Admito que hoje, ao seguir na televisão a conversa entre Jerónimo de Sousa e José Sócrates, senti pena do primeiro. Muito cansado, sem chama, quase deferente, mastigando as palavras, incapaz sequer de repetir o discurso oficial, monocórdico mas combativo, do seu próprio partido. E lembrei-me muito da voz e da presença de Álvaro Cunhal. Sócrates tratou «o Jerónimo» como se este fosse um delegado sindical de um lar para a terceira idade a quem se deva sempre uma certa dose de condescendência. Cunhal jamais admitiria que alguém o tratasse daquela forma e a ninguém passaria pela cabeça fazê-lo. Foi mau para todos e triste de ver.
De quando em vez, sem o desejarmos, somos injustos até para pessoas que não conhecemos. Uma das injustiças que tenho feito a algumas consiste em considerá-las mortas quando afinal se conservam entre nós e no uso das suas faculdades. Ainda há pouco, numa conversa, «matei» Claude Lévi-Strauss, afinal vivo e activo com 101 anos. Passou-se agora a mesma coisa com Ernst Nolte, o controverso historiador alemão conhecido, principalmente nos anos oitenta, pela polémica interpretação do nazismo como uma reacção inevitável, e de certa forma compreensível, aceitável até, à ascensão do comunismo. Sugeria mesmo o «assassinato por razões de raça», perpetrado por Hitler, como uma resposta ao «assassinato por razões de classe» projectado universalmente pelos bolcheviques. A altercação pública a propósito do tema que manteve então com François Furet apenas fez com que essa explicação ganhasse uma maior visibilidade.
Pois Nolte – que eu já «enterrara» e afinal não passou ainda dos 86 – volta agora à arena, em Die Dritte Radikale Widerstandsbewegung: Der Islamismus, já de 2009, com uma teoria nova e não menos controversa. Procura desta vez explicar a irrupção do islamismo radical como algo de «justificável», de «compreensível», surgido como expressão da resistência à presença e à envergadura do Estado de Israel. Num raciocínio marcado por um antisemitismo redivivo à medida do nosso tempo, chega ao ponto de considerar como «percursor corajoso do combate palestiniano» a Mohammed Amin a-Husseini, o mufti de Jerusalém que em 1942, aos gritos de «Matem-nos a todos!», apelou em Berlim a uma jihad contra os judeus, apoiando a «solução final» proposta pelos nazis e colaborando mesmo na organização de uma divisão das Waffen-SS composta por muçulmanos bósnios. O islamismo será então, para Nolte, uma «ideologia muçulmana defensiva» face a um Israel colonial e imperialista. Interessante, como resultado do seu raciocínio tortuoso, é a aproximação do nazismo ao islamismo como movimentos político-culturais legítimos irmanados pela sua oposição a um «mal maior». Veremos agora que eco terá esta leitura entre aqueles que condenam Israel sem olharem à complexidade dos trajectos históricos e à realidade objectiva que moldaram e moldam a sua existência. Que eco terá dentro do universo islâmico também. Ahmadinejad aplaudirá com toda a certeza.
O tom cordato do qual se serviram Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa no aborrecido pseudo-debate televisivo desta noite pode funcionar objectivamente como um embuste lançado sobre um sector do eleitorado, situado à esquerda e em clara ruptura com o PS, que de forma genuína hesita sobre em quem votar. Jerónimo surpreendeu um pouco mais, dadas as arremetidas anti-bloquistas antes adoptadas pelo PCP, uma vez que Louçã apenas manteve o habitual registo, sistematicamente assumido pelo Bloco, de contornar jovialmente este tipo de confronto. Ambos deram tacitamente a entender que as divergências serão pouco relevantes. Mas não são: os dois partidos têm agendas muito diferentes, uma cultura política hoje bem distinta, divergem bastante em áreas como as finanças ou as questões internacionais, e projectam expectativas separadas no que diz respeito a uma eventual participação em soluções de governo. Os cidadãos que desejarem conhecer quais as discordâncias têm por isso todo o direito a ser esclarecidos. Até para que Bloco e PCP não abonem as razões de quem anda por aí a sugerir que o medicamento é o mesmo e só as embalagens dão uma ideia do contrário.
[Uma descrição mais detalhada da pacífica conversa é feita neste post de Pedro Correia.]
De acordo com as palavras do engenheiro Sócrates em variante soft da entrevista de hoje à RTP, «talvez não tivesse havido da nossa parte a suficiente delicadeza na nossa relação com os professores». Demonstrar arrependimento, convenhamos, é sempre uma atitude meritória. Principalmente em campanha. E fazer o pino também. Ficamos à espera.
P.S. – Já depois deste post escrito, a ministra da Educação não fez o pino, mas rastejou, admitindo agora, já com o Juízo Final em andamento, «que existiram problemas de comunicação entre Governo e professores nos últimos quatro anos». É por estas e por outras idênticas que tantas pessoas honestas cospem para o chão e se benzem quando tal espécie de gente lhes passa por perto.
Existe um erro básico na apreciação que o PS e alguns dos seus apoiantes fazem do actual papel do Bloco de Esquerda. Consiste ele em meterem no mesmo saco o Bloco e o PCP, quando, de facto, apesar das franjas radicais e proto-marxistas que ainda resistem no BE, este tem vindo a afirmar-se cada vez mais como uma força-charneira. Enquanto partido política, cultural e sociologicamente localizado entre um «socialismo» de direita, assumidamente defensor de uma lógica gestionária, clientelar e desenvolvimentista de tipo neoliberal, e um «comunismo» de museu, activo mas sitiado, cada vez mais radicalizado e quase incapaz de dialogar com quem não siga a sua verdade histórica e fale a sua língua de madeira.
Mais tarde ou mais cedo, PS e Bloco estarão condenados a entender-se como solução governativa de um tipo novo. Não quero com isto dizer que seja essa a solução na qual me revejo (aliás, aquela que Daniel Oliveira volta a defender na crónica publicada este sábado no Expresso). Continuo a pensar que é útil e até necessária a existência de uma força radical representativa, capaz de assumir com algum impacto uma presença de reivindicação e denúncia sem a qual a democracia pode derivar para uma lógica de gabinete ou para o autoritarismo. E que essa força já não pode ser o BE. Mas sei que a governação não se faz apenas da proclamação de princípios abstractos com os quais eu possa eventualmente simpatizar: faz-se de conciliações e de iniciativa. De algum realismo também. E será por aí que passará a aproximação da qual falo. Daí que os violentos ataques ao Bloco lançados pelos socialistas (e por alguns dos «independentes» que os apoiam) só possam voltar-se contra os próprios. Como? Simples (ou «simplex»): concorrendo para fornecer a muitos cidadãos a percepção de que tal solução de alternativa e diferença apenas poderá ser projectada se ocorrer uma votação bastante significativa no Bloco. Não sei se, para o poderem compreender, têm passado o suficiente pelo outro lado da realidade.
Um dos aspectos que mais impressiona na indicação da moça Carolina como «mandatária para a juventude» da campanha do PS é o sereno assentimento da Juventude Socialista perante escolha de tal densidade. Ou a invisibilidade pública de uma posição crítica que de algum responsável da JS tenha emanado. Esta organização, que em tempos terá funcionado, pelo menos formalmente, como «consciência crítica» do partido em relação aos seus adultos patronos, tal como acontecia com a JSD e até com a JC – mas não com a JCP, pois aí a juventude da idade foi e é temperada pela fidelidade aos «imutáveis» princípios –, parece ter perdido completamente a capacidade para definir uma voz própria e introduzir dinâmicas de reflexão. Justamente aquilo que a tornava razoavelmente respeitada fora do aparelho partidário. Hoje toda aquela precocemente responsável gente se concentra no seu papel de actores da propaganda e de rosto um pouco menos rugoso de um «modelo de modernidade» que a direcção do partido lhe destina. Afirmar por entre um chorrilho de tolices e de banalidades, como o fez a Carolina, que mais vale fazer batota do que perder, não lhes parece já constituir uma inqualificável ignomínia ética, uma distorção completa dos ideais socialistas mais elementares. Sobretudo porque, como calculam, o rosto público da jovem conquistará votos, votos significam poder, e o resto é conversa. Uma lógica muito natural, na qual só não alinham esses empedernidos radicais que dão demasiado valor aos princípios.
Tão concentrada tem sida a atenção lançada neste período pré-eleitoral sobre as querelas mais ou menos individualizadas entre PS e PSD, e sobre a campanha dos socialistas pelo «voto útil» e contra essa «esquerda radical» que «serve a direita», que permanece por fazer um outro tipo de confronto, essencial para que a escolha de muitas pessoas faça sentido. Refiro-me à necessidade de se mostrar com toda a clareza que votar no Bloco de Esquerda ou no Partido Comunista Português não pode resultar de uma escolha fortuita ou sectária.
O PCP percebeu-o mais cedo, radicalizando o discurso – consequente com as características da tendência obreirista que domina o partido – e atacando, em público ou no contacto directo, a actividade «pequeno-burguesa», para si falsamente «de esquerda», do Bloco. Já este continua a esquivar-se a este tipo de combate, confinando-se sempre a posições defensivas ou mesmo ao sepulcral silêncio de cada vez que o problema se põe. Existem, naturalmente, divergências profundas – de programa, de organização, de substância política, de atitude ética e mesmo de percursos pessoais – que tornam impossível, e até incompreensível para a generalidade das pessoas, qualquer aproximação formal entre uns e outros. Mas existe também uma real incompatibilidade de propostas que é preciso observar.
Os comunistas têm mostrado qual a sua escolha, extremando as palavras de ordem (falam agora de «Ruptura e mudança», uma vez mais sem apresentarem alternativa de poder por falta de condições «objectivas e subjectivas»), enquanto o Bloco opta por se mostrar um pouco mais construtivo, com assomos apenas pontuais de radicalismo. A alternativa dos eleitores passa assim, na larga franja de cerca de 20% do eleitorado onde se trava esta luta, por uma escolha tão simples quanto esta: preferem uma força que se assuma como trincheira, juntado forças para «a luta» pelos seus improváveis «amanhãs que cantam», ou optam pela construção de uma base política capaz de obrigar a uma inflexão a cegueira do «socialismo gestionário» no poder? Por mim, a escolha está feita, mas acredito que ela seja ainda pouco clara para um grande número de pessoas. Por isso, e para que não se vote apenas no «contra», ou por uma questão de simpatia por Jerónimo ou por Louçã, este debate deveria também ter lugar. Embora eu desconfie que seja melhor esperarmos sentados por ele.
Iván de la Nuez, ensaísta e crítico de arte cubano residente em Barcelona, percorre, na prosa singular desta Fantasia Vermelha, alguns dos ecos da Cuba revolucionária recolhidos por muitos daqueles para quem esta um dia constituiu um importante factor de atracção. Ao mesmo tempo, oferece uma reflexão estimulante sobre a sua própria condição do intelectual de esquerda na era pós-comunista. No centro do esforço, uma tentativa de rastrear a mitografia construída em redor da paixão e da esperança projectadas a longa distância pela insurreição dos barbudos caribenhos. No termo do exercício, o autor acabará por questionar a perda dessa expectativa e por procurar uma saída para o impasse.
Um velho Cadillac serve de metáfora e ponto de partida, indiciando um olhar projectado sobre a Cuba «de charme» que os guerrilheiros da Sierra Maestra combateram e depois herdaram. Muitos anos depois, reparado sabe Deus como com peças de fabrico soviético, e circulando com formidável estrépito do motor pelas ruas de Havana, o velho automóvel evoca os problemas reais que o regime inaugurado em 1959 jamais foi capaz de solucionar. Em redor, entretanto, uma fantasia imensa foi sendo construída. Esta é olhada por de la Nuez não como imagem enganosa, mas, na senda da proposta de Peter Sloterdijk, como «uma teoria da imaginação produtiva, (…) uma ficção operativa», capaz, a partir de fora, de transformar a ilha num espaço sobre o qual se projectaram sucessivas representações de um mundo que se cria único e admirável. Gente tão diversa quanto Jean-Paul Sartre, Régis Debray, Giangiacomo Feltrinelli, Oliver Stone, Sydney Pollack, Wim Wenders, Ry Cooder ou David Byrne – entre «centenas de atletas da esquerda ocidental» que viajaram até Cuba à procura da sua utopia pessoal – colaborou então, com apego e eficácia, nessa construção tão fictícia quanto poderosa. Prolongada hoje através de uma reinvenção – no trilho dos ambientes de O Nosso Homem em Havana, de Graham Greene – do mundo pré-revolucionário: «carros vintage, vestuário de época, sabor tropical, regresso de sonoridades típicas», que o organismo director do turismo cubano procura aproveitar ao máximo, associando-lhes frequentemente uma evocação voluntariosa do regime e a incondicional admiração por uma endeusada gerontocracia «portadora da verdade». Ficção não partilhada pela generalidade dos cubanos, que, insiste o autor, nela têm participado fundamentalmente como espectadores ou meros figurantes.
Qual o sentido tomado então neste livro pela segunda metáfora, aquela que evoca o ronceiro Trabant, «o pior carro do mundo»? Na actualidade, os velhos automóveis, outrora fabricados na Alemanha de Leste, circulam apenas como curiosidade, continuando a trabalhar graças a peças fabricadas agora por empresas capitalistas. No último capítulo, de la Nuez evoca então alguns dos contornos de um imaginário pós-comunista que identifica como cenário para a construção de uma esquerda domesticada, que já não passa pela utopia um dia reflectida pela revolução cubana. Real mas hoje fora do tempo, como um Trabant.
Iván de le Nuez, Fantasia Vermelha. Os intelectuais de esquerda e a revolução cubana. Tradução de Ana Bela Almeida. Angelus Novus, 142 págs. [Publicado originalmente na revista LER de Julho-Agosto]
«Os serviços secretos portugueses estão a assinar protocolos com serviços públicos com vista a infiltrar nesses serviços agentes não identificados ou com a identidade codificada. O objectivo da celebração destes protocolos será promover, através desses agentes, o combate ao crime financeiro e à criminalidade organizada dentro de organismos do Estado.
Segundo o jornal Correio da Manhã, que avança a notícia na sua edição de hoje, os protocolos deverão colocar, para já, agentes do SIS e do SIED no Ministério da Administração Interna, dos Negócios Estrangeiros e das Finanças. O mesmo jornal diz que a medida, prevista na lei orgânica do Serviço de Informações da República Portuguesa (SIRP), estará a ser alargada a outros serviços públicos.»
(uma pergunta ingénua: terão os nossos agentes dois vencimentos?)
O surgimento de blogues como o Simplex e o Jamais, reunindo pessoas dispostas a intervir no processo eleitoral apoiando o PS ou o PSD, foi de início uma boa notícia para a democracia. Anunciava o reconhecimento partidário, ainda que informal, da importância de um território de opinião e de informação cada vez mais frequentado, capaz de crescer na exacta medida em que os meios de propaganda tradicionais, como o comício, a arruada, ou mesmo o debate televisivo e radiofónico, se tornaram cada vez menos sedutores. O esforço dirigia-se então àquela parte do eleitorado, aparentemente em crescimento, que lê blogues de opinião (ou simplesmente «que lê»), não se limita a profissões-de-fé e detesta o ruído dos altifalantes e dos zé-pereiras. A quem não precisa ouvir aquilo que nada acrescenta ao que já conhece. Mas o tom e o conteúdo de quase todas as intervenções apresentadas nestes dois espaços parecem-me incongruentes na relação com esse objectivo. Com excepções, a maioria das participações sucede-se num registo de petit politique, do mero panegírico ou da cega depreciação, da trica, do «ele disse»/«ela não escreveu», próprio na aparência de «irmãos inimigos» separados questões de águas, que não me parece possa convencer quem não se encontre já convencido. Que nada acrescenta a quem, de facto, procura uma motivação racional, e a percepção de um rumo e de factores de esperança, para se decidir a desenhar uma cruz neste ou naquele quadrado do boletim de voto.
O caso do Jamais diz-me pouco, pois este situa-se num campo que não é o meu, mas já não se passa o mesmo com o Simplex, uma vez que este pretende, pelo menos em parte, dirigir-se ao «eleitor de esquerda», e alguns dos seus colaboradores estiveram já, e por certo um dia voltarão a estar, do mesmo lado da barricada que eu (embora saiba que não apreciarão muito o próprio conceito de «barricada»). Aqui, admito que o tom geral me incomoda um tanto, uma vez que nada soma ao autocomplacente discurso partidário oficial e revela um lado, por vezes perigosamente agressivo ou próximo do primário, para mim até agora desconhecido, de pessoas que estimo e por cujo trabalho e inteligência tenho apreço. Em vez de agregarem capacidade crítica e de questionamento dos inegáveis bloqueios partidários, abrindo-se ao diálogo e alargando a capacidade de convencimento, a maioria dos participantes tem-se cingido a repetir ad nauseam séries de banalidades – em alguns casos, aconteceu já, chegou-se mesmo à enormidade – que não servem literalmente para nada. A não ser para uma afirmação pública, aos olhos do próprio grupo político e dos seus apoiantes, das certezas de quem escreve. Não me atrevo, como houve já quem o fizesse, a dizer que a motivação desta ou daquela pessoa seja a previsão de futuras prebendas governamentais. Não acredito que isso se passe com a maioria – embora obviamente não possa colocar as mãos no lume por todos –, pelo que a explicação do espectáculo diário ao qual tenho assistido se me torna difícil de entender. Só sei que aquilo que começou por ser a aplicação de um bom princípio se transformou num preocupante sintoma de dificuldade, ou de ausência de vontade, para repensar o repensável. Vindo de quem vem, não pressagia nada de bom para depois do 27 de Setembro.
Isto não interessa apenas a quem gosta de futebol. Diz respeito a todos, pois evidencia uma certa paranóia do politicamente correcto da qual devemos proteger-nos antes que, por um destes dias, a experiência da liberdade individual seja confinada a rituais iniciáticos praticados em lugares ermos. Victor Pereira, o presidente da Comissão de Arbitragem da Liga de Clubes, acaba de afirmar que «os muçulmanos são, por motivos, religiosos, contra a exibição do corpo nu», esclarecendo, com invejável perspicácia, que «isso acontece parcialmente quando um jogador tira a camisola ou a puxa para cima da cabeça». Nestas condições, e como o futebol é um jogo global, «devem respeitar-se estas crenças religiosas.» Punam-se então os jogadores que tiram o jersey num gesto de alegria (já acontece, saibam os mais distraídos), impeça-se o insolente público de vibrar com eles, e, já agora, estude-se seriamente a possibilidade de forçá-los a usarem collants durante os jogos. Mas como as praias são também lugares públicos, e pode encontrar-se em alguma duna um mirone fundamentalista de binóculos, exija-se aos banhistas um fato completo de homem-rã. Naturalmente, fora de água as mulheres-rã deverão abster-se de tirarem os óculos. E assim viveremos em paz. Ou quase.
O problema é antigo e não persiste apenas, agrava-se. Por muito que possamos continuar suspeitar dos contornos e dos objectivos da mediação americana do mundo, e principalmente das suas iniciativas militares «preventivas» – embora só os estrábicos possam insistir, como num mantra, em que, sob esse ou outros aspectos, «Obama é pior que Bush» –, não é possível defender o abandono puro e simples do Afeganistão sem que a esse abandono deixe de corresponder um perigoso agravamento dos desequilíbrios regionais e o retorno em força do regime despótico e medieval dos talibãs. Diz o presidente dos EUA, a propósito da intervenção militar em terras afegãs, que «esta não é uma guerra de escolha, é uma guerra de necessidade». Seremos bastante tontos se, pelo menos, não aceitarmos discutir este argumento.
A Reader’s Digest encaminha-se para um processo de falência. A confirmar-se, esta representará para muitas pessoas, como aconteceria com o fecho da Coca-Cola ou o desaparecimento de Hollywood, o fim de uma era. Parte importante da percepção internacional da América, e até do modo como muitos americanos se vêem ainda hoje a si próprios, foram construídos tendo como suporte os artigos, crónicas, «piadas de caserna» e «episódios da vida real» condensados, a partir de 1922, na revista que tinha com lema «America in your pocket». As Selecções do Reader’s Digest serviram de instrumento da Guerra Fria e, provavelmente por isso, durante décadas circularam em Portugal sem problemas, primeiro na versão brasileira, iniciada em 1942, e a partir de 1971 em edição nacional. Em conjunto com ABola e a Crónica Feminina, a revista Selecções chegou a ser um dos títulos com maior tiragem, com lugar certo em muitas casas portuguesas. Tem ainda uma tiragem mundial de 100 milhões de exemplares – é publicada em 19 línguas e em 48 diferentes versões –, mas entretanto deixou de interessar às famílias da classe média, que foram o seu público original, e é hoje uma publicação visivelmente anacrónica. Porque o mundo mudou muito, a América também e, apesar de alguns retoques de cosmética, as Selecções não mudaram quase nada.
Está a correr no Facebook «Que tipo de estudante de Coimbra és?», um inquérito a merecer uns minutos de atenção e que pode servir de case study. Mais do que pelo resultado final que cada um dos inquiridos obtenha, importa seguir o tom tardo-castiço e o valor micro-sociológico das perguntas e das opções de resposta oferecidas. Para memória futura, como diria o tal.
«A sociedade internacional deve respeitar inteiramente a soberania judicial da Birmânia», declarou ontem o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Pequim, Jiang Yu, a propósito da nova condenação de Suu Kyi e do movimento planetário de indignação que se lhe seguiu.
O recente caso da bandeira alvi-anil hasteada na varanda do município de Lisboa coincide com a divulgação de uma queixa da Associação Nacional de Guardas-Nocturnos por aqueles que não possuírem arma própria se verem forçados a trabalhar munidos apenas de uma simples lanterna. Imaginemos pois o problema que seria observar um desses senhores já com uma certa idade, mais barriga que perna, mais vulto que corpo, a enfrentar à mão-desarmada a sanha monárquica dos moços do Darth Vader. E se ele tivesse a reivindicada arma da ordem, o que faria? Dispararia para o ar lançando o pânico na madrugada da Rua do Arsenal e prejudicando a campanha eleitoral de António Costa? Ou atiraria sobre os próprios pés, para não experimentar problemas de maior?
Seguindo a Wikipédia, o guarda-nocturno é «um profissional que exerce a actividade de ronda e de vigilância de uma determinada área urbana, durante o período nocturno, auxiliando as forças de segurança e os serviços de protecção civil.» A actividade é antiga, tendo assumido um maior destaque urbano ao longo do século XIX, quando as cidades cresceram a um ritmo novo e a quietude da noite abalou para lugares ermos ou bairros despovoados. Em Portugal já foram milhares, mas hoje rondarão os 500, quase sempre em idade avançada, mal-equipados, sem grande treino, e até, temo, sem um enquadramento jurídico adequado. Lamento pela ANGN, mas se nem um homem dos seus, capaz de soprar o apito regulamentar para espantar os mariolas, se protegia do orvalho da noite sob as arcadas da varanda camarária, para que quer agora que a PSP lhes distribua pistolas? Ainda se fossem canhões…
Vale a pena percorrer o Wallpaper City Guide de Havana, da colecção editada pelo diário i (mas que pode ser vendido isoladamente). Ignora de maneira olímpica os guias de viagem para cidadãos da classe média alvoroçados pela perspectiva de uns quantos dias com a cor do exotismo, e, claro, deixa em paz os desdobráveis oferecidos pelas embaixadas de Cuba. Percorre assim ruas e praças imutáveis, hotéis para turistas estrangeiros e alguns bares aprazíveis, duas ou três lojas e uns quantos edifícios públicos, sem cedências ao estereótipo do charme, à costumeira romantização da decadência, ao elogio militante da pobreza honrada, a uma épica refrescada a ventoinhas de pá. Mas também sem fazer a injustiça de negar o esforço suado do havanês comum para oferecer ao visitante o que de melhor consegue obter. Para viver uma vida complicada com o sorriso possível e um gingar de ancas, olhando sempre mais para o que foi, ou para o imediato, do que para aquilo que há-de vir. Nisto, o guia Wallpaper não difere muito dos ecos que nos vai legando a literatura cubana contemporânea. Como uma boa parte dela, oscilando entre o ritmo da vida pessoal e um horizonte colectivo imperscrutável: «Havana é hoje uma daquelas quinceañeras envergonhadas, uma adolescente à beira de se tornar mulher e de se ver livre de um pai autoritário.» Fica o desenho de uma cidade ritmada por um presente para gastar sem demoras já que o futuro está lotado de possíveis.