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Rever e desculpabilizar o Gulag

Canal Mar Branco-Báltico, 1932.

No Público de 13 de Novembro de 2009.

Tal como tem acontecido com a tentativa de reexame do Holocausto, decorrem processos de revisionismo histórico da experiência do Gulag que tendem a reduzir o seu papel na edificação da sociedade soviética ou a requalificá-la como opção politicamente válida. Emergem em parte da historiografia e do actual sistema educativo do Estado russo, determinados a justificar perante as novas gerações o uso da violência na construção de uma política centralista e imperial «eficaz». Em The Future of Nostalgia, Svetlana Boym fala de incentivos a uma «megalomania da imaginação» que na Rússia actual se tem servido das dificuldades diárias vividas pelas pessoas comuns para estimular uma revisão heróica e gratificante do passado. Mas estas releituras provêem também dos sectores políticos, próximos ainda da matriz leninista, que conservam uma atracção reverente pelo antigo «país do futuro radioso». Há cerca de uma década, o debate público em torno do controverso Livro Negro do Comunismo terá contribuído para estimular esta via branqueadora e justificativa da violência de Estado.

Entre nós, muito mais relevantes do que o caso recente da jovem deputada do PCP que declarou não ter ideias sobre o assunto, ou das afirmações de militantes que dizem ou escrevem aquilo que o instinto gregário e a ignorância determinam, são as declarações de pessoas com reais responsabilidades políticas que se esforçam por limpar da memória ou por desculpabilizar os horrores praticados no sistema concentracionário do «socialismo real». O texto de opinião de António Vilarigues que saiu no Público de 30 de Outubro serve de indicador. Ele contesta os números excessivos apresentados por muitos historiadores para contabilizarem as vítimas do Gulag, o que merece alguma atenção. Mas toca o inaceitável quando se permite comparar o número das pessoas «reprimidas» na antiga União Soviética (as significativas aspas são da sua responsabilidade) com o volume de detidos de delito comum actualmente nas prisões americanas, comparando aquilo que não pode ser comparado e criminalizando quem foi deportado e perseguido apenas por motivos políticos ou étnicos.

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    Atualidade, História, Memória, Opinião

    Sol, cuecas e sutiãs

    Secar ao sol

    A Câmara de Mantes-la-Jolie, nos arredores de Paris, considera que pendurar roupa à janela é «poluição estética» e deve ser proibido. A multa aplicada aos prevaricadores é de 38 euros. Parece que são mesmo alguns dos moradores de classe média da arrumada e linda Mantes que se encarregam de denunciar os seus vizinhos, chegando a remeter fotografias das farpelas delinquentes para as autoridades. O «higienismo paisagista» deixado à solta conduz a alarvidades desta natureza. Esperemos que a Junta de Freguesia de Alfama não se ponha com ideias e deixe as cuecas e os sutiãs do povo na paz das manhãs solarengas.

      Atualidade, Devaneios

      Referendo, dizem eles

      Diversos movimentos cívicos católicos querem um referendo sobre o casamento homossexual. Aceitá-lo seria como ter deixado referendar a pena de morte, a instauração da República, o 25 de Abril, a independência das ex-colónias ou a igualdade política e jurídica das mulheres. O resultado estaria viciado à partida por concepções atávicas e mecanismos de controlo das consciências postos em acção pelos sectores mais conservadores da sociedade. Nestas alturas há que reconhecer alguma razão às palavras de Afonso Costa quando apontava os «indivíduos que não conhecem os confins da sua paróquia, que não têm ideias nítidas e exactas de coisa nenhuma» como carneiros contra os quais o progresso das ideias – «a República» dizia ele – se deve inevitavelmente levantar. A democracia não se referenda, mes amis, e não é, nem pode ser, a vozearia ululante das multidões. É para o impedir que há eleições, sabiam?

        Atualidade, Democracia, Opinião

        A Porta

        Porta de Brandeburgo

        Admito que possa ser um sujeito um pouco sensível – e certas vezes irascível, já agora – mas escutar Nicolas Sarkozy a perorar com um ar grave sobre a liberdade dos povos e o derrube dos muros que os separam junto à Porta de Brandeburgo é coisa que me provoca urticária. Aliás a Porta de Brandeburgo, com a sua quadriga rebocando a deusa da Vitória, é  já de si um cenário que incomoda um pouco. Transporta consigo maus presságios. Deviam implodi-la de uma vez por todas e fazer ali uma coisa catita. Um Luna Parque ou assim.

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          Anticomunismo e poética do comunismo

          Anticomunismo

          Nos últimos anos, as tentativas de embelezamento desse «mundo a leste» que desabou em 1989 e de mitigação da memória e das consequências do sistema extremamente repressivo que nele germinou, têm atravessado fronteiras. Em Portugal, porém, essas tentativas têm tomado uma forma inusitadamente organizada e sistemática. A causa de tal originalidade é relativamente fácil de decifrar: aqui não se cingem à iniciativa de círculos diminutos e sectários de ativistas, mas contam com o suporte de um partido comunista militante que conserva peso social e detém um lastro histórico respeitável, reconhecido mesmo por pessoas que não partilham o seu ideário e não têm os seus objetivos.

          Trata-se de um partido resistente a uma renovação ideológica que é observada como repulsiva traição a valores considerados intocáveis. De um partido que nunca reconheceu as consequências práticas e teóricas do movimento de desestalinização vivido ao longo das últimas décadas por quase todas as organizações homólogas, e que vive condicionado por uma animosidade atávica, inscrita na matriz leninista, contra uma «democracia burguesa» reputada como expressão de um mundo inferior. Comporta-se ao mesmo tempo como bastião tardio da «ordem socialista» que Gorbatchev e os seus cúmplices «capitulacionistas» se encarregaram de dissolver, e tem vindo – de uma forma cada vez mais veemente nos últimos tempos – a promover o reconhecimento, por vezes a defesa, de experiências e de princípios que o próprio PCUS pôs em causa há mais de cinquenta anos, logo após a morte de Estaline. É assim que a Queda do Muro, ao invés de se transformar num fator de reflexão, de ground zero para projetar a busca de alternativas, se transforma num ato de pura perfídia que pôs termo a um universo conceptualmente perfeito, enquanto os crimes do estalinismo internacional passaram a ser olhados como irrelevâncias ou a ser evocados, quanto muito, como «erros» menores e inteiramente justificáveis.

          Partindo desta posição, muitos comunistas (do PCP, mas também fora dele) têm observado e comentado, quase sempre de forma crispada e depreciativa, por vezes com alguma violência, os argumentos de quem entende que os horrores do sistema repressivo e concentracionário imposto sobre o mapa do «socialismo real», tal como a punição brutal da dissidência e a gestão do sistema do Gulag e dos seus sucedâneos, não devem ser atenuados e muito menos silenciados. Aqui a palavra-chave é «anticomunismo». Quem critica frontalmente as certezas da direção do partido ou questiona uma certa «mitografia do comunismo» é então acusado de «anticomunista», quem insiste em apontar o falhanço do modelo burocrático e totalitário e em afirmar que foi horror o horror do Gulag é taxado de «anticomunista», quem questiona valores, princípios éticos e perspetivas políticas de uma esquerda autoritarista porque os considera perigosos, sugerindo que podem existir alternativas democráticas combativas, é qualificado sem apelo como impenitente «anticomunista».

          A perversão é antiga e integra-se modelarmente na velha tradição dos comunistas russos, anterior à própria Revolução de Outubro – ela está presente, por exemplo, na cisão consciente e brutal com os mencheviques ou na rutura sem apelo com os socialistas-revolucionários –, que foi depois tomada em mãos por outros partidos-irmãos. Basta lembrar os epítetos lançados sobre centenas de milhares de militantes revolucionários perseguidos e abatidos durante as purgas estalinistas, indiciados todos, consoante a etapa da repressão, como «contrarrevolucionários», «fascistas», «provocadores», «capitulacionistas», «agentes da Gestapo», «espiões ao serviço do imperialismo», «lacaios do capital», e, frequentes vezes, «trotskistas», o que no jargão em vigor no Kremlin e no edifício moscovita da polícia política situado na Lubianka passou a significar, no mínimo, criminosos destinados à prisão ou mesmo ao pelotão de fuzilamento. Pode, aliás, estabelecer-se uma analogia moderada com o epíteto de «comunista» atribuído pelo Estado Novo a todo aquele que destoasse da ordem que este procurava impor, a quem discordasse ainda que só pontualmente do governo de Salazar, manipulando e diabolizando a palavra, num quadro que foi agravado com a propaganda da Guerra Fria.

          Ambas as escolhas foram e são, para além de potencialmente injustas, completamente incorretas e inapropriadas, voltando-se até contra quem as utilizou e continua a utilizar, uma vez que alienam quem pode, pelo menos em determinados contextos, tornar-se um aliado. Tratam-se, na realidade, de expressões ao serviço de «teorias da conspiração» destinadas a identificar «culpados» para dificuldades e incompreensões que, num quadro democrático, poderiam e deveriam ter sido debatidas ou partilhadas, mas que aqui servem, como referiu Lucien Boia em Pour l’histoire de l’imaginaire, de processos destinados à «redução da história e da política a um só princípio, fundado na crença de que a história avança e a política se faz à custa de conspirações sucessivas». Os conspiradores são seres apresentados como possuidores de uma inteligência degenerada, como génios malignos que é necessário desacreditar e destruir. Esta atitude diabolizante  é, aliás, uma das essências de todos os sistemas totalitários e das ideologias que os servem, e o anti-«anticomunismo» dos comunistas ortodoxos serve-se recorrentemente deste processo.

          É verdade que enquanto movimento político e social, e também como atitude individual, o anticomunismo – aqui sem aspas – existe, possuindo um percurso histórico longo e complexo, como o mostra um recente estudo de Miguel Real incluído na obra coletiva Dança dos Demónios. Intolerância em Portugal (Temas e Debates/Círculo de Leitores), mas a generalização constitui um erro de tiro. Porquê? Desde logo porque contestar o dogma ou contrariar a cegueira não significa propor a destruição de quem o faz.

          É este um erro flagrante. Para começar porque é inequívoco o direito do PCP à existência como partido democrático e, mais do que isso, é incontornável a relevância do seu papel como parte do passado, do presente e do futuro da nossa vida coletiva. Só que este papel necessário apenas pode ser cumprido de forma plena se nele ocorrer um processo de abertura antisectária à diferença no interior da esquerda anticapitalista, tendo em conta que esta abertura passará inevitavelmente pelo questionamento, doloroso, mas imprescindível, dos dogmas que foram prendendo o partido ao lado negro de um passado que insiste em invocar. Quando tal verdadeiramente ocorrer, quando a experiência da antiga União Soviética deixar de ser mitificada e a maioria dos comunistas aceitar os valores da liberdade individual como matriz constitutiva, ficará claro que o epíteto de «anticomunista» se aplicará apenas àqueles que recusam o direito de opinião e de intervenção aos que se batem contra a ordem capitalista indagando a possibilidade de uma alternativa.

          Por isso a experiência histórica do «socialismo real», porque globalmente negativa, principalmente na materialização da sua vertente acentuadamente imobilista, intolerante e repressiva, deve ser olhada de frente, analisada, dessacralizada, criticada sem quaisquer complexos. Seguindo um processo revelado imperativo por três diferentes razões: por uma questão de justiça para com as suas inumeráveis vítimas; para que se perceba que a experiência não pode ser repetida; e para que fique claro que os projetos de mudança devem ter em consideração a defesa básica – a única que pode promover realmente uma atualização do conceito de comunismo – dos direitos humanos e das liberdades individuais, indispensáveis para um desenvolvimento harmonioso de todas as sociedades e para o aproveitamento da capacidade criadora dos seus cidadãos.

          É por defendê-lo como especto essencial da vida democrática que muitos homens e muitas mulheres, que não são de direita ou «apologista do capitalismo», se dão ao trabalho – para os dogmáticos, quase criminoso – de exumar cadáveres injustamente esquecidos. Para que a memória da sua luta e do seu trajeto seja limpa de uma vez por todas. Para que se não esqueçam, e para que se não repitam, as injustiças que perverteram o princípio da utopia anticapitalista, cometidas em nome de um projeto igualitário que é, que foi, essencialmente justo ou necessário. Para que o ideal comunista – sinal vital de esperança e de compaixão para com os outros, mas também uma molda do combate pela liberdade – jamais pereça. Foi a comunista Rosa Luxemburgo quem escreveu que a verdade é revolucionária e deve ser sempre exposta, mesmo quando possa ser melindrosa. Negá-lo, isso sim, significará então ser-se contrarrevolucionário e anticomunista.

            Atualidade, História, Opinião

            Palavras para quê?

            Há cerca de um ano circulou pelos jornais e suplementos de economia uma notícia que cotava Angola como o principal cliente do mercado português de imóveis de luxo. Hoje mesmo o Expresso noticia que 30% dos produtos para ostentação vendidos em Portugal são adquiridos por cidadãos angolanos. Existe até um perfil do cliente-padrão: «Homem, 40 anos, empresário do ramo da construção, ex-militar ou com ligações ao governo.» Veste habitualmente Hugo Boss ou Ermenegildo Zegna, compra relógios de ouro Patek Philippe e Rolex, desloca-se em automóveis topo de gama. Já o investimento angolano aqui no rectângulo rondou os 800 milhões de euros apenas entre 2005 e 2008, contando à cabeça com a participação da laboriosa empresária Isabel dos Santos, filha do presidente angolano, com uma intervenção decisiva em empresas como a Galp, a Zon, o BPI, o BES e a Sonae. Dados notáveis para o país do mundo com maior taxa de mortalidade infantil, situado em 224º (penúltimo lugar, apenas acima da Suazilândia) na classificação da esperança média de vida e em 114º na do rendimento anual per capita.

              Atualidade, Olhares

              Pê-ésse-dê forever

              A gravata

              Nada de realmente surpreendente nas palavras chistosas, assistidas por um delicado sorriso de desdém, de José Sócrates ao investir na Assembleia da República contra José Pacheco Pereira invocando o passado rebelde deste: «uma vez revolucionário, revolucionário toda a vida». Posso garantir que conheço de contacto directo pelo menos quinhentas pessoas que um dia foram revolucionárias e que, apesar de hoje estarem maioritariamente «instaladas na vida», não sentem necessidade alguma de renegar esse lado inconformista do seu passado. Ainda que muitas tenham alterado as suas convicções, ainda que atribuam agora ao conceito de revolução, associado a um princípio de vida, uma conotação negativa, elas sabem – mesmo que não tenham lido Rimbaud – que «on n’est pas sérieux, quand on a dix-sept ans». Ou seja, que ninguém que mereça viver pode passar a juventude sem, pelo menos durante umas horas, ter pensado na possibilidade de o mundo ser aquilo que não é. Sabem que são o que são devido a essa experiência, geralmente partilhada. Sabem também – meio-mundo sabe-o – que foi ela a despertar o regime democrático. Muitas votam mesmo PS, algumas apoiaram Sócrates publicamente, umas quantas colaboram até com o governo. É por isso uma verdadeira tristeza que o primeiro-ministro português, com o dever de fazer pedagogia democrática ainda que seja historicamente um parvenu da democracia, tenha afirmado o que afirmou e da forma como o fez. Dir-se-á que foi da adrenalina, que se tratou de uma irrelevância, mas são irrelevâncias destas que definem um carácter. Mário Soares, por exemplo, jamais diria tal coisa. Como exclamou uma amiga minha indignada com o episódio, «apetecia responder-lhe: uma vez PSD, para sempre PSD».

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                A verdade deles

                Pravda

                Não há volta a dar-lhe: a redacção do Avante! atesta pendularmente a sua visão bicromática do mundo. É-lhe insuportável uma realidade intrincada que escape à cartilha amarelecida e maniqueísta da «luta de classes». É verdade que a Queda do Muro de Berlim e o fim das «democracias populares» não trouxeram a felicidade à maioria daqueles que sob elas viveram. É verdade que muitos dos antigos cidadãos dos países que as experimentaram recordam com ostalgie, perante o desenvolvimento descontrolado de um capitalismo selvagem e agressivo imposto de cima para baixo, a antiga segurança de uma aparente paz pública (apesar de assente na repressão da liberdade e na agressão militar), de um sistema de saúde em regra gratuito (embora antiquado e com escolhas trágicas), de uma educação organizada e exigente (se bem que sectária e confundida com a propaganda), de um emprego garantido (muitas vezes associado a trabalho improdutivo e tecnologicamente obsoleto), de uma autoproclamada grandeza nacional (apoiada em manifestações de força e completamente invisível de fora para dentro). Mas torna-se profundamente patético invocar este descontentamento efectivo e legítimo para defender, uma vez mais sem qualquer exercício crítico, práticas de governação absurdas e regimes despóticos que a história felizmente enterrou. Todavia, é precisamente isso que o jornal do PCP acaba de fazer num artigo, com direito a longa citação do falecido «camarada» Erich Honecker, destinado a denegrir o resultado prático e o valor simbólico da Queda do Muro e a defender a caricatura do socialismo que este supostamente defendia. Ler aqui para crer.

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                  Israel num Moleskine

                  Israel

                  Um sketchbook é isso mesmo: um livro de impressões gráficas, de observações desenhadas num movimento de passagem, colecção de rascunhos rápidos e por isso fatalmente intensos. Começa assim: «São 7H00 da manhã… Chego ao Aeroporto Internacional Ben Gurion muito mais tarde do que o previsto.» Israel Sketchbook, de Ricardo Cabral (ASA) é um belo livro de BD que não é bem BD: induz, na forma, uma aproximação ao mesmo tempo documental e ficcionada a um dos países do mundo que concentra um volume particularmente anormal de juízos absolutos e contraditórios, passionais, por vezes demenciais. E não desilude. Por todo o lado uma cor arenosa, muita luz e uma coloração forte, impactos de bala visíveis, e principalmente gente, muita gente diferente, de diferentes cores e credos, que dê por onde der seguirá em conjunto para sempre. Sabemos que assim será porque, como observou a psicanalista e historiadora Elisabeth Roudinesco em entrevista aparecida há dias na revista Inrockuptibles, «não podemos reduzir Israel ao seu exército e aos seus líderes políticos.» Muito bom e incandescente este álbum.

                    Atualidade, História

                    Olá/Hola Ibéria/Iberia!

                    Iberia

                    Aquilo que os esforçados iberistas de Oitocentos não conseguiram através do publicismo, nem Franco obteve por se haver gorado o projecto de invasão de Portugal, está o futebol em vias de materializar. Segundo o jornal A Bola o primeiro passo está dado com a candidatura luso-espanhola à realização do Mundial de Futebol de 2018 (ou de 2022) e agora com a apresentação do logótipo da mesma, «inspirado na obra de um artista luso e outro castelhano (no caso, José Guimarães e Miró)» (sic). Gilbero Madaíl diz ao Record que este «transmite a ideia de união e vontade entre dois países que estão entrelaçados.» Sugere-se assim, graficamente, a hipótese de uma fusão que não deixaria de comover Seribaldo de Mas e Latino Coelho, de exaltar Xisto Camara e Henriques Nogueira, de deixar optimistas Pi i Margall e Oliveira Martins. A Señora Del Pilar e a Virgem de Fátima coligadas nos defendam do que aí vem.

                    Iberia

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                      «Espalhafato tecnológico»

                      Tecnologia

                      «Portugal é o segundo país entre os estados europeus da OCDE mais bem classificados no que diz respeito à sofisticação e ao acesso online a serviços públicos», escreve o diário Público. À frente de nós fica apenas a Áustria e situamo-nos acima do Reino Unido, da Noruega e da Suécia, países que habitualmente encabeçam os rankings relacionados com as tecnologias da informação. Só que em 2008 apenas 18 por cento dos cidadãos portugueses usavam serviços públicos em linha, o que coloca o nosso país em 17.º lugar numa lista de 22 países. Qualquer pessoa que não se deixe impressionar pela política do «espalhafato tecnológico», feito em larga medida de aparências, percebe que a disponibilização dos meios não tem acompanhado o seu uso regular e eficiente. No meio universitário, por exemplo – que julgo conhecer razoavelmente –, na maioria das áreas o aproveitamento dos computadores raramente ultrapassa o processamento de texto, a utilização irregular do e-mail e uma navegação muitas vezes errática. Basta observar-se como a generalidade das máquinas conserva inalterável, anos a fio, a configuração com a qual foram originalmente instaladas, sem esforço algum de personalização e de desenvolvimento. Porque não parar então com o show-off centrando-nos na formação? É muito mais útil, embora se revele menos espectacular e proporcione menores margens de lucro para os sempre prestimosos fornecedores de máquinas e serviços.

                        Atualidade, Cibercultura, Opinião

                        Guerra dos mundos

                        Guerra dos mundos

                        Acabo de instalar o Windows 7 no portátil e no computador de secretária. A tarefa foi rápida, correu muito bem, e, para já, a impressão é de que a Microsoft produziu finalmente um sistema operativo ao mesmo tempo fiável, intuitivo e atraente. O que não significa perfeito. Aliás, trabalho há anos com diversos SO em simultâneo e não conheço um sem defeitos. Talvez por isto me pareçam absurdas as sucessivas guerras travadas entre a Apple e a Microsoft a respeito da perfeição imaculada dos seus produtos. Reconheço a transparência e a beleza do interface dos produtos da maçã (sou, aliás, feliz proprietário de um iPhone e de um iPod), mas aprecio também a versatilidade e o custo mais baixo das criações da empresa fundada por Mr. Gates. Que cada uma das marcas diversifique a oferta, baixe os preços e se torne cada vez mais próxima dos consumidores, parece-me do interesse de todos (e delas próprias também, naturalmente). Por isso considero um pouco idiotas e desnecessariamente agressivos vídeos como este da Apple ou este da Microsoft destinados a ridicularizar a concorrência ofendendo ao mesmo tempo os consumidores. Tal como me parece sem sentido o sorriso de cumplicidade que diante deles os facciosos emitem.

                          Atualidade, Cibercultura

                          Marroquinaria

                          Marrocos

                          O verniz democrático da monarquia marroquina cai com facilidade. O simulacro de abertura e de modernidade com o qual vai iludindo os seus interlocutores do norte não resistiu às caricaturas de Khalid Gueddar, que «ousou desenhar a família real marroquina» e que por esse motivo está a ser julgado. E o diário Le Monde, que as publicou em França, foi proibido de circular no reino. A caça e a punição de jornalistas independentes, essa vem de trás e continua. Mais uma «especificidade» a respeitar?

                            Atualidade, Democracia

                            Jovem Guarda

                            Gulag

                            A sobrevalorização da juventude, inaugurada com a emancipação dos baby boomers e a apoteose da cultura «sessentista», mas entretanto recuperada pelo capitalismo, sitia-nos dia e noite. É ela que tem levado os nossos principais partidos, quase todos eles – à excepção, talvez, do Bloco de Esquerda, que por ser um partido maioritariamente jovem não precisa para já de expedientes desta natureza – a atirar para a segunda fila visível dos comícios, das conferências de imprensa e das bancadas parlamentares com pessoas cuja qualificação fundamental, em alguns caos, é precisamente essa: ter menos de trinta anos, cinturinha estreita, um pouco de sex appeal e, claro, uma dose qb de fidelidade política. O patético e fugaz caso de Carolina Patrocínio, a «mandatária» do PS a quem em boa hora rapidamente tiraram o microfone, é exemplar dessa subversão do conceito de juventude, afirmado como um valor em si mesmo. Naturalmente, um partido ideologicamente arcaico e globalmente envelhecido como o PCP, precisa muito de recorrer a este género de expediente. E então lá puxa, para as mesas das conferências de imprensa, para as filas dianteiras dos comícios e desfiles, para um ou outro lugar visível da Assembleia da República, de alguns decorativos nascidos depois de 1980.

                            Claro que nem todos eles ficam bem na fotografia, pois assim que começam a falar – aqueles que o fazem – se percebe como a data do BI nada tem a ver com uma abertura ao tempo em que vivemos, com a ousadia, o humor descomplexado, a humanidade sem preconceitos ou a inteligência criadora que são características, presume-se, dos jovens que são jovens. A generalidade dos rostos visíveis e das bocas falantes da JCP mostram claramente esse lado, pois representam, quase invariavelmente, justamente aquilo que o seu partido tem de mais cavernoso e dogmático. Os exemplos são inúmeros, mas basta por agora olharmos para o último.

                            Falo, evidentemente, do caso da deputada Rita Rato, de 26 anos, membro da Direcção da Organização Regional de Lisboa do PCP e da Direcção Nacional da JCP, «licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais» e mestranda na mesma área (sic), a qual, confrontada com a pergunta jornalística sobre a existência do Gulag, afirmou: «não sou capaz de responder porque, em concreto, nunca estudei nem li nada sobre isso». Este «isso» trata-se de um pequeno detalhe: a morte de milhões de seres humanos – não apenas milhares, como refere um outro texto no qual também se comenta o caso – e a destruição física e moral, ao longo de décadas, de largos milhões de outros, numa escala numericamente superior à do Holocausto e que abrangeu desde simples cidadãos sem culpa formada a muitos militantes comunistas «culpados» apenas de, real ou imaginariamente, terem divergido de Lenine (sim, o Gulag foi inaugurado ainda em vida do chefe dos bolcheviques) e sobretudo de Estaline. Aquilo que impressiona não é a ignorância da Rita diante de um tema sobre o qual existem tantos livros e documentação disponível, uma vez que, provavelmente, ela nem será totalmente verdadeira, mostrando apenas falta de jeito na tentativa de fugir à questão. O que preocupa, e muito, é, para além da pequenez de formação cultural (e académica) que revela, o facto de alguém com as suas responsabilidades políticas e esta dose de ignorância (ou, pior, de má-fé) ser deputada num parlamento democrático e quadro de um partido que o integra. Mas se não arrepiar caminho terá o futuro assegurado dentro do seu círculo de giz.

                            Post Scriptum – No número de Novembro da revista mensal LER, à venda dentro de dias, publicarei um artigo extenso sobre a literatura do Gulag. Talvez possa interessar também a quem jamais ouviu falar do assunto de outra forma que não seja a da perspectiva cúmplice ou desculpabilizadora.

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                              Saramago e o talibã

                              Saramago

                              É verdade que Saramago fez afirmações descomedidas sobre o valor histórico e a medida ética da Bíblia. O excesso não se encontra, porém, nas marcas de iconoclastia que elas contêm, na crítica da violência inerente à matriz das religiões do livro que elas comportam, mas sim no modo simplista do qual o escritor se serviu, uma vez mais vertido naquele tom de arrogância e superioridade moral para o qual não há já paciência. Acontece porém que a onda de protestos que se lhe seguiu tem alguns contornos perigosos, e se pessoas como um tal Mário David, ao que consta deputado europeu do PSD, consideram que as palavras do autor de Caim não passam de «imbecilidades» e de «impropérios», capazes de justificarem a perda compulsiva de nacionalidade, as coisas atingem um grau de gravidade superior. Mostram que existem portugueses com responsabilidades políticas que têm cabeça de talibã ou talvez de familiar do Santo Ofício. E isto já preocupa um bocado.

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                                Fantasia bíblica

                                Bíblia ao pequeno almoço

                                Contou-me certa vez um antigo dirigente estudantil que na juventude tinha lido e sublinhado integralmente O Capital. Disse-lhe então uma coisa um bocado destemperada mas sincera: «Acho que merecia um prémio. Ao fim destes anos todos a viver como marxista e ex-marxista, e a conviver com marxistas e ex-marxistas, é a primeira pessoa que encontro que tenha lido O Capital de uma ponta à outra». Admito que também não o li na totalidade e costumo sempre sugerir a quem sei que jamais o lerá – mas precise de alguns rudimentos sobre os conceitos de mais-valia e de modo de produção capitalista – que ao menos se entretenha com o prefácio à Contribuição para a Crítica da Economia Política. Como é sabido, este apontava já para algumas das principais teses desenvolvidas anos depois no livro mais espesso do barbudo de Trier.

                                Lembrei-me disto quando soube hoje pelos jornais que os resultados de um inquérito feito a nível nacional revela que «apenas» 9,7% dos portugueses leram a Bíblia Sagrada. Por acaso sou um deles, embora o tenha feito numa idade em que apenas vi aquilo que queria ver: uma narrativa mágica sobre a eterna luta entre o Bem e o Mal que eu concebia à imagem e semelhança de um filme de Cecil B. DeMille ou de William Wyler. Mas pelo que conheço dos meus compatriotas e dos seus hábitos de leitura – a larga maioria nem o Código da Estrada de João Catatau terá lido com atenção de fio a pavio –, não me parece que tantos o tenham feito. Corro alguns riscos ao dizer isto, mas acredito que uma boa parte dos que afirmaram ter lido a Bíblia se devem referir a fragmentos do Novo Testamento escutados num ofício religioso ou àquele intocado volume negro de capa cartonada que têm lá em casa, dignamente perfilado com a Enciclopédia Alfa, o Livro de Pantagruel e os volumes encadernados da obra completa de Agatha Christie que escondem da pequenada a trilogia do Henry Miller. Ou será mesmo assim ou então a vida terá feito de mim um cínico e um incréu.

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                                  «A derrota é uma coisa preciosa»

                                  Não basta deixar um link para este artigo do Rui Tavares nos destaques que costumam ficar por uns dias ali na coluna da direita. Quero sublinhá-lo pelo que nele se diz e pelo dele emana como exemplo. Gostaria muito de ouvir responsáveis do Bloco – e não apenas companheiros de jornada ou outsiders – a reflectirem assim, em público, construtivamente mas sem complexos, sem a preocupação de aparentar unanimismo, sobre o caminho próximo futuro da democracia e da esquerda que conta, aceitando que o caminho por si escolhido nem sempre tem sido perfeito, que as prioridades por vezes podem ser outras, que existem frentes por ocupar.

                                    Atualidade, Olhares