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Portugal, gare de partida

Imagem de Zoë
Imagem de Zoë

Há pouco mais de um século a figura do «brasileiro», o ricaço fanfarrão recém-chegado do lado de lá do Atlântico, com fortuna incerta, feita de astúcias e aparências, ou efetiva, reunida sabe-se lá como, era notória na paisagem das nossas aldeias, vilas e pequenas cidades. Não que a sua presença fosse significativa em termos demográficos – de facto, surgia um aqui, mais dois acolá, um outro um pouco mais além – mas porque o seu porte extrovertido e esbanjador, e também o seu comportamento moralmente dúbio e um tanto pacóvio, se faziam notar em ambientes nos quais dominava o recato do fato escuro e a moderação dos gastos pessoais e das atitudes públicas. Na literatura portuguesa da segunda metade do século XIX, a pícara personagem surge em múltiplas obras, tendo sido Camilo quem dela traçou retratos mais ásperos e impiedosos, embora forçosamente caricaturais. (mais…)

    Atualidade, Olhares, Opinião

    As duas vias da alternativa

    Se não quisermos naufragar no desânimo, temos de mudar de agulha, de procurar outra rota. O empobrecimento da maioria das pessoas, a diminuição do papel social do Estado, o crescimento brutal do desemprego, a redução progressiva das liberdades e dos direitos, a instalação de um clima de medo e descrença, a desconfiança dos cidadãos em relação aos seus governantes, a desvalorização do ensino e do conhecimento, o menosprezo pela criação e pelos criadores, a ausência generalizada de expectativas, a destruição apressada de tudo aquilo que de positivo foi erguido sob o regime democrático, exigem dos cidadãos cientes desta desgraça uma atuação rápida e enérgica. A construção de uma alternativa ao atual governo, mas também de uma mudança clara em relação às lógicas de sistema que delapidaram os dinheiros públicos, instituíram o «aparelhismo» rotativista partidário como princípio de governo e desvalorizaram a democracia. Esta é uma necessidade que ganha, visivelmente, um número cada vez maior de adeptos entre os convictos de que não será com o fatalismo, a desistência e a depressão coletiva que se poderá inverter a situação. Que se poderá voltar a viver num país minimamente justo e com um lugar para a dignidade e a esperança. (mais…)

      Atualidade, Olhares, Opinião

      Admirável mundo velho

      Num comentário a esta imagem:«Saudades de uma linha reta!»
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      «Que saudades de uma linha reta!»

      A palavra Ostalgie emergiu há alguns anos, na Alemanha, como expressão de uma tendência para reavaliação benévola do passado da antiga República Democrática Alemã. Esta «nostalgia do leste» surgiu, de início, como expressão da dificuldade de alguns setores sociais, particularmente os ligados às gerações mais velhas de «alemães de Leste», para lidarem com as transformações da sua vida pessoal e da sua História coletiva. Mas rapidamente expandiu a sua influência, absorvendo grupos descontentes com a realidade e as desigualdades do capitalismo, chegado de rompante e deixado à solta depois de 1989, ou então incapazes de se adaptarem a novos estilos de vida e a diferentes processos de trabalho. Enquanto os mais velhos passaram a exprimir nostalgia por um passado, o da sua idealizada juventude, no qual, apesar da ausência de liberdade e da penúria generalizada, tinham vivido uma certa experiência de segurança no emprego e de igualdade formal no quotidiano, muitos dos mais jovens começaram antes a idealizar um passado que não viveram, olhando-o como expressão do paraíso perdido ao qual seria bom poder alguma vez regressar. (mais…)

        Atualidade, Cibercultura, História

        As escolhas

        Quanto mais difíceis, incertas e dramáticas são as épocas e as situações, mais facilmente se reconhecem as grandes qualidades e os piores defeitos daqueles que as vivem. Aquilo que de melhor e de pior todos nós temos. E isso acontece mesmo em situações-limite, quando o medo do sofrimento, da exclusão e da morte pode fechar cada um sobre si próprio, aparentemente impenetrável e dúctil, ocupado com as tarefas mais elementares da sobrevivência. Calar-se, não ver, passar ao lado, sair dali, é então a atitude mais comum. No entanto, os relatos dos que sobreviveram ao internamento nos campos de concentração e de extermínio recordam, com insistência, que mesmo nos limites mais extremos da barbárie dos carcereiros e da desumanização dos detidos foi possível, em instantes fugazes, aparentemente impercetíveis, mas muito intensos, encontrar sinais de compaixão e de coragem, bem como, ao invés, marcas indeléveis de impiedade e traição. (mais…)

          Atualidade, Cinema, Memória, Música

          É a ortografia, pá

          A decisão do governo brasileiro no sentido de diferir por três anos a aplicação do último Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, faz-me voltar ao tema. Tal como escrevi noutros dois posts – reunidos num só – não me interessa entrar aqui (ou ali) em pequenas guerras e grandes exaltações a propósito do assunto. Tenho procurado tratá-lo de uma forma muito prática e, na verdade, a única coisa que neste caso uma vez ou outra me tem tirado do sério é o uso de falsos argumentos, ou de poses «caturras», na defesa das posições mais rigidamente imobilistas. Na realidade, se alguma coisa tinha entendido já, muitos anos antes da situação ser criada e da polémica surgir, foi que a língua é um grande barco transatlântico cuja essência, e razão de ser como veículo de comunicação, é tão rígida quanto móvel. Pelo que me toca, posso dizer que passei por quatro fases neste processo: a primeira de alguma desconfiança em relação à mudança, a segunda de observação daquilo que esta anunciava, a terceira de adoção crítica (condicionada em boa parte por imperativos profissionais), e a quarta de integração, compreendendo rapidamente, apesar de ter passado mais de meio século a escrever com regras diferentes, que algumas das novas normas até «naturalizam» mais os modos da fala e da escrita, embora outras, em menor quantidade, de facto os perturbem também. (mais…)

            Apontamentos, Atualidade

            Imaginar o outro

            Amoz Oz

            Num tempo no qual se repetem, uma vez mais, as tentativas sistemáticas de representar Israel e o sionismo como um universo unívoco, parte integrante de um odioso «império do mal», sem se ter em conta, por ignorância, casmurrice ou má-fé, a diversidade e as contradições que separam, por vezes profundamente, os cidadãos israelitas e as distintas formas de sionismo, retomo, quase três anos depois, um fragmento da entrevista ao escritor Amos Oz, conduzida por Alexis Lacroix, que saiu no nº 494 do Magazine Littéraire, de Fevereiro de 2010. (mais…)

              Atualidade, Democracia, Memória

              Portugal nas Caraíbas

              Ainda ontem aqui deixei um texto crítico mas esperançoso sobre as contradições do PCP e a necessidade destas serem superadas num processo dinâmico de aproximação política à esquerda, bem como num quadro de solução governativa do qual os comunistas poderão, e com toda a certeza deverão, fazer parte. Mas entretanto, durante os trabalhos do XIX Congresso, parece ter ficado muito claro o sentido tomado pela estranha «solução» de governabilidade que o partido advoga para Portugal. Um «governo patriótico de esquerda» (eis o novo mantra a partir de agora), do qual se excluem formalmente o Partido Socialista e o Bloco de Esquerda (quem o comporá então? e como se chegará a ele?), que preparará uma viragem do país para o interior de si próprio (uma «cubanização» fora do tempo?), de costas para o projeto europeu (que em vez de ser reformado será abandonado), associada a uma «saída do euro» apontada como inevitável e salvífica. (mais…)

                Atualidade, Democracia, Opinião

                PCP: esperança e abertura

                Em reportagem publicada no Diário de Notícias a propósito do início do XIX Congresso do PCP, a jornalista Fernanda Câncio descreve uma parte do que ouviu a alguns novos militantes para explicarem a sua adesão. Numa curta frase – «acredito que a política que o PC defende pode restituir sonhos» – um deles terá realçado, provavelmente sem de tal se aperceber, aquela que continua a ser a essência da capacidade de atração do partido: o lugar que este mantém, reforçado agora em contexto de crise económica, social e moral, como espaço partilhado de crença, capaz de projetar na vida de muitas pessoas uma dimensão de esperança. Como uma experiência de resistência, de trincheira, da qual se espera partir um dia à conquista da Terra Prometida da justiça e da igualdade. No entanto, pouco parece importar, à generalidade dos entrevistados, o conceito de democracia que deve ser aplicado a esse futuro: parte-se do princípio de acordo com o qual esta em que vivemos é má, é «falsa», para alguns «burguesa», e outras experiências, com uma base histórica que julgam «ao serviço dos trabalhadores» – a da antiga União Soviética e dos Estados «do socialismo realmente existente», a da China, a de Cuba e, pasme-se, por vezes a da própria Coreia do Norte – estarão bem mais próximas daquela que pode ser a boa, a «verdadeira». Aquela pela qual vale a pena lutar. (mais…)

                  Atualidade, Democracia, Olhares, Opinião

                  Sobre o fascismo na América

                  «Estamos realmente em guerra – uma guerra longa, global, uma guerra pela nossa civilização», mas também «para salvar a nossa democracia.» A ensaísta e consultora política americana Naomi Wolf deixa estas palavras como um aviso e um apelo no último capítulo de O fim da América. Mas afinal de contas que guerra é essa e que padrão de democracia é este, merecendo ser salvo e que se combata por ele? A guerra, para a autora, ocorre dentro dos próprios Estados Unidos da América e é travada para que os fundamentos da democracia, propostos durante o processo de constituição da Nação pelos seus Pais Fundadores, não sejam esmagados por uma insidiosa «viragem fascista», capaz de replicar, e não apenas por analogia, a experiência que levou à queda da Alemanha da República de Weimar e à fatídica emergência do Terceiro Reich. Já a democracia da qual fala a ensaísta tem a forma daquela que, recorrendo à Carta dos Direitos, à Constituição, ao habeas corpus e a uma continuada tradição de diversidade e acolhimento, projetou a utopia de liberdade e de igualdade presente no momento de formação da nação americana e conservada ao longo de uma grande parte da sua história, definindo o essencial da sua identidade profunda. (mais…)

                    Atualidade, Democracia, Olhares

                    A norte do paralelo 38

                    Apesar do condicionamento endémico de stocks com o qual convivem hoje as nossas livrarias, não deve ser difícil encomendar alguma leitura sobre a República Democrática Popular da Coreia, a remota Coreia do Norte. Encontro três traduções mais ou menos recentes: Os Aquários de Pyongyang, de Kang Chol-Hwan (Hespéria), «Aqui é o Paraíso!», de Hyok Kang e Philippe Grangereau (Ulisseia), e A Longa Noite de um Povo, de Barbra Demick (Temas & Debates). Todas incorporam depoimentos de norte-coreanos que nos dão a ver o caráter absoluto, extremo, implacável, da experiência totalitária e da ditadura paranoide, supostamente comunista, que condicionam e subjugam o seu povo e o seu país.

                    Existe sempre um público para a exposição do horror e do sofrimento dos outros, mas tal não é necessariamente um sinal de perversão. Afinal, quem leia obras desta natureza não pode evitar uma relação de repulsa diante de tanto sofrimento e de tanto negrume. Mas a atração por esse tipo de testemunhos vem também do isolamento extremo do país e da dificuldade que todos sentimos de cada vez que procuramos obter informação credível, não contaminada pela fantasmagoria norte-coreana ou pela contra-propaganda. De facto, estas leituras ajudam-nos bastante a reduzir a distância, recolhendo experiências que, em regra, os noticiários, mais curtos e forçosamente truncados, acabam sempre por manter na sombra. (mais…)

                      Atualidade, Democracia, Olhares

                      A China que aí vem

                      O mundo concebido de acordo com a ordem americana, que prevaleceu a partir de 1945 e saiu reforçado do termo abrupto da Guerra Fria, encontra-se em declínio. Aparentemente, tudo aconteceu com enorme rapidez. Pela viragem do milénio ainda era possível – os conselheiros de George W. Bush cultivaram tal ideia no início do seu primeiro mandato – conceber os Estados Unidos da América como «hiperpotência», e, desmembrada a União Soviética, falar de «unipolaridade» para descrever o que parecia ser uma nova e única forma de poder, projetada à escala mundial com sede declarada em Washington. Na sequência do 11 de Setembro de 2001, a imposição da segurança global através de uma pax americana parecia em andamento. O que pretende demonstrar Quando a China mandar no mundo, do jornalista e académico britânico Martin Jacques, é que esta ideia representou um logro e que, na verdade, estamos a viver uma mudança histórica apenas iniciada mas já destinada a transformar irreversivelmente o planeta. Dela derivará uma nova ordem, tendo a China como eixo do poder económico, da força militar e, provavelmente, do equilíbrio político internacional. (mais…)

                        Atualidade, Democracia, Olhares

                        A paz, direito de todos

                        Começo por uma declaração de intenções necessária num cenário de ódio e cegueira que tolda a perceção do real imediato: sou absolutamente contra a resolução do interminável conflito israelo-palestiniano pela força das armas. Sou também a favor da devolução aos palestinianos da possibilidade de construírem um Estado independente e de cessarem décadas de exílio e sofrimento dentro do seu próprio território. E defendo a existência de um Estado de Israel, não admitindo, ao contrário do que pregam os antissemitas assumidos ou dissimulados, a demonização dos judeus e o seu regresso à condição de párias e errantes. No essencial, tal como muitos palestinianos, tal como muitos israelitas, tal como muitos cidadãos de todas as partes que prezam o respeito pela liberdade e pelos direitos humanos, e pensam que o horror não deve ser combatido com o horror, defendo sem hesitações uma paz assente no reconhecimento mútuo à existência digna de que cada um dos povos, dentro dos seus Estados, soberanos, livres, autónomos e democráticos. E se possível, um dia chegaremos lá, também fraternos e colaborantes. (mais…)

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                          A explicação das pedras

                          Em certos momentos, aquilo que se viveu não serve apenas para guardar em caixas atadas com cordéis e para relembrar em animados jantares com os velhos companheiros.

                          Aconteceu há quarenta anos e julgo que nunca contei isto em público. Em Novembro de 1972, pela segunda e última vez na vida – a primeira tinha ocorrido na primavera desse ano, embora em circunstâncias menos pitorescas – fui preso pela polícia. Foi no final de uma manifestação de rua contra a Guerra Colonial. Com 19 anos, julgo que protegido por parecer mais novo, passei apenas uma noite de frio, fome e apreensão nos calabouços de uma esquadra lúgubre da PSP de Coimbra. Pela manhã, identificaram-me, fizeram-me umas perguntas inócuas e mandaram-me embora sem grandes complicações. Meses depois experimentava, no entanto, sem direito a apelo, a inevitável retribuição das forças da ordem: um interrogatório feito pela PIDE (relativamente suave, sei lá porquê), seguido de uma integração compulsiva nas Forças Armadas, onde seria obrigado a permanecer três anos (e onde fui novamente interrogado e punido com a deslocação para tarefas mais perigosas em teatro de guerra). No momento da detenção ainda tinha nos bolsos os últimos panfletos por distribuir, que tive de mastigar e engolir para não ser apanhado com eles em meu poder e assim agravar a culpa. Pouco antes desfizera-me de algumas das pedras com as quais tinha tentado atingir (ou atingido de facto?) a montra de um banco e procurado defender o grupo da carga da Polícia de Choque. Aliás, a explicação das pedras não se ficou por aí, uma vez que, ainda em Janeiro de 1975, fui dos que se passeou com os bolsos do kispo cheios delas nas imediações do Palácio de Cristal, no Porto, quando do histórico cerco ao primeiro congresso do CDS. (mais…)

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                            O fim da indiferença

                            Red Line 2. Imagem de Votjech

                            É verdade que depois da instituição do regime democrático em Portugal o direito à greve nem sempre foi usado da melhor forma. Ao contrário do que acontecia durante o Estado Novo, quando a repressão policial transformava qualquer ato grevista num gesto heroico, utilizado com elevados riscos pessoais apenas em situações dramáticas, a partir dessa altura de viragem ele transformou-se numa escolha frequente, quase rotineira, à qual se recorria muitas vezes como a primeira e não apenas como a mais extrema e avançada das formas legais de protesto e de reivindicação. Por isso se banalizou e transformou por vezes, nas décadas mais próximas, numa escolha que nem sempre congregava já o apoio da maioria dos trabalhadores que supostamente deveria reunir. E por isso também algumas foram as greves convocadas nas quais deveria participar e de cuja convocatória discordei. Ainda assim, e digo-o com uma ponta de democrático orgulho, sem jamais ter furado uma que fosse. (mais…)

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                              Pedintes, não

                              Uma das práticas mais detestáveis, comum no Portugal que desapareceu com a queda do decrépito Estado Novo, foi a instituição do «pedido». Numa sociedade profundamente desigual e impedida pela censura de alimentar a vigilância pública, a distribuição de cargos, empregos e sinecuras raramente era feita de um modo transparente, pela via do mérito premiado ou do concurso público. O caminho mais habitual, em particular nos cargos de nomeação oficial ou na área dos serviços, era seguir-se a via hereditária, sendo rotineira a prática do nepotismo, ou então da amizade associada a relações de proximidade e de dependência. Fora desta modalidade, a distribuição de lugares era quase sempre obtida, com poucas exceções, através do «pedido» e do consequente «favor». A proteção ou a promoção eram imploradas a quem tinha capacidade para as conceder, ou para influenciar o decisor, fazendo-o em regra às custas de outros candidatos com patrocinadores menos fortes ou com manchas curriculares causadas, por exemplo, por atitudes sociais menos conformistas. (mais…)

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                                O pecado de Jonet

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                                A polémica em redor das lamentáveis declarações de Isabel Jonet sobre a naturalidade da fome e da pobreza está a ir pelo lado errado. Não me parece que a pessoa em causa seja a pura incarnação da maldade e do filisteísmo, como alguns sugerem, ou que a dádiva pela dádiva seja um mal em si, pois sou dos que entendem, creio que avisadamente, que mais vale comer um pão oferecido do que morrer à fome. O que julgo dever ser criticado foi a defesa política que fez, na linha de um certo catolicismo conservador e de direita, de um regresso à condição de pobreza. Como se esta fosse uma inevitabilidade sem outra causa que não a ordem natural das coisas. Nesta leitura, sim, revi com um calafrio as «senhoras» da minha infância, que nas iniciativas das Conferências de São Vicente de Paulo pregavam a tal caridadezinha sem beliscarem a ordem social injusta que determinava a sua necessidade. O pecado de Isabel Jonet foi sair do seu trabalho – e até sou dos que costumam ajudar o Banco Alimentar Contra a Fome, a que preside – e pôr-se a pregar em defesa de uma certa ideia de sociedade. Está no direito de o fazer, mas deve arcar com as consequências da sua escolha. Arrastando consigo o infelizmente necessário BACF.

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                                  O regresso da caridade

                                  A caridade é, para os católicos, uma das sete «virtudes teologais», estando associada ao amor pelo próximo e sendo encarada como marca da presença e da intervenção do Espírito Santo. Outras leituras dos Evangelhos dão-lhe um sentido um pouco diferente, relacionado uma vez mais com uma determinação divina condicionada pela fé, mas cujo cumprimento confere a quem a pratica uma espécie de segurança e de salvaguarda para a obtenção de um lugar eterno no definitivo «reino dos justos». Durante muito tempo, a sua prática foi, em sociedades fundadas na desigualdade dos direitos e em hierarquias bastante rígidas, transformada numa forma de pacificação social, dando a alguns dos mais pobres a possibilidade de obterem temporariamente o pão e o teto que lhes permitisse sobreviverem, e aos mais ricos a certeza de que, por essa forma, permaneceria contida a vontade deles se insurgirem contra a ordem que determinava a sua condição. No século XVII, Descartes viu-o bem quando declarou que essa suposta virtude «cobre com um véu os defeitos dos homens», e menos de cem anos depois Marivaux reforçou a ideia, sublinhando que ela «não tem pudor face a um miserável», uma vez que, «antes de o ajudar, começa por lhe espezinhar o amor-próprio» ao reconhecer como natural, como inevitável, a sua miséria. (mais…)

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                                    A democracia e os seus inimigos

                                    Não é novidade alguma dizer-se que estes tempos de desigualdade e crescente penúria, de ausência de perspetivas e de crise dramática do Estado social, são péssimos para a democracia. Nem é preciso ler os títulos ou ver os telejornais; basta andar de olhos abertos e de ouvidos alerta para percebermos como um número crescente de pessoas associa a crise ao desgoverno, o desgoverno à mentira e a mentira ao sistema político que tem a democracia representativa como núcleo. Neste ambiente, facilmente se propaga uma grosseira retórica antipartidos, antipolíticos e «antipolítica» que a todos mete no mesmo saco e não anuncia nada de positivo. Pior: esta é a altura para os discursos demagógicos se multiplicarem em número e em capacidade de influência, servindo-se dos sintomas mais dolorosos para enganarem os cidadãos a respeito dos motivos que os produziram e dos métodos da cura. A democracia, asseguram, é um desperdício, não dá de comer às pessoas, pelo que é necessário suspendê-la para se evitar a catástrofe. Se tal acontecer, serão cortadas as pontes com o passado recente e um autoritarismo mais ou menos iluminado, e sem fim à vista, será apresentado como única via possível para escapar ao descalabro. Tivemos em Portugal um bom exemplo deste caminho sem retorno, com a imagem negra e falsificada da história da Primeira República que o Estado Novo divulgou ao longo de décadas, insinuando a ideia de que o regresso do sistema parlamentar seria uma concessão a um caos primitivo e infernal. (mais…)

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