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Palavras públicas (sobre o Twitter)

Notificador

Ando há dias a congeminar este post. A medir o que nele poderia dizer sem passar por inimigo das redes sociais na Internet, ou fazer figura de antipático aos olhos de pessoas que irão pensar que me estou a referir a elas. Acabei por ser impelido a escrevê-lo por um pequeno apontamento, para a qual me chamaram a atenção, e no qual se equipara ao Twitter uma geringonça, instalada no ano de 1935 em ruas, lojas, estações de comboio e outros locais públicos da cidade de Londres. O Notificador – assim se chamava o aparelhómetro – permitia que o utilizador deixasse pequenas mensagens, escritas em papelinhos, as quais funcionavam como recados destinados a determinadas pessoas. A ideia, aparentemente simples, parecia boa e útil, sendo estranho que não tivesse pegado.

Ela dependia, porém, de uma certa capacidade de permanência dos referidos papelinhos, pois estes deveriam manter-se visíveis durante pelo menos 2 horas. Ora é justamente aqui que falha a comparação com o Twitter. O defeito poderá ser meu, mas desde que por ali comecei a ter bastantes friends que escrevem 100, 150, 200 mensagens diárias, a interactividade tornou-se quase impossível, uma vez que essa cortina de recados impede uma leitura adequada – por vezes, ao fim de 5 ou 6 minutos as nossas mensagens foram já afogadas por largas dezenas de outras – e quase inviabiliza uma verdadeira conversa. A não ser que as pessoas envolvidas estejam durante horas com boa parte da sua atenção virada para esta actividade.

Vejo o Twitter como uma coisa divertida e certas vezes bastante útil, mas que se pode tornar maçadora para quem está absorvido noutras tarefas e, logo que se liga, vê a mesma pessoa, a mesma cara, a surgir no ecrã em cascata. Durante tanto tempo diário que, certas vezes, nos questionamos sobre a forma como essas pessoas encontrarão lugar para lerem os artigos e os livros que recomendam, para verem os filmes e programas de televisão que sugerem, para viverem a vida «lá fora» da qual falam. Julgo, sinceramente, que deveria existir uma espécie de twittiquette. Uma boa regra, provavelmente a única, consistiria então em que ninguém pudesse enviar mais do que 10 mensagens por hora. Mesmo assim os viciados ainda poderiam enviar mais de 200 por dia, mas dariam tempo aos outros para respirarem e deixarem os seus próprios recados, informações ou fugazes tonterias. Admito, no entanto, que não tenha percebido muito bem a lógica da coisa e possa andar a marinar num erro qualquer.

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    Coimbra’69

    Coimbra'69

    17 de Abril. A maioria dos cidadãos que conservam reminiscências da Coimbra dos idos de sessenta – do meio pequeno, professoral, santacombadense, mas também universal, quimérico e inquieto – conhece aquilo que a data significa. As prestimosas autoridades locais, essas dormem na ignorância de uma parte da memória viva da cidade que vão gerindo. Por vezes na cumplicidade ao retardador com o lado mau do filme. Dia da audácia de uns quantos, das oportunidades conquistadas, do mito que enuncia parte da verdade e inventa e reinventa a outra. Primeiro dia do resto da vida da cidade salazarenta que um dia há-de morrer.

    Seguir o testemunho ocular do Marcelo Correia Ribeiro, a visão de retrovisor do Miguel Cardina e o olhar de viés do Luís Januário.

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      Contem-nos coisas de Cuba

      Cuba Libre

      É bem triste «La Revolución» não aguentar palavras que apenas irradiam uma perspectiva do mundo diferente da arremessada pelos artigos hiper-saudosistas, caluniosos ou ameaçadores do Granma e do Juventud Rebelde. O cerco americano a Cuba, que Obama começa agora gradualmente a levantar, sempre me pareceu uma medida injusta e desnecessária, resultado de uma política externa míope e influenciada pelos «gusanos» um tanto ressabiados de Miami, mas o cerco interno, praticado na ilha, à liberdade de opinião de quem é visivelmente desalinhado do discurso oficial, não é menos injusto e injustificado. Para além de um tanto paranóico. Que a havanesa Yoani Sánchez tenha de publicar o seu primeiro livro de crónicas em Itália é um sinal desse desajustamento.

      Es abril y no hay mucho que hacer, solo mirar desde el balcón y confirmar que todo sigue como en marzo o en febrero. La Plaza de la Revolución -un pirulí truncado que asustaría a cualquier niño- domina los bloques de concreto de mi barrio. Frente a mí, dieciocho pisos de hormigón llevan el cartel de Ministerio de la Agricultura. Su tamaño es inversamente proporcional a la productividad de la tierra, así que me dedico a mirar con mi catalejo las oficinas vacías y sus ventanas rotas. Vivir en esta zona “ministerial” me permite interrogar los altos edificios desde los que salen las directivas y resoluciones para todo el país. Manías de orientar el lente y pensar “ellos me observan, pues yo también los observo a ellos”. De esas inspecciones con mi telescopio azul he sacado bien poco, la verdad, pero una impresión de inercia traspasa el cristal y se cuela a través del hormigón de mi edificio modelo yugoslavo.

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        Extravagância

        Mais um recorte neste domingo de Páscoa, para mim de trabalho. «Antigamente, a Igreja julgava saber o que era necessário à nossa alma, com os resultados que se conhecem. O Estado e a medicina julgam hoje saber o que é necessário ao nosso conforto e felicidade física, com resultados cada vez mais intoleráveis.» As palavras são de Vasco Pulido Valente. Em dia-sim na crónica dominical do Público.

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          De fato

          De fato

          Na Loja do Cidadão, proclamada «de segunda geração», inaugurada em Faro no passado dia 3 com a presença do primeiro-ministro, as funcionárias estão proibidas de usarem em serviço blusas com decote, saias curtíssimas, vestuário de ganga, perfumes com uma fragrância agressiva, roupa interior preta, saltos altos e, claro, sapatilhas. Calculo que aos funcionários sejam prescritas também algumas normas, relacionadas com o tom da gravata, a sobriedade das peúgas, o risco ao lado no penteado e o uso obrigatório de pochette. E se o não são, deveriam sê-lo. Por motivos de «postura pessoal», seguindo o raciocínio avícola de uma tal D. Maria Pulquéria. O provincianismo corresponde sempre, por definição, a uma forma excessivamente mesquinha e tristonha de estar no mundo. Piora bastante quando se encontra associado a um bocadinho pequenino e bem guardadinho de autoridadezinha.

          Adenda – Uma coisa vale a pena dizer ao ouvido de quem considere este episódio irrelevante ao ponto de não se justificar sequer que seja notícia: são gestos destes que nos lembram o que foi o «salazarismo real» e o que ele fez – e continua a fazer – às cabeças das pessoas. Muito mais grave e profundo do que os lances fugazes do caso Freeport.

          A leitura de alguns blogues que abordaram o assunto trouxe também mais duas nuances. Uma refere-se ao sexismo boçal das considerações supostamente engraçadas sobre «os direitos dos utentes». A outra é o fétiche dos parvenus a respeito daquilo que insistem em chamar de «dress code». Que nada tem a ver com normas básicas de asseio e civismo, obviamente admissíveis e até desejáveis.

          (Dizem-me que entretanto o pormenor da roupa interior preta foi desmentido. Muito bem, mas essa era a parte cómica. O resto fica tudo na mesma. Isto é, mal.)

            Apontamentos, Cidades, Olhares

            Alegadamente à esquerda

            No telejornal da RTP, uma peça jornalística refere o papel do coronel Jaime Neves durante o biénio revolucionário pós-Abril – o ex-comando está na calha para ser «canonizado» como major-general, sendo esse o sentido da peça – como o de alguém «que se confrontou então com militares alegadamente mais à esquerda». Utilizando a expressão que habitualmente associa a presunção de inocência ao criminoso em vias de ser julgado. Mais um sinal de tontice e de ausência de perspectiva histórica do tamanho de uma viatura Chaimite. Existem livros de todos os tamanhos sobre os episódios desse «então» e alguns até são daqueles fininhos e com muitas imagens. Ninguém os avisou?

              Apontamentos, Memória

              Os ricos que paguem a crise

              Capitalismo

              O PCP pretende que a Assembleia da República produza um quadro legislativo capaz de permitir a «criminalização do enriquecimento ilícito». Já em tempos o tentou sem sucesso, mas considera agora, «tendo em conta que a evolução e a própria vida», que existem condições para que a proposta seja aprovada. Não estou em condições de comentar a substância jurídica desta iniciativa, mas de uma coisa estou certo: naquilo a que chamamos um estado de direito ninguém pode ser julgado duas vezes, e duas vezes condenado, pelo mesmo crime. Se o enriquecimento é ilícito, existiu antes dele um acto, ou existiram diversos actos, provavelmente conjugados, que determinaram essa ilicitude. Os quais deverão, sem qualquer dúvida, ser investigados, julgados e punidos de uma forma rápida, eficaz e exemplar. Am I wrong? É que de outra forma poderemos antecipar a culpa e retornar aos tempos – por certo saudosos para os presumíveis proponentes – da abjecção proudhoniana da propriedade, da punição dos kulaks pelo facto de o serem ou da criminalização discricionária dos «sinais exteriores de riqueza».

              Adenda: No seu estilo próprio, sempre com algo de agreste que o distingue dos outros e lhe confere um sal que aprecio, Nuno Ramos de Almeida comenta este post apodando de «santa ignorância» a ausência de perspectiva que, na sua opinião, o terá determinado. Não vou contrariar o juízo, obviamente, até porque nem o Nuno sabe aquilo que eu sei nem eu domino tudo aquilo que ele conhece, mas de uma coisa pode estar certo: tenho os olhos suficientemente abertos, e experiência que baste, para distinguir a declaração de necessidade de legislação própria e ágil contra os crimes «de colarinho branco» – com a qual essencialmente concordo – da vontade indómita, presente em certos discursos, de mandar toda a gente com mais de cinco zeros no saldo bancário para as galés. É esta, pelos perigos que comporta, que me repugna. Quanto ao epíteto de «anti-comunismo» lançado sobre a intenção, talvez seja um bocadito exagerado: pelo menos tanto quanto o anátema de «anti-socialismo» lançado sobre quem apenas não aprecie José Sócrates e os seus queridos muchachos.

                Apontamentos, Atualidade

                E-people

                Teach them

                A informação chega-me através de um artigo de Miguel Gaspar: o governo britânico está a estudar uma reforma do ensino básico que pretende destacar a aprendizagem das novas tecnologias, em especial a das redes sociais da Internet, em detrimento dos saberes considerados convencionais. Não tenho nada contra a divulgação alargada e sistemática destes processos – que uso diariamente, intensamente, produtivamente muitas vezes, e que recomendo –, mas tenho tudo contra a desqualificação do conhecimento estruturante em favor de uma deriva comunicacional apresentada como valendo por si mesma. O problema, julgo, advém em larga medida do facto dos centros de decisão política – leia-se: os partidos institucionais – estarem cada vez mais nas mãos de gente «especialista» em conhecimento funcional, que cresceu politicamente na gestão do imediato, e que descarta, como anticorpos, aqueles que pensam para além do momento. Daí também a desvalorização sistemática das humanidades e da reflexão crítica que estas oferecem. Temas aos quais regressar aqui com mais tempo e um outro cuidado.

                  Apontamentos, Cibercultura, Democracia

                  Coimbra radical

                  Só Deus sabe como aprecio durante 60 minutos em cada ano a música do Conjunto Diapasão (em particular a voz de veludo martelado do vocalista Marante), como abomino música sertaneja (os empregados do Gauchão também conhecem este ódio pessoal) e como experimento sentimentos assassinos quando sou forçado a ouvir a vozearia ululante acompanhada de ferrinhos e acordeão que o Estado Novo nos doou como «folclore do bom». Mas ouvir tudo isso em sistema random, a partir de colunas potentíssimas e mais altas que o Pau Gasol instaladas no hipocentro da universidade mais antiga do país, ao mesmo tempo me esforço até ao limite por conseguir dar uma aula debaixo de tal barragem de som, é experiência que tem qualquer coisa de transcendental. Aconteceu ontem à tarde e acabei a aula a falar da grande Maria do Carmo Miranda da Cunha, mais conhecida como Carmen Miranda.

                    Apontamentos, Coimbra, Devaneios

                    O enigma do monóculo

                    Spínola na Guiné

                    Lendo o fascículo de hoje de «As Grandes Operações da Guerra Colonial», saído com mais um volume da colecção Os Anos da Guerra Colonial que o Correio da Manhã está a publicar (e que pode ser adquirido sem o jornal), resolvo um enigma que me acompanha desde os anos de vida de caserna. Qualquer coisa que intrigava um grande número de militares nos anos da guerra e nos primeiros tempos da democracia e os trazia em suspenso: serviria ou não o monóculo de António de Spínola para corrigir a visão do olho direito? A solução é oferecida pelo testemunho de um ex-furriel que em 1962 transportou de Lisboa para Bissau uma pequena caixa de madeira destinada ao então Coronel de Cavalaria, diante da qual foi incapaz de resistir à tentação de espreitar aquilo que ela trazia lá dentro: uma colecção de seis reluzentes monóculos sem qualquer graduação.

                      Apontamentos, Memória

                      João Mesquita

                      João Mesquita

                      Há meses que o não via e não sabia que estava doente. Muito doente, por sinal. Estava prevista uma conversa por um destes dias por causa de um artigo a sair na Rua Larga e contava telefonar-lhe durante esta semana para acertarmos pormenores. Soube agora, há uma hora e picos atrás, por uma mensagem de e-mail, que o João Mesquita morreu hoje de manhã. Com ele foi-se também uma pessoa generosa, afável sem servilismo, e um dos já raros combatentes de um jornalismo intransigente e de causas. De esquerda, sim. Vai fazer cá muita falta o João.

                        Apontamentos

                        Haruki vezes dois

                        Durante um jogo da Liga portuguesa, dizia há dias um comentador referindo-se a dois futebolistas brasileiros: «eles entendem-se pois falam ambos brasileiro». A língua é uma, embora não una, e a rapidez da compreensão nem sempre é fácil sem retroversão automática e gestos à mistura. Dentro do Brasil, dentro de Portugal, ou num voo que desça o mapa na direcção do Atlântico Sul. E tudo se enreda quando, com a língua que repartimos, cada um se refere à mesma coisa enunciando palavras que não coincidem. Leio de maneira diversa, consoante traduzo ou não a tradução de um título que a frase incorpora, duas linhas de Rakushisha, o último romance de Adriana Lisboa: «Um dos filmes era O Poderoso Chefão. Haruki começou a assistir, era a quarta ou quinta vez que assistia àquele filme.» Ou, ajusto eu as palavras, desfigurando a autoria: «Um dos filmes era O Padrinho. Haruki começou a assistir, era a quarta ou quinta vez que assistia àquele filme.» Não se trata apenas de duas frases brandamente diferentes, são duas distintas Haruki que se nos afiguram, dois sentidos para o enredo que se separam. Desentendemo-nos por vezes, falando em português.

                          Apontamentos, Cinema

                          ♪ Angels of Ashes

                          Scott Walker

                          Fim de tarde com a chuva que regressa com o fim de Fevereiro. Agora sem televisão e sem notícias, sem ruído, sem murmúrio que não o de um velho álbum, 4, de Scott Walker. Quase uma cantiga de embalar, nua mas enfática. «The Angels of Ashes/will give back your passions/Again and again…huumm/Their light shafts/will reach through the darkness/and touch you my friend…huumm huumm». Scott tónico, vintage de 1969.

                          [audio:http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2009/02/04-scott-walker-04-angels-of-ashes.mp3]
                            Apontamentos, Música

                            Rong e Silva juntos e ao vivo

                            China 2009

                            De acordo com a Lusa, um responsável do sector intelectual do Partido Comunista Chinês, Leng Rong, chefia a delegação da China ao congresso do PS português. Rong, de 56 anos, é membro suplente do Comité Central do PCC, vice-secretário da organização comunista no seio da Academia Chinesa de Ciências Sociais e director do Centro de Investigação Histórica do Partido. Augusto Santos Silva tem pois um interlocutor de gabarito e à sua altura.

                              Apontamentos, Atualidade

                              Rosa, rosa, rosae, rosarum, rosis, rosis

                              Mas não é óbvio que a escolha dos nomes para as vice-presidências do PS (os indefectíveis prelados António Costa e Carlos César, a sempre-em-pé-não-se-percebe-porquê Edite Estrela, os críticos colaborantes Vera Jardim e Maria de Belém) apenas confirma a irrelevância destes cargos? Um bombom aos incomodativos alegristas que, como todos os bombons, dura apenas o tempo de umas voltas dentro da boca mas acalma e ilude a acidez do estômago. O resto é e será apenas unanimidade, foguetório e complacência.

                              Depois de escrito este post, chamaram-me a atenção para o facto destas vice-presidências se referirem à direcção da mesa do Congresso e não à do Partido. A notícia do Público online da qual me servi – e que segue em link no corpo do post – dá uma versão diferente, mas aqui fica a precisão. De toda a maneira, não me parece que o alcance simbólico dos nomes referidos e a carga política que contêm se alterem apenas por se tratar de um organismo de responsabilidade mais limitada.

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                                Foucault e o falso Zola

                                Foucault e a rua

                                No prefácio a uma edição recente de Renaissance Self-Fashioning, o historiador da cultura (e não só) Stephen Greenblatt conta um episódio curioso ocorrido em Berkeley no ano de 1975. Michel Foucault, que acabava então de publicar o seu Surveiller et Punir, encontrava-se naquela universidade para leccionar um seminário semestral organizado pelo Departamento de Francês e divulgado aos potenciais interessados como sendo sobre a obra de Émile Zola. Greenblatt tinha pouco interesse por Zola, mas muita vontade de ouvir Foucault, e por isso inscreveu-se no referido seminário. No entanto, ao longo de todo o semestre, o filósofo não mencionou uma única vez o seu compatriota romancista. As sessões foram todas sobre o conceito de penitência na história da Igreja católica medieval, o que não parece ter caído mal em qualquer um dos inscritos. Na Europa à bolonhesa que nos cabe agora na rifa, com tudo previsto e aprovado para valer «créditos» destinados a oficializar «competências», esta sorte de golpe-de-rins já quase parece impossível.

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                                  O Expresso tresvaria

                                  O comissário desaparecido

                                  Num acesso de extremo ridículo, o Expresso compara a saída de Joana Amaral Dias da direcção do Bloco de Esquerda a uma purga à maneira de José Estaline. E para ilustrar o absurdo – num apontamento que intitulou de um modo supostamente irónico «Do passeio no Volga à Convenção do Areeiro» – nada melhor que relembrar a recorrente prática estalinista de fazer desaparecer dirigentes dos lugares que ocupavam no Partido, na vida e na história, ilustrando a referência com uma conhecida imagem manipulada na qual ocorreu o apagamento de Nicolai Yezhov, desta maneira apresentado como um mártir da liberdade. Saberá o relator anónimo de tal apontamento quem era o seu momentâneo herói Yezhov, mais conhecido por «o Anão», Comissário do Povo para os Assuntos Internos e responsável entre 1936 e 1938 pela chamada «Yezhovschina», a fase mais aguda do Grande Terror durante a qual centenas de milhares de comunistas e de quadros do Estado soviético foram torturados, executados ou, com um pouco mais de sorte, condenados a um exílio siberiano geralmente sem retorno? Yezhov ousou a dada altura chantagear figuras próximas do «Pai dos Povos» – começara mesmo a reunir material para chantagear o próprio Estaline – acabando por ser substituído pelo nosso bem mais conhecido Lavrentiy Beria. Foi executado em 1940. A analogia estabelecida pelo «semanário de referência» é demasiado absurda para parecer cómica. O Bloco lá terá os seus defeitos, mas não consta que Joana Amaral Dias tenha saído aos empurrões e sido enviada para uma abjecta masmorra. Ou apagada, credo!

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                                    De Ur a Alguidares de Baixo

                                    J. L. Saldanha Sanches disse a noite passada no programa de televisão da outra senhora que «não há obras públicas sem saco azul». Faz parte da ordem natural das coisas e não existe crise económica ou política antidespesista que a possa contrariar. É assim pelo menos desde o tempo dos sumérios e dos seus construtores de zigurates. Porque haveríamos nós de ser diferentes?

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