Arquivo de Categorias: Atualidade

Resgate e redenção

Israel

Por onde quer que distribuam a sua acção e a sua influência, é própria de todas as religiões – mesmo das seculares – a vontade de determinar um ethos, identificado com o bem comum e a moral individual, capaz de justificar a prescrição de certas atitudes e a proscrição de outras. As religiões do livro em particular, todas elas, têm séculos de experiência neste campo. E é nesta tradição que se pode encaixar a actividade da organização não-governamental israelita JONAH – Jews Offering New Alternatives to Homosexuality – que procura prevenir e actuar sobre pessoas que sintam «atracção por outras do mesmo sexo». Como sempre, a intenção declara-se benévola: aliviar o tormento de quem sofre a sua «anormalidade», bem como o dos entes queridos destas pessoas, que com elas têm de partilhar esse lado «triste» e doloroso da vida. Afinal, declara na página oficial da JONAH o rabi Shmuel Kamenetsky, «nada existe que a Torah proíba e o ser humano não seja capaz de controlar.» Mudando de hábito de acordo com o lado onde nasce o sol, esta gente vive num mundo cerrado que roda a uma velocidade lenta, mas nem por isso deixa de procurar impor onde pode um perigoso higienismo.

    Atualidade, Democracia, Olhares, Opinião

    Os ricos que paguem a crise

    Capitalismo

    O PCP pretende que a Assembleia da República produza um quadro legislativo capaz de permitir a «criminalização do enriquecimento ilícito». Já em tempos o tentou sem sucesso, mas considera agora, «tendo em conta que a evolução e a própria vida», que existem condições para que a proposta seja aprovada. Não estou em condições de comentar a substância jurídica desta iniciativa, mas de uma coisa estou certo: naquilo a que chamamos um estado de direito ninguém pode ser julgado duas vezes, e duas vezes condenado, pelo mesmo crime. Se o enriquecimento é ilícito, existiu antes dele um acto, ou existiram diversos actos, provavelmente conjugados, que determinaram essa ilicitude. Os quais deverão, sem qualquer dúvida, ser investigados, julgados e punidos de uma forma rápida, eficaz e exemplar. Am I wrong? É que de outra forma poderemos antecipar a culpa e retornar aos tempos – por certo saudosos para os presumíveis proponentes – da abjecção proudhoniana da propriedade, da punição dos kulaks pelo facto de o serem ou da criminalização discricionária dos «sinais exteriores de riqueza».

    Adenda: No seu estilo próprio, sempre com algo de agreste que o distingue dos outros e lhe confere um sal que aprecio, Nuno Ramos de Almeida comenta este post apodando de «santa ignorância» a ausência de perspectiva que, na sua opinião, o terá determinado. Não vou contrariar o juízo, obviamente, até porque nem o Nuno sabe aquilo que eu sei nem eu domino tudo aquilo que ele conhece, mas de uma coisa pode estar certo: tenho os olhos suficientemente abertos, e experiência que baste, para distinguir a declaração de necessidade de legislação própria e ágil contra os crimes «de colarinho branco» – com a qual essencialmente concordo – da vontade indómita, presente em certos discursos, de mandar toda a gente com mais de cinco zeros no saldo bancário para as galés. É esta, pelos perigos que comporta, que me repugna. Quanto ao epíteto de «anti-comunismo» lançado sobre a intenção, talvez seja um bocadito exagerado: pelo menos tanto quanto o anátema de «anti-socialismo» lançado sobre quem apenas não aprecie José Sócrates e os seus queridos muchachos.

      Apontamentos, Atualidade

      Whadda mistaka da maka!

      Bertorelli

      Não deixa de ser curiosa a forma como um certo tipo de glosador da realidade circundante – da mesma espécie que correu em passo acelerado a acusar o Bourbon madrileno de sobranceria quando este sugeriu publicamente a Hugo Chávez que simplesmente deixasse os outros falarem -, ignore agora, ou refira só de raspão, a frase pronunciada por Isabel de Inglaterra quando esta se espantou, durante a régia recepção aos políticos do G20, com o tom vagamente tumultuoso, ou no mínimo alterado para o ambiente tranquilo do Palácio de Birmingham, da voz do cavaliere Berlusconi. Como este não é Chávez, agora o escândalo morreu à nascença e os exaltados de serviço deixaram as acusações no saco. O que até é injusto, dado fazer todo o sentido estranhar-se que uma figura como Isabel II ignore os traços dominantes de um dos personagens centrais de Allo, Allo!, uma das melhores séries de comédia para a televisão produzidas no interior dos seus reais domínios. Refiro-me ao sonoro Capitão Bertorelli, obviamente, que o estrepitoso Don Silvio descaradamente plagia.

        Atualidade, Opinião

        Poética social

        Gente

        Intimidade Cultural, subintitulado Poética Social no Estado-Nação, é uma colectânea de ensaios publicada entre 1986 e 1995 pelo antropólogo Michael Herzfeld, um professor da Universidade de Harvard que há cerca de trinta anos vem pesquisando e escrevendo sobre os caminhos da Grécia contemporânea. Se existe uma orientação comum aos diversos artigos compilados, ela traduz-se na tentativa de compreender a forma como aquilo a que chamamos «valores» se incorpora na experiência das relações sociais. É neste âmbito que se coloca o que Herzfeld chama aqui de «intimidade cultural», um lugar do espaço colectivo onde os valores que os indivíduos e grupos consideram como seus se cruzam e interagem com os demais. Esta intimidade cultural apoia-se, por sua vez, numa «poética social», observada como «apresentação criativa do eu individual», e que se apresenta aqui como expressão da «função poética da linguagem»: a possibilidade, inscrita na língua e na cultura de cada um, de jogar a todo o instante com os códigos que são apropriados e emitidos pelos outros. É também abordada neste livro a integração do Estado neste processo, uma vez que este é sobretudo «um conjunto de instituições e de estratégias que se apoiam nos mecanismos sociais mais quotidianos», e que, precisamente por isso, não pode ignorar as crenças e os mitos, os localismos e as segmentaridades, as identidades e os estereótipos. Uma reflexão estimulante, que nos deixa ver para além do realismo político que do mundo em volta apenas capta o óbvio e quase sempre o tristonho. [Trad. de Marcelo Félix, Edições 70, 368 págs. Originalmente na LER de Março.]

          Atualidade, Olhares

          O troiano chinês

          Webchina

          Sempre tão ágil e zeloso a amordaçar a informação livre na Internet, o governo chinês cala-se perante a descoberta de uma rede de espionagem electrónica, sediada no seu território, que se tem dedicado a violar computadores de ministérios, embaixadas e associações de diversos países ocidentais e asiáticos. Não por um acaso, algumas destas associações têm tornado público o seu apoio ao respeito pelos direitos nacionais do povo tibetano, e pelo menos duas embaixadas portuguesas contam-se também entre os alvos atingidos pelos ciberpiratas chineses. O objectivo era instalar maliciosamente, em numerosos computadores, software capaz de actuar como um cavalo de Tróia, identificando referências ao Dalai Lama e encaminhando-as para servidores sediados na República Popular da China.

          Preparemo-nos agora para a procissão do costume: o governo chinês irá primeiramente ficar em silêncio, depois negará qualquer intervenção no caso, e finalmente encontrará um qualquer funcionário de terceiro ou quarto escalão que possa servir de bode expiatório. Será então que os governos dos países afectados pela intrusão irão aceitar as explicações e curvar-se diante do governo imperial de Pequim. É claro que os chineses não são os únicos a fazerem isto e ainda há pouco tempo se soube que o governo alemão andou a navegar pelas mesmas águas lamacentas. E, evidentemente, há muitos anos que os americanos tomam medidas neste campo. Mas o gesto torna-se particularmente agressivo e repelente quando parte de um governo – ninguém acreditará que foi a «sociedade civil» chinesa que produziu tais hackers – que se dedica a controlar e a censurar abertamente a Internet, reprimindo com punho de aço o menor gesto de autonomia informativa dos seus cidadãos.

            Atualidade, Cibercultura

            Lukashenko e as coelhinhas-tuga

            Playboy

            Durante a manhã considerei a possibilidade de escrever um post sobre a reunião dos blogueiros apoiantes dos grandes comunicadores Kim Jong-Il e Lukashenko, mas logo a minha atenção se desviou para a banca dos jornais. Como previsto, já lá estava em exposição o primeiro número da Playboy portuguesa. Convencido de que estava a ser espirituoso, disse à vendedora qualquer coisa como «temos finalmente a Playboy connosco». Mas esta não mostrou ter descortinado a alusão à conhecida frase do doutor do Vimieiro e respondeu com um «pois» que me pareceu estranhamente frio. A situação pareceu piorar quando se apercebeu de que eu queria mesmo comprar a revista. E não fechámos o negócio sem que ela devolvesse o troco da nota de cinco euros como se eu fosse portador do vírus da peste bubónica.

            Mas a compra valeu bem o esforço e a desonra. A revista tem qualquer coisa de sadio e lustroso, com lugar garantido em antecâmara de consultório ou no porta-luvas de um taxista. Trabalho honesto, asseado, sem nada a ver com aqueles exemplares americanos, obtidos à socapa e em segunda mão, com os quais numa certa fase do passado aprendi, como dizia o Sr. Alberto Alfaiate, um pouco das «coisas da vida». Mas estas coisas de vida são, de facto, menos peludas, avantajadas e concupiscentes que as originais, nada que perturbe as famílias. E se alguém duvida é porque não folheou as páginas da novel revista. Ainda me enchi de esperanças quando na Carta do Director li uma frase na qual este aliciava o leitor com um «vamos a isto», mas cedo me desenganei sobre a possibilidade de existirem sugestões menos próprias. Afinal, na Playboy portuguesa fala-se dos sapatos da Madonna sem qualquer assomo de fetichismo e de fotografias tiradas a cheeseburgers por David La Chapelle sem qualquer vislumbre de crítica ao higienismo galopante. Anuncia-se inocentemente que 62% dos homens mais ricos do planeta se casam com mulheres de cabelo castanho e que 4 de cada 10 preservativos vendidos são adquiridos por senhoras. A Conselheira – cujo nome por momentos me pareceu evocar umas certas fantasias – desalenta logo qualquer um ao aconselhar à leitora Paz Diego, de Málaga, para «basicamente dizer ao seu marido não levar a questão a peito, até porque o peito é seu.» E ao pedido «gostava de perceber como funciona o sexo em mundos virtuais como o Second Life», a senhora dos conselhos não respondeu nada que se percebesse. Emocionante poderia ser a entrevista ao futebolista Costinha, mas quando li a pergunta sobre se este «chegou a privar com a realeza monegasca», resolvi passar à frente. Em boa hora, admito, porque logo de seguida dei com as 18 páginas (e um desdobrável) com fotografias de Rute Penedo, uma loira com implantes apresentada como «mulher de Artes». Não pude, no entanto, ver a grande reportagem com atenção porque a senhora da mesa do lado começou a olhar para mim com uma expressão esquisita. Por isso – admito que um pouco cobardemente – guardei a leitura da reportagem com Mónica Sofia, a «estrela da capa», para uma melhor oportunidade.

            Acossado pelos olhares da matrona, tive pouco tempo para folhear as páginas que faltavam e me raspar dali. Ainda li uma citação de Bertrand Russel pressagiando a extinção da raça humana no final do século passado. E outra de John Wayne onde este declarava acreditar na supremacia branca «até que os negros sejam educados para atingirem um estado de responsabilidade». Passei os olhos por uma frase de Pedro Paixão na qual o escritor declarava peremptoriamente que «o amor é um trabalho pelo qual se tem de lutar e o que já se conseguiu dissipa-se no passado». E foi nessa altura que percebi ter passado mais de uma hora a tomar estes apontamentos e que já não tinha tempo para escrever o tal post sobre a reunião dos blogueiros apoiantes dos grandes comunicadores Kim Jong-Il e Lukashenko.

              Atualidade, Etc.

              Omid

              Morreu na quarta-feira passada Omid Mir Sayafi, um blogger iraniano de 25 anos condenado a 30 meses de prisão por insultos ao ayatollah Ali Khamenei. O advogado de Omid – que pouco antes de ser detido definia o seu blogue como de natureza essencialmente cultural – disse à AFP que «ainda não existem documentos oficiais, mas os responsáveis da prisão afirmam que Mir Sayafi se terá suicidado». O governo de Teerão lançou entretanto uma campanha contra bloggers e internautas, acusados de escreverem textos hostis às autoridades e aos valores islâmicos. E os Guardas da Revolução anunciaram em comunicado uma intervenção enérgica para «desmantelar os mais diversos sites anti-religiosos, obscenos e contra-revolucionários», que publicam «artigos contra o regime islâmico», «os valores religiosos» e «histórias sexuais». Claro que os EUA são apontados como os primeiros responsáveis pela iniciativa dos internautas «degenerados», combatidos sem piedade pelos heróicos funcionários do Centro de Delitos de Internet dos Guardas da Revolução. Nem outra coisa seria de esperar.

                Atualidade, Cibercultura, Democracia

                Degustar pizza em Pyongyang

                «Os cozinheiros italianos foram levados para uma base militar de alta segurança onde perceberam que a missão seria ensinar três oficiais do exército a confeccionar pizzas». «O nosso povo também tem de ter acesso a esta comida conhecida internacionalmente», disse na ocasião ao jornal japonês Chonson Simbo o gerente do restaurante, citando o próprio Kim Jong-Il. Para saber mais, siga-se a notícia do Público online sobre a abertura de uma pizzaria em Pyongyang.

                  Atualidade, Devaneios, Recortes

                  N’Gola ritmo

                  Angolanos

                  A propósito da visita a Portugal de José Eduardo dos Santos, presidente do MPLA e chefe supremo da clique cleptocrática que neste momento dirige um grande país onde a democracia, a transparência e o respeito pelos menos protegidos tardam em chegar, parece-me aceitável a posição do governo recebendo educadamente o chefe de Estado angolano e tratando com ele de uma forma normal. Afinal, com mais de 100.000 portugueses a trabalharem em Angola e muitas centenas de empresas e instituições envolvidas em negócios e projectos, com a grande tradição cultural e (assumidamente) histórica partilhada pelos dois países, seria de uma irresponsabilidade total insistir no carácter não-democrático e corrupto do poder instalado em Luanda voltando as costas aos seus circunstanciais porta-vozes. Mas é também justa a posição do Bloco de Esquerda ao recusar participar na parte teatral da visita: não estando no poder, o Bloco pode assumir uma atitude de princípio que exprime, tenho a certeza, aquilo que a maioria dos portugueses verdadeiramente pensa. Não faz sentido, pois, a rábula de Vital Moreira referindo-se à atitude frontal dos bloquistas como «falta de sentido de Estado». Nem, uma vez mais, o silêncio conivente do PCP, que não precisa de mostrar «sentido de Estado» mas ainda pensa o MPLA como uma espécie de «partido-irmão» subtropical que é necessário proteger.

                    Atualidade, Opinião

                    Contra a censura na Internet

                    Censorship

                    Hoje, 12 de Março, é o Dia Mundial contra a Cibercensura. Segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras, os 12 Inimigos da Internet – Arábia Saudita, Birmânia, China, Coreia do Norte, Cuba, Egipto, Irão, Síria, Tunísia, Turquestão, Uzbequistão e Vietname (a Bielorrússia, o Zimbabwe, e outros que tal, estão à porta para entrarem neste triste clube) – «transformaram a sua Internet numa Intranet, procurando impedir as suas populações de acederem a informação online considerada ‘indesejável’». Pode descarregar aqui (em formato pdf) o relatório detalhado Internet Enemies de 2009.

                      Atualidade, Cibercultura, Democracia

                      O meu lado geek

                      Jobs e Gates

                      Em tempos discuti quase até à exaustão se a Apple era o Jardim das Delícias e a Microsoft tinha a face horrenda de Behemoth. Ou se as coisas se passavam rigorosamente ao contrário. Hoje, fora dos círculos que avaliam as grandes fortunas do mundo, parecem-me um tanto despropositadas as pequenas e médias batalhas dos adeptos de Mr. Jobs com os seguidores de Mr. Gates. Deixei-me de maniqueísmos: trago sempre comigo um Apple iPod Classic, daqueles de 120 Gigas, a luz dos meus dias que me ilumina as noites, mas aborrece-me a canonização do Apple iPhone que se encontra a decorrer. Já falei do assunto quando da saída da engenhoca. Agora limito-me a recomendar o meu fiel companheiro, que bate aos pontos, em praticamente tudo, o produto da Apple. É da HTC, responde por Touch HD, vem equipado com o sistema operativo Windows Mobile 6.1 e um ecrã de quase 4 polegadas. Mais agenda, telefone, álbum de imagens, processador de texto, folha de cálculo, e-mail, Internet (incluindo o Twitter), dá-me música, tem rádio e gravador de som, tira fotografias e regista vídeos, reproduz filmes, dá para ligar directamente ao YouTube, fala-me do estado do tempo em tempo real, tem GPS mais Google Maps, e por aí fora. Até fala sozinha, a coisa linda, vulcânica debaixo de uma capa de sobriedade. Uma só desvantagem, que eu não sou faccioso: a câmara de 5 Megapixéis não tem flash. Mas a do iPhone também não.

                        Atualidade, Cibercultura, Oficina

                        Sopa

                        Felizmente Leila Deen, uma simpática activista do grupo de acção directa Plane Stupid, não vive em Pequim, Havana ou Minsk e pode começar por atirar uma espécie de sopa verde à cara de um ministro falando de seguida, na maior das calmas, para as estações de televisão.

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                          Atualidade, Democracia

                          Insolente à maneira de Xerxes

                          Xerxes e Leónidas

                          Segundo notícia do Guardian, as autoridades iranianas, em comunicado lido por um conselheiro do presidente Ahmadinejad, investiram agora contra a indústria ocidental de cinema, que acusam de ter atacado injustamente o povo iraniano e a sua revolução. Ao mesmo tempo exigem que Hollywood peça «desculpas aos iranianos pelos insultos e acusações feitos nos últimos 30 anos». Uma vez mais, aquela que poderia ser uma crítica justa a perspectivas etnocêntricas, em forma de propaganda, que podem produzir maus resultados, transformou-se numa acusação agressiva e arrogante contra a liberdade de criação e de expressão nefastamente «ocidental» que o governo iraniano considera desprezível. Um dos exemplos apontados, acusado de ter descrito os persas como bárbaros e de ser «uma completa mentira», é o filme 300, de Zack Snyder – construído a partir da banda desenhada de Frank Miller e Lynn Varley, e, claro, do relato de Heródoto – cujo argumento se serviu do combate desigual, travado em 480 a.C. no desfiladeiro das Termópilas pelo rei Leónidas, acompanhado de três centenas de combatentes espartanos, contra as tropas de Xerxes, numericamente muito superiores, que haviam invadido a Grécia central.

                          Deve dizer-se que o filme, estreado nos inícios de 2007 e rapidamente proibido no Irão, ensaia principalmente um devaneio, com uma fortíssima carga plástica, sobre o lugar de Esparta num combate «pela liberdade» – embora na realidade Esparta fosse dirigida por uma oligarquia militarista – contra os ímpetos despóticos do rei dos persas. Um filme que incorpora personagens mágicos, violentos ou grotescos que mais parecem caricaturas do bestiário de Tolkien, e representa os medo-persas como chacais um tanto estúpidos, ora medonhos, ora efeminados, e sempre amorais. Para além disso, trata-se de uma obra graficamente concebida como uma espécie de jogo de computador – até a coreografia dos duelos e das batalhas acompanha muito de perto a sua mecânica feita de impulsos – que parece apenas mais uma daquelas experiências de cinema romanesco de aventuras, a tender, como milhares de outras do mesmo género, para o extremar da separação política entre bons e maus, heróis e vilões. Com os do lado de lá do Mar Egeu a desempenharem, naturalmente, o papel desagradável.

                          Percebe-se no entanto, pelo menos em parte, o «argumento» iraniano contra este filme, pois os espartanos eram gregos, e os exércitos gregos defrontaram durante séculos aqueles que se organizavam para lá da Anatólia para os combater. Num e noutro sentido: Ciro, Dario e Xerxes avançado para cá, Temístocles e Alexandre o Grande marchando para lá, num espadeirar longínquo que alimentou ressentimentos para muitos séculos. Tudo isso deixou um rastro profundo na memória colectiva. Porém, o que aqui Ahmadinejad verdadeiramente pretende agredir é o modelo de cultura ocidental que tem no mundo grego – ainda que neste os espartanos fossem uns párias, embora uns párias temidos – o seu torrão fundador.

                          A história é bem conhecida, mas pode ser relembrada. Tudo começou nos séculos VI e V a.C, quando, em poucas gerações, os gregos inventaram a tragédia, o debate democrático, a cultura científica, o relato histórico, a reflexão filosófica. Tendo a perfeita consciência de estarem a criar valores e liberdades que não existiam em mais lado algum. Aos restantes povos chamavam eles de «bárbaros» que não eram senão «todos os outros», aqueles que não falavam a língua grega e que não viviam como cidadãos, sem leis comuns e submetidos a déspotas. Foi esta noção de possuírem aquilo a que hoje chamaríamos uma identidade própria, mais humana do seu ponto de vista, o que de mais profundo os gregos legaram aos romanos e que, através destes, se espalhou depois pelas regiões «a Ocidente», isto é, do lado no qual o sol se põe para quem circula por terra e por mar em redor da península balcânica. Pelo lado de lá, a Oriente do Ocidente, principalmente nas áreas por onde os iranianos procuram hoje impor a sua hegemonia, distribuíam-se – a expressão foi usada por Marx antes de Weber a retomar – formas múltiplas de um execrado «despotismo oriental» que reduzia a grande massa dos seus naturais ao estado servil e, por vezes, dela se servia como máquina de guerra. Dois universos, ambos imperfeitos mas absolutamente opostos, com destinos históricos também eles contrários, padrões de desenvolvimento muito diversos e, ao contrário daquilo que um dia Montesquieu desejou, experiências de vida comum que se foram sempre confrontando. É este cenário, definido durante séculos com um vencedor um tanto arrogante e um vencido por vezes humilhado, que Ahmadinejad, insolente à maneira de Xerxes, pretende agora fazer reverter.

                            Atualidade, Cinema, Democracia, História

                            Onde fica a revolução?

                            Onde fica a revolução?

                            De acordo com um artigo publicado há menos de um mês no The Economist, e devido sobretudo ao rápido crescimento dos chamados países emergentes, pela primeira vez na História mais de metade da população mundial é composta por pessoas da classe-média. Mesmo vivendo em numerosos casos com dificuldades, pessoas que dispõem de automóvel, conta bancária, cartão de crédito, telemóvel, muitas vezes casa própria. Os «partidos da classe operária» estarão assim, por imposição da realidade, condenados a tornarem-se partidos de trincheira, exilados na nostalgia de um mundo que se perdeu e na recusa de um presente que lhes foge. Esperando que tudo piore e as chaminés voltem a fumegar, espalhando limalha e extremando atitudes, para poderem retomar o seu caminho redentor. Marx «regressa» na pior altura.

                            Créditos: JCN, através do Twitter

                              Atualidade, Opinião

                              Sinais de esperança

                              Capitalismo de Ficçao

                              Em O Estilo do Mundo. A vida no capitalismo de ficção, Vicente Verdú separa três modelos de capitalismo: o de produção, centrado na mercadoria, encerrado com a Segunda Guerra Mundial; o de consumo, rematado com a demolição do Muro de Berlim e apoiado na transcendência dos signos; e o de ficção, com o qual convivemos desde os começos dos anos noventa, que enfatiza a teatralidade e o espectáculo. A cada um deles alia sinais: primeiro o estrondo das máquinas industriais, depois os jingles dos anúncios comerciais, finalmente o cintilar dos engenhos electrónicos. Mas também estados de espírito: o capitalismo de produção era triste, o de consumo foi trivial, agora o de ficção é lúdico e enganador. Fundado no prazer, na sedução e no logro da imortalidade, define características preocupantes, como uma tendência homogeneizadora que os processos da globalização acentuam, uma infantilização dos costumes alargada a toda a vida, uma competitividade que desvaloriza o humano em detrimento do desejo de superação do próximo, de vitória sobre os outros. Detectam-se, todavia, alguns sinais de esperança, como a vaga de defesa dos particularismos e das identidades, o desenvolvimento das organizações humanitárias, o alargamento dos movimentos pacifistas, a emergência de um feminismo libertador, uma consciência ecológica sem precedentes. O capitalismo de ficção terá, afinal, inflamado o crescimento de factores que poderão levar à sua própria destruição. É este, pelo menos, o desejo de Verdú. [Trad. de Pedro Santa María de Abreu. Fim de Século, 248 págs. Originalmente na LER de Fevereiro.]

                                Atualidade

                                Alto preço

                                Debaixo do véu

                                «Ao mesmo tempo que se luta em defesa do véu islâmico no Ocidente, luta-se contra ele nos países de origem.» Na constatação deste paradoxo se resume o ponto de partida para O Preço do Véu. A guerra do Islão contra as mulheres, o livro militante de Giuliana Sgrena, a jornalista do Il Manifesto que em 2005 foi sequestrada por uma organização islamita iraquiana. A autora identifica rapidamente o objectivo do livro: «trazer à luz uma realidade pouco conhecida e pouco contada: a presença nos países muçulmanos de mulheres (mas também de homens) que se batem pelos seus direitos». Explorando, através do trabalho de reportagem e de diversas entrevistas, a situação das mulheres de países como a Tunísia, a Sérvia, o Iraque, o Irão, a Arábia Saudita, a Bósnia-Herzgovina, a Palestina, o Afeganistão, a Somália ou a Argélia, Sgrena procura mostrar de que forma o uso do véu representa, como símbolo mas sobretudo através do processo de negação objectiva do corpo que a sua imposição envolve, a opressão da mulher no mundo islâmico e o recente reforço de uma ordem acentuadamente masculina, implacável e reaccionária. O silêncio dos activistas ocidentais empenhados em não melindrar uma incerta e complexa «identidade muçulmana» também não sai incólume destas páginas. [Trad. de Alexandre Vaz Pereira, Pedra da Lua, 116 págs. Originalmente na LER de Fevereiro.]

                                  Atualidade, Democracia

                                  Arendt, Aristóteles e o Hi5

                                  Jedi Hi5

                                  Em Homens em Tempos Sombrios, Hannah Arendt revela a sua forma de conceber a amizade. Contra Rousseau, julga-a menor sempre que entendida apenas «como um fenómeno da esfera da intimidade, em que os amigos abrem o coração uns aos outros, alheados do mundo e das suas exigências.» É essa, considera, uma forma de insulamento do indivíduo moderno, «que na sua relação em relação ao mundo só se consegue revelar verdadeiramente na privacidade e intimidade dos encontros frente a frente.» Arendt revaloriza então a philia, essa amizade entre cidadãos, que para Aristóteles era um dos requisitos fundamentais para o bem-estar da Cidade e se materializava num diálogo aberto à comunidade dos seres humanos livres. Amizade e humanidade coincidem assim na exposição pública da voz humana: «Por muito que as coisas do mundo nos afectem, por muito profundamente que nos abalem e nos estimulem, só se tornam humanas para nós quando podemos discuti-las com os nossos semelhantes.» Por isso tudo quanto não possa ser objecto de diálogo – «o verdadeiramente sublime, o verdadeiramente horrível ou o misterioso» – pode encontrar, é certo, uma voz humana através da qual se exprima, mas jamais será exactamente humano. Os gregos davam a essa humanidade que se alcança no diálogo da amizade a designação de philantropia, «amor do homem», porque se afirma na vontade de partilhar o mundo com os outros.

                                  Esta condição encontra hoje um novo lugar nas redes sociais da Internet, que tanto abalam quem ainda prefira associar a essência da amizade apenas a uma simpatia durável, estabelecida face a face entre duas pessoas e assente em afinidades ou experiências partilhadas exclusivamente na esfera do privado. Por muito nebulosos que possam parecer alguns dos seus caminhos, por perturbantes que sejam para a vida de quem os pratica alguns dos seus processos, por efémera que seja a maioria das ligações que estabelecem, essas redes têm a virtualidade, em tempos de individualismo e de quebra de participação na vida pública, de recuperarem, de uma certa maneira, a noção política de amizade que Aristóteles enunciou e que Arendt perfilhava. E quando repetidamente recuso, por incapacidade física de resposta diante de tanta actividade, os constantes pedidos que recebo para «fazer amizade» com Fulano, Beltrano ou Cicrano no Hi5, no Facebook, no Flickr ou no My Space, sei que posso com esse gesto estar a diminuir a minha capacidade para alargar uma relação filantrópica em condições, apesar de paradoxalmente chegar pela via das máquinas, de me humanizar um pouco mais. Por isso, quando sou forçado a varrer da Inbox as mensagens contendo os tais pedidos – «I’d like to add you to my hi5 friends network. You have to confirm that we are friends, and we’ll each get to meet more people.» – faço-o sempre com um ténue e sincero sentimento de culpa.

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