São muitas as fotografias de Vladimir Maiakovski nas quais este segura um cigarro aceso entre os dedos ou suspenso dos lábios. Sabemos como ao longo daquele século que deixámos para trás – existem livros inteiros sobre isso – o cigarro, para além do prazer sem constrangimentos que podia oferecer ou do vício pesado que teimava em perseguir, funcionava como um emblema de estilo, associado frequentemente a figurações de mistério, poder, volúpia ou inteligência. Aquilo que apenas hoje soube é que Maiakovski, proibido de fumar desde a juventude devido a doença pulmonar, insistia em exibir um cigarro aceso sempre que era fotografado. O que confirma o velho e sábio princípio dândi de acordo com o qual o estilo pode ser, é, um valioso arrimo da própria vida.
Enquanto instalo a nova versão do Nero, aquele software americano indispensável para manipular, guardar e distribuir som e imagem a partir do computador, deparo com uma inovação surpreendente. Durante a instalação vão-se sucedendo no ecrã informações e dicas sobre a melhor forma de utilizar o programa, o que não é novidade alguma. Mas agora todas elas surgem claramente diferenciadas, de acordo com o papel que cada um dos membros da família supostamente irá desempenhar na sua manipulação. A voz é sempre a de Kate, mulher, mãe e dona de casa, que tranquiliza o proprietário do computador e se interessa particularmente por filmes para ver em família. Jack, o pai, é hiper-responsável e apenas lhe importam as imagens que irá utilizar no trabalho, nada de tempo perdido (depois das duas da manhã já será outra coisa, presumo). O filho de ambos, Ethan, toca numa banda e, gandamaluco, só pensa em manipular ficheiros de mp3. Já o avô George está claramente gagá e apenas se servirá do programa para digitalizar e organizar fotografias dos bons velhos tempos. Papéis bem separados e tudo nos eixos, sem confusões. Uma apresentação que funciona como um sintoma de retrocesso social ou serei eu que estou a ver indícios onde eles não existem?
PS – Um leitor corrigiu-me: o Nero é alemão, e não americano. Mas quase não se nota…
O texto que escrevi ontem sobre o desaparecimento de João Martins Pereira não era uma evocação nem pretendia servir de obituário. Correspondeu apenas a uma reacção a quente perante a notícia da morte de uma pessoa que não conheci pessoalmente mas me habituei a acompanhar. Na minha biblioteca, em lugar acessível, os seus livros estão encostados aos de António José Saraiva e de Eduardo Lourenço, e julgo que tal poderá dizer alguma coisa a alguém. Ou di-lo a mim, pelo menos. Não falei portanto de algumas das suas intervenções e das ausências me falaram mails que recebi entre ontem e hoje. Não lembrei, por exemplo, a sua proximidade dos processos de fundação do MES e, muitos anos mais tarde, do Bloco de Esquerda. Ou a sua actividade como professor, engenheiro e cronista.
Mas uma ausência me parece de facto injusta. Num testemunho conciso e comovente saído hoje no Público, Eduarda Dionísio anota o esquecimento de um jornal absolutamente único, publicado a partir de 1975, do qual João Martins Pereira foi director, colaborador e acima de tudo grande entusiasta. Tratava-se da Gazeta da Semana, anos depois reduzida por dificuldades várias a Gazeta do Mês, e do qual até tinha a colecção completa, desaparecida algures junto com um caixote que levou descaminho numa qualquer mudança. Sobraram-me apenas alguns exemplares dispersos, e é de um deles que me sirvo para ajudar a preencher a falha.
Junho de 1980, artigo «Resistir ou Re-existir» na Gazeta do Mês número 2: «A condição feminina é-me exterior, como o é, num outro plano, a condição operária, a mim, intelectual de extracção burguesa. Libertar-me do complexo de “não ser operário” não é distanciar-me do problema da exploração. É justamente escolher colocar-me, em relação a ele, na única posição que, de boa-fé, me é possível assumir: a da apreensão intelectual, a da “teoria”, a de uma prática solidária, que não a de uma prática vivida (impossível) ou a de uma prática imitada (falsa). Levantemos de uma vez certas ambiguidades persistentes: não posso fazer minha a luta pela emancipação feminina, como não posso fazer minha a luta proletária. Estou com elas. E ao estar com elas, isso determina-me nas lutas que me pertence, a mim, travar.» Parágrafos destes, num tempo dominado agora pelos exageros do politicamente correcto e pelo receio da exposição pública, não existem muitos.
Morreu ontem João Martins Pereira. Na Primavera de 1971 comprei um livro seu, Pensar Portugal hoje – publicado pela Dom Quixote em plena «abertura marcelista» -, no qual, entre outros temas urgentes, se abordava já, pela primeira vez de forma explícita e de um ponto de vista reflexivo, o carácter subversivo da mudança de costumes que Portugal se encontrava então aceleradamente a viver. Essa mesma que ainda hoje permanece algo subavaliada por alguns historiadores, em detrimento da ênfase dada a uma mudança política efectiva mas mais lenta e epidérmica. Recorro a um sublinhado meu datado daquele ano:
«A passagem da rigidez quase total à flexibilidade quase total (…), eis mais uma aprendizagem em que se inicia a classe dominante entre nós. Foi já duro o caminho que a levou dos tempos (não tão recuados) em que nas nossas praias não se podia ver um tronco masculino ao léu (…) até àqueles mais próximos em que os pacatos burgueses saborearam sem pestanejar a fustigação das costas de Romy no filme A Piscina. Aliás (…) no campo dos “costumes” terá tido uma influência decisiva a intensificação dos movimentos de pessoas nos dois sentidos: o turismo estrangeiro em Portugal e as deslocações cada vez mais frequentes de portugueses ao estrangeiro (bolsas, turismo universitário, turismo tout court, a própria emigração). Os portadores da “moral tradicional” viram-se totalmente ultrapassados, e terão talvez ficado surpreendidos que não tenham sido plateias uivantes e babando-se de lascívia as que assistiram aos primeiros nus nos nossos ecrãs. Nada disso: o melhor da nossa burguesia (e não só a intelectual) já estava muito mais «avançada» do que supunham – mesmo a que saía do Blow Up para se encafuar na missa das 7 mais próxima.»
João Martins Pereira viria anos depois a ser secretário de Estado da Indústria do 4º Governo provisório, acompanhando o ministro João Cravinho e colaborando na complexa gestão das nacionalizações. Viria a demitir-se em divergência com a política do governo e a incapacidade deste para responder a uma crise económica cujos resultados, nessa altura de grandes esperanças mas de vacas bem magras, a maioria dos portugueses sentia na pele.
Publicou também O socialismo, a transição e o caso português (ensaio sobre o capitalismo em Portugal), Indústria, ideologia e quotidiano, Para a História da indústria em Portugal, ou, em co-autoria, À esquerda do possível. Um tanto esquecido, por razões que não será demasiado difícil compreender, um outro título que constitui uma das mais corajosas, mas também mais solitárias, reflexões políticas a contracorrente produzidas nesses anos de chumbo que iriam desembocar no espectro messiânico do primeiro cavaquismo. Refiro-me a No reino dos falsos avestruzes(um olhar sobre a política), editado em 1983, um livro onde se procuram desmontar alguns mitos que estavam na época em pleno processo de fabrico: o da sacrossanta «iniciativa privada», o do diabólico «gonçalvismo», o da salvífica CEE ou o do «desejado» Ramalho Eanes. E onde se procurava também repensar o papel da esquerda no meio de tal selva pós-revolucionária. Volto a destacar um sublinhado já gasto pelo tempo mas que ainda poderá iluminar certas consciências desamparadas:
«A banalização do adjectivo “utópico” num sentido pejorativo não deveria impressionar nem complexar a Esquerda; foi a Direita que, ao pretender-se realista e pragmática, lhe lançou essa armadilha. (…) A Esquerda será sempre um “campo de tensão”, a tensão do inventor antes da invenção, do descobridor antes da descoberta, do poeta antes do poema – enfim, do criador antes da criação. É esse “antes” que necessariamente gera a tensão: a Esquerda sabe que nunca chegará à sociedade perfeita, um pouco como Zenão no paradoxo da tartaruga.»
Poucas pessoas terão produzido tantos, tão originais e tão anti-dogmáticos contributos para uma reflexão da esquerda portuguesa sobre o mundo e sobre si própria. A partir de Sartre, ponto de partida de tantos dos da sua geração, João Martins Pereira laborou, como lembra Francisco Louçã no combate.info, num «marxismo heterodoxo, culto, informado de toda a dissidência e da radicalidade revolucionária do pensamento socialista». Terá até, mais recentemente, ido bem para além deste. Foi ainda, como é de calcular, uma pessoa de causas, ainda que mal aclimatado a militâncias redutoras da liberdade do indivíduo e da capacidade para pensar sempre o impossível desejável. Quem o conheceu diz que era também um homem decente.
Um radical e um utopista, sem dúvida. Ouçamo-lo ainda no Reino: «Todos nós sonhámos com a bela noite em que partiríamos com a trupe do circo ambulante. On the road… Miúdos, vivíamos na pele dos pequenos acrobatas nos seus maillots luzidios. Adolescentes, imaginávamos a louca aventura com a bela trapezista (…). O circo deu-nos a primeira ideia de liberdade sem limites e por isso mesmo os ajuizados regressos a a casa em cada noite de circo terão sido das nossas primeiras sensações de derrota (…). O circo colocou-nos o primeiro desafio à ordem estabelecida». Defendendo, a partir daqui, uma dimensão criadora da marginalidade que não é recusa ou exclusão, mas atracção pelo lado lúdico da existência e de crítica ao sistema que a todo o instante procura cerceá-lo, concluirá que «os marginais são apenas uma minoria dos oprimidos – e só em conjunto todos se libertarão».
Viver pensando e aceitando esta magnífica possibilidade parece ser uma bela forma de ser-se solidário com os outros e de viver a própria vida. Uma lição de João.
Um órgão da justiça espanhola que responde pelo respeitável nome de Plenário da Sala do Penal da Audiência Nacional acaba de confirmar, por dez votos contra seis, a condenação de Jaume Roura e de Enric Stern, dois jovens republicanos catalães, ao pagamento de uma multa de 2.700 euros por há cerca de um ano atrás terem queimado uma fotografia dos reis. Comentando no diário Públicoa notícia, um leitor escreve o seguinte: «Me surge una duda que me inquieta: acabo de quemar el libro de Pilar Urbano sobre la Reina. En él aparecen al menos 100 fotografías de Doña Sofía. Mi pregunta es: ¿seré condenado a pagar 2700 € por el pack incendiario de 100 fotos, o son 2700 por cada foto? Agradeceré una respuesta, mi futuro depende de ello.» As normas arbitrárias impostas por uma justiça deslocada do seu tempo – uma justiça que ainda não sabe lidar com uma liberdade de expressão que hoje pode comportar a crítica radical de pessoas públicas – sujeitam-se a este tipo de exposição ao ridículo.
Pensei em escrever um pequeno post sobre a forma como o PCP observa o movimento de massas e o capital de esperança que envolveu a campanha e a eleição de Barack Obama. Mas cinco segundos depois concluí que não vale a pena perder tempo. Fica apenas o link para os curiosos.
Actor, radialista, argumentista (colocado na lista negra durante o mccarthismo, o que será sempre uma boa referência) e historiador, Louis «Studs» Terkel acaba de morrer em Chicago, a sua cidade de adopção, aos 96 anos. Hard Times, uma história oral da Grande Depressão publicada em 1970, continua a ser uma obra-prima do género. Working, que teve como subtítulo People Talk About What They Do All Day and How They Feel About What They Do, e The Good War, onde enuncia a Segunda Grande Guerra como um raro tempo de solidariedade entre os americanos, são dois livros igualmente importantes deste homem dos sete instrumentos. «Curiosity did not kill this cat» é o epitáfio que um dia quis ter e que declara o ritmo de uma vida preenchida.
Assisti ontem, no final do telejornal da SIC, a uma reportagem tristíssima e revoltante. Tratava de execuções judiciais por dívidas – não sei se é esta a designação técnica correcta, nem isso agora importa – e mostrava situações autênticas, nas quais a câmara acompanhava a entrada dos executores e da polícia na casa das pessoas que naquele preciso momento iam ser despejadas, iam ver bem arrestados, ou eram intimadas a pagarem num prazo curtíssimo as dívidas que se percebia jamais poderem resolver. Mulheres abandonadas pelos companheiros que as tinham deixado com os filhos e com os calotes, homens desempregados, deprimidos e envergonhados, pessoas idosas, doentes e marginalizadas que mal sabiam ler as notificações que tinham recebido e se viam confrontadas com a imposição sem recurso possível «das ordens do meritíssimo juiz». Um dos intervenientes descreveu mesmo uma situação na qual não existiam sequer bens para arrestar, pois a casa já não tinha móveis e a família visada dormia no chão. Bem sei, como dizia do alto do seu diploma provavelmente emoldurado um dos advogados dos credores, que aquelas pessoas «usufruíram sem se queixarem de bens que não pagaram na totalidade», mas não deixa de ser impressionante a insensibilidade da lei perante casos nos quais a pena ignora as voltas da vida de cada um e é, por vezes, claramente desproporcionada em relação à consciência que o presumível criminoso tem do dolo cometido. Não poderá existir, para estas pessoas sem saída, para casos humanos tão pungentes, outro acompanhamento que não seja aquele prestado pelos funcionários judiciais e pela polícia armados de folhas de papel timbrado e de cassetete?
Partilho do aborrecimento de António Figueira diante da forma como, alguns anos após terem sido ejectados da vida, meio mundo começou, tu-cá-tu-lá, a falar de José Cardoso Pires com a maior familiaridade, tratando-o por «Zé», e a referir-se a um José Afonso que jamais conheceu como «o Zeca». Sobretudo se tivermos em consideração que o primeiro, no final da estrada, se queixava de um isolamento que tanto o desgostava, e que o segundo viveu os últimos anos marginalizado por muitos daqueles, cravo vermelho ao peito, que exorbitam agora da sua voz nos alto-falantes da propaganda. De vez em quando, para conter a falta de decoro e a manipulação dos pretéritos, é bom que alguém se sirva de um pouco de memória. E além disso, pelo menos nestes casos, o respeitinho até é uma coisa muito bonita.
Ainda sobre Gainsbourg. Ou melhor, sobre a conversa que tem andado a correr em alguns blogues a propósito da forma como certos cronistas da nossa melhor imprensa se têm servido de posts publicados para, através da vil arte do plagiato, pouparem um pouco no génio e no esforço. Um artigo publicado na Rue 89refere-se ao modo como, pelo lado do pastiche ou mesmo da paródia, Serge se apropriou de alguns fragmentos de peças clássicas para fazer canções sublimes. E únicas. Claro que falamos de conceitos diferentes e de atitudes dificilmente comparáveis. Este apontamento é apenas um pretexto para falar, à tangente, deles e delas.
Começou pelos treinadores de futebol, depois passou para os bruxos, de seguida para os presidentes das distritais partidárias, e agora parece que se generalizou. Falo daquela expressão utilizada quando a equipa perde, quando o feitiço falha, quando as eleições foram um desastre, ou quando um casamento falha: «assumo a responsabilidade». Frase à qual não corresponde depois qualquer acto de reparação que dê sentido à exibição da culpa. Wen Jiabao, o moderno primeiro-ministro chinês, entra na onda ao assumir a responsabilidade do seu governo no escândalo do leite contaminado (em larga medida possível, parece óbvio, pelo estado de selvajaria no qual prospera o «segundo sistema» chinês). Consequências políticas? Nenhumas, claro. Ou provavelmente a substituição de dois ou três funcionários, mas a intocabilidade do autoproclamado supremo «responsável». No futebol, despede-se um sub-director qualquer. Entre os bruxos muda-se, quanto muito, de filtro ou de criptónimo. Dentro dos partidos espera-se que passe. Nos casamentos pede-se perdão. E la nave va.
Um pequeno e precioso livro, este que hoje encontrei por acaso. Em formato de bolso, 50 ou 60 páginas não numeradas, com esparsas palavras e imagens a branco e preto do fotógrafo espanhol Luis Baylón (Blur Ediciones). Chama-se Sólo Fumadores e nele podemos observar engraxadores, empregados de mesa, prostitutas, banqueiros, donas de casa, empresários, estudantes, sujeitos com um aspecto razoavelmente abonado e outros claramente lumpen. Pessoas que partilham um mesmo prazer, e às quais – não será exagero do editor – «o tabaco conseguiu igualar como nenhum sistema político e social ao longo da história». Fotografias de fumadores, reflectidos em flagrante delito, naqueles lugares infectos e condenados à ignomínia onde agora são forçados a refugiar-se. Ruas frias e chuvosas, praças inóspitas, portais dos edifícios, bares «de tolerância» (onde os pecadores são tolerados), divisões-ghetto de lugares que por instantes, e por enquanto, ainda lhes vão consentindo o vício. «Um canto à liberdade, ao direito a escolher e, por isso, a equivocar-nos», anuncia o texto prévio. Pois se fumar, tal como a vida, mata, os fumadores são capazes de entender que, apesar desse inconveniente, «tanto um como a outra merecem ser fruídos intensamente e sem medo».
E por falar em teorias da conspiração: acaba de me chegar a nova edição, actualizada, do The Rough Guide to Conspiracy Theories, de James McConnachie e Robin Tudge. Dos Templários a Litvinenko, passando pelas hipóteses mais ou menos delirantes acerca das causas da Peste Negra, da negação do Holocausto, da morte de Elvis Presley ou da explicação do 9/11. Um instrumento de trabalho muito útil – com bibliografia e links actualizados – para rever a origem de determinados mitos, reconsiderar algumas possibilidades ou inventariar perfeitas tolices que podem mover montanhas.
Detestando tudo aquilo que o candidato John McCain representa – para a América e para o mundo – não posso deixar de ver com alguma pena que os blogues capazes de fazerem ecoar a menor ventosidade que este possa expelir para atacarem a sua campanha – com o meu aplauso, sublinho –, façam agora de contas que não se passou aquilo que se passou e que pode ser visto aqui. A democracia, desculpem lá, passa também por reconhecer a razão e a frontalidade dos nossos adversários. Sem que com eles tenhamos de pactuar. O vale-tudo em política tem uma história muito trágica.
(Ui, já estou a ver o pessoal das teorias da conspiração a dizer que aquelas pessoas foram plantadas ali de propósito, para ajudarem a limpar diante do eleitorado hesitante a imagem do candidato republicano. E que assim fosse?)
A vila de Ansião – velhas placas indicativas ainda lhe chamam «Ançião» – situa-se numa das regiões mais deprimidas do país. Refiro-me a uma área situada a norte do distrito de Leiria, que começa a leste do concelho de Pombal, onde o mar já fica longe demais para dele se sentir o odor, e se estende depois por essa mancha verde-escura, chamada «do pinhal», que segue até à serra da Lousã e se prolonga a nordeste pelos distritos de Coimbra e Castelo Branco. Apesar da melhoria das estradas e de alguns esforços no sentido de contrariar a desertificação que ali se iniciou com a emigração rural da década de 1960, trata-se de uma região que permanece sem perspectivas de desenvolvimento visíveis, assente ainda numa agricultura de subsistência que tende a desaparecer, no pequeno comércio que não pode concorrer com os hipermercados mais próximos e em serviços quase inteiramente dependentes do Estado ou das autarquias. Existem tentativas para inverter o processo, algumas delas a partir de expectativas criadas por um turismo incipiente, mas o panorama não é animador, persistindo a fuga de muitos habitantes para os centros populacionais maiores, onde a vida é menos monótona e talvez exista mais emprego. Nada de estranho, como é sabido, uma vez que esta é uma tendência que segue a de outros países europeus nos quais a concentração urbana se iniciou mais cedo, transformando áreas outrora prósperas em autênticas no man’s land.
Mas porquê individualizar aqui Ansião? Porque foi ali que Cavaco Silva inaugurou ontem, com a inevitável pompa assegurada pela ordem unida da valorosa corporação de bombeiros e pela vestimenta de ver-a-Deus das autoridades nativas, um «Centro de Negócios» (sic), «com serviços de apoio ao tecido empresarial de todo o concelho», no qual se esturraram dois milhões de euros. O carácter megalómano e absurdo da empresa parecerá óbvio a qualquer pessoa com a cabeça fria e sem interesses no projecto. Ela terá resultado, ainda admito, de um esforço que a autarquia – falha talvez de alternativas, mas com orçamentos razoavelmente generosos associados a fundos comunitários – rápida e facilmente acarinhou. Mas é dramático não parecer existir uma voz audível, e com capacidade de intervenção, que pudesse ter impedido um disparate destes. Que possa impedir desatinos desta grandeza.
Como todos sabemos, o país está, aliás, repleto de situações análogas. «Parques industriais» sem um plano de ocupação, «centros de congressos» ao abandono, «centros culturais» sem uma actividade estruturada, «auditórios» sobredimensionados, «museus» semi-vazios ou organizados sem critério, «bibliotecas» razoavelmente equipadas mas sem dinamismo, «pavilhões gimnodesportivos» excessivos para as necessidades locais, tantas vezes projectados sem norte, sem uma clara política de gestão e sem uma programação que lhes dê sentido, sem quadros até que os saibam orientar. E gastando milhares de milhões, muitos milhares de milhões. Para não falar das praças, rotundas e avenidas tantas vezes desnecessárias (uma queixa estafada dos eternos maledicentes, como é sabido), ou das estátuas e esculturas quase sempre de mau ou deplorável gosto, erguidas muitas das vezes apenas para alimentar a vaidade dos pequenos nabucodonosores locais ou para assombrar o povo com a magnitude do seu poder. Claro que existem algumas obras de mérito e de utilidade, e não serão poucas, mas a regra ainda é o desleixo, a inadequação e o despesismo.
Entendo perfeitamente que, a estas coisas, os governos e os partidos que são alternativa de poder, habitualmente com um discurso público sobre o rigor financeiro, façam ouvidos de mercador. Uma grande parte destas iniciativas parte afinal das suas clientelas, e assegura muitas das vezes – panis et circencis – a manutenção local de um score eleitoral favorável. Digamos que sob uma determinada perspectiva não se trata de desperdício financeiro, mas antes de um bom investimento político. E daqui por mil anos, quando desenterrarem toda esta parafernália de cimento, aço e betão, os arqueólogos do século XXXI pensarão ter encontrado vestígios de uma época de singular prosperidade. Embora dominada por um gosto algo duvidoso.
Por via das dúvidas, e não fossem as dioptrias enganarem-me, mudei de óculos por duas vezes. Mas li sempre o mesmo, a mesma afirmação. Para Jaime Gama, o nosso enfadonho presidente da Assembleia da República, que falava durante a apresentação do livro Carlucci vs. Kissinger – Os EUA e a Revolução Portuguesa, é absolutamente fascinante aquela tradição política americana que «regista tudo, que intercepta até as próprias conversas telefónicas para as registar, que grava mesmo as conversas de gabinete», de modo a tornar possível a publicação ulterior de toda essa informação. Será que passam pela mente da segunda figura do Estado as perigosas consequências políticas, e até o carácter desumanizador da vida dentro dos espaços do poder, que podem resultar de processos desta natureza? Ou isso agora já não lhe importa grande coisa? Ou terá falado apenas na óptica do voyeur?
Pois é, um dos problemas do marxismo-leninismo consiste em mostrar-se simultaneamente «contrário à dogmatização e à revisão oportunista dos seus princípios e conceitos fundamentais». Situação que poderá transformar-se numa pesada contradictio in terminis e em factor de bloqueio. Mas graças a Deus e à sua infinita Misericórdia que existe sempre um grupo de pessoas, vanguarda da «vanguarda da classe operária e de todos os trabalhadores», que apetrechado desse «instrumento científico de análise da realidade», desse miraculoso e quintaessencial «guia para a acção», combate a «ideologia social-democrata» e determina a todo o instante, «em ligação com a vida», qual a exactíssima curva da estrada na qual é possível moldar o dogma e qual essoutra onde começa a infame e criminosa revisão oportunista. (Ainda a propósito das Teses moicanas do PCP, naturalmente, que agora já li todinhas da silva. Nem tudo são rosas nesta vida de leitor.)
Chegou a vez de Paul Newman (1925-2008). Mais um pedaço da vida vivida através do cinema que parte para sempre, deixando um buraco fundo e escuro. Paul Blue Eyes vai fazer-nos falta, muita falta. Vai ficar-nos na memória e na imaginação, mas até elas se diluem e se vão perdendo.