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A Ponte

A ponte

Já faz parte da sabedoria popular: o melhor e o pior do regime democrático encontram-se associados à administração localizada dos recursos. Daí a «pulsão da regionalização» ser qualquer coisa que merece as maiores reservas, mesmo quando se reconhece a justeza de algumas das razões invocadas pelos seus mosqueteiros. A teia de cobrimentos e de encobrimentos é necessariamente maior à escala da freguesia, do concelho, da região, e as coisas pioram quando o assunto é dinheiro, influência ou responsabilização. Um bom exemplo disto é o que se passou em Coimbra com a construção da Ponte Europa. Rebaptizada Rainha Santa talvez para que alguém possa inocentar junto do Criador os pecados que lhe ficaram associados.

O escândalo é público, vem desde há muito e acabam de ser revelados mais dados altamente comprometedores para quem incentivou, geriu ou conviveu com a fraude e o despesismo faraónicos. De acordo com o Público, o Tribunal de Contas classifica agora a gestão do projecto – que calcula ter tido uma derrapagem de 137 por cento, o que significa mais 41 milhões de euros a somar aos quase 30 milhões estimados inicialmente – como «muito má». O Tribunal pormenoriza o desastre: «A obra apresentou um índice de desperdício elevado, resultante de erros e falhas graves na gestão e no controlo de que se destacam: o erro de lançar a obra em fase de anteprojecto, a falta de liderança e de capacidade técnica do dono da obra, a subversão dos princípios da contratação pública (concorrência, transparência e equidade, a nomeação tardia de um gestor de empreendimento, a fragilidade de actuação do dono da obra face ao empreiteiro e a ineficácia das acções da equipa de fiscalização por inércia do dono da obra». Conclui-se que «todas estas graves deficiências contribuíram para uma gestão e coordenação do empreendimento ineficazes que resultaram encargos adicionais avultadíssimos para o erário público».

Bem sei que a gestão do projecto foi de empresas cuja dimensão ultrapassava quase sempre os limites da cidade, e que o enorme caldeirão alimentou bocas de diferentes procedências, mas é impossível justificar aquilo que se passou sem a ocorrência de fortes cumplicidades, pelo menos por omissão, ao nível local. E sem o desencadear de pesados reflexos, passados e presentes, na vida dos cidadãos e até no prestígio da cidade. Ora, diante desta enormidade agora relembrada e publicamente redimensionada, o que informa a imprensa local, a quem também competiria manter viva e necessidade de apurar responsabilidades? Calcule-se que nada. As capas dos diários locais, tradicionalmente ocupadas apenas com «notícias positivas», efe-érre-ás, assaltos à mão armada ou desastres de viação, ignoram o documento do Tribunal de Contas. Existe gente de peso envolvida nisto, presumir-se-á com naturalidade, e o melhor é não levantar problemas. Afinal, se já tudo passou, os carros rodam sobre os tabuleiros e, contra as expectativas dos habituais maledicentes, a água do Mondego até continua a correr por debaixo da ponte, o que é que isso importa agora?

    Atualidade, Cidades, Olhares

    Audácia precisa-se

    aborrecimento

    Sublinho aqui, a traço grosso, o recente post de Joana Lopes a propósito das limitações de um sistema político que gira apenas à volta de duas categorias ultrapassadas (e não necessariamente antitéticas): «bloco central» e «maioria absoluta». Discursos desvitalizados como o do «inenarrável» Vitalino Canas, ou, pior ainda dadas as anteriores responsabilidades e o passado do seu autor, o mais recente adoptado por Jorge Sampaio, caminham no sentido contrário ao da ousadia da procura e do apelo à capacidade para pensar novos caminhos, para os cruzar, para os associar a um esforço, duro mas imprescindível, de mobilização dos cidadãos para a resolução de problemas comuns. Justamente aquilo que este tempo, de crise generalizada e desinteresse pela coisa pública, tanto requer. O post fecha proclamando a necessidade dramática de «arrojo, audácia, tenacidade». Concordo e subscrevo sem a menor hesitação. Só que com os actores que temos será difícil sair do actual estado de sonolência e aborrecimento.

      Atualidade, Opinião

      Um pequeno roteiro

      Relativismo

      Eis um pequeno livro que oferece bases razoáveis para uma compreensão crítica dos fundamentos, dos caminhos e das vacilantes saídas do relativismo, após a «morte de Deus» talvez a tendência filosófica dominante no mundo ocidental. No quadro sinóptico apresentado por Raymond Boudon, esta assume cambiantes ajustadas a dois grandes modelos. Um, o do relativismo cognitivo, permite considerar que não existe conhecimento certo, nem sequer no domínio da ciência, sendo a única bússola aquela oferecida pelo paradigma que cada um é capaz de adoptar. O segundo, o do relativismo normativo, entende que os princípios e os valores são apenas convenções culturais e que afinal todos eles se equivalem e legitimam. Distingue-se também um relativismo «bom», que tende a estimular a aceitação do Outro na sua especificidade, de um outro tipo, reputado como «mau», tendencialmente negativo e simplista, incapaz de situar o pensamento nas suas circunstâncias. De acordo com o autor, este último conduz inevitavelmente à perda de referências culturais, alimentando um certo niilismo e acabando por lesar a própria vida democrática. Boudon defende então, como via para contornar os excessos, inevitáveis sempre que se toma apenas um dos sentidos, a prática de um determinado padrão de «senso comum». O Relativismo pode ser uma ajuda, sob a forma de um pequeno roteiro, para quem chega a estes temas através de cartilhas e, achando-se perdido entre a cegueira e o ódio, decide procurar uma saída. [Raymond Boudon, O Relativismo. Trad. de António Alfredo. Gradiva, 120 págs.]

        Atualidade, Democracia

        Só para começar

        A murro

        Não vem ao caso qualquer simpatia pessoal por Vital Moreira, na realidade nenhuma. Ou a concordância com alguma das suas sucessivas posições públicas, que por acaso nunca ocorreu. Ou o gosto que possa ter em ler os seus longuíssimos textos de opinião, que quase sempre me provocam algum tédio. Como não vem ao caso a infeliz escolha do PS ao designar como cabeça de lista às eleições europeias alguém cujo pensamento político é sinuoso e demasiado imperativo, e cujo estilo é claramente incapaz de agregar empatias. Mas não me é indiferente a forma como os seus direitos enquanto cidadão eleitor e elegível, a sua liberdade de circulação, a sua honorabilidade, e até a sua integridade física, foram ontem colocados em causa, quando do desfile do 1º de Maio organizado pela CGTP, por uns quantos energúmenos cujas simpatias políticas não serão difíceis de estabelecer (aquele repetido epíteto de «traidor» revela-as sem equívocos).

        Claro que a direcção do PCP não pode ser responsabilizada pelos desacatos que simpatizantes ou militantes seus possam provocar no pleno uso da sua exaltação e da mais-do-que-declarada ausência de respeito pelas escolhas dos outros. Mas já é responsável – e esta é agora a questão que realmente importa – por não fazer pedagogia democrática ensinando aos seus indefectíveis prosélitos, antes e depois do episódio, que em sistemas políticos multipartidários existe, ou deve existir, um direito irrevogável ao exercício de opinião e à mudança de perspectiva. Bem como regras de convivência. Nestes casos, quem cala ou assobia para o lado, quem desculpabiliza, consente, e afinal todos sabemos como no país ideal que a generalidade dos quadros e militantes comunistas tem na cabeça a voz do adversário e, mais ainda, a do apóstata, deve ser emudecida. Só para começar. Não é novidade alguma, mas convém relembrar de vez em quando.

          Atualidade, Opinião

          Por uma ciência da civilização

          Peter Sloterdijk

          Partidário de uma reflexão iconoclasta projectada sobre alguns dos temas contemporâneos mais problemáticos, em A Loucura de Deus Peter Sloterdijk ocupa-se do inquietante potencial de violência que os três monoteísmos mantêm no mundo actual. Ele pode preludiar, de certa forma, uma «guerra mundial» de um novo tipo, na qual as três grandes religiões com pretensões universalistas se defrontariam num combate total de morte e destruição destinado a obter o monopólio do absoluto e da verdade. Desde logo pela interferência da religião judaica, apoiada numa espécie de contrato «entre um psiquismo grave e grande e um Deus grave e grande». Depois, um cristianismo que conserva muitas das características que o ligam ao judaísmo mas integra «acentos cristológicos» de uma novidade ainda subversiva que lhe conferem uma dinâmica de proselitismo. Por fim um Islão que procurou, desde o seu atribulado início histórico, corrigir as falhas, as «errâncias», dos monoteísmos que o precederam, integrando desde a primeira hora «impulsos religiosos e político-militares» de uma natureza prática e belicosa.

          Relacionando-se e opondo-se através dos tempos, num dado momento histórico estas três religiões viram-se confrontadas com o aparecimento do comunismo, que emergiu revogando as antigas proposições proféticas e reformulando-as «numa linguagem do real» como quarta figura do universalismo militante. «A estafeta do profetismo», escreve o filósofo alemão, teria assim «passado de Moisés a Jesus, de Jesus a Maomé e de Maomé a Marx». Porém, o aparente fim do comunismo terá emancipado essas religiões tradicionais de um inimigo comum, libertando-as para o regresso a uma lógica de radicalidade e confronto agora transformada, sob a forma de «loucura de Deus», num risco real para a humanidade no seu todo. Tanto mais que cada uma delas integra um número crescente de zeladores, ávidos de impor a sua fé através da radicalidade e de uma lógica de confronto que lhe é crescentemente associada. A guerra israelo-palestiniana, as movimentações planetárias do islão radical e o fundamentalismo protestante americano estão diante dos nossos olhos para comprovar a consistência deste perigo.

          O fármaco para combater esta pandemia de violência que parece alastrar a cada momento encontra-se então, provavelmente, na transformação desses zeladores, apóstolos irredutíveis da incomunicabilidade e da supremacia da sua crença, em actores civis de uma sociedade que deve construir-se pela via do diálogo, modificando as religiões no sentido destas se requalificarem como instrumentos preservadores de cultura, capazes de metamorfosearem todo o universalismo militante e agressivo num cosmopolitismo consistente e civilizado. A «ciência da civilização», uma ciência da coexistência assim erguida, seria para Sloterdijk «a verdadeira moderadora do espaço habitável da superfície terrestre». Vislumbre de uma teoria optimista do improvável.

          Peter Sloterdijk, A Loucura de Deus. Do combate dos três monoteísmos. Tradução de Carlos Correia Monteiro de Oliveira. Relógio d’Água, 146 págs.

          Publicado originalmente na revista LER de Abril

            Atualidade

            O jogo da mala

            A mala

            A forma quase unânime como os deputados aprovaram ontem as alterações à lei do financiamento dos partidos, permitindo um volume muito maior de dinheiro vivo a circular sem controlo, é qualquer coisa de inevitavelmente repulsivo aos olhos dos cidadãos sem telhados de vidro. Ou daqueles que se vêm coagidos, por vezes justificadamente, a severas medidas de fiscalização das transacções que envolvem o seu próprio dinheiro. Ou ainda daqueles que gerem instituições públicas com a corda na garganta. Mas até o Bloco de Esquerda – com a identidade política e a imagem pública vinculadas a um papel de «força de denúncia» – alinhou neste acordo. Um passo mais na descredibilização pública dos organismos partidários, crescentemente voltados para o seu próprio umbigo e olhados pelo cidadão comum como associações de interesses. O fiscalista J. L. Saldanha Sanches asseverou que voltamos assim «às malas cheias de notas, das quais uma parte chega aos partidos e outra fica com as pessoas que as recebem». Poderá não acontecer, mas da suspeita já ninguém se livra, o que será sempre um mau presságio para a qualidade da vida democrática. E também uma maneira de ampliar a desconfiança e a desmobilização.

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              Atualidade, Olhares

              Dois apontamentos sobre cartazes

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              1. Um passeio neste feriado fez-me passar diversas vezes pelos enormes cartazes de Vital Moreira e de Manuela Ferreira Leite com os quais os maiores partidos nacionais têm vindo a desfear as rotundas de vilas e cidades, não perdendo uma oportunidade para acabrunharem ainda mais os portugueses. Sem impacto político real ou aptidão para evocarem propostas. A frase «Nós, Europeus» colada ao candidato Moreira, por exemplo, é em 2009, no mínimo, um sinal patético de falta de imaginação e indigência política, reminiscência de um «A Europa Connosco» com mais de trinta anos. Os cartazes do PS e do PSD são péssimos, horríveis, representando de forma caricata ou soturna as figuras que nos pretendem propor, incapazes de transmitirem ao cidadão comum uma impressão de calor ou de proximidade. Chego depois a casa e observo imagens dos cartazes da Esquerda Verde, segunda classificada nas eleições que decorreram na Islândia. Percebo ali uma outra cultura política, um outro cuidado com uma abordagem visual, assumidamente estetizada e menos poluente, com capacidade simpática, das pessoas que andam pelas ruas e as observam.

              2. Desde o episódio do «porreiro, pá» entre Sócrates e Barroso que me incomoda o uso da frase casual, de alguma forma íntima e apenas revelada por um microfone inadvertidamente ligado, como instrumento de arremesso contra ambos. Independentemente das considerações que se podem fazer sobre as atitudes políticas de um e do outro, esse momento cristalizou, aos meus olhos – e provavelmente aos olhos de muitas pessoas – um grau de humanização e de informalização do relacionamento interpessoal que é uma conquista de Abril e que, na sua dimensão democrática, realmente me agrada. Sem exagero. Não posso, por isso, deixar de lamentar a utilização daquela frase pelo Bloco de Esquerda, em outdoors de pré-campanha, como arma de arremesso. E tenho a certeza de que a «mensagem» resulta absolutamente ineficaz, se não mesmo contraproducente em termos de comunicação pública. A construção de uma cidadania mais perfeita não passa, ou não deve passar, pelo achincalhamento pessoal de quem quer que seja. É feio e não vale.

                Apontamentos, Atualidade, Olhares

                Do lado negro da História

                No dia da canonização de Nuno Álvares Pereira, recupero um post publicado há dois meses atrás. Independentemente do carácter polémico e discutível que possa ter a tese de António Borges Coelho nele evocada, é lamentável que a mesma tenha sido, tanto quanto pude perceber durante estas semanas, completamente ignorada nas peças jornalísticas que têm acompanhado o processo. Algumas redigidas num tom de proselitismo religioso completamente despropositado.

                Quando iniciei o curso de História trazia ainda comigo a imagem de um Nun’Álvares paladino e devoto, campeão da independência em Aljubarrota, e, anos depois, converso a uma nova existência: a vida simples feita de oração e cilício do Beato Nuno de Santa Maria. Era essa a imagem, construída pelos finais do século XIX e que o Estado Novo reproduzira, que havia transformado o Conde de Ourém e Condestável de Portugal numa espécie de ícone simultâneo do brio indígena e da piedade cristã. Foi então que li um livro, onde se afirmavam algumas teses sobre o sentido da crise política de 1383-1385 hoje algo contestadas, contendo informações sobre a vida verdadeira de Nuno Álvares Pereira que não circulavam pelas vias tradicionais de acesso ao registo do nosso passado colectivo.

                Fora em 1965 que o historiador António Borges Coelho publicara na Portugália esse A Revolução de 1383 que vim a conhecer na sua edição de 1977, a 3ª, consideravelmente aumentada e revista de acordo com as novas possibilidades oferecidas pela Revolução de Abril (existem ainda edições posteriores). Foi aí que vi emergir da penumbra um senhor de Cernache com um rosto menos harmonioso, como nobre feudal cioso dos seus direitos, interventor pelo fio da espada nos campos alentejanos e andaluzes, do lado de cá e de lá das marcas do reino, contra os camponeses sublevados, que não se coibiu, por vezes, de perseguir e massacrar. Porque, como contou Borges Coelho apoiado principalmente em Fernão Lopes, Nun’Álvares dizia preferir morrer combatendo «nas fraldas» do próprio rei castelhano que serem depois, ele e os seus, «apanhados de lugar em lugar como perdigotos e enforcados uns e uns pelos sobreiros». Pela acção desses miseráveis campónios que visivelmente temia e essencialmente desprezava.

                Ora é esse homem, «herói» também de uma guerra suja, com acções nada abonatórias no registo individual, com sangue nas mãos que não apenas o do invasor castelhano – mas apontado como «exemplo para a sociedade actual» pelo frade carmelita «vice-postulador da causa da canonização» -, que a Igreja católica, apostólica e romana de Bento XV beatificou em 1918 e que Bento XVI vai agora transformar em santo. Tendo como fundamento mais imediato, dizem, a cura milagrosa num olho de uma sexagenária que deixara de ver por ter sido atingida «com salpicos de óleo a ferver enquanto cozinhava». Cavaco já se congratulou publicamente com o evento e pode ler-se em alguns blogues de direita que esta é uma das melhores notícias para Portugal que temos recebido nas últimas décadas. Para as pessoas comuns o facto não aquecerá nem arrefecerá as suas existências, mas será sempre de proveito e exemplo conhecer também o lado negro da História. E saber de onde chegam os esquecimentos.

                  Atualidade, História

                  Sobre o silêncio dos mortos

                  O genocídio arménio

                  Um século depois dos acontecimentos de 1915, o governo conservador de Erdoğan toma, no mínimo como equivalentes, a morte de soldados turcos em combate e as actividades sistemáticas de genocídio que Istambul então levou a cabo, provocando o extermínio sistemático de um milhão e meio de arménios e iniciando uma política de supremacia racial na região que ainda continua a fazer vítimas. Mas ficou agora particularmente incomodado com as palavras de Barak Obama ao reconhecer publicamente os actos de barbárie então levados a cabo e que se encontram amplamente documentados. Construir a paz na região procurando, ao mesmo tempo, rescrever a História por cima do silêncio dos mortos, não será por certo um bom princípio para quem deseja tornar-se um bom «europeu» e obter a confiança de um lado do mundo que viveu longos séculos no temor das intenções otomanas.

                    Atualidade, História

                    O Largo

                    Forgive| Never

                    Neste 25 de Abril, a Câmara de Santa Comba Dão irá inaugurar um Largo António Oliveira Salazar «requalificado» em conjunto com «o seu espaço envolvente». Festa rija, aguarda-se, pois a cerimónia contará com «a actuação da Tuna de Santo Estêvão» e «haverá porco no espeto» à discrição para fidalgos e vilões. O vice-presidente do município afirmou, entretanto, que a escolha da data para a inauguração não tem qualquer significado político: «não há nenhum significado especial nisso». E o próprio presidente declarou, num rasgo de lucidez, que o espaço «já tem esse nome desde antes do 25 de Abril». Afinal o Dia da Liberdade também não possui, como sabemos, um significado de maior. Comemora-se uma revolução que por acaso determinou a segunda morte do ditador do Vimieiro e entre outras coisas permitiu, ao que parece, a valorização do próprio poder autárquico, mas nada disso parece relevante face à magnitude do vulto assombroso do sempiterno senhor doutor. Valorizando o papel depurador do esquecimento na construção de uma memória mais justa, Marc Augé frisou que é preciso esquecer para lembrar, mas aqui inverte-se processo: trata-se de evocar o passado, de celebrá-lo, para fazer de conta que apenas ocorreu um ténue virar de página. Imposto, talvez, por uma arreliante brisa.

                      Atualidade, História, Memória, Opinião

                      Bandeira pirata

                      The Pirate Bay

                      Em entrevista publicada no último número da Technikart, o sueco Gottfried Warg, considerado «o cérebro» da organização The Pirate Bay, declara: «Faço isto em nome da liberdade e um pouco para chatear o mundo». «Isto» não é senão manter em actividade, em conjunto com os amigos Peter Kolmisoppi e Hans Fredrik Neij, um site de partilha de ficheiros electrónicos que conta já com mais de 25 milhões de utilizadores. Os três responsáveis pela Pirate Bay foram agora condenados a um ano de prisão e ao pagamento de indemnizações no valor de 2,7 milhões de euros, mas não é por isso que pretendem abandonar o ramo e o site mantém-se em plena actividade. Por trás deles, uma multidão de pessoas, em regra jovens e com pouco dinheiro, que querem continuar a aceder à música, aos filmes e aos programas que desta maneira lhes entram com toda a facilidade em casa. O mais interessante é que a sua acção está a lançar um movimento mundial de solidariedade e de contestação declarada dos direitos de autor e dos privilégios das grandes distribuidoras, constrangedores do acesso a um património que poderia ser público. A utopia comunista parece pois estar a chegar aos bits. Diz um apoiante convicto da justeza da causa: «Aquilo de que gosto mesmo nos tipos da Pirate Bay? Da sua radicalidade.» Não é difícil simpatizar com eles.

                        Atualidade, Cibercultura

                        O senhor da previdência

                        Eric Hobsbawm

                        Quase a perfazer 92 anos, Eric Hobsbawm mantem-se mais desperto e capaz de pensar de forma crítica e controversa do que muita gente avisada e previsível que circula por aí cheia de vigor e em condições de percorrer três quilómetros matinais em passo de corrida. Só agora li «Socialism has failed. Now capitalism is bankrupt. So what comes next?», o seu artigo publicado há alguns dias no Guardian. Não oferece uma resposta para a pergunta que coloca? Pois não oferece, não senhor. Só que o primeiro passo para escolher um percurso a seguir consiste sempre, antes ainda de se meterem as solas à estrada, em perceber que ela pode existir. E em procurar o seu norte magnético. Chama-se a isso previdência.

                          Atualidade, Olhares, Opinião

                          Toda a revolução

                          Revolution

                          Outubro é uma edição da Angelus Novus que resulta de uma série de posts – publicados originalmente neste blogue, mas entretanto revistos – sobre o impacto mundial da Revolução de 1917 e do seu mito. O livro estará à venda muito em breve. Adianta-se aqui, em pré-publicação, uma parte substancial do último capítulo.

                          A revolução, toda a revolução, é enunciada como ruptura mas propõe um regresso. A mudança que encena aponta desde a fundação para um restabelecimento, para um retorno, a uma ordem essencialmente antiga, primordial e benigna, que se crê ter sido corrompida algures e em algum momento. Mudar, mudar profundamente, mas para reverter. A «revolução» humana que permitiria aceder à cidade ideal, tal como a concebeu Platão, requeria um esforço de recuperação de uma ordenação primordial perdida: era uma métabolê, uma alteração radical, mas também um ponto de viragem que antecedia uma regressão. Nesta direcção, François Châtelet entende que «por paradoxal que pareça a afirmação, Santo Agostinho, Bossuet, Rousseau ou Engels são platónicos», uma vez que neles a superação radical da ordem do mundo visa sempre – entre a descoberta da Cidade de Deus e o triunfo final do comunismo – a recuperação de um passado perdido, a restituição de uma ordem utópica e edénica aniquilada por um declínio que remonta a tempos ancestrais, pontuadas ambas pela intervenção do pecado, pela ruptura do estado de natureza ou pela divisão social do trabalho.

                          Mas a «verdadeira revolução», aquela que sobrevive ao efémero, ao fluir simples dos acontecimentos, não envolve apenas a destruição de uma ordem política injusta e caduca. Ela implica também a desconstrução da organização social imperante e dos princípios que a governaram. Mesmo quando existe uma agenda política que admite medidas graduais, esta toma sempre por horizonte a mudança decisiva, não aparecendo como um desvio, uma cedência diante dos princípios, mas antes como um diferimento, um instante de preparação para a batalha definitiva apontada ao que importa, que é a demolição definitiva da ordem pré-revolucionária.

                          Marx e Lenine anunciaram a necessidade objectiva desta operação de devastação do real ao excluírem a capacidade regeneradora de qualquer «revolução parcial»: era necessário tudo mudar, inclusive de etapa histórica, ainda que em alguns dos momentos do aguardado «assalto aos céus» pudesse lançar-se o ataque apenas sobre um dos flancos do inimigo. Toda a atitude reformista se tornava inútil e abominável, salvo quando servisse como instrumento da mudança integral. Daí o desdém de Lenine pelo gradualismo reformador do marxista veterano Karl Kautsky ou do menchevique Julius Martov. Porém, aquilo que acontecerá após o instante crucial da viragem revolucionária, permanece sempre como algo de impreciso: por mais inevitável que se revele, toda a revolução é pobre, lacunar, uma vez que funciona mais como instrumento de demolição, operando sobre a realidade objectiva, do que como via para um horizonte tangível a alcançar. De Platão a Mao, passando por Rousseau, Robespierre, Marx ou Trotsky, a teoria da revolução aponta para um futuro mais afortunado e harmónico, mas jamais lhe define os contornos. Apenas declara que este chegará algum dia, como resultado de um processo que deposita nas mãos dos seus executantes as decisões sobre o caminho a percorrer. Num tempo longínquo e incorpóreo, apenas uma ideia de felicidade por cumprir.

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                            Atualidade, História, Olhares

                            Veias abertas

                            Eduardo Galeano

                            Quem possa ter interesse em conhecer a argumentação que Hugo Chávez acaba de oferecer a Barack Obama sob a forma de livro, pode encontrar aqui, em formato pdf, uma versão em português de As Veias Abertas da América Latina, do jornalista e escritor Eduardo Galeano. Originalmente publicado em 1971 e nesta versão com um posfácio de 1978. Naturalmente, a escrita de denúncia sob a forma de ensaio histórico pode sempre ser manipulada por cérebros messiânicos que nela buscam a sua própria legitimidade.

                              Atualidade, Democracia, História

                              Contem-nos coisas de Cuba

                              Cuba Libre

                              É bem triste «La Revolución» não aguentar palavras que apenas irradiam uma perspectiva do mundo diferente da arremessada pelos artigos hiper-saudosistas, caluniosos ou ameaçadores do Granma e do Juventud Rebelde. O cerco americano a Cuba, que Obama começa agora gradualmente a levantar, sempre me pareceu uma medida injusta e desnecessária, resultado de uma política externa míope e influenciada pelos «gusanos» um tanto ressabiados de Miami, mas o cerco interno, praticado na ilha, à liberdade de opinião de quem é visivelmente desalinhado do discurso oficial, não é menos injusto e injustificado. Para além de um tanto paranóico. Que a havanesa Yoani Sánchez tenha de publicar o seu primeiro livro de crónicas em Itália é um sinal desse desajustamento.

                              Es abril y no hay mucho que hacer, solo mirar desde el balcón y confirmar que todo sigue como en marzo o en febrero. La Plaza de la Revolución -un pirulí truncado que asustaría a cualquier niño- domina los bloques de concreto de mi barrio. Frente a mí, dieciocho pisos de hormigón llevan el cartel de Ministerio de la Agricultura. Su tamaño es inversamente proporcional a la productividad de la tierra, así que me dedico a mirar con mi catalejo las oficinas vacías y sus ventanas rotas. Vivir en esta zona “ministerial” me permite interrogar los altos edificios desde los que salen las directivas y resoluciones para todo el país. Manías de orientar el lente y pensar “ellos me observan, pues yo también los observo a ellos”. De esas inspecciones con mi telescopio azul he sacado bien poco, la verdad, pero una impresión de inercia traspasa el cristal y se cuela a través del hormigón de mi edificio modelo yugoslavo.

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                                Aracnologia

                                Aracnologia

                                Tenho andado a divertir-me um pouco com as possibilidades técnicas que a autonomização do servidor de A Terceira Noite trouxe consigo. Algumas delas são visíveis ao leitor habitual do blogue, outras porém servem apenas a quem o gere.

                                Uma das informações curiosas, agora tornada possível, refere-se aos spiders que aqui entram. Para quem não esteja familiarizado com o termo, os spiders são uma espécie de robôs que se movem na web. Eles procuram os links que detectam no código-fonte e é depois a partir destes que entram no site para vasculharem o seu conteúdo. Saltam então de link em link, relacionando a informação da página de acordo com o algoritmo a que obedecem, enviando a informação ao seu senhor, que lá bem longe a pode utilizar das mais variadas maneiras. Pois bem, os spiders mais activos por aqui são os do todo-poderoso Google e os do novíssimo Cuil, respectivamente com 56,6% e 8% dos acessos. Mas encontram-se muito bem colocados, num honorável 3º lugar, os do chinês Baidu, com cerca de 7% e quase 500 espreitadelas em menos de uma semana.

                                Levado cá por umas suspeitas – e intrigado principalmente pelo facto de A Terceira Noite não ser escrita em mandarim –, resolvi cruzar este tipo de informação com um outro: aquele que permite saber quais são as palavras mais pesquisadas dentro do próprio blogue. Aquelas que o leitor digita na caixinha que encontra no topo da barra da direita antes de carregar no botão procurar. Pois sabem os leitores qual a palavra mais pesquisada neste momento? Nada mais nada menos que Tibete (ou Tibet). Julgo não ser preciso mais nada para ter todo o direito a poder ficar com algumas suspeitas. Mesmo sem ser propriamente um entusiasta das teorias da conspiração ou ter a mania das grandezas.

                                  Atualidade, Cibercultura, Democracia

                                  O dress code e a política do corpo

                                  In the sixties

                                  Quando falo em algumas aulas das grandes alterações dos anos 60, recorro muitas vezes ao exemplo do vestuário diverso que todos usam na sala, à atitude física que mantemos dentro e fora daquele espaço, ao modo informal como falamos uns com os outros, olhando-nos nos olhos e defendendo os nossos pontos de vista sem receio de estarmos a ofender alguém, para mostrar de que maneira existiu um tempo – para a maioria dos alunos o dos seus pais, ou mesmo o dos seus avós; para muitos destes, porém, algo que jamais conheceram – no qual o mundo como eles o observam, este mundo, se formou, rompendo abertamente, assumidamente, com um tempo-outro que o precedeu e que para muitos é hoje inimaginável. No centro da mudança uma nova política do corpo, que terá sido talvez o eixo em volta do qual as transformações políticas, culturais e vivenciais que marcaram aqueles anos – e que todos herdámos, mesmo aqueles de nós que hoje as procuramos desvalorizar – se organizaram. Por vezes sob a forma de combates duros e prolongados, que requeriam coragem e tenacidade.

                                  Nascido nos fifties, num país fechado e manietado, vivendo até aos dezassete ou dezoito anos num ambiente pequeno, isolado e bastante preconceituoso – embora nas cidades as coisas não fossem então, é preciso reconhecê-lo, substancialmente diferentes -, travei um combate complicado por coisas que hoje certamente parecem ridículas, e das quais agora até prescindo, como usar o cabelo comprido e despenteado, vestir umas calças de bombazina grená se me apetecesse vestir umas calças de bombazina grená, ou passear à noite com uma amiga sem ter de casar com ela. Coisas que nunca me impediram, que eu saiba, de tratar mais ou menos bem as pessoas com quem fui convivendo, de cuidar da higiene pessoal, e de ir cumprindo o melhor que sei e sou capaz o meu trabalho, mas que me permitiram, com toda a certeza, estar no mundo, e projectar-me nele, de uma feição mais livre, individualizada, de alguma forma cosmopolita, que os meus pais, e os pais deles, jamais sonharam viver. Foi essa área da luta pela liberdade que me fez então – pude na altura dar-me a esse luxo, admito, e o facto de ser homem ajudou um pouco – recusar uma profissão que me constrangeria a um «código de apresentação». Muitos daqueles que o não puderam fazer iriam bater-se – na escola, no trabalho, na rua, por vezes dentro das suas próprias casas – por uma liberdade que passava também pelo reconhecimento da sua forma própria, não necessariamente padronizada, de estar no mundo. Uma luta hoje silenciada, mas não silenciosa, bastando para a reconhecer um apelo à memória de quem a viveu e uma consulta da imprensa da época (incluindo nesta, um aspecto muito importante, a regional).

                                  Estou certo de que me acompanham nesta evocação muitas pessoas que viveram ou que conheceram, ainda que apenas dos livros, experiências idênticas. As mesmas pessoas que viram com um pequeno arrepio este episódio – patético, é verdade, mas sintomático e talibanesco – em redor do dress code aplicado às funcionárias da tal Loja farense do Cidadão. Episódio que indicia um retorno a uma ordem política das aparências agressora da liberdade pessoal. Ou então um salto rumo a uma sua versão mais aperfeiçoada. Não fala de cor Zygmunt Bauman quando afirma, em Modernidade Líquida, que «a demarcação entre o corpo e o mundo exterior está entre as fronteiras contemporâneas mais vigilantemente policiadas».

                                  P.S. – Claro que não vivemos num regime totalitário, onde estas coisas acontecem de forma sistemática e sem apelo. Vivemos sob a ditadura informal do realismo político, na qual tudo é normal e aceitável se em prol da boa gestão. Inclusive a agressão a direitos e a liberdades conquistados a pulso pelos cidadãos.

                                    Atualidade, Democracia, História, Memória

                                    Ó Pátria amada!

                                    Patriotismo

                                    Como resultado da uma incompreensível falta de concertação com o absolutamente vital candidato Moreira, o primeiro-ministro afirmou hoje que apoiará a recandidatura de Durão Barroso para presidente da Comissão Europeia mesmo que o Partido Socialista Europeu vença as próximas eleições. O patriotismo, declara en passant e cem citar autoria a página da Academia Militar, é isso mesmo, «o amor à pátria, reconhecer que somos mais solidários a uma parcela da humanidade, os nossos compatriotas». Este padrão de «socialismo democrático» com sete palmos de terra acima da cabeça, que se passeia, «realista» até ao tutano, pelas passadeiras lusas do poder continental, exprime a consagração desse nobre princípio.

                                      Atualidade, Olhares