao perto, ao médio e ao longe, desktops e palmtops, livros e filmes, jogos de campo, de sala ou de mesa. Jamais perdi, porém, a mania de ler as letras miudinhas das bulas dos medicamentos, das obras em papel de arroz, das notas de rodapé. Quem olha os meus ecrãs avisa-me sempre que estou a dar cabo da vista de tão pequenos se mostram neles os caracteres. Talvez por isso, irritam-me um pouco aqueles documentos – recebo-os quase todos os dias – que ampliam o texto a 140, a 165, a 200 por cento. É como se alguém me gritasse aos ouvidos. A quem possa ter esse desagradável hábito e me envie habitualmente dóques, erre-tê-éfes ou xiz-éle-ésses com o zoom elevado a tamanho para ceguetas, peço pois o grande favor de arrepiar caminho. Agradecido.
Um certo Sr. Taborda, dirigente da Federação Nacional dos Sindicatos da Função Pública, acaba de chamar a atenção para a falta de segurança de quem ganha o seu pão a trabalhar com menores delinquentes. Acha mesmo que chegou a hora de discutir a hipótese de os trabalhadores dos centros educativos terem acesso a tasers – sim, aquelas armas de electrochoque de alta voltagem que paralisam o alvo humano ao actuarem sobre o sistema nervoso central. «Se calhar», disse aos jornalistas, «nas unidades residenciais fechadas há necessidade de as equipas terem meios de contenção para as situações mais graves». Se calhar, podemos conjecturar, Taborda ainda estará a tempo de fazer um estágio em Guantánamo ou Abu Ghraib. Servindo de alvo, naturalmente.
«Durante décadas, quando ser consumidor era praticamente o mesmo que ser comunista, guiávamos-nos todos por uma tabela que por cá nunca falhava: estrangeiro=melhor=mais caro. Quem fosse pobre ou tivesse um carinho fascista pela mediocridade, comprava nacional. Ou, pela calada, pedia a um fascista amigo para trazer do estrangeiro, onde era sempre mais barato.»
Entre escrever isto e estar sosssegado, dos já não muito verdes anos «colhendo doce fruito», eu optaria, sinceramente, pela segunda hipótese. De livre e espontânea vontade, of course. A prosa bizarra é de Miguel Esteves Cardoso – de quem apreciei, e ainda aprecio, muita da escrita – e não é um bom augúrio para aquilo que o Público nos promete para 363 dias de cada ano. Oxalá me engane, pois assim por assim prefiro ler blogues ao pequeno almoço.
O rumor circulava há já algum tempo, mas agora, escreve o ABC e faz eco o Público, parece que se confirma. Boris Pasternak apenas terá ganho o Prémio Nobel da Literatura de 1958 porque, em cima da data-limite para a divulgação do vencedor, a CIA fez um esforço para que um original do Doutor Jivago impresso em russo – o livro tinha sido proibido na União Soviética e no ocidente apenas saíra em italiano numa edição de Gingiacomo Feltrinelli – pudesse chegar, por vias tortuosas, às mãos dos membros da Academia Sueca. O derrotado na corrida foi nada mais nada menos que Alberto Moravia. De Pasternak conheço apenas o livro citado, que li com algum esforço depois de tanto ouvir falar do filme de David Lean, e também alguns poemas dispersos, fosforecentes e rapidamente esquecidos, mas parece ser mais ou menos consensual que não existe paridade, em termos de valor absoluto ou comparado, entre a obra de um e de outro dos autores. A Guerra Fria estava no seu auge e tudo servia, de ambos os lados, para tirar o tapete ao adversário. É preciso sublinhar, para se medir a dimensão da cartada, que Pasternak, falecido dois anos depois da atribuição do prémio que não pôde receber, jamais terá tido conhecimento do que realmente se passou. Uma nova edição do best-seller do autor laureado, «pela primeira vez traduzido do russo» cinquenta anos depois do seu lançamento, acaba de sair em Portugal pelas mãos da Sextante.
Fez ontem um ano. Um ano já. Tiraram-me um prazer. Sinto-lhe a falta. Todos os dias. Sabia-me bem. Naquele momento. Ali mesmo. Sem culpa. Sem desculpa.
O Rui Reininho é, admito, um rapaz da minha geração. Ou é um rapaz, ponto – . –, pois sou ligeiramente mais velho e, posso apostar duas minis, enquanto ele aprendia a soletrar já eu multiplicava as dezenas. Talvez por isso me amolece ouvi-lo agora, do lado de cá do milénio, com rugas, cabelos brancos e a voz completamente fanada. A arfar quase tanto quanto eu quando subo três lanços de escadas. Transmutando uma cantiga parvinha e preguiçosa (as Doce, lembram-se?), numa canção pop triste e enorme. E 100% nocturna. É ou não é?
Música: Rui Reininho – Bem Bom [Companhia das Índias]
[audio:http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2008/12/04-rui_reininho-bem_bom.mp3]
Jamais me teria ocorrido, até à comunicação presidencial desta noite sobre o Estatuto Político-Administrativo dos Açores e o lodaçal partidário que envolveu a sua aprovação, reconhecer publicamente que fui cavaquista durante 5 minutos. É a verdade, admito. Gestos públicos de honradez são, no meio, raros e por isso vistosos. Mas os 5 minutos em causa passaram muito depressa. E a peça encerrou com uma saída silenciosa do protagonista.
Independentemente da cantiga de Paulo de Carvalho e das delicadas questões de género que a frase evoca, durante algum tempo achei mesmo que «natal é quando um homem quiser». Em criança porque todos os dias eram um dia bom para receber uma prenda e olhar o céu, fazendo muita força para que acontecesse qualquer coisa de extraordinário. Anos depois, decepcionado já por nada acontecer e cometa algum cruzar o firmamento a anunciar o nascimento de um bebé chorão, a frase serviu de álibi para cumprir rapidamente os deveres familiares e partir a passar a noite com gente que queria transformar a festa cristã numa big party da fraternidade universal, com os trabalhadores do mundo inteiro unidos em torno de um imenso peru.
A partir de dada altura a data transformou-se, porém, num fardo, num tempo de deveres, e, sobretudo, numa fase do ano, acompanhada de chocalhos e campainhas, na qual se tornou socialmente difícil, sob pena de ser notado como excêntrico, exibir no rosto um sinal de contrariedade. O Natal, agora maiúsculo, deveria ser tempo de alegria obrigatória, no qual todos deveríamos esquecer a luta entre as forças do bem e as forças do mal, e embarcar eufóricos, cantando um Jingle Bells em todas as línguas, no trenó do senhor das barbas.
Compreendi finalmente que o Natal é quando os outros querem que seja, e não quando cada um de nós o deseja. E foi então que me começaram a pesar os cartões institucionais, empresarias ou pessoais – hoje quase sempre mensagens de e-mail ou ésse-éme-ésses remetidos a um undisclosed recipient – desejando uma «Feliz Natividade», uma «Óptima consoada», um «Santo», «Próspero», «Bom Natal». Claro que comemoro a data, troco prendas, desejo aos outros (e espero para mim, e agradeço aos amigos que me recordam nesta altura) festas muito felizes. Mas não é por ser o 25 de Dezembro. É porque calha todos termos esta noite um pouco mais livre que as outras.
Toda a gente lembra na altura o impacto da silly season, mas são menos os que dão o devido valor à sua sequela natalícia. Nesta época do ano multiplicam-se de novo as trivialidades, os desejos de «muita paz no mundo», as receitas de cozinha que zombam do controlo do colesterol e as reportagens sobre personalidades que supostamente devemos admirar por dedicarem parte da sua vida a tarefas caritativas e a eventos de sociedade.
Um bom exemplo encontra-se no número de Dezembro da revista Homem Magazine, em larga medida dedicado à figura mortalmente enfadonha e desengraçada de Carlos de Inglaterra. Leio a secção de «perguntas indiscretas» e sinto-me de novo em Agosto:
Pergunta: Conhecido ambientalista, por que razão o Príncipe de Gales conduz um Bentley e é proprietário de um Aston Martin?
Resposta: Não é escolha do Príncipe deslocar-se num Bentley. O automóvel é necessário para alguns compromissos por razões de segurança (…). Normalmente o Príncipe e a Duquesa da Cornualha deslocam-se num carro oficial, um Jaguar XJ Diesel. Também se desloca em carros diesel quando está no campo.
Pergunta: É verdade que o Príncipe de Gales tem sete ovos cozidos à mesa do pequeno-almoço, embora coma apenas um?
Música: Max Richter – Maria, The Poet (1913) [Memoryhouse]
[audio:http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2008/12/richter-max-maria-the-poet-1913.mp3]
Uma das mais enfadonhas canções de Natal – que escuto sempre com uma certa sensação de entorpecimento físico e mental – é também uma daquelas que mais continua a ouvir-se como fundo sonoro dos corredores dos pequenos, médios e grandes centros comerciais para o mês de Dezembro. Tanto tempo depois de surgir, em 1942, no musical Holiday Inn (um filme só com brancos que a televisão portuguesa de canal único passou dezenas de vezes), White Christmas, de Irving Berlin, permanece, na voz branda e xaroposa de Bing Crosby – ou em outras mil versões –, como «sinónimo de Natal» e um dos temas fora do tempo que, a par da Silent Night ou de Let It Snow, somos forçados a ouvir até à náusea nas voltas consumistas que a quadra nos obriga a dar. Nada tenho contra o Natal e o seu «espírito», mas, honestamente, preferia vivê-los ao som de Paranoid.
A mais extrema miscigenação cultural já chegou aos nossos call-centers. Hoje atendeu-me uma menina da «assistência ao cliente» da Zon que combinava claramente, e com toda a tranquilidade, a fala da zona sul da cidade de Dnipropetrovsk com o mais lídimo sotaque tripeiro da freguesia de Santo Ildefonso. Para além de me ter falado umas vinte vezes da necessidade de «restauracionar» o software.
Hoje não fui «para Tábua», mas parei à beira da estrada para almoçar num daqueles restaurantes onde é sempre possível encontrar um certo e determinado padrão de português: aquele para quem os prazeres da vida não mudaram muito desde os tempos do Doutor Oliveira do Vimieiro. O bacalhau com todos continua a ser o bacalhau com todos, a Água das Pedras a Água das Pedras, o Benfica o Benfica, e o leitão da Bairrada o leitão da Bairrada. Parei pois a pileca num daqueles comedouros nos quais, logo à entrada, percebemos não estar na Finlândia ou em Singapura: homens morenos, de bigode farto e fato domingueiro, em idade de pré-reforma, as esposas com aspecto de esposas a quem o caro-metade apresenta sempre como «a minha senhora» (para não a confundirem com «a outra»), nem um único jovem à vista e meia dúzia de crianças com ar de quem espera desesperadamente por crescer para se livrarem daquela chatice domingueira.
Claro que eu ia também à procura do meu pleonástico lacãozinho, mais a sua pele crocante, mas tive um mau pressentimento quando vi à entrada um grande pano anunciar o «Convívio de Natal dos Amigos dos Mercedes». E mal entrei no estacionamento reparei no contraste entre a minha viatura utilitária amolgada do lado direito e a enorme quantidade de automóveis orgulhosamente reluzentes – prateados, brancos, pretos, grenás – da mesma marca da qual a Janis Joplin pedia ao Senhor um só para si («Oh Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz? / My friends all drive Porsches, I must make amends»). Mas sou um bocado distraído e não liguei. Lá dentro, contudo, percebi logo que a fauna era outra que não a costumeira: homens morenos, de bigode farto e fato domingueiro, em idade de pré-reforma, mas todos com os sapatos convenientemente limpos e reluzentes, as esposas com aspecto de esposas a quem o caro-metade apresenta sempre como «a minha senhora» (para não a confundirem com «a outra») ostentando vistosos colares de pérolas, nem um único jovem à vista e meia dúzia de crianças com ar de quem espera desesperadamente por crescer para se livrarem daquela chatice domingueira. O ruído era enorme, o cheiro a perfume era intenso, a única mesa livre ficava junto aos lavabos, e não tive outro remédio senão dar meia volta e partir à procura de outro poiso. Trauteando mentalmente: «Worked hard all my lifetime, no help from my friends, / So Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz?». Não há nada como um domingo de chuva na estrada. E não há país como o meu.
Pela forma como procuraram um mundo diferente, assente sobre os escombros daquele que conheciam, talvez os adeptos da Quinta Monarquia tenham sido antepassados remotos dos jacobinos e dos bolcheviques. Em Inglaterra, durante as grandes agitações dos meados do século XVII, irromperam como o primeiro movimento milenarista organizado e com um programa político, inaugurando a tradição revolucionária moderna dos apóstolos armados e inflexíveis, resolvidos a tudo para consumarem um destino do qual acreditavam ser os únicos intérpretes. Igualitaristas, foram buscar ao profeta Daniel e ao Livro da Revelação – como mais tarde, embora de um modo mais subtil, entre nós o fará o Padre António Vieira –, a previsão de uma inversão abrupta, apocalíptica, da ordem existente, substituída por uma outra, de origem divina e verdadeiramente preocupada com a equidade humana. Capaz, como tantas vezes se acreditou em outros momentos de emergência de crenças quiliásticas, de materializar «um reino de mil anos». A nova ordem instituída passaria então pela aplicação de reivindicações básicas, destinadas, num mundo feroz e ainda sem a intervenção mediadora do Estado-Providência, a promover a «justiça»: a protecção pública dos pobres, das viúvas e dos órfãos, a redução dos impostos e o desaparecimento das taxas de circulação, a libertação daqueles que haviam sido presos por dívidas, uma reforma do governo que promovesse a igualdade na riqueza, a única que então era possível conceber. A esta seria possível chegar recorrendo à acção purificadora dos deserdados, consumada através de uma violência sem quartel. Numa vertigem de sangue e destruição praticada sobre todos os que sustentavam a desigualdade ou que perante ela se resignavam. O movimento foi derrotado, mas o essencial da ideia regeneradora e radical que alimentou não se extinguiu inteiramente. Como se pode verificar pelas notícias que nos chegam.
Os obituários nem sempre lembram apenas pessoas que se foram embora sem avisar. Evocam também aquelas que foram partindo sem que o percebêssemos, vergadas e silenciadas, sempre demasiado cedo, ao peso dos anos, da saúde e do esquecimento. Até chegarem a uma ausência em vida que antecipou a anunciada morte. Então revemo-nos revendo-as, temendo e tremendo, e calando-o até para nós próprios, pelo nosso futuro.
Aquilo que pode surpreender num artigo publicado pelo American Journal of Human Genetics e referido hoje no suplemento P2 do Público não é o que anuncia, mas sim a amplitude dos números ali adiantados. Um estudo recentemente publicado por aquela revista científica revela que 30,4% dos homens portugueses traz inscrita na sua matriz genética uma origem sefardita (19,8%) ou magrebina (10,6%). A sul do Tejo, então, a percentagem sobe particularmente (36,3% de judeus e 16,1% de mouros), chegando a níveis que em toda a Península Ibérica apenas podem ser comparados, superando-os até, aos da Andaluzia. O que não deixa de ser uma ironia da história – já António José Saraiva o sublinhou quando descreveu a Inquisição como uma «fábrica de cristãos-novos» – é que a maior parte da miscigenação se produziu precisamente por intervenção do sempre atento «Tribunal do Santo Ofício». Quando, para escaparem à morte, à deportação ou ao confisco dos bens, numerosos judeus, e também muitos muçulmanos, foram constrangidos a converterem-se ou o fizeram por vontade própria. Somos, pois, ainda mais mestiços do que pensávamos. Sabe bem.
Adenda – Sobre algumas confusões que circulam por aí a propósito do artigo invocado: 1) estamos a falar de herança genética e não de legado cultural; 2) o estudo foi feito apenas em homens, e não em mulheres, por razões que não cabe aqui explicar mas são explicadas no estudo; 3) este trabalho não refere a herança «negro-africana», a qual, entre outros particularismos, e salvo situações episódicas, se manteve quase residual até à década de 1980 do século passado.
Confiando naquilo que, em The Blithdale Romance, Nathaniel Hawthorne conta de Charles Fourier, este acreditava que o inevitável progresso da humanidade rumo à perfeição faria com que um dia o mar passasse a saber a limão. O fascínio da imaginação utópica assenta em operações e em convicções desta natureza, que auguram um futuro de absolutos, programados e construídos à imagem dos desejos e da determinação de quem os projecta. O problema começa quando os fabricantes de utopias começam a pretender fixar as percentagens do açúcar, do ácido cítrico e do sódio, dando todo o poder ao laboratório que passará a gerir o fabrico, a manutenção e a partilha da água marítima. E, claro, condenando ao degredo o sabor a laranja.