Arquivo de Categorias: Apontamentos

Elizabeth e Hazel

Se existe atitude pela qual tenho um afeto particular, é ela a capacidade de regeneração que certas pessoas conseguem aplicar ao seu aparente destino, assumindo mudanças de atitude, de crença e de sensibilidade que contrariam as imposições do meio, a tradição familiar, os códigos impostos no ambiente de trabalho, o quadro político que um dia adotaram, os padrões que julgaram inquestionáveis. Talvez mesmo o código genético que sentem na boca mas que se esforçam por contrariar. Esta é no entanto uma escolha difícil e geralmente mal entendida, apesar do aforismo segundo o qual «só os burros não mudam». A maioria das pessoas, é esta a verdade, arruma o seu mundo em gavetas e prateleiras, cola etiquetas identificadoras nos outros e em si própria, e reage mal a uma mudança profunda, que vê sempre como gesto de oportunismo, falha de personalidade ou sinal de uma patologia esquiva. Está comprovado que existem traços de sensibilidade e de feitio, princípios de ética, gestos de etiqueta, modalidades de gosto ou de desgosto, que geralmente se conservam inalteráveis, mesmo quando quem os detém muda de cara ou de quadrante. A frase, tantas vezes dita, «isso é mesmo dele», ou «é mesmo teu», traduz esse elo de continuidade que, como a pele e as sobrancelhas, transportamos ao longo da vida. Mas, para além desta permanência, existe sempre um mundo de possibilidades capaz de levar um homem ou uma mulher a mudar o seu destino. (mais…)

    Apontamentos, Democracia, História, Olhares

    De fazer corar qualquer trotskista

    Tudo aconteceu no século passado, mas mora  ainda na memória de quem viveu para contá-lo. Nós, os maoistas, éramos bem mais do que se diz, embora bem menos do que pensávamos, e tínhamos um programa: libertar o país do fascismo, derrotar o colonialismo, destruir as bases da opressão capitalista, e, no fim, começar a construir uma sociedade mais feliz e igualitária, sem malfeitores ou parasitas. O inimigo principal era pois a burguesia, o colonial-fascismo e a PIDE. A seguir, vinham os reformistas, que identificávamos, algo exageradamente, com uma mescla de social-democratas, republicanos caquéticos, pequeno-burgueses hesitantes e comunistas pró-Moscovo. Na base da escala, e para honrar a origem estalinista que partilhávamos (com o querido camarada Lavrentiy Beria nos corações), estavam os trotskistas. A sua presença era no entanto reduzida a estereótipos sobre os exageros das preocupações teóricas e a mania congénita do fraccionismo, como aquele que dizia que onde existiam dois trotskistas o debate conduzia inevitavelmente ao surgimento de três tendências. Pura ilusão a nossa, que não olhávamos – por motivos de natureza conspirativa, obviamente – para os nossos próprios pés sectários. A um antigo camarada que há dias se referia com admiração ao mapa do maoismo em Portugal que o Miguel Cardina publicou no seu recente livro e o Ípsilon desta semana integra, com pequenos erros, apenas na edição para tablets (ver aqui), só me ocorreu dizer: «É de fazer corar de vergonha qualquer trotskista!»

      Apontamentos, História, Memória

      O prémio (mais um)

      O prémio

      Agradeço ao Delito de Opinião o ter-me citado (com direito pois a uma honrosa menção) na escolha do «blogger do ano» de 2011, ganha com toda a justiça pela Ana Cristina Leonardo, da Meditação na Pastelaria (e mais acidentalmente do Vias de Facto). Destes prémios, dependentes apenas do interesse e da opinião completamente subjetiva de rostos identificados, e isentos de chapeladas, eu gosto. Dos outros não. Mesmo quando os «ganho».

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        Upgrade da imaginação

        A máquina de escrever de Nietzsche

        De acordo com The Iron Whim: A Fragmented History of Typewriting, do canadiano Darren Wershler-Henry, Mark Twain e Friedrich Nietzsche serviram-se com alguma desenvoltura de máquinas de escrever. Daquelas primitivas, ruidosas, difíceis de manipular e cheirando a lubrificante. A verdade é que sempre imaginei qualquer deles a escrever servindo-se com afinco de delicadas penas de pato, o primeiro numa varanda ensolarada à beira do Mississipi, o alemão de Röcken sentado num calmo, soturno e silencioso gabinete, algures entre Sils Maria e Rapallo. Preciso por isso de recorrer a um upgrade parcial da imaginação.

          Apontamentos, Etc., Olhares

          Islão e direitos humanos

          Tariq RamadanNão conheço, a não ser por alusões laterais e três ou quatro leituras-relâmpago, o trabalho de Tariq Ramadan, o cidadão suíço, muçulmano praticante e professor de Estudos Islâmicos Contemporâneos em Oxford, que é também visitante em instituições académicas do Qatar, de Marrocos e do Japão. Por isso, falar aqui sobre o seu trabalho académico parece-me imprudente e de evitar. Sei do lugar importante que desempenha no processo de compreensão de um islamismo ocidental, ou mais especificamente europeu, distinto daquele que, emergindo de forma mais direta da sua matriz histórica, é praticado, sob diferentes rostos, no Médio Oriente e em outras paragens mais a sul e a leste. Foi em parte esta atitude de autonomia cultural, associada à crítica dos regimes islâmicos ditatoriais, que fez com que, até há pouco tempo, fosse considerado heterodoxo e persona non grata em países como a Tunísia, o Egito, a Arábia Saudita, a Líbia e a Síria. Ramadan estará nesta quinta-feira, dia 5, em Lisboa, na Fundação Gulbenkian, onde ao final da tarde proferirá uma conferência pública. (mais…)

            Apontamentos, Atualidade, Democracia, Olhares

            A contar até doze

            Estou a ficar preocupado. Em todos os finais de ano, nas resenhas de obituários que acompanhavam os suplementos dos jornais e das revistas, encontrava sempre mortos relevantes de cujo passamento não me havia apercebido ao longo das restantes cinquenta e uma semanas. Ocupado com os ritmos ardentes, com os momentos e os pormenores, esquecera as partidas de alguns dos notáveis, ou dos notados, cuja vida pública algures havia tocado à tangente o meu modo de tomar consciência do tempo. Este ano, não, nem um só dos admiráveis recém-falecidos escapou à minha atenção. Quando começamos a olhar em excesso para as páginas das necrologias, isso quer dizer, creio, que estamos a ficar velhos ou a precisar de férias. Ou de nos sintonizarmos noutro comprimento de onda.

              Apontamentos, Devaneios, Etc.

              Natal tramado, porém Natal

              Natal 2011

              Tenho amigos que quando se aproxima o Natal procuram agir como se ele não existisse. Retiram-lhe a maiúscula, desejam apenas «festas felizes», ou adiantam os votos de «bom ano», deixando às vezes cair um levemente irónico «cuidado com os doces!». Mas do Natal como festa procuram não falar, talvez para se distanciarem dos rituais da Igreja da qual um dia se afastaram. Ou por transportarem um sentimento de culpa pela sua condição de atávicos herdeiros da matriz judaico-cristã. Ou ainda porque a festa natalícia lhes recorda enfadonhas reuniões de família nas quais os ressentimentos do ano impunham longas horas de hipocrisia coletiva. Poderá até ter ocorrido no seu passado uma mal sucedida relação com o Pai Natal e as suas renas. Mas Natal é Natal, o dia escolhido pelos seguidores de Cristo para simbolizar uma ideia de fraternidade e de modéstia que é mais humana do que divina. No que me toca, sendo agnóstico – e até os ateus são agnósticos – continuo a comemorá-lo como um dia especial, acompanhado de peru e vinho tinto, bolo-rei e rabanadas, prendas e efeitos de luz, mas também pela esperança, como acontece desde que, na infância, fugia da mesa da consoada e ia olhar para o céu na procura ingénua de um movimento diferente dos astros. Assim continuará, aliás, a acontecer, ainda que num eventual caso de proibição governamental tenha de praticar a desobediência cívica. Manter-se-á uma altura do ano, talvez um pouco dolorosa por causa dos que faltam, no qual penso um pouco mais nos outros. Principalmente nos que passam frio e fome, ou são silenciados e perseguidos, ou vêm o seu futuro a andar para trás. Desejo um Bom Natal de 2011 a quem se dá ao trabalho de me acompanhar deste lado da jornada. Que apesar de tudo o gozem o melhor possível, pois se as coisas piorarem, como deverão piorar, assim escreveu Nicolau Santos no Expresso, «ainda vamos ter saudades dele».

                Apontamentos, Olhares

                Anjos da paz dos lares

                anjos

                No meio das propostas surpreendentes que todos os dias chegam à minha caixa do correio-e, uma mais recente, enviada por uma firma de detectives brasileiros, garante resolver o problema de quem se possa sentir «desconfiado que está sendo traído pelo e-mail ou bate-papos online». Nela se avisam também os potenciais clientes de que não vale a pena tentar tratar com a empresa de assuntos vulgares, de reduzida magnitude social, como fraudes financeiras ou o roubo de cartões de crédito, uma vez que só aceitam «serviços para investigação sobre adultério e infidelidade na Internet». Tratar-se-á com toda a probabilidade de um conjunto de pessoas de elevadíssimos princípios morais, profundamente zelosa da paz dos lares e da preservação compulsiva da família.

                  Apontamentos, Devaneios, Olhares

                  O professor de latim

                  «Quosque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? Quam diu etiam furor iste tuus nos eludet?» («Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência? Até quando teremos nós de suportar o teu escárnio?») Lembrei-me hoje, por via de uma daquelas figurinhas que nos cabem na administração paroquial ou continental da coisa pública, do velho professor de latim e do seu Cícero. Abria muito os braços, e mais ainda as mãos, e recitava de cor parágrafos completos da agastada e furiosa Oratio in Catilinam. Com tal ênfase que fechava sempre a última frase num violento ataque de tosse. A seguir acendia um cigarro Porto, produzia sucessivos anéis de fumo, e calava-se durante dois ou três minutos enquanto nos recompúnhamos dos efeitos da onda de choque verbal e do mais puro terror. Pensando no prazer que daria responder-lhe na mesma moeda.

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                    Apontamentos, Etc., Olhares

                    As últimas palavras de Nelson

                    Nelson

                    De Horatio Nelson (1758-1805), o almirante britânico que derrotou a esquadra franco-espanhola na batalha de Trafalgar, apesar de nela haver perdido a vida – confirmando então uma supremacia da Royal Navy que haveria de manter-se por mais de cem anos – contam-se pelo menos três versões, alegadamente testemunhais, daquelas que terão sido as suas últimas palavras. De acordo com o cirurgião William Beatty, que o assistiu nas últimas horas, terá repetido insistentemente, até perder a consciência: «Thank God I have done my duty». Já Alexander Scott, o capelão do seu navio-almirante, assegurou que Nelson terá dito antes: «Drink, drink. Fan, fan. Rub, rub». Por fim, alguns dos presentes contaram em algumas ocasiões que, referindo-se a Thomas Hardy, capitão do Victory e seu grande amigo, terá exclamado: «Kiss me, Hardy!». Jamais se conhecerá a verdade, mas qualquer das variantes serve para ler de diferentes modos a biografia e a personalidade de Lord Nelson. Podemos assim optar por um dos desfechos e, em função dele, reescrever todo o enredo.

                      Apontamentos, Devaneios, História

                      A «incidência contributiva»
                      segundo o Xerife de Nottingham

                      No mito de Robin dos Bosques o Xerife de Nottingham era o executante local das exações fiscais determinadas pelo príncipe João, o usurpador do trono do bom mas desaparecido rei Ricardo. Como sabemos que os mitos são sempre uma representação formal de atitudes humanas consagradas pela repetição, não é difícil encontrar, muitos séculos depois do seu desaparecimento, pequenos e médios xerifes que são fiéis continuadores da pura maldade aplicada em nome de quem manda «porque pode».

                      Falo apenas de ilegalidades praticadas arbitrariamente pelos executantes do Estado. Por exemplo, da forma como, recentemente, numerosos contribuintes portugueses foram forçados a aguentar as consequências de execuções fiscais e a pagar coimas por uma ausência de pagamento de impostos devidos da qual não haviam sido previamente informados. Simplificando: não se avisa um bom número de pessoas que está devedor e assim, através do pagamento da inevitável multa, aumentam-se exponencialmente as receitas do Estado. Presumo que tal comportamento valha, aos xerifes espertalhaços que o conceberam e aplicaram, uma merecida comenda. Ou, no mínimo, um louvor. (mais…)

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                        Num filme neorealista

                        Enzo Staiola (Bruno) e Lamberto Maggiorani (Antonio)
                        em «Ladrões de Bicicletas», de Vittorio de Sica (1948)

                        Na minha escola primária, nós, as crianças – apenas rapazes –, dividíamo-nos em quatro grupos que se distinguiam pelos pés. Um, pequeno mas muito expressivo, chegava à escola descalço, mesmo de inverno, usando sacos de sisal para se proteger da chuva e do frio da manhã, e todos os colegas sabiam que aqueles eram os filhos dos pobres, sobrevivendo no limiar da miséria e da caridade. No extremo oposto, outro grupo, igualmente pequeno, usava sapatos de sola de cabedal, sempre a reluzirem e com aspeto de novos: era o dos que vinham de famílias com mais posses e melhores ligações, ou que se faziam passar por tal. No meio, um segundo conjunto de alunos usava calçado velho, de baixa qualidade, por vezes tamancos de madeira. Compunham-no os filhos da gente humilde mas aprumada, que fazia, sabiam Deus e o Diabo como, por se manter à tona, no rebordo da «pobreza honrada». E havia ainda um terceiro, ao qual eu pertencia, naquela escola talvez o maior de todos eles, que era composto pelos mais novos membros de uma classe média que via na poupança a única forma de encarar um futuro sempre imprevisível. Usávamos sapatos apresentáveis aos domingos e dias santos de guarda, que as nossas mães engraxavam com atenção e carinho, reservando para outros dias o calçado mais usado, reforçado com «protetores», pequenas peças de ferro ou de chumbo que serviam para prolongar a vida das solas e das capas dos saltos. Ontem, pela primeira vez em muitos anos, encontrei na vitrina de uma velha loja «protetores» à venda. Fiquei na dúvida sobre se seriam um vestígio arqueológico recuperado ou um sinal dos tempos. Ou se sempre ali estiveram e só agora, condicionado pela realidade, eu reparei neles.

                          Apontamentos, Cinema, Memória

                          Nem mesmo aos piratas

                          Sinto algumas vezes pelos piratas informáticos uma simpatia idêntica àquela que tenho pelos ladrões do mar. Imagino-os sempre a navegarem num oceano sem lei, procurando, pela via insidiosa do ataque inesperado, bárbaro mas de peito aberto, regado a rum ou cerveja, noitadas e desespero, a vingança frente aos poderosos que os condenaram à errância, à margem e à solidão. Vejo-os pois, no fundo, como depositários de uma certa nobreza, pilhando o oiro dos galeões porque os seus proprietários o roubaram primeiro, impondo, sobre o destino das ondas (ou do éter), um padrão moral que faz deles arautos desafinados, mas arautos, de uma certa justiça poética. Custa-me por isso vê-los rasteiros, velhacos, quando descem ao nível dos que desejam combater. Foi o que me pareceu encontrar na iniciativa dos hackers que há dois dias piratearam a página oficial do Partido Socialista, servindo-se do ato para um ataque vil, grosseiro, pessoal, e não para o combate ilegal mas frontal e com um objetivo percetível. Darem-se a tanto trabalho, a tão arriscada abordagem, para mostrarem «o extrato de uma conta ligada à família de José Sócrates» é como tentar matar alguém pelas costas com um tiro de pólvora seca. Sem honra ou sentido. Tal inépcia não se pode perdoar. Nem mesmo aos piratas.

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                            Mãe-Rússia

                            A sociedade russa tem um problema sério com a democracia. Mesmo tendo perdido parte do eleitorado, o Partido Rússia Unida, que apoia o sinistro Putin, obteve 49,6% dos votos expressos nas eleições legislativas para a Duma. Em segundo lugar ficou o pré-jurássico Partido Comunista, de Guennadi Ziuganov, que alcançou 19,7%. E em terceiro, com 12,2%, o Partido Liberal Democrata, na verdade da extrema-direita nacionalista, dirigido pelo «Le Pen russo», Vladimir Jirinovski. É só fazer as contas: 81,5% dos votantes – e a estes poderiam ainda somar-se algumas franjas vindas de outras forças minoritárias – aspiram a um governo monolítico e autoritário, revelando um menosprezo olímpico pelas virtualidades de uma democracia que, na realidade, jamais conheceram. Intimida constatar que uma boa parte do equilíbrio mundial passa ainda por este universo opaco, administrado por bandos de déspotas ou de candidatos a tal atividade. E que, no país onde, inventado por Piotr Boborykin, nasceu o conceito romântico de intelligentsia como espaço social para a atividade crítica e criativa dos intelectuais, a liberdade é ainda, fundamentalmente, uma quimera, um horizonte literário deixado ao abandono pelos cidadãos. Ou pela esmagadora maioria deles. Foram muitos, muitos anos de «engenharia das almas».

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                              O fim da grande máquina

                              Percebi hoje como carrego comigo qualquer coisa de excessivamente antigo ao receber, através da crónica mensal que Pedro Mexia escreve para a revista Ler, a informação de que a empresa Godrej & Boyce, de Bombaim, última fabricante em atividade de máquinas de escrever, resolveu «descontinuar» o produto. Apesar de já terem passado duas décadas e meia, ainda recordo o tormento que foi passar a limpo na minha Olivetti portátil azul, para entregar na manhã seguinte, as duzentas e tal folhas da tese de mestrado – ou melhor, do seu equivalente – sobre as práticas ostentatórias do poder absoluto no tempo do rei João V. Particularmente daqueles momentos, ao chegar ao fim da página, em que verificava não caberem já as notas de rodapé e tinha de começar tudo de novo. Antes disso, muito antes, na poderosa Underwood do meu avô (ou seria uma Royal?), a escrita «a limpo» em teclado HCESAR dos primeiros textos públicos destinados ao pequeno jornal local. E antes ainda, no mesmo engenho, o preenchimento, por encomenda do meu pai que mantinha um biscate suplementar como correspondente bancário, dos avisos destinados aos clientes devedores nos quais se comunicava a proximidade do vencimento dos títulos de crédito enviados pelo sacador. É estranho mas até dessa tarefa monótona sinto, agora que desapareceu para sempre a possibilidade de a repetir, uma certa falta. Daquele barulho tac-tac tac-tac, sim, e do caráter tátil da ação. Mas, mais ainda, do aroma único, para mim aroma a infância, do óleo que lubrificava a engrenagem e do rolo da fita que sujava os dedos e marcava o papel a vermelho e a negro.

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                                O Pai Natal não paga portagens

                                Percorro as boulevards do hipermercado suburbano e confirmo o que havia intuído ao longo dos últimos meses: é já nítida a redução do volume e da qualidade da oferta comercial, particularmente nos artigos supérfluos (telemóveis, acessórios, joias, álbuns ilustrados, sistemas de som e imagem). Mas igualmente em ramos muito mais difíceis de contornar, como o vestuário, os materiais para reparações domésticas ou mesmo a alimentação. Os livros, vivendo no país em que vivemos, esses continuam mais ou menos na mesma, comprados fundamentalmente pelos lunáticos que os consideram bens de primeira necessidade. Impressiona, no entanto, verificar o florescimento contínuo das lojas de brinquedos e de roupa para crianças. Serão elas, com toda a certeza, as últimas a sofrerem as consequências da recessão. Afinal tudo fazem sempre os pais e os avós para conservarem os seus meninos no mundo de aventura e ilusão dentro do qual nada de muito mau ou tormenta alguma parecem acontecer. E apesar de ser funcionário público o Pai Natal ainda não paga portagens ou desconta para o IRS. Pelo menos por enquanto.

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                                  Ceaucescu em solo absoluto

                                  Nicolae Ceaucescu e Kim Il-sung em 1980

                                  Só esta semana vi as três horas ininterruptas da Autobiografia de Nicolae Ceaucescu, o filme de Andrei Ujică, realizado em 2010, que explora a imagem do ditador romeno numa montagem que recorreu a mais de mil horas de películas, em grande parte não utilizadas pela propaganda, existentes nos depósitos da Televisão Nacional Romena e do Arquivo Nacional de Bucareste. A expectativa de assistir a um desfile documentado de crimes de Estado e de maquiavelismo prático frustrou-se em poucos minutos. Mas aquilo a que pude assistir não foi menos violento e de certa maneira penoso. Seguindo a voz e o olhar que são os do próprio Conducator, os da construção do seu universo pessoal ao longo de duas décadas e meia de autoridade incontestada, percebemos como é fácil fabricar uma versão completamente distorcida da realidade quando o poder absoluto, a interminável bajulação, a fantasmagoria de uma conceção unilateral do mundo e da história, afastam da realidade o dirigente que vive exclusivamente dentro das suas margens, projetando-o num abismo dourado do qual já não pode sair. E percebemos também a lógica ilógica da construção de um discurso dogmático e previsível, projetado como voz do povo e em nome do povo, ao mesmo tempo que o transforma numa amálgama de escravos empobrecidos e mudos. Um documentário que assusta e no entanto elucida.

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                                    Dia da vergonha

                                    Deixei na altura exata uma nota de indignação no meu mural do Facebook, mas fica aqui um registo menos efémero. Hoje, 30 de Novembro de 2011, ao final da manhã, quando a maioria PSD-CDS aprovou em votação na Assembleia da República o Orçamento para 2012, aquele que marca a pauperização acelerada de milhões de portugueses, o princípio do derrube daquilo que resta do Estado social e a submissão aos ditames políticos do eixo franco-alemão, fê-lo em euforia, batendo as palmas após a divulgação do resultado. Um vergonhoso sinal de insensibilidade e de traição que define quem o praticou.

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