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Às tantas, aos poucos

Provos
Amsterdão-1967: provos no Vondel Park

Redigida por volta de 1685-1686, a Carta sobre a Tolerância foi publicada pela primeira vez em 1689, nessa mesma Holanda onde o seu autor, John Locke, procurara protecção. Nela se rejeitava terminantemente a ideia segundo a qual se poderia constranger alguém a crer, visando mostrar-lhe o verdadeiro caminho da salvação, e se defendia que as opções no campo do pensamento devem ser completamente indiferentes para as autoridades. Muito antes, durante as guerras de religião do século XVI, os Países Baixos tinham sido já uma ínsula de liberdade e de relativa paz numa Europa intransigente e a ferro e fogo. Aí encontraram refúgio milhares de judeus hispânicos e de protestantes de diferentes tendências, muitos deles a contas com os patíbulos do Santo Ofício se ali não tivessem buscado refúgio. Na década de 1960, Amesterdão transformou-se numa cidade plural e ali nasceram as primeiras comunidades contraculturais de jovens provos, aceites pelas autoridades apesar das suas posições radicalmente não-violentas e anti-sistema.

Pois é nesta mesma Holanda que uma força da extrema-direita nacionalista e xenófoba – o Partido para a Liberdade do Povo Holandês, de Geert de Wilders – acaba de ficar em segundo lugar no decurso das eleições para o Parlamento Europeu, admitindo-se já a possibilidade de vir a ganhar as próximas legislativas. No ponto em que estamos, a situação dá bastante que pensar e recoloca um velho problema que os políticos europeus têm feito por varrer para debaixo do tapete: será legítimo integrar no jogo democrático e na arquitectura do bem comum os grupos e organizações que se destinam precisamente a contestá-los? Precisaremos de vê-los no poder para acordarmos e fazermos algo mais do que piedosas reprimendas?

Adenda – Recebi entretanto um mail de um amigo português que conhece muitíssimo bem a Holanda e me diz que classificar o partido de Geert Wilders como «da extrema-direita e xenófobo» lhe parece «simplificar em demasia a realidade política e social holandesa». Junta ao que me diz um link para um texto de outrem que lhe parece ir ao encontro daquilo que ele próprio pensa. Esse texto pode ler-se aqui. Da minha parte, registo esta opinião, embora muita da informação que me chega às mãos pareça corroborar a leitura que fiz. Incompleta? É muito provável que sim. Por isso esta adenda.

    Apontamentos, Atualidade, Democracia, História, Memória

    7 Maravilhas: a petição

    São Jorge da Mina

    Não partilho das concepções, de natureza a-histórica, que partem dos problemas e das contradições do presente para estabelecerem juízos anacrónicos sobre figuras, episódios ou situações do passado. Não podemos ignorar, ou mandar arrasar, as pirâmides de Gizé ou o zigurate de Ur, apenas porque definiram no tempo da sua construção formas de imposição de um modelo social, de uma crença e de uma ordem posteriormente questionados. Ou porque foram erguidos com recurso a trabalho escravo. Como não faz sentido adoptarmos uma avaliação apenas negativista da colonização europeia dos séculos XV a XIX, que não integre as iniciativas contraditórias envolvendo heroísmo e crime, encontro e exclusão, paixão e cobiça. «Todo o documento de cultura», escreveu uma vez Benjamin, «é também um documento de barbárie». Mas também não podemos aceitar uma história asséptica, utilizada acriticamente como curiosidade, instrumento de negócio ou engodo turístico.

    Parece-me pois lamentável que, independentemente do carácter lúdico e popular do concurso As 7 Maravilhas de Origem Portuguesa do Mundo, historiadores profissionais e autoridades académicas aceitem omissões graves, tendentes a embelezar publicamente o passado e a ignorar a sua dimensão contraditória e dramática, falando em abstracto de um «valor histórico e patrimonial.» Concordo por isso com os termos da petição dirigida ao governo que está a circular na Internet, relacionada com a escolha de construções como o Forte de São Jorge da Mina ou da ilha de Moçambique, entre outras. Escolha capaz de elogiar a beleza arquitectónica, o fulgor dos seus muros, o poder que simbolizavam, mas omitindo que serviram, e prolongadamente, de entreposto decisivo para a manutenção do tráfico de escravos. De lugar de desterro, sofrimento e morte. É inadmissível o disfarce da verdade e, em consequência, a redução da dimensão compreensiva, complexa e crítica que toda a História deve ter. Mesmo aquela que legitimamente se destina a alimentar a indústria do turismo ou serve de divertimento.

    Por isso me parece criticável o apoio dado à iniciativa pela Presidência da República, pela Universidade de Coimbra, pelo Instituto Camões ou, por paradoxal que possa parecer, pela CPLP. Pode ler e, se concordar, assinar aqui a petição. [Nota posterior: a petição foi entretanto encerrada, pelo que o link deixou de estar disponível.]

    Publicado originalmente em Caminhos da Memória

      Atualidade, Democracia, História

      Tiananmen e o «dever de esquecimento»

      Tiananmen

      Li há algum tempo, no blogue de um conhecido militante do PCP, uma observação desdenhosa – logo secundada por comentários entusiásticos de leitores – sobre as pessoas que se preocupam com «aquilo» que aconteceu há setenta anos. «Aquilo» eram os crimes do estalinismo, e o que preocupava o conhecido militante era o aproveitamento dessa evocação como arma de arremesso contra o conceito de liberdade que entronca na teoria e rege a prática dos comunistas que não vão em palavrório, continuando, do fundo do coração e do armazém de adrenalina, a acalentar o devaneio de uma ditadura «dos explorados sobre os exploradores». Sendo o vértice do partido marxista-leninista, naturalmente omnisciente, a determinar, sem meias-tintas, quem está de um ou do outro dos lados.

      A ideia é absurda, pois tomada à letra anularia o lugar histórico da construção e do desenvolvimento dos movimentos sociais, da emergência do ideal comunista e até da «luta de classes». Além de que, como qualquer pessoa informada e intelectualmente honesta bem sabe, jamais as operações de instrumentalização ou de silenciamento da História foram tão longe quanto o foram nos regimes, pretéritos e presentes, do «socialismo real» e dos seus sucedâneos. O mais grave, porém, é que aquela atitude de desdém atribui ainda à memória, invocada a bel-prazer ou ignorada consoante as metas do momento, um valor de uso, que, como tal, tanto pode ser descartado como servir de moeda de troca.

      Afinal, será justo esquecer aquilo que aconteceu há cinquenta ou há setenta anos – para muitos milhões de seres humanos, o silêncio, a solidão, a fome, o desespero, a tortura ou a morte – apenas porque tal serve para iludir a ausência de uma resposta clara, por parte dos comunistas de pedra, às circunstâncias da democracia no nosso tempo? Porque tal permite a defesa de uma democracia mitigada, na qual certas pessoas são mais «livres» que as outras, devendo estas pagar pela «liberdade» das primeiras? Trata-se também aqui, para quem não pensa dessa forma, de um «dever de memória», materializado na obrigação de evocar o horror para recordar os mártires e, ao mesmo tempo, para evitar que o futuro revisite os crimes que os esmagaram.

      Os acontecimentos de Tiananmen ocorreram há muito menos tempo, perfazem-se agora vinte anos, e a sua evocação pelos grandes meios de comunicação tem, por vezes, muito de protocolar e farisaico. As imagens guardadas e divulgadas dos episódios de Junho de 1989 foram até, de tão repetidas, perdendo parte do seu sentido dramático. Por isso, agora é mais a sua omissão, o silêncio de determinadas vozes, que ganha um particular significado. Omitir Tiananmen, apagar aquele acto de revolta juvenil e eventualmente ingénua que, como na Budapeste de 1956 ou na Praga de 1968, materializou o apoio da rua, popular em sentido lato, a uma tentativa de democratização de um regime comunista ao velho estilo, é pois sustentar uma espécie de «dever de esquecimento». Aplicado em nome de regimes e de programas para os quais a democracia, escrita com minúsculas, não passa de factor de verborreia e elemento de propaganda.

      É importante lembrar os acontecimentos de Tiananmen. É socialmente higiénico, historicamente justo e politicamente necessário, atendendo à actual situação dos direitos humanos e das liberdades na China. Mas, lembrando, reparar também naqueles que os silenciam ou menorizam. Para acalentarem, porque a espécie se não extinguiu, o ovo da serpente.

        Atualidade, Democracia, História, Memória

        Extrema-esquerda on the rocks

        Inuit Ataqatigiit

        A Gronelândia é uma ilha de elevado valor estratégico, com riquezas naturais imensas – jazidas de zinco, chumbo, ferro, ouro, platina e urânio, pelo menos – por debaixo de uma superfície gelada que derrete todos os dias, e como em mais lado algum, sob a pressão do aquecimento global do planeta. Apesar de escassamente povoado pelos seus 57.000 habitantes, dos quais 50.000 são inuit, e de um clima quase sempre rigoroso, completamente inóspito a norte, estima-se que em breve, com o recuo do gelo, as condições de habitabilidade aumentem consideravelmente. O que coloca no horizonte dos habitantes da ilha, agora a caminho da independência total da administração dinamarquesa, um futuro interessante.

        Entretanto, as eleições neste momento a decorrer devem levar ao poder o Inuit Ataqatigiit. Uma sondagem da Universidade de Nuuk, a capital da ilha, aponta para que o partido social-democrata, no poder há 30 anos, seja derrubado, ganhando claramente as eleições um movimento político que a generalidade dos observadores classifica como de extrema-esquerda. O emblema do partido, aliás, apenas enganará os mais distraídos. Vai pois ser interessante observar, num país sem classe operária ou campesinato, com elevadas potencialidades em termos de crescimento e a uma distância relativamente pequena do Canadá e dos EUA, a emergência de uma dinâmica assumidamente anticapitalista. Este século XXI está com alguma piada.

          Atualidade, Olhares

          Poderemos nós mudar?

          O Contabilista

          Depois de Portugal, Hoje: O Medo de Existir, editado em 2004, José Gil transformou-se, de certa forma, num «filósofo popular». Não que multidões de peregrinos tenham afluído às livrarias para comprar os seus livros ou obter a custo o precioso autógrafo. Nada disso. José Gil tornou-se conhecido fora do jardim da intelligentsia local porque deu algum destaque, naquele ensaio, a uma das características que os portugueses, num misto de autocomplacência e gozo, mais facilmente reconhecem em si próprios: a inveja como eixo da sociabilidade. Claro que a projecção não adveio de uma leitura aturada do texto – afinal, quantos marxistas leram Marx? quantos existencialistas se esqueceram de Sartre no porão? -, mas do eco propalado pelos média na precisa altura em que Santana Lopes, prestes a ser escorraçado do poder, chorava no ombro dos compatriotas a invídia que supostamente o vitimara.

          Pois agora Gil publicou um livro mais curto, embora não menos mordaz e interveniente. Em Busca da Identidade – O Desnorte, da Relógio d’Água, tem de facto todas as condições para ser amado ou odiado, uma vez que constitui um brilhante libelo contra o Portugal visto da soleira do actual governo. Um ataque em forma lançado contra o culto obsidente da sacrossanta avaliação, medida de uma modernização desumanizada e sem outro norte que não aquele que ela própria inventa. Realidade da qual as maiorias se queixam, e que as maiorias temem, sem por isso serem capazes de mudar o seu sentido de voto.

          Detecta-se, de início, uma imputação ao biénio revolucionário do 25 de Abril. Não ao período em si, mas às suas circunstâncias, sequência e desfecho, que rapidamente exauriram uma dimensão trágica ditada pela rua. Ela sim com capacidade regeneradora dos grandes vícios nacionais: a falta de confiança, a inércia, a autocomplacência, o queixume, a inveja. Ocorrendo porém, logo de seguida, um regresso ao estado de prostração herdado do salazarismo. O essencial do argumento passa então a centra-se nas vicissitudes da introjecção. Esta é olhada como uma ferramenta do conformismo, uma vez que situa uma integração neurótica de um mundo «engolido», mas sempre exterior, assente numa incapacidade congénita para traçar um caminho próprio. Um caminho não dependente de modas ou influências importadas, imune à psicose colectiva que se foi desenvolvendo.

          Sucede-se então o diagnóstico de um discurso da governação, o de agora, que injecta na sociedade portuguesa um veneno que a impede de seguir um caminho próprio: «é o discurso da via única; é o discurso anti-ideológico que pretende emanar da evidência do “real” das próprias coisas»; (…) é o discurso da competência e da redução da subjectividade a perfiz numéricos de competências.» Como é também «o discurso que nega a diferença entre esquerda e direita, considerando-a obsoleta.» Nesta viagem, «a governação socialista» oferece-nos então «o instrumento para transitar sem percalços da velha sociedade para o novo modo de viver: a avaliação». Esta «dará e medirá», de uma vez por todas, «o mérito e a recompensa.» Gil refere-se então ao caso exemplar da avaliação dos professores, ocupando com ela perto de um quarto do livro, e mencionando a dimensão panóptica – no sentido delineado por Foucault – do sistema instituído pelo Ministério da Educação. Considera-o pós-kafkiano e fortemente marcado por «uma espécie de delírio que atravessa quotidianamente os seus conceptores e decisores.»

          Claro que os alvos naturais deste ensaio – os actuais dirigentes socialistas em primeiro lugar, mas também muitos dos políticos partidários que sem sucesso os combatem noutras barricadas – dificilmente passarão da página 21, que é onde fecha a primeira parte do volume. Leitura difícil, indigesta e um pouco irritante para quem se dedica mais à sucessão de dossiês ou à leitura das gordas. Para quem segue na fila das prebendas. Impenetrável para os doentes crónicos do «chico-espertismo», observado por José Gil como «traço psicológico» de um certo padrão de arrivista nacional. E que pululam, agora como nunca, pelas áreas de decisão e seus interstícios.

          Leitura complementar: entrevista de José Gil ao Público

            Atualidade, Olhares

            O fantasma de Jdanov

            Jdanov

            A reunião de Hugo Chávez com «intelectuais socialistas e revolucionários», destinada a atenuar o impacte de um encontro internacional sobre liberdade e democracia a decorrer ao mesmo tempo em Caracas, por causa do qual Mario Vargas Llosa ficou retido e foi enxovalhado em pleno aeroporto da capital venezuelana, faz, pelo simples facto de afastar, enquanto intelectuais, essas pessoas das «outras», ecoar ideias velhas e perigosas. Evocar tempos sombrios que saltam do além-túmulo para atemorizarem os vivos. A possibilidade enunciada de existir quem possa pensar, escrever, falar, representar, pintar ou filmar de um modo objectivamente «patriótico», «socialista», «revolucionário» – ou mesmo «proletário», como se tentou noutros lugares –, naturalmente situada num lugar privilegiado de acesso ao poder «revolucionário» e às honrarias destinadas aos melhores cidadãos, abre sempre as portas a um universo monolítico e carcerário. Ao qual, pela menorização social e pelo castigo objectivo determinado pela sua diferença, são confinados todos os que se atrevam a pensar à margem do paradigma celebrado. Mesmo aqueles que pisem, solitários e sem programa político visível, o seu próprio caminho. Os autoproclamados «intelectuais socialistas e revolucionários» deveriam ser os primeiros a percebê-lo – para mais com a experiência histórica do seu lado –, recusando aceitar o estatuto de casta ou servir de tropa de choque. Mas preferem acobardar-se, vestindo a camiseta vermelha e tomando-se por valentes.

              Atualidade, Democracia, Memória, Opinião

              Pela igualdade

              MPI

              Fui uma das cerca de 800 pessoas que subscreveram inicialmente o documento fundador do MPI – Movimento pela Igualdade no acesso ao casamento civil. A apresentação pública do manifesto teve lugar neste domingo. Pode conhecê-lo e assiná-lo também aqui. Transcrevo o parágrafo final, aquele que define a meta mais essencial deste esforço.

              O acesso ao casamento civil por parte de casais do mesmo sexo, em condições de plena igualdade com os casais de sexo diferente, não trará apenas justiça, igualdade e dignidade às vidas de mulheres e de homens LGBT. Dignificará também a nossa democracia e cada um e cada uma de nós enquanto cidadãos e cidadãs solidários/as – e será um passo fundamental na luta contra a discriminação e em direcção à igualdade.

                Atualidade, História, Olhares, Opinião

                Pyongyang também é aqui

                Coreia do Norte vs. USA

                A Coreia do Norte acaba de realizar «com sucesso» um novo teste nuclear. Contrariando a actual tendência para um desanuviamento internacional em larga escala neste campo, anuncia triunfalmente que outros se seguirão e proclama que tem todo o direito de o fazer. Para se justificar, a clique autocrática local ignora a nova realidade mundial e retoma o palavrório dos tempos de Guerra Fria, garantindo que «o ensaio vai contribuir para garantir a nossa soberania, o socialismo, a paz e a segurança». Justamente numa altura em que os desígnios da generalidade das potências nucleares apontam para uma nova era de desarmamento negociado. Vindo de quem vem, de um regime autista e despótico cujos responsáveis se comportam como uma trupe de actores de terceira interpretando uma associação de malfeitores dementes, o perigo torna-se real e atinge-nos a todos. Todavia, os consignatários locais de Kim Jong-il ao assunto dizem nada. E quando abrirem a boca, se por algum prodígio o vierem a fazer, será para declararem que a culpa é toda desse «Obama-igual-a-Bush» que carrega aos ombros o mal do mundo e precisam odiar. Ou para invocarem o exemplo de Israel. Sendo matéria muito grave de política internacional, convirá que os eleitores hesitantes conheçam este tipo de condescendência cúmplice quando forem votar a 7 de Junho.

                  Atualidade, Olhares

                  O silêncio dos culpados

                  Silent TV

                  O episódio televisivo que envolveu na passada 6ª feira, durante o telejornal nocturno da TVI, a jornalista Manuela Moura Guedes e o bastonário António Marinho Pinto, não foi um acontecimento banal ou passageiro. Pode dizer-se, sem hipérbole, que em 35 anos de democracia, raras vezes se viu verbalizada uma acareação tão directa de critérios acerca do modo de informar e de fazer jornalismo. Concorde-se ou não com o estilo ou com algumas das atitudes públicas de Marinho Pinto – e eu discordo de muitas –, a verdade é que este, servindo-se na perfeição da mesmíssima estratégia retórica, e da mesmíssima agressividade, habitualmente utilizadas pela sua entrevistadora, questionou ali com frontalidade a transformação sistemática do trabalho informativo num libelo acusatório lançado sobre quem se entrevista ou sobre muitas das pessoas às quais se refere.

                  Bastante mais significativo que o episódio em causa é, porém, que um tal momento de televisão – no qual, aliás, escorreu esse «sangue» tão ao gosto de um jornalismo que tem vindo a fazer escola e do qual Moura Guedes é um dos rostos mais conhecidos – esteja a correr na blogosfera à velocidade da luz enquanto é completamente ignorado pelos jornais nacionais e pelas televisões. O néscio e «bigbrotheriano» corporativismo jornalístico que está por trás desta exclusão, silenciando ou minimizando os argumentos de quem ousa discutir critérios e estilos no modo de informar, é um perigo para a democracia. Deve ser uma causa nossa denunciá-lo e combatê-lo.

                  Adenda: Ao fim de mais de 48 horas, um ou outro jornal refere finalmente, embora apenas a título informativo, o episódio Guedes-Pinto. Prova provada de que vale a pena mexer na ferida.

                    Atualidade, Opinião

                    i era

                    lendo o jornal

                    Na época das lutas papais contra a heresia cátara, o «tempo de graça» correspondia àquele período, com uma duração que ia de quinze dias a um mês, durante o qual os acusados em determinada cidade ou aldeia deveriam apresentar-se espontaneamente aos inquisidores. Foi mais ou menos esse o prazo que consenti ao jornal i para resolver se o tomava ou não como fiel companheiro das minhas manhãs. E até que surjam argumentos que possam alterar a situação, o veredicto final é negativo: o i não é para mim.

                    É verdade que tem um formato muito prático e um arranjo gráfico atraente. Que integra aos sábados um suplemento, dirigido por Pedro Rolo Duarte, capaz de fazer lembrar o DNA de boa memória. E que incorpora o trabalho de jornalistas que aprecio, oferecendo artigos e entrevistas de interesse, capazes, pela concisão que demonstram, de manter informado quem não disponha de tempo ou de paciência para ler artigos longos. Mas isso apenas não basta. A concisão encontro-a à mão e sem custos nos leitores de feeds, e desta maneira, no papel, quase tudo resulta demasiado fácil e superficial para poder interessar o padrão de leitor no qual me incluo. «That’s entertainment!», dizia-me há dias uma amiga depois de dez minutos às voltas com o jornal. Tendo a concordar com ela.

                    E o resto? Bom, o resto é o pior. Colaboradores regulares quase sempre pardacentos e sem chama, entre os quais predomina um pensamento acentuadamente economicista, polvilhado por algumas referências verbais expressas num desagradável sociologuês. E vazios de política, ou «apolíticos», o que, como qualquer pessoa de leituras sabe, significa estruturalmente de direita. Mais uma secção de cultura ultraleve. Para além do incompreensível destaque dos sábados, atribuído à autobiografia intelectual reciclada de João Carlos Espada em formato de folhetim, iniciativa do i que representa, a meu ver, um mistério da natureza. Tudo somado leva-me a deixar de comprar o diário. Poupo 26 euros mensais, o que sempre paga um almoço a preço módico e uma ida ao cinema.

                      Atualidade

                      Hoje apetece-me ser espanhol

                      Telefono

                      Um número cada vez maior de portugueses, gente pacífica e de bem que apenas quer viver a sua vida, tem sido perseguido nos últimos tempos, no recato dos lares como nas profundezas dos bolsos das calças, por telefonemas e mensagens de SMS destinadas a vender toda a espécie de produtos. Com a cumplicidade dos fornecedores de serviços de telecomunicações, muitas das vezes eles próprios vendedores de «planos» maravilhosos, capazes de hipnotizarem os clientes e de deixarem a anos-luz as ofertas da concorrência.

                      Faço parte, no entanto, daqueles cidadãos, teimosos como Judas e nada colaborantes, que quanto mais apelos desta natureza recebem, menos vontade têm de aderir ao que lhes é pedido. Já desisti até de produtos que tinha decidido adquirir só porque, entretanto, o respectivo fornecedor passou a telefonar-me todos os dias, pelas seis da tarde, a tentar saber se eu já me tinha decidido a subscrevê-los. E se o não tinha feito, para me lembrar que existia ainda um outro serviço, de facto muito melhor, que por certo me traria a felicidade terrena. Para não falar de uma poupança significativa no final do mês. Pode ser que sim, mas como me incomodam, não levam nada, não quero o que me oferecem, não compro nem morto. Embora, admito, as manobras às quais me obrigam, vendo, ouvindo e lendo sucessivas mensagens que sou obrigado a receber, deixem na boca uma aguda vontade, perdoe-se-me a franqueza assassina, de meter no correio uma carta armadilhada destinada aos respectivos presidentes do conselho de administração.

                      Mas uma luz parece acender-se do outro lado do túnel: o governo de Madrid acaba de proibir o spam telefónico, anunciando pesadas penas para as empresas que recorram a ele. Ao mesmo tempo, obrigam essas mesmas empresas a pagar indemnizações nos casos em que os clientes vejam interrompidos, por quaisquer motivos, os serviços que de boa-fé contrataram. Outra situação que muitos portugueses conhecem muitíssimo bem. É em alturas como estas – São Nun’Álvares me perdoe – que me apetece ser espanhol.

                        Apontamentos, Atualidade

                        Imigrantes

                        Imigrantes

                        A política de imigração é, neste momento, um tema cada vez mais sensível. E complexo. Admito, como qualquer pessoa minimamente sensata, que alguma coisa precisa ser feita, e com urgência, para equilibrar os fluxos de trabalhadores à escala global e evitar o completo descontrolo. Mas não me parece que a melhor forma de o fazer seja meter a cabeça na areia ou fazer de conta que isso não nos diz respeito. Ou desviar o olhar e ignorar estes dramas humanos, defendendo medidas repressivas e acreditando na possibilidade absurda de uma Europa-fortaleza. O alheamento dos sindicatos e dos partidos da esquerda de manifestações como aquela que teve ontem lugar em Lisboa apenas atestam estreiteza de perspectivas e tacanhez corporativa. O facto delas não votarem ou pagarem quotas – e, por enquanto, de agirem apenas pacificamente, sem grande atenção das televisões que escorrem sangue – parece ser determinante para explicar o desinteresse e o abandono destas pessoas. Que sendo ilegais tiveram a coragem de sair à rua, mostrar a cara e erguer a voz.

                          Atualidade, Democracia

                          Cúmplices ou não

                          O silêncio

                          Isaiah Berlin escreveu certa vez que a diferença entre uma «pessoa civilizada» e um «bárbaro» – não vamos agora debater os conceitos de civilização e de barbárie – é que a primeira consegue bater-se por coisas nas quais não acredita inteiramente. É este um dos elementos nucleares da cultura democrática e ocidental (mas também universal), conquistado após séculos de combates e de incontáveis sacrifícios: o direito à opinião partilhada e dividida, a aceitação da dúvida e da diferença, a valorização do bem-estar e do princípio do prazer, a legitimidade de todas as formas de criação e de conhecimento, a naturalidade das quimeras, a vida como deriva. Distinto daqueles que nos querem fazer regredir aos tempos medievais, a certezas impostas pela força das armas, ao silenciamento de uma voz própria, à ameaça da forca ou do paredão, à servidão da ignorância, da mordaça ou da norma. Destes devemos defender-nos. Não apenas com belas palavras, mas com firmeza. Sem tocar os tambores da guerra mas combatendo sem preconceitos, enquanto construímos as pontes possíveis, na defesa do que a nossa velha casa comum tem de melhor. Desviando os olhos do umbigo e apoiando como raras vezes temos feito, de Norte a Sul, os heróis de carne e osso, mulheres e homens em risco, que no próprio coração das trevas contra elas se levantam todos os dias.

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                            Vozes da rua

                            Vozes da rua

                            Um texto escrito em 2001 para a revista Periférica que talvez venha a propósito de acontecimentos recentes e de alguns dos medos que sentimos por estes dias. Quase tudo permanece.

                            Um dia chegaram notícias da violência. Ecos dos bandos que percorriam as grandes metrópoles. Dos gangs juvenis de Los Angeles ou Berlim, da forma como se moviam em áreas do Rio, Joanesburgo ou Lima. Mas isso era longe daqui, até onde nos levavam os telejornais, a literatura, uma ou outra viagem, mas nunca as portas das nossas casas. Soubemos depois que circulavam já no metro de Paris ou pelas ruas de Birmingham. Até que os vimos aqui. Percorrendo, de anoraques e calças largas de rapper, ou blusões de cabedal e botifarras, as ruas dos nossos bairros-dormitório. No preciso instante em que, após um dia de trabalho e doses brutais de reality shows, cidadãos aparentemente ordeiros dormiam debaixo dos cobertores, podíamos vê-los como sombras, correndo em fuga para a escuridão diante de polícias nervosos e das câmaras da televisão.

                            Hans Magnus Enzensberger observava em 1994, nas Perspectivas da Guerra Civil, a agressividade, aparentemente inexplicável, dos grupos que no coração das principais cidades dos países industrializados se preparavam para banalizar a violência. Os acontecimentos dos últimos anos deram sentido a esse temor, como o comprova o aumento do ruído das sirenes nocturnas, o pavor de circular por certas áreas, as grades de aço em lojas e residências, a proliferação de alarmes nos edifícios e nos carros, o inquietante negócio das empresas de segurança, as «milícias populares» que querem combater os intrusos servindo-se das mesmas armas.

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                              Atualidade, Cidades, Democracia, Olhares

                              «Foleiros & doutores»

                              Já antes falei por aqui – e muitas vezes noutros lugares – do espectáculo lamentável em que se transformou, após a sua gradual «ressureição» na década de 1980, a vivência das praxes e de certos momentos das chamadas festas académicas. Não pelos elementos lúdicos e festivos que podem conter, aceitáveis apesar de tantas vezes discutíveis, mas pelos actos de violência que frequentemente comportam, pelos atentados à liberdade individual que certas vezes configuram, pelo conteúdos aviltantes, sexistas e mesmo boçais que quase sempre integram (embora uma boa parte dos eufóricos participantes, e até alguns dos seus orgulhosos paizinhos, não saibam sequer identificar para o que apontam tais adjectivos). Nas actuais condições, que reajustaram completamente o lugar social do estudante universitário, a tudo isto pode somar-se a ostentação de um «elitismo» anacrónico. Desta vez, para não me repetir, tinha escolhido não falar do assunto, mas uma crónica que Manuel António Pina acaba de publicar no Jornal de Notícias fez-me mudar de ideias. Como infelizmente os textos do JN depressa desaparecem da edição em linha, transcrevo-a numa página interior. Fica aqui.

                                Apontamentos, Atualidade, Olhares, Recortes

                                Discordar, custa

                                Tony Judt

                                Após a publicação, em 2005, do excelente Pós-Guerra. História da Europa desde 1945, Tony Judt transformou-se num dos historiadores do mundo contemporâneo mais conhecidos fora dos meios académicos. Mas o aumento da sua visibilidade e influência foi acompanhada, por parte de alguns sectores, de uma tentativa de descredibilização como «inimigo de Israel», concretizada em declarações de ódio e pequenos gestos de retaliação por parte de organizações sionistas, particularmente de algumas sediadas nos Estados Unidos.

                                Pode parecer estranho, conhecendo o seu percurso. De ascendência judaica, o sobrenome não engana, viveu parte de uma juventude militante e idealista envolvido na experiência inicial dos kibutzim, tendo trabalhado durante algum tempo, como motorista e tradutor, para as forças armadas de Israel, mas existe uma explicação para o aparente volte-face que determinou a sua lapidação pública. O trabalho como historiador e crítico atento à actualidade mundial, inevitavelmente associado à percepção das mudanças verificadas dentro de um universo que conhecia bem, levou-o a reflectir sobre a história recente de Israel e a escrever alguns artigos sobre a forma como a realidade no interior do seu território, e a sua projecção internacional, mudaram muito desde os tempos pioneiros de David Ben-Gurion e dos activistas do Hashomer Hatzair. Sobre o tema, podemos ler em português o importante posfácio a Pós-Guerra («Da Casa Dos Mortos»), e agora dois artigos editados na compilação O Século XX Esquecido («Vitória Sombria» e «O País Que Não Queria Crescer»). O primeiro apareceu em 2002 na New Republic e foi o último ali publicado antes da retirada compulsiva de Judt da ficha técnica da revista. O segundo saiu em 2006 no diário israelita Ha’aretz.

                                Correndo o risco de parecer, ou de ser, excessivamente conciso, acredito que o essencial das divergências, e a raiz, aos olhos de alguns, da sua «traição», se pode relacionar com uma atitude (a crítica de uma arrogância belicista que não parou de crescer a partir da Guerra dos Seis Dias) e com uma proposta (a defesa, bastante incomum, de um «Estado binacional») avançadas por Judt.

                                De facto, não caiu bem entre certos sectores israelitas, e entre muitos judeus da diáspora, o seu entendimento da retumbante vitória na Guerra dos Seis Dias, em 1967, como marco do fim do caminho de um sionismo socialista, igualitário, e de alguma forma tolerante, maioritário ainda entre as comunidades judaicas que pesavam na sociedade israelita da época da independência, em 1948. O episódio terá aberto o caminho ao triunfalismo e à arrogância militarista, em parte associados a uma nova imigração judaica para os territórios conquistados – novos sionistas que «não traziam consigo os velhos textos socialistas de emancipação, redenção e comunidade, mas antes um Bíblia e um mapa» – e à nova classe política que dela emergiu. Estes terão convertido a maioria do país a uma atitude de indiferença diante do universo árabe com o qual convivia todos os dias, normalizando o espectáculo da humilhação sistemática dos palestinianos, e passando a tomar imediatamente como «anti-semita» quem, mesmo no interior do país, se atreva a divergir da atitude dominante.

                                Por outro lado, a consideração, por parte de Tony Judt, da simples possibilidade de se aceitar uma soberania partilhada com os palestinianos, considerada «fraca» e capitulacionista, tornou intolerável a simples consideração da sua voz aos olhos daqueles que nos últimos tempos decidem as coisas a partir de Tel Aviv e de Jerusalém, ou dos lobbies judaicos de orientação belicista sediados na América. Judt paga por isso. Mas, ao mesmo tempo, a sua voz sinaliza de certa forma a afirmação pública da possibilidade de se não considerar a guerra como o último e o único recurso para assegurar os direitos históricos de Israel e dos seus povos. Uma vez mais, discordar, principalmente discordar dos seus, tem custos. Como todos sabemos.

                                  Atualidade, História