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E agora?

escadas, labirinto

Sem rodeios: o principal vencido destas eleições autárquicas foi o Bloco de Esquerda. Mas a derrota só terá admirado quem viva demasiado fechado sobre o seu próprio universo de convicções. Para os outros, ela era de certa forma esperada. Anoto rapidamente quatro explicações que não esgotam o tema.

1. Com uma descida para pouco mais de um terço da percentagem de votantes em apenas duas semanas, ficou mais do que claro que uma boa parte do voto nacional (e local) no Bloco é um voto de protesto. Por si só, o empenho de muitos militantes e o talento de alguns dos seus rostos mais conhecidos, bem como a capacidade evidenciada para impor uma linguagem pública adequada ao «ar do tempo», ainda não são suficientes para gerar um espaço estável de identificação. E para assegurar a necessária confiança na sua capacidade para gerirem de facto as vidas das pessoas.

2. Por enquanto, quando descemos ao terreno, à dimensão do concelho, da freguesia, do bairro ou da rua, percebemos rapidamente a fragilidade orgânica do BE, as dificuldades de implantação social de muitos dos seus militantes e activistas, a falta de experiência de gente empenhada, muitas vezes generosa e cheia de energia, mas a quem falta sob muitos aspectos trabalho consistente reconhecido. Isso nota-se bastante no contacto directo e em eleições desta natureza, onde o que conta são principalmente os rostos dos candidatos e a segurança que oferecem.

3. Tornou-se agora mais sensível uma das debilidades do Bloco que tem acompanhado o seu trajecto. Refiro-me ao facto de, durante a maior parte do tempo, a sua agenda se ter concentrado em excesso no trabalho parlamentar e nos calendários eleitorais, reduzindo progressivamente uma das áreas de intervenção do BE original que era a participação diária dos seus militantes, e também das suas estruturas nacionais, em causas que tenham a ver com interesses e expectativas situados para além do combate institucional. Reconheça-se: um espaço que o PCP tem sabido preencher melhor.

4. Falo apenas como observador: é cada vez mais perceptível a opacidade do Bloco em relação à sua política de alianças. A «esquerda de confiança» – sempre achei infeliz e ambígua a expressão – hesita quando se trata de conciliar interesses, de «sujar as mãos» em experiências de poder que reduzirão necessariamente o peso do seu lado protestativo. Daí o grande erro que foi recusar em Lisboa uma aproximação a António Costa – o Daniel Oliveira já escreveu sobre isso – e, pior, o ter escolhido como alternativa um candidato que representa, em termos públicos, uma das vertentes mais rígidas do heterogéneo BE.

Agora é preciso emendar caminho, rever expectativas, e, acima de tudo, tornar mais claros os objectivos do combate político. O que implica luta de ideias, discussão de projectos, e não apenas passar um pano morno por sobre as feridas. Mas isso será, naturalmente, com os militantes do Bloco.

P.S. – Para que não existam confusões: eleitor em Coimbra, votei BE e apoiei publicamente o BE tanto nas legislativas como nas autárquicas. Não estou arrependido, mas também não sou cego.

    Atualidade, Opinião

    A «rua» madeirense

    Guerrilha

    Como muitas outras pessoas que politicamente nada têm a ver com eles, tenho vindo a desenvolver alguma admiração pelo trabalho guerrilheiro dos militantes do PND. Aquele grupo de cidadãos um bocado reaças mas corajosos que na Madeira lutam praticamente sozinhos contra o poder arbitrário e troglodita de Jardim, Ramos e respectiva confraria. Que apenas se mantém no poder porque os governos da República condescendem com as tropelias e os contribuintes portugueses, todos eles, pagam a «vasta obra», as facturas e os respectivos juros. Uma vez que está fora de questão um desembarque de pára-quedistas aliados no Paúl da Serra ou na Ponta do Pargo, e uma grande parte da oposição local é visivelmente conivente com a teia clientelar do PSD – ou então demasiado «responsável» e instalada para se envolver em tropelias – restam-nos estas pessoas para falarem a única língua que Jardim realmente entende. A da rua, do berro e do empurrão. Mas assim ouvimo-los.

      Atualidade, Democracia

      Um problema para o Super-Obama resolver

      Super-Obama

      Hoje de manhã, quando me perguntaram o que pensava sobre a escolha de Barak Obama para Nobel da Paz, pensei que estavam a gozar comigo. Não porque me parecesse completamente imerecido – não faço para daquele grupo de idiotas que considera «Obama pior que Bush» sem conseguir perceber que o vento mudou e a América com ele – ou por falta de simpatia pela pessoa em si. Longe disso. Mas simplesmente porque ainda não tinha ouvido a notícia e não a julgava possível. Acontece que a parte que cabe ao presidente dos EUA na obra de pacificação do mundo está ainda quase toda por fazer e declarações de intenção, associadas a enormes doses de charme, não deveriam servir, julgava eu, de atestado de cumprimento da missão que este prémio supõe. Ao mesmo tempo, eleva a fasquia e coloca sobre os ombros do presidente americano uma pressão que pode vir a prejudicar o seu trabalho futuro. Obama não é Clark Kent e muito menos o Super-Homem.

        Apontamentos, Atualidade

        Desespero e silêncio

        Cadência

        Não são «manifestamente exageradas» as notícias que chegam sobre o número de suicídios – 24 pessoas em 18 meses – entre os trabalhadores da France Telecom incapazes de corresponderem às metas brutais, às cadências impossíveis e às deslocações forçadas que têm sido impostas pela administração da empresa. Como método, o processo não é novidade alguma, e conhecem-se desde há décadas situações análogas ocorridas, por exemplo, nos EUA, no Japão ou em Singapura. No passado, a União Soviética das brigadas stakhanovistas viveu também muitos casos semelhantes. A diferença estará apenas no facto de, por esta vez, as organizações de trabalhadores se terem revelado particularmente atentas denunciando o drama através dos media. Afinal a tradição francesa de independência do movimento sindical e de luta pelos direitos dos trabalhadores não constitui propriamente uma lenda. Talvez ela possa servir de inspiração a muitos dos nossos sindicalistas, por vezes mais preocupados em fazer coincidir as suas batalhas com metas políticas externas do que em ir ao fundo do lado menos visível, mais sombrio, da realidade humana com a qual lidam e que é suposto representarem. Porque é impossível, no actual contexto envolvendo tantas reestruturações profundas e unilaterais, e um culto declarado dos «índices de sucesso», que não ocorram entre nós casos análogos de depressão e desespero. Onde pára a voz das pessoas que têm de os suportar?

          Atualidade, Democracia, Olhares

          Eleições autárquicas e kitsch

          Kitsch

          Não é fácil abordar a dimensão kitsch de um certo poder autárquico e das campanhas eleitorais que o consagram. O exercício pode ser visto como um gesto imprudente, resultante de snobismo ou de arrogância. Pode ser olhado como manifestação de desdém por um dos círculos do regime democrático onde mais se têm feito sentir as mudanças positivas. Embora qualquer pessoa honesta e razoável reconheça que corresponde também a um dos campos nos quais a corrupção, o esbanjamento e o desatino têm ido mais longe. Em regra impunemente, pois os seus promotores têm quase sempre o bom senso de irem apagando as pistas. Mas resta a obra e o estilo, e sobre estes podemos sempre ir conversando.

          A voga do kitsch enquanto experiência de mau gosto com capacidade para consagrar códigos estéticos que contribui para sacralizar o poder – nesta direcção, o nazi e soviético foram particularmente eloquentes – materializa uma dos sinais mais fortes deste lado lamentável e disforme da política. Reportando-se à sua ligação com o campo das artes, Gillo Dorfles anotou, num artigo publicado em 1963 na revista Aut-Aut, que o próprio conceito de kitsch é aplicável «à obra de arte, ao seu criador e ao seu desfrutador». Acredito que a ideia pode ser estendida à dimensão visual e simbólica de um certo modo de exercer, de dar voz e de legitimar o poder local.

          Sob esta perspectiva, exercer o poder local significa então sobretudo «mostrar obra», independentemente da sua integração harmoniosa no meio e da racionalidade do valor de uso que comporta. Produzem-se então – todos conhecemos centenas ou mesmo milhares de casos – estradas e arruamentos desnecessários, rotundas supérfluas, praças megalómanas, edifícios sem serventia clara, museus e bibliotecas desprovidos de recheio e de programação, estátuas e mobiliário urbano de péssimo gosto, opções toponímicas duvidosas, quando não ridículas, e políticas culturais atentas apenas ao paladar e aos ímpetos identitários mais primários.

          Dar voz passa, nesta dimensão, por personalizar o poder, não tanto em função do resultado final mas antes a partir do rosto visível do «dono da obra». Só isto pode justificar o alastramento frequente de uma política clientelar local tendo como vértice, nos casos de maior sucesso, figuras de chefes locais reconhecidamente autoritários, por vezes corruptos, com uma má imagem para além dos limites físicos do concelho, mas associados a um discurso e a uma imagem populista e kitsch, próprias daquele «chico-espertismo» arrivista e bem sucedido do qual recentemente falou José Gil. Os casos de Ferreira Torres, Valentim Loureiro ou Fátima Felgueiras, com uma iconologia própria, são os mais conhecidos, por mais mediatizados, mas estão longe de serem únicos (o campeonato de Isaltino de Morais é, reconheça-se, um pouco diferente).

          As eleições autárquicas são também um momento decisivo no processo que visa legitimar a autoridade e as opções de quem se instala. Dada a visibilidade do momento, torna-se aqui mais perceptível do que nunca a dimensão do mau gosto exibido pelas campanhas e pelos seus figurantes. Desde logo na propaganda concebida para a ocasião: a pose «presidencial» na roupa domingueira, o grafismo exuberante e primário dos cartazes, a sobreposição até à náusea da simbólica identitária local, as palavras de ordem sobre a devoção filial do candidato à sua terra e sobre o amor desmedido que consagram às ruas, às tradições e, naturalmente, aos seus eleitores. Aliás, na Fenomenologia do Kitsch Ludwig Giesz chamou a atenção para o sentimentalismo – como é sabido, um subproduto do ultra-romantismo – como um dos recursos mais poderosos de «mau gosto estético». Daí a proliferação de candidatos que se servem dos cartazes para, mimando a publicidade aos concertos de Tony Carreira, chegarem, «com amor», «com ternura», com açúcar e afecto, aos corações sensíveis de quem os elege.

          Por último, intimamente associados a estes aspectos, as políticas e os programas culturais seguem muitas das vezes a mesma lógica kitsch, assumindo o conceito de cultura na sua perspectiva mais popular – no sentido do vulgar, nem tanto no do etnográfico – e passadista. Declaram, para o efeito, uma opção de interesses por um passado histórico frequentemente manipulado e pelo culto do «popularucho», rejeitando, em regra por inabilidade política, provincianismo e fechamento de perspectiva, uma lógica de adequação ao mundo contemporâneo e às expectativas dos segmentos mais informados e dinâmicos da população que os escolhe.

          Este panorama não pode ser generalizado, pois subsistem bons exemplos de atitudes completamente diversas. Mas vivendo como vivo em Coimbra, posso dizer que habito um dos mais destacados vórtices da política autárquica kitsch. Fazendo, garanto, um esforço diário para lhe sobreviver e para não deixar de amar a minha cidade.

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            Bagatelas [virando a página]

            Labirinto

            * O Partido Socialista recebeu uma transfusão de sangue de Manuel Alegre e de alguns dos «históricos» que os seus mais fiéis apparatchiki tanto depreciaram ainda há pouco tempo atrás. Em larga medida, e em conjunto com a energia de Sócrates, foram eles quem estancou no limite a hemorragia que iria fazer crescer ainda mais o eleitorado do Bloco. Não foram as Lurdes, os Albertos ou os Augustos.

            * PS e PSD – partidos «aparelhistas» e, na verdade, pouco politizados – perderam terreno para as forças com um eleitorado mais convicto e mais militante. Basta escutar com alguma atenção a longa fila de pessoas que vota em ambos por hábito e fé, frequentemente incapaz de declarar o porquê da escolha. Poderiam acorrer às eleições para o seu clube do coração ou a tomar a camioneta para Fátima. Com os outros não é tanto assim, embora em democracia, como é sabido, não existam votos de 1ª e de 2ª.

            * Todos subestimaram o CDS. Provavelmente, até uma boa parte dos centristas o terá feito também. Mas o CDS, deveriam sabê-lo os estrategos, é voz atávica de uma boa parte do «país real». Aquela que vem de passado que perdura, do respeitinho pelas hierarquias que atravessa a longa duração, do preconceito de classe que separa patrões e empregados, patroas e empregadas, do catolicismo ultramontano que sobreviveu a trinta e cinco anos de laicismo democrático como sobrevivera noutros tempos aos dezasseis de republicanismo costista.

            * Quem vendeu uma imagem dinâmica, cintilante, optimista, atenta à sede de novidade que alimenta as maiorias e às regras básicas da mobilidade cénica ganhou (o PS e mesmo o BE, que agora investiu muito nesse campo). Quem apostou numa campanha repetitiva, negativista, e apoiada em valores antieuropeus ou conservadores, no medo ou no rancor, perdeu (o PSD e, do outro lado, o PCP). O CDS, esse trilhou uma campanha autónoma, pois dirige-se a um eleitorado conservador que reconhece um certo padrão de imutabilidade como próprio da natureza humana.

            * O método de Hondt continua a fazer das suas. O CDS apenas com mais 0,61% de votos que o Bloco conseguiu eleger mais 5 deputados. Já o BE com mais 1,97% de votos que o PCP conquistou só mais 1 deputado que este. Mas contra isto, sem um irrealizável acordo de revisão da lei eleitoral – que até poderia produzir uma lei pior –, pouco se poderá fazer. Ou não?

            * O peso da opinião pública na construção de consensos e de dinâmicas de mudança pode agora ganhar uma nova dimensão. O fim do «quero, posso e mando» tenderá a ampliar o debate democrático, uma vez que no novo contexto político é possível fazer vingar posições, e não apenas «marcar posição». A vontade de participação tem assim condições para viver um novo impulso. Resta saber como e se por muito tempo.

            * O Bloco de Esquerda está numa encruzilhada. Ao contrário do que pensam alguns simpatizantes mais optimistas, dificilmente crescerá mais do que cresceu agora sem se assumir como partido de combate pelo poder. E apenas o pode fazer questionando aquela parte da sua matriz fundadora que se assume como visceralmente anticapitalista e protestativa. Abre-se um tempo de reflexão para que tudo se torne mais claro e equilibrado, antes que o balão comece a esvaziar e as fragilidades apareçam à luz do dia.

            * Espera-se que a parte sã do PS se deixe de teorias da conspiração e perca a nostalgia da maioria absoluta. E que não permita a repetição da atitude autista ou a vertigem autoritária, apoiadas nas costas largas do «contexto de crise», que dominaram o partido ao longo destes quatro anos últimos. Que tenha coragem política para procurar primeiro o consenso ou o acordo, e não o confronto. Para colocar as pessoas à frente das estatísticas. Provando finalmente que uma maioria relativa pode impor um clima de abertura que o poder não partilhado inevitavelmente rejeita.

            [virar de página]

              Atualidade, Olhares, Opinião

              Precisamos falar

              Conversa

              Em função dos resultados destas eleições – e da inconsistência de muitas escolhas, claramente camaleónicas, episódicas e volúveis –, não é preciso ser-se adivinho para prever quatro anos, ou provavelmente menos, de contorcionismo táctico, negociações complicadas e difíceis debates intestinos. Uma coisa é certa: encerrou o mais recente ciclo do poder absoluto. A discussão e e o confronto de ideias ganharam um novo sentido e são agora indispensáveis.

                Atualidade, Olhares

                De repente, os outros

                Musical Chairs

                De repente lembro-me dos outros. Daqueles que permaneceram na penumbra, verdadeiramente na penumbra, ao longo da campanha. Olhados como eleitores potenciais, a quem seduzir, mas quase sempre ignorados na materialidade das suas vidas, nas diferenças que consubstanciam, nas expectativas e anseios que são só seus. Nas mulheres destacadas por preencherem quotas, aparentando paridade onde existe desigualdade de facto. Nos jovens transformados em figurantes, protagonistas para fazerem ruído e simularem futuro. Nos desempregados que perdem voz à medida que se distanciam da vida activa e se deprimem, fora de comícios, manifestações e arruadas. Nos imigrantes diligentemente varridos para longe das câmaras embora participem do nosso destino comum. Nos idosos cujos rostos passam num instante quando a televisão persegue os candidatos. Nos gays, nas lésbicas, nos artistas, nos intelectuais, arregimentados para evocarem um «capital de modernidade» perante a opinião pública, mas excluídos ou confinados a recantos invisíveis nas propostas concebidas para serem lidas pelo cidadão comum e decifradas pelos legisladores. Lembro-me de todos estes, que são milhões, e pergunto-me sobre o que lhes oferece a política institucional, aquela que verdadeiramente decide e governa as nossas vidas. Aquela cujos actores, após a dança das cadeiras, reocupará hoje os seus lugares reservados.

                  Atualidade, Olhares

                  Um voto crítico mas convicto

                  Bloco em Coimbra
                  Imagem do comício do BE em Coimbra na noite de 21 de Setembro

                  Ser politicamente independente e não ter militância partidária não significa ser contra os partidos e a política, ou permanecer indiferente perante os debates e os conflitos que nos cercam. Esta opção corresponde, no meu caso, a uma escolha que implica um posicionamento crítico construtivo e uma vivência tanto quanto possível empenhada da cidadania. Encaro por isso como um acto de coerência o apoio ao programa e às propostas do Bloco de Esquerda para estas eleições legislativas.

                  Desde logo porque este propõe uma intervenção política «à esquerda», sem complexos, que não é puramente retórica e meramente desenvolvimentista, ou então exclusivamente protestativa e maximalista, como as avançadas pelos outros partidos frequentemente conotados com a esquerda. Não sacraliza um crescimento económico auto-satisfeito e sem norte, ao qual em última instância tudo é sacrificado, como não reivindica um ódio de classes e uma atitude teimosamente isolacionista fora do tempo.

                  Depois, porque a generalidade das listas eleitorais do Bloco não obedece à lógica do aparelho ou da representação fundada na figura supostamente neutra e impoluta da «personalidade». Integra alguns dos seus quadros mais valiosos, dinâmicos e empenhados, como não poderia deixar de acontecer – entre os quais existem por vezes diferenças de pontos de vista, pois o pensamento único não mora aqui –, mas recorre basicamente a pessoas reconhecidas pelo seu vínculo às causas sociais e a experiências pessoais e profissionais de mérito reconhecido.

                  Por último, porque o programa do Bloco de Esquerda propõe escolhas e sugere iniciativas públicas que apontam para a clara afirmação política de uma esquerda socialista, moderada na acção diária mas radical contra a injustiça e a desigualdade, que os adeptos da economia neoliberal e da intervenção meramente gestionária do Estado se têm esforçado para definir como irrealizável, adversária do desenvolvimento e socialmente desastrosa. Ao invés, uma viragem de políticas é possível e acredito ser esse o caminho para o qual apontarão, construtiva e combativamente, os futuros deputados eleitos pelo Bloco. Por isso apoio a sua eleição. Sem com este apoio desactivar a minha vigilância crítica. Antes pelo contrário, se querem saber.

                  Versão «revista e aumentada» de um texto que apareceu há dias em Coimbra em Bloco!, o blogue da candidatura do Bloco de Esquerda às eleições legislativas pelo distrito de Coimbra.

                    Atualidade, Opinião

                    Saudades de Nikita

                    Khrushchev

                    O pícaro coronel Khadafi, pseudo-Nehru da aurora do século 21, tinha 15 minutos para discursar na Assembleia Geral das Nações Unidas. Falou durante 95 – Fidel Castro, recordista absoluto da especialidade, dispendeu 240 em 1960 –, disparando em todas as direcções, qualificando o Conselho de Segurança como terrorista, e chegando a lançar estrondosamente ao chão um exemplar em árabe do documento fundador da instituição que o acolhia. Jogando com o estatuto de inimputável e chantagista que lhe permite compor perfomances desta natureza sem que, no mínimo, alguém se erga do seu lugar e saia da sala ostensivamente, deixando-o a arengar para confrades e clientes. Ou proteste batendo com um sapato na respectiva bancada, como o fez certo dia o saudoso líder soviético Nikita Khrushchev, outro personagem razoavelmente burlesco que foi determinante no seu tempo. Mas esse ao menos tinha alguma piada e não fazia explodir aviões de passageiros no ar.

                      Atualidade, Etc., Memória

                      Uma nova servidão

                      A colmeia

                      «The government is to stop funding “pointless” university research, forcing academics to prove that their academic inquiry has some relevance to the real world, funding chiefs will announce today.

                      Universities will have to show that their research influences the economy, public policy or society in order to secure the biggest research grants, the government’s funding body for higher education said.»

                      De acordo com um artigo publicado hoje no Guardian, do qual retirei os dois parágrafos anteriores, os planos do governo britânico para o financiamento da investigação – e o custeamento das próprias universidades – deverão rapidamente excluir a pesquisa pura, considerada perdulária, supérflua e até risível. A outra, a «útil», aquela «que serve para alguma coisa», será, presume-se, superintendida por gestores, aplicados amanuenses, software avançadíssimo e laboriosos gabinetes de marketing. Arrumada num mundo perfeito, inspeccionado, sem desperdício.

                      Ainda não se chegou tão longe por cá, mas sabendo-se como os burocratas domésticos aprendem depressa, e conhecendo-se alguns indicadores espalhados já por regulamentos conhecidos dos centros de investigação e das universidades, não surpreenderá ninguém se em breve habitarmos idêntica paisagem siberiana. E se, pouco tempo depois, alguém nos vier propor que a imaginação exibida em público passe a pagar imposto. Até que num dia não muito distante, se tudo correr bem aos polícias do conhecimento e nos formos conservando quietos, distraídos e veneradores, estudar pelo insano prazer de saber, ou adiantar ideias contrárias à «paz social» por serem absurdamente criativas, serão considerados crimes. Castigando-se os criminosos com trabalhos forçados em «projectos de conhecimento relevante». A ver se aprendem, esses inúteis.

                        Atualidade, Olhares, Opinião

                        O caso do pirómano egípcio

                        Fahrenheit 451

                        Por vezes é necessário tomar posições frontais contra a lógica da diplomacia dúctil e puramente defensiva. Como o fez Manuel Maria Carrilho, contra a vontade do ministro Luís Amado, no caso da prevista escolha do egípcio Farouk Hosni, o pirómano de livros «semitas», para secretário-geral da Unesco. Por esse e por outros actos é que felizmente acabou por ser eleita a búlgara Irina Bokova. Sem o voto português, pois Carrilho foi acabou por ser substituído nas votações por um funcionário do MNE. Como escreveu Pedro Correia, «o simples facto de essas instruções terem sido transmitidas ao nosso embaixador na Unesco (…) revela bem até que ponto chegou o temor reverencial do Ocidente».

                          Atualidade, Democracia

                          Com um ténue sorriso nos lábios

                          Talk Talk

                          Não posso senão concordar com o óbvio, transformado em evidência nestes últimos dias de campanha: se o revanchismo marca-PSD não ganhar as eleições por uns módicos milhares de votos, o cenário inevitável será o da vitória de um PS em queda, com uma subida bastante acentuada do Bloco de Esquerda e outra, menos resplandecente embora perceptível, do Partido Comunista. O passo seguinte deverá passar – pois alguém terá de ficar com as chaves da quinta e geri-la – pela materialização de uma aproximação à esquerda. Seja esta aproximação traduzida num «pacto de governo» ou em acordos pontuais no interior do espaço parlamentar. O segundo cenário é menos complexo e esboçá-lo é menos urgente, pois as soluções serão encontradas a médio prazo, caso a caso, num esforço de negociação que em alguns momentos regressará ao centro, podendo mesmo incluir sectores do PSD. Já um «pacto de governo» supõe uma decisão mais rápida mas também mais difícil.

                          Em artigo publicado hoje no Público, o meu amigo e colega Elísio Estanque desenha muito bem o cenário provável e algumas das dificuldades colocadas na sua construção. Transcrevo-o parcialmente, em total concordância:

                          «Entre uma cultura de rigidez e de autismo como é a do PCP (um partido que, queira-se ou não, está em processo lento de implosão) e uma cultura de maior dinamismo e democraticidade interna como é a do BE (um partido que, queira-se ou não, está em fase de consolidação como terceira força política), terá por isso mais lógica esperarmos uma aproximação entre o PS e o Bloco (caso consigam, em conjunto, uma maioria de deputados).»

                          Para depois continuar:

                          «Se admitirmos que os socialistas e o seu actual líder já se deram conta de alguns dos erros políticos cometidos nesta legislatura, não só no estilo e no diálogo com a sociedade, mas também em áreas políticas decisivas (como a educação, o trabalho, etc.), é razoável esperar que algumas concessões ocorram nesses domínios, tendo em vista um possível acordo parlamentar à esquerda. Idealmente, esse acordo deveria abranger o PCP e o BE, mas tal parece irrealista. Assim, uma aproximação entre o PS e o BE será o requisito mínimo para um governo estável e de esquerda.»

                          Também me parece ser este o cenário possível e desejável dentro das actuais circunstâncias, ainda que duvide um pouco da viabilidade da sua materialização. Esta dúvida prende-se com um problema que EE apenas aflora mas que a mim parece dever merecer especial atenção. Se olharmos bem a projecção dessa possível paisagem, a maior expectativa de quem a deseja ou prepara não se limitará ao resultado do simples somatório dos votos depositados nas urnas e à consequente solução institucional, mas antes àquilo que de autenticamente novo essa aproximação trará à história democrática da nossa Terceira República, no contexto de um processo inevitável de reidentificação tanto do PS quanto do Bloco. Ora é a existência de vontade política para dinamizar esta viragem que não consigo ainda vislumbrar.

                          Para o PS, tratar-se-á de uma alteração de políticas e de comportamentos nas mais diversas áreas, bem como uma partilha parcial de cargos e de poder, com o necessário recuo dos sectores mais empenhadamente autoritaristas e defensores de um «neoliberalismo moderado» como único sistema viável. Para o Bloco, será a perda gradual de uma cultura ainda essencialmente protestativa e abertamente fracturante, com o recuo, ou mesmo o apagamento, das franjas radicais e tardo-marxistas, minoritárias na contagem dos votos mas organicamente activas, que ainda o povoam. Isto não significa o desaparecimento das diferenças, mas obrigará a uma diluição das áreas de conflito, o que poderá provocar, numa e noutra de ambas as forças, alterações irreversíveis. Significará uma coabitação em «comunhão de adquiridos» que forçará novos equilíbrios e radicalizará, numa dinâmica centrífuga, determinados sectores da margem esquerda da actual vida política. Inventario apenas alguns, não carecendo de ser adivinho para o poder fazer: um recuo da ala mais à direita do aparelho e da clientela do PS, um upgrade da cultura política do Bloco em articulação com a prática de poder, o esvaziamento formal do fugaz «alegrismo», um incremento da «urbanização» da base social de apoio do governo, a radicalização e a recomposição da extrema-esquerda supervivente, a estabilização definitiva do PCP como partido de protesto antieuropeísta ou a sua improvável adaptação ao século 21.

                          Por isso não vejo a possível ou inevitável aproximação entre PS e BE como um fim em si na construção de uma solução governativa estável e mais justa dentro do sistema democrático imperfeito no qual vivemos. Vejo-a antes como um momento – possível, repito, embora pouco provável – para conter e superar os excessos anti-socialistas da política governativa simbolizada pelo actual «socratismo» rosa-cinzento. Apenas como uma etapa, como um tempo de mudança, para algo que ainda não podemos vislumbrar mas virá depois. Talvez, como escreve EE, ela possa representar «um decisivo virar de página na história da esquerda e da democracia portuguesa». Talvez. Uma fantasia boa que pode, ou poderia, tornar-se realidade. Daquelas das quais despertamos com um ténue sorriso nos lábios, antes de retornarmos à aspereza da vida de todos os dias. Mas bem sabemos como não existe uma «ciência do real» e tudo avança por processos repetidos de tentativa e erro.

                            Atualidade, Opinião

                            Edith e Zé Manel

                            Edith Piaf

                            Na viragem para a década de 1970 tornou-se muito popular em França uma cantora que os jornais consideravam «a nova Piaf». Mireille Mathieu tinha de facto uma voz interessante, num registo gutural próximo daquele que caracterizara Edith Piaf, e quem a ouvisse cantar num vulgar rádio de pilhas em onda média, ou numa longínqua instalação sonora de festa de aldeia, facilmente confundia a sua voz com a da intérprete de Non, je ne regrette rien. Mas quando se prestava maior atenção à pessoa, à música e ao tom, as diferenças tornavam-se flagrantes. O aspecto de jovem perfeita, asseada e bem comportada, o conteúdo açucarado do seu repertório, e principalmente a ausência daquele pathos que caracterizava a minúscula Edith e a tornava um animal de palco, mostravam imediatamente as debilidades de Mireille. Por isso ninguém se espantou verdadeiramente quando ela desapareceu de cena. Lembrei-me desta distância entre a Piaf e a sua cópia após ler a notícia sobre a confirmação de José Manuel Durão Barroso no segundo mandato como presidente da Comissão Europeia. Confrontando a sua presença medíocre e o discurso apenas melífluo e de circunstância com os de Monsieur Europe, o socialista Jacques Delors, uma personalidade forte que chefiou a Comissão entre 1985 e 1995 e fez com que a voz europeia fosse ouvida e respeitada muito para além do perímetro de Bruxelas, vemos como foi rápida a passagem do original para a sua indigente cópia.

                              Atualidade, Olhares

                              Bandeira vermelha com banda sonora

                              Bandeira Vermelha

                              O Bloco fica-se e o PCP avança em «Um neo-reformismo de fachada socialista». Teoria de altíssima densidade, mes amis. Estão a ver as coisas agora um pouco melhor? Só falta falar – mas está quase tudo lá – da «cobardia que se encobre na bravata verbal», da embriaguez da «própria concepção do poder do verbo»,  de «sentimentos e ambições de classe», de «aliança objectiva com o capital», de «desligação das massas populares» ou de «perda de contacto com a classe operária». Apenas algumas das centenas de expressões de idêntico teor utilizadas por Álvaro Cunhal no recuado Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista, um livro de 1971, para tratar dos «esquerdalhos e outros bandalhos». Como se escreve no prefácio à 3ª edição, publicada já depois do 25 de Abril, «a luta ideológica e política contra o radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista não terminou com o derrubamento da ditadura (…), conserva plena actualidade». E dura, e dura, e dura.

                              [audio:http://aterceiranoite.org/sons/Samba De Uma Nota So.mp3]
                                Atualidade, Olhares

                                Margem de outra maneira

                                Edifício Foice e Martelo
                                Edifício Foice e Martelo, de Yakov Chernikhov (1933)

                                O Zé Neves publicou no 5 Dias um excelente post onde contesta algumas reacções ao clima cinzento e aprazível no qual decorreu o «frente-a-frente» televisivo – as aspas são minhas – entre Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa. Focaliza a sua crítica nas posições, diferentes entre si mas coincidentes no teor negativo da apreciação, enunciadas por Miguel Vale de Almeida, por Daniel Oliveira e por mim, entendendo que, ao partilharem um «sentimento anti-PCP», todas elas tendem a limitar bastante as vias do possível para arquitectar o futuro da esquerda em Portugal.

                                As posições de MVA e de DO parecem ter, nos comentários do ZN, uma natureza mais táctica e causal, e provavelmente terão, uma vez que resultam de preocupações mais imediatas, mas a crítica que me é feita levanta problemas a propósito dos caminhos da esquerda num presente projectado para além do momento eleitoral. Nesta direcção, ZN salienta que a defesa que faço da necessidade de um esclarecimento das divergências e das diferenças entre o Bloco de Esquerda e os comunistas expõe uma «pulsão anti-PCP» que pode indiciar também «uma pulsão anticomunista tout court». Apesar de comigo concordar sobre a necessidade «em romper radicalmente com o legado do marxismo-leninismo». Debater de uma forma aprofundada a justeza ou os sentidos que esta apreciação incorpora é tarefa impossível de concretizar nos cinco parágrafos deste post, e evoca problemas mais densos que tenho tocado aqui e ali, aos quais procurarei regressar noutra altura, mas não quero deixar de dizer alguma coisa sobre a forma como o ZN leu as minhas palavras.

                                Talvez valha a pena sublinhar entretanto que o facto de votar BE, e de apelar a que outros o façam, não implica vínculo algum que me leve a ocultar objecções a algumas das suas escolhas. Como não significa que as minhas posições sejam admissíveis no interior do próprio Bloco. Longe disso, eu sei. Não sou militante bloquista, mas um cidadão de esquerda sem partido, e não concebo uma independência militante de outra forma que não seja como uma posição, um posto de franco-atirador, que liberta quem os assume para uma capacidade crítica mais improvável em quem, participando de uma organização partidária, se vê geralmente forçado a conformar as suas posições públicas com as da sua facção. Por isso os meus pontos de vista não visam defender qualquer estratégia eleitoral opcional para o Bloco – para isso, como partido democrático, tem o BE os órgãos e as pessoas competentes –, mas procuram apenas, mais prosaicamente, lançar pistas para uma reapreciação do futuro da esquerda. De uma esquerda que está aquém e além de atitudes, estritamente conjunturais, vinculadas ao episódio eleitoral.

                                Tendo uma visão humanista, solidária e poética do comunismo, integradora de uma carga utópica vital sem dúvida démodée e assumidamente a-científica, sei que ela não se compadece com a perspectiva realista e instrumental que algum marxismo, e sobretudo o leninismo, impuseram e aplicam com base no modelo que em determinado momento do século passado se presumiu triunfante. Sou por isso, sem dúvida, opositor ao tipo de comunismo que o PCP, e também uma boa parte da fragmentada esquerda radical supervivente, persistem em incorporar, na sua matriz política, cultural e até vivencial, como caminhos pelos quais ainda passará o futuro da esquerda da qual se consideram a parte perfeita. Nessa matriz programática resiste o anacrónico desejo de um controlo integral da sociedade, de uma manipulação redentora do indivíduo como subordinado à ditadura do colectivo, de clarificação centralista do que é ou não socialmente aceitável, da metamorfose da divergência em dissídio pela via do rancor (o desusado «ódio de classe»), de simplificação de um universo cada vez mais complexo, que não é meramente retórica. E não estou com problemas de visão. Ao mesmo tempo – não me parece que esse aspecto seja de importância menor – existe uma cumplicidade em relação aos caminhos mais tortuosos e dramáticos da história da experiência do «socialismo de Estado» que não me parece aceitável, é injusta para a memória daqueles que destruiu (não falamos de mil, ou dez mil, e ainda que falássemos de dez…), e questiona de raiz o próprio conceito de democracia. Por isso jamais aceitaria – como o fariam muitos portugueses que votam e votarão BE – pactuar ao nível da governação do meu país com uma força política que ainda desculpabiliza, quando não elogia, as atrocidades sem fim do Gulag, que cala os atropelos brutais à democracia e aos direitos humanos na China, que justifica a repressão na mitificada Cuba, que tem da justiça, da liberdade, da ética, da guerra e da própria democracia uma noção instrumental que é maleável na exclusiva medida em que essa maleabilidade convenha tacticamente aos seus objectivos operacionais subordinados ainda a uma espécie de irredentismo histórico.

                                Isto não implica, porém, a recusa de colaboração com os comunistas do PCP no plano do combate diário por causas próximas. Ela é comprovadamente e recomprovadamente difícil, mas não impossível. Não impõe também, de modo algum, a negação da grande tradição solidária e memorável que a história do movimento comunista português e internacional nos tem doado. Mas essa inesquecível grandeza não é tão forte que nos leve a fechar os olhos e a admitir, agora e aqui, uma solução governativa feita daquela espúria miscelânea. Por isso me parece que o Bloco, que incorpora, mesmo ao nível da simpatia traduzida em votos, um grande número de apoiantes de uma esquerda socialista democrática – não diria o mesmo de todos os militantes e activistas bloquistas, mas essa será outra questão –, deve reconhecer e aceitar publicamente a sua diferença. Não sendo prioritário fazê-lo a todo o momento, num debate com Jerónimo de Sousa este aspecto não deveria ter sido completamente esquecido (embora se entenda perfeitamente a opção deste em não ir por aí). Pois não o fazer corresponde, como defendi, a menorizar um pouco os muitos eleitores que votam BE pois não querem votar PCP, e também aqueles, sem partido, que ainda hesitam sobre em quem votar à esquerda. E nenhum de nós admite que eles o façam pelos lindos olhos de alguém, pela cor da gravata ou pela ausência dela, ou como se jogassem no Euromilhões.

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                                  Jaume los tiene

                                  Tricolor

                                  Jaume d’Urgell identifica-se no Twitter como «um madrileno nascido em Barcelona, preocupado com o bem comum, a cultura, os Direitos Humanos, a razão crítica e a comunicação». É militante republicano, e foi nessa qualidade que em 14 de Maio de 2006 escalou a fachada de um edifício oficial situado na Gran Vía de Madrid substituindo a bandeira nacional espanhola, de matriz monárquica e ainda conotada com o franquismo, pela tricolor. Jaume não escondeu a cara e deixou-se identificar, tal como assumiu a responsabilidade do seu acto e não aceitou pagar a multa de 4.000 euros decidida por um tribunal, optando por cumprir três meses e meio de prisão efectiva. Agir de outra forma «seria dar-lhes razão», declarou. Mantém em seu nome uma página pessoal e um blogue – La bitácora de Jaume – dedicado à causa republicana. Um bom exemplo de coerência e bravura que nada tem a ver com as brincadeiras azuladas a que temos assistido por aqui. Toda a história no Público espanhol.

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