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A campanha «da confiança»

A que propósito alguém que não é eleitor do Partido Socialista, discorda de muitas das suas escolhas passadas e presentes, suspeita de posições publicamente assumidas (em casos excepcionais até da idoneidade democrática) de vários dos seus responsáveis nacionais e locais, e para mais é candidato nas listas de uma força política concorrente às eleições de 4 de Outubro, se preocupa com a desastrosa pré-campanha que os socialistas têm vindo-a desenvolver? Tenho uma resposta simples: não me é indiferente, nem me parece que possa ser indiferente à maioria dos portugueses, e à esquerda política em particular, que o PS perca as eleições para a direita. Sabendo que não existe alternativa no que diz respeito à vitória nas urnas neste Outono e à constituição de um novo governo, prefiro Costa a Passos como primeiro-ministro de Portugal. Ainda que, se necessário for, cá esteja depois – e provavelmente estarei – para me opor às escolhas das quais discorde que nessa qualidade venha a procurar impor. Dizer o contrário é prova de cegueira, própria de quem, embarcado na sua arca de Noé, não se importe que rompa o dilúvio. (mais…)

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    Uma esperança para Outubro

    Bastante mais tarde que o desejável, chegamos ao fim de uma legislatura que ficará na nossa história recente pelas piores razões. Problemas determinados por escolhas erradas e ampliados pela crise financeira internacional iniciada em 2008 ocorriam já, sem dúvida, antes de ela começar. No entanto, estes quatro anos têm sido particularmente violentos, em larga medida porque a coligação PSD-CDS, tal como repetidamente afirmaram os seus responsáveis e comprovam as medidas que foi adotando, entendeu aproveitar o grave contexto de crise para, com a conivência do presidente da República, promover um programa revanchista e rancoroso de ataque ao setor público. Um programa «para além da troika», jamais referendado e destinado a vingar as derrotas e os limites que a direita politica teve de ir aceitando nas quatro décadas de democracia.

    Mas tal como é do caos que nasce a luz, estes quatro anos de empobrecimento e de desânimo coletivo abriram também uma nesga de esperança, associada à possibilidade de ver emergir um novo tempo político. Na hipótese de superar o ciclo rotativista, centrado na exclusiva gestão dos partidos do «arco do poder», que conduziu ao ponto em que nos encontramos e se mostra agora claramente esgotado. A expectativa está, pois, depositada na capacidade que a esquerda política possa demonstrar para, apesar das diferenças e rancores que historicamente a têm atravessado, e das dificuldades que não desaparecerão por um passe de mágica, ser capaz de oferecer aos portugueses um caminho para escapar ao ciclo assassino em que se viram mergulhados. (mais…)

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      Nem Tsipras é Leónidas, nem Bruxelas as Termópilas

      Com informações que chegam de diversos lados pode reconstituir-se boa parte daquilo que aconteceu desde a tarde de domingo até à madrugada da passada segunda-feira naquelas salas do edifício de Bruxelas onde decorreu o encontro de chefes de Estado e de Governo. Ao fim de 14 horas de reunião, já ninguém estava em condições de pensar e de decidir de forma serena e equilibrada sobre o que fazer com a dívida grega, pelo que as decisões dali saídas, sendo graves, permanecem em parte negociáveis. Apenas duas coisas parecem ter resultado definitivas daquela amarga maratona negocial: de um lado, a instalação de uma crescente divisão entre os países do norte, comandados pela Alemanha e pela Holanda, e os do sul mediterrânico – com a vergonhosa exceção de Portugal, pois até a Espanha se mostrou mais prudente –, traduzida na defesa da expulsão da Grécia da zona euro ou no dever de a evitar; do outro lado, a imposição de uma situação de cerco, chantagem e humilhação ao primeiro-ministro Alexis Tsipras, confrontado com a inevitabilidade de «morder o pó» e ter de se remeter a uma posição defensiva. O seu estado de tensão e de evidente exaustão foi, no entanto, superado pela exibição de coragem e de maturidade política, traduzidas na capacidade para se bater até ao fim, num combate desigual, para tentar, se não evitar, pelo menos reduzir o impacto da catástrofe que parecia já inevitável. (mais…)

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        A Grécia também é aqui

        Não gosto de me ver forçado a escolher entre um «sim» categórico e um «não» definitivo. Nem de inabaláveis certezas. O interesse pessoal e profissional pela história ajuda-me a reforçar esta relutância, oferecendo a noção de que jamais um não é um absoluto não ou um sim um completo sim. Também não gosto de escolher o «talvez», por traduzir quase sempre um cómodo gesto de evasão ou um cómodo diferimento. Por isso suspeito dos referendos, de todos eles: normalmente empenham-se em simplificar o complexo, transformando em imperativo supostamente perfeito aquilo que sempre é temporário e relativo.

        Todavia – desta palavra, sim, gosto bastante –, existem momentos da nossa vida partilhada em que não é possível fugir a tomar uma posição que seja, ainda que provisoriamente, taxativa. Como quando, em tempo de guerra, se torna impossível fazer de contas que nada do que está a acontecer em redor é connosco, deixando que os outros se arrastem no fogo e na devastação enquanto dormimos a sesta ou nos refrescamos. Aqui, quando não há escolha senão a de trucidar ou a de ser trucidado, calar e correr à margem deixa de ser um gesto de liberdade e transforma-se numa expressão de cobardia. Ou de cumplicidade com uma das partes, sem a coragem de admitir que é esta ou aquela a nossa escolha no conflito. (mais…)

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          O PS e os cidadãos «moderados»

          Em regra, quem decide as eleições nas democracias representativas europeias são os cidadãos «moderados». Aqueles eleitores que habitualmente se eximem de ter opinião, que não se batem por causas, e que pretendem, acima de qualquer outra coisa, obter o que julgam menos mau para o seu sossego e bem-estar. Desejam sempre uma solução que seja a menos inquietante, traduzida numa forma muito simples de delegação da soberania. E por muito que tal não seja simpático a quem tenha da experiência da cidadania uma noção mais empenhada, temos de admitir que quando assim não acontece tal significa que se vive numa sociedade com elevado potencial de conflito e de violência. Compreende-se deste modo que qualquer partido com a ambição de ser governo precise de ter em linha de conta esse universo, concebendo as suas propostas e a sua imagem pública em função das expectativas que ele contém.

          Em Portugal, têm sido o PS e o PSD os partidos que disputam este setor, concebendo estratégias de sedução que o atraiam para o seu campo. Se, por um lado, do ponto de vista da estrita contabilidade eleitoral se compreende esta atitude, pois se a abandonassem de todo perderiam as eleições, por outro é ela a principal responsável pela criação de uma nebulosa política que tende a diluir a identidade desses partidos e a empurrá-los para um «pacto de interesses» que na verdade os aproxima frequentes vezes. É esta a origem da estabilidade do «arco da governação» que tem dominado Portugal nos últimos quarenta anos. Naturalmente, não se antevê que qualquer destes partidos seja suicidário ao ponto de pôr em causa este equilíbrio. (mais…)

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            Nada será como dantes

            Foram grandes as expectativas criadas em Portugal com a vitória do Syriza nas eleições do passado Janeiro. A direita no governo, apoiada por uma maioria dos órgãos de comunicação transformada em caixa-de-ressonância, rapidamente desenhou os piores cenários, considerando-a um erro de avaliação da parte dos gregos – obviamente entendidos como crianças grandes, politicamente menorizadas –, e antevendo, como consequência, o incumprimento do pagamento da dívida, tal como a saída da Grécia do euro ou mesmo da União Europeia. Ao mesmo tempo, um sobressalto transversal foi partilhado pela quase totalidade da esquerda e do centro-esquerda, traduzido numa visível simpatia pelo novo governo de Atenas e por alguns dos seus protagonistas, bem como num apoio expresso ou tácito às suas escolhas.

            Foi assim que alguns militantes e dirigentes do Partido Socialista, bem como muitos dos seus simpatizantes e presumíveis votantes, exultaram publicamente com aquela vitória, embora, como era de esperar, desde o início outros a temessem ou rejeitassem de forma liminar. Foi assim que o PCP, sem apoiar expressamente o Syriza, se eximiu de o criticar, ao contrário daquilo que, como é sabido, tem feito o KKE, o Partido Comunista da Grécia, que o combate por lhe atribuir um papel de mera «muleta do capitalismo». Foi assim também que a nossa «esquerda da esquerda» apoiou incondicionalmente a experiência grega, assumindo como suas as suas escolhas, por muito que algumas delas, em particular aquelas que têm privilegiado os fatores de unidade e de moderação, sejam estranhas a muitas das suas opções políticas internas. (mais…)

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              A alternativa não é o abismo

              No artigo publicado esta segunda-feira no Guardian, que hoje mesmo o DN traduziu, o historiador Timothy Garton Ash faz notar algumas das pesadas consequências para a generalidade dos gregos, e também para muitos dos Estados da zona euro, que se encontram associadas a uma eventual saída da Grécia da moeda única. A aventura do tão temido quanto desejado Grexit, independentemente da sua aparente inevitabilidade, e de alguns problemas que, pelo menos aparentemente, pode de facto resolver, não deixa de ser isso mesmo, uma aventura.

              Ela traduz, no olhar de Ash, um inevitável afastamento em relação à matriz europeia da nação grega, um fechamento desta sobre si própria, a criação de uma situação de subalternidade em relação à Turquia, seu concorrente histórico na região, e, dir-se-á também, uma dependência maior, com consequências não menos imprevisíveis que as que neste momento se configuram por causa da situação de insolvência, em relação aos interesses económicos e geoestratégicos da Rússia e da China. Além de que produziria rapidamente a maior descida do nível de vida da história recente do país. Se tal ocorresse, a resolução do problema da dívida traria assim consequências que, no imediato, seriam ainda mais pesadas que as produzidas por estes anos de brutal austeridade, e «os gregos se perguntariam para quê terem sofrido tanto.» (mais…)

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                A sobrevivência de uma nação

                Fot. Zsolt Halasi

                Quando se observa a formação do SYRIZA, o modo como conquistou a maioria do eleitorado e o apoio à atuação do seu governo, um primeiro fator de surpresa assenta na razoável coesão face à diversidade de organizações, tendências e expetativas que estiveram na sua génese. Uma segunda surpresa advém do facto de, mesmo na atual conjuntura de negociações e de dificuldade em cumprir o programa eleitoral, o SYRIZA ter vindo a ampliar a maioria alcançada nas urnas. Uma sondagem publicada no passado domingo pelo diário Avgi dá-lhe mesmo 48,5% das intenções de voto, enquanto o principal partido da oposição, a Nova Democracia, obtém apenas 21%, o Partido Comunista da Grécia e a Aurora Dourada 6%, o To Potami 5,5%, o PASOK 4% e os Gregos Independentes 3,5%. Um terceiro fator de surpresa, que mais diretamente nos diz respeito, resultará do exercício de comparação com o caráter acentuadamente fragmentado de boa parte da esquerda portuguesa e com o facto de, contrariamente ao que se passa na Grécia, qualquer esboço de diálogo entre as partes que a constituem tender sempre a colocar as diferenças à cabeça. (mais…)

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                  Fumador, mas não perverso

                  J.-P. Léaud em Antoine et Colette, de Truffaut
                  J.-P. Léaud em Antoine et Colette, de Truffaut

                  Sou, sempre fui, aquilo a que se chama um fumador moderado. Não sorvo o fumo – o meu pai, que consumia dois maços por dia e a última coisa que me pediu, dois dias antes de morrer, foi um cigarro, fazia aliás a mesma coisa – e, talvez por isso, sou capaz de passar vários dias sem exercer. Sendo para todos os efeitos um fumador, respeito no entanto os direitos daqueles que o não são, e desde cedo me habituei a perguntar a quem de mim perto estivesse, numa sala, num restaurante ou numa carruagem de comboio, se o meu fumo incomodava. Quando respondiam afirmativamente, nem pensava mais no assunto. Aceito, aliás, algumas das restrições que entre nós entraram em vigor no início de 2008, destinadas a proteger os não-fumadores e a reduzir o consumo do tabaco. (mais…)

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                    Europeus porque gregos

                    Vassilis Alexakis é um escritor natural de Atenas com alguns prémios de prestígio no currículo, como o Médicis e o da Academia Francesa para o romance. Depois de ter vivido em Paris o movimento de Maio de 68, ficou por França quando a «ditadura dos coronéis» o forçou ao exílio. Acabou por obter a dupla nacionalidade, conservando no entanto uma forte ligação física e cultural ao país onde nascera em 1943. Vassilis tem, aliás, a particularidade de escrever os seus romances em francês e depois de ser ele próprio a vertê-los para o grego, o que parece configurar a forma perfeita de tradução, quando o momento da criação se desdobra em duas línguas sem o recurso a um intermediário espúrio. La clarinette, editado em Fevereiro, é o seu último livro.

                    Em entrevista recente ao L’Express, Alexakis sintetizou de forma convincente três mil anos de história grega. Ouçamo-lo: «A Grécia, berço da democracia, permaneceu sempre fora do processo de formação dos Estados europeus, passou ao lado do Renascimento e ignorou o século das Luzes. Foi este o seu drama e o seu paradoxo. Depois saiu da ocupação otomana como se nada tivesse mudado. O Estado permanece como o inimigo, toda a gente procura enganá-lo, só a organização familiar conta. Quanto à riquíssima Igreja, cujo poder espiritual é tão forte quanto o seu poder material, permanece intocável; contestá-la equivale a renegar a pátria e pode mesmo levar quem o faz à barra dos tribunais.» (mais…)

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                      Corpo, cabeça e cauda

                      Fotografia de Yannis Behrakis
                      Fotografia de Yannis Behrakis

                      Publicado originalmente no blogue Observatório da Grécia

                      Há trinta anos, quando Mário Soares assinou nos Jerónimos o tratado de adesão de Portugal à CEE, era habitual a imprensa nacional fazer comparações com a Grécia para tentar identificar qual dos dois Estados se situava, como então se dizia e repetia, «na cauda da Europa». O processo decorria como numa corrida de estafetas, pois a cada momento, de acordo com as circunstâncias e os indicadores escolhidos, um deles superava provisoriamente o outro.

                      A absurda competição – desconheço se entre os gregos ela teve também lugar – impunha, de acordo com um raciocínio viciado que ainda não desapareceu de todo, a depreciação sistemática dos números apresentados pelos nossos concorrentes, no sentido de mostrar que, se nos mantínhamos longe dos «países desenvolvidos», a verdade é que tínhamos iniciado um processo que conduziria mais cedo ou mais tarde a entrar no seu clube de elite. Deixando aos gregos a triste sina de se manterem afastados dessa dose certa de desenvolvimento e prosperidade que configuraria aquela que um dia Hegel considerou a etapa perfeita e terminal da História. (mais…)

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                        Utopia e folhas de Excel

                        Sempre procurei passar aos meus alunos a mensagem de que a política é, se não a mais sublime das artes, com toda a certeza uma arte indispensável. Sirvo-me da velha aceção de Aristóteles, para quem todo o humano era «zoon politikon», «animal político», ser social cuja vida apenas faz sentido quando integrada na experiência coletiva da polis, a modelar cidade-Estado da antiga Grécia. Na repetida tentativa de os envolver nesta ideia, costumo dizer-lhes que fora dessa experiência perdemos a humanidade, arrastando-nos como seres egoístas e transformando-nos em lobos, entregues à luta bestial pela sobrevivência, ou, como já no século XVII lembrava Thomas Hobbes, a uma infinita guerra de todos contra todos. Por outro lado, definindo a política como arte, não como uma mera experiência, procuro mostrar-lhes que para ser bem executada esta deve incorporar, em simultâneo, destreza, técnica e principalmente criatividade. (mais…)

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                          Escrever é difícil, a vida também

                          Imagem Lloyd Hughes

                          Há algumas semanas, quando consultava uma pasta de folhas datilografadas contendo dezenas de comunicações apresentadas em Maio de 1975 ao I Congresso dos Escritores Portugueses, surpreendeu-me – embora já para tal estivesse avisado – a multiplicidade de opiniões sobre a arte de escrever emergentes num tempo, o da nossa revolução democrática, do qual se possui por vezes uma visão demasiado simplificada. É verdade que nos debates então travados entre gente que dela fazia a sua profissão ou o seu destino surgiram juízos e propostas em apertada consonância com alguns dos fortes imperativos políticos da época. O escritor neorrealista Faure da Rosa não parecia ter dúvidas sobre o caminho que julgava dever ser percorrido: «Nada tendo de deuses, trabalhadores como os outros, a função do escritor de hoje é a de escrever para as massas.» Muitos dos presentes, embora de forma não tão simplificada, seguiram de facto o princípio de acordo com o qual a arte de pensar e de escrever deveria corresponder em larga medida à celebração de um compromisso social e político. (mais…)

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                            A honra, a pobreza e o futuro

                            Gérard Castello-Lopes - Lisboa, 1957
                            Gérard Castello-Lopes – Lisboa, 1957

                            A minha mãe, que tinha boa memória e mais quarenta anos do que eu, contava muitas vezes episódios de uma juventude passada nas duas décadas que separaram as guerras mundiais. Mesmo pertencendo a uma família da classe média, viveu durante todo esse tempo em condições que impuseram uma existência austera, passada sem grandes festas ou luxos. O pão como base da alimentação (um hábito que conservou durante toda a vida), a sardinha partilhada (sempre lembrada por muitos da sua geração), uma dieta que deixava a carne apenas para os dias especiais, semanas praticamente sem domingos, trabalho constante distribuído pela lide da casa e pelos deveres da horta e do pomar. E roupa e sapatos que deviam durar anos, com viagens a pé para levar o almoço ao pai, meu avô, que nem por ter um trabalho administrativo razoavelmente pago se podia dar a despesas supérfluas. (mais…)

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                              O Muro como metáfora

                              Imagem de Aprilspit
                              Imagem de Aprilspit

                              Terá sido entre as proclamações dos ativistas do Black Power e os graffiti do Maio de 68 que a ideia de que «a revolução não será televisionada» irrompeu de modo programático. Sugeria aquilo que, na época, para muitos parecia óbvio: que o fim do capitalismo e a sua substituição por um sistema reorganizado e perfeito deveria ganhar corpo no calor do combate político, na luta de ideias, na ação direta se necessário, mas jamais ser mediado pela televisão. No ano de 1989, porém, Berlim, Varsóvia, Praga ou Bucareste deram a ver ao mundo a «primeira revolução televisionada», a acontecer em simultâneo nos lares dos pacatos cidadãos. O seu episódio nuclear, pelo efeito produzido e pela dimensão simbólica, ocorreu na memorável noite de 9 de Novembro desse ano. Quem recorda o derrube do Muro seguido em direto pelo aparelho doméstico de televisão, rememora a perceção de algo até ali inconcebível: o fim de um mundo considerado sólido revelado em toda a crueza, como na sequência capital de um filme-catástrofe (mais…)

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                                A esquerda que cala, a direita que agradece

                                Parte fundamental do património histórico e identitário da esquerda contemporânea, ou pelo menos de um segmento importante dela, tem vindo nos últimos tempos a ser esquecida, abandonada ou deixada em estado de hibernação por algumas das organizações políticas e dos movimentos de cidadãos que se consideram herdeiras de pleno direito do seu legado global. Ao longo de mais de século e meio de uma vida complexa, e a par da preocupação com a justiça social, muitos dos seus combates mais importantes e difíceis foram de facto travados em favor de uma democracia vivida sem restrições, da mais completa liberdade de expressão e de opinião, dos direitos das mulheres, do respeito pelas minorias, de um ensino público, de uma política cultural do Estado e de uma civilidade absolutamente laicos, não-confessionais e ao dispor de todos. (mais…)

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                                  A Grécia e a falha de Esopo

                                  Neste momento ninguém pode saber como vai acabar a «crise grega». Mas uma certeza parece ter-se instalado: a de que ela é cada vez menos exclusivamente grega, menos parte dos graves problemas que apenas enfrentam os governos da metade sul da Europa, dizendo cada vez mais respeito ao destino comum dos países e dos povos do Velho Continente. Ao mesmo tempo, a onda de choque produzida pela esmagadora vitória eleitoral do Syriza está a suscitar um despertar coletivo e partilhado para outra solução. (mais…)

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                                    Quatro notas sobre o Tempo de Avançar

                                    Enrique-Vives-Rubio
                                    Fotografia de Enrique Vives-Rubio | Público

                                    Quatro curtas notas sobre o modo como decorreu a convenção da candidatura cidadã Tempo de Avançar, que durante o último sábado reuniu no Fórum Lisboa perto de 800 pessoas. O seu objetivo expresso e comum foi o de preparar uma alternativa de esquerda em condições de se apresentar às próximas eleições legislativas como escolha consistente, construtiva, autónoma e mobilizadora. (mais…)

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