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Os quatro Charlies e a «rua europeia»

Rennes. Fot. Gaspard Glanz

Conto quatro Charlies em cada protesto de rua pelo ato terrorista de 7 de Janeiro. Podem responder à mesma convocatória, mas chegam de bairros diferentes e seguirão destinos que raramente se cruzam. Há um Charlie de extrema-direita, xenófobo, racista, islamofóbico, que vê no acontecimento um pretexto para atacar a democracia e envenenar a opinião pública com um discurso segregacionista sobre a imigração e a necessidade da força. Há depois um Charlie de colarinho branco, com o rosto do político insolentemente oportunista, sedento de protagonismo, que, como fez em Paris Nicolas Sarkozy, acotovela os outros para chegar à primeira fila e aparecer na fotografia. Há também um Charlie genuinamente indignado mas que desfila como mero figurante, vestindo a t-shirt do Charlie Hebdo porque «toda a gente» a veste. E há ainda um outro Charlie, pouco interessado na linha editorial ou no valor dos cartoons do semanário satírico parisiense, mas verdadeiramente apreensivo com o risco de um rápido recuo da liberdade de expressão e do direito à crítica e ao humor. (mais…)

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    Paris, 7 de Janeiro

    Admito que só ocasionalmente passava os olhos pelo semanário Charlie Hebdo e que nem sempre apreciei o teor político de alguns dos seus cartoons, mas não é por isso que aceito a indiferença perante o ataque brutal do qual na passada quarta-feira foram alvo alguns dos seus desenhadores, jornalistas e colaboradores. A barbárie expressa na iniciativa homicida dos assassinos vestidos de negro começou, como se sabe, na vontade de punir com a morte aqueles que consideravam responsáveis por alusões de teor satírico à figura do profeta Maomé. Mas não se tratou apenas de um gesto de vingança em nome de uma conceção rígida e intransigente do Islão: revelou também uma firme vontade de coagir pela força a liberdade de imprensa e o direito de opinião, atacando o papel do humor como instrumento de crítica e de humanidade. (mais…)

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      Diferença e compromisso

      Fotografia de Josip Kostik
      Fotografia de Josip Kostik

      Para Albert Camus, a humanidade do indivíduo afere-se, em boa parte, pela sua capacidade de se rebelar contra o mundo, o seu e o dos outros, tal como ele se apresenta. Escapando por essa forma à lógica do rebanho, que não deixa margem para o exercício da liberdade e do compromisso. Todavia, o gesto de revolta apenas liberta enquanto não se volta contra quem o pratica. Em O Homem Revoltado, de 1951, o livro que esteve na origem da sua rutura com Sartre e do conflito que manteve até ao final da vida com a ortodoxia de esquerda e os seus compagnons de route, o escritor ergueu-se ao mesmo tempo contra uma «revolta poética», meramente verbal, formal, imaginada, que não passa de um diferimento por via simbólica ou onírica da verdadeira insubmissão, e contra uma «revolta histórica», que remete para amanhãs distantes, situados num futuro concebido como totalmente perfeito e harmónico. Este caminho consagraria uma ideia de revolução que, ao diluir a intervenção humana num processo histórico que a deve transcender, tornar-se-á inevitavelmente escravizante. (mais…)

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        Convergência ou unidade?

        Ao contrário do que acontece com a direita, que não mostra dificuldade alguma em esquecer as divergências sempre que está em jogo o núcleo elementar dos interesses e dos ideais que representa, na história e na mitologia da esquerda inscreve-se a bold a constante enunciação de uma unidade ao mesmo tempo desejada e impossível. Para além da ideal entrega comum à busca de uma sociedade mais justa, mais igualitária e do bem-estar para todos, a sua história é feita principalmente de separações e disputas, raramente de aproximações duradouras. Estas apenas foram possíveis, sempre com limites programáticos e temporais, em momentos nos quais a força de circunstâncias dramáticas ou de medidas urgentes se impôs, como aconteceu durante a República espanhola, a guerra contra o nazismo ou as lutas de emancipação nacional e social das décadas de 1960-1970. Mesmo a história do governo de Unidade Popular, no Chile de Allende, tantas vezes invocado como exemplo da cooperação possível das diferentes esquerdas, viveu esse drama. (mais…)

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          Do jornalismo como missão

          Podemos sempre encontrar, num momento recuado das nossas vidas, a projeção de uma profissão a exercer naquele futuro distante ao qual chegaríamos invencíveis e adultos. Dessa fase dos destinos improváveis lembro-me apenas de querer imitar David Crockett, o explorador do Tennessee, insuperável no manejamento do rifle e na caça ao urso. Mas recordo também o desejo de um dia me tornar jornalista. Em parte por causa dos meus heróis da banda desenhada que o eram também, como Luís Euripo ou Tintim. Mas sobretudo devido à influência dos jornais com os quais apreendi a ler: o Diário de Notícias, do qual o meu avô era «agente e correspondente», e O Primeiro de Janeiro, que ele comprava aos domingos e lia de uma ponta à outra totalmente alheado das rotinas da casa. Imerso nas suas páginas sempre renovadas, na aparência infinitas, passei a associar o trabalho daqueles que os faziam a um imaginário de viagem que me atraía e a uma vida que julgava isenta de rotinas. (mais…)

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            Cuidado com os fósforos

            A veloz ascensão do Podemos, «o partido de Pablo Iglésias», em Espanha, está a ser entusiasticamente acolhida por alguns setores da esquerda portuguesa. Nascido em parte dos movimentos populares, muitos deles de conceção espontânea, de indignação de rua contra a corrupção e as políticas de austeridade impostas pelo Partido Popular, faz todo o sentido que essa simpatia, por vezes sob a forma de fascínio, desponte entre quem por cá trava idêntico combate. Porém, sem se ter uma perceção detalhada dos contornos e das propostas do partido constituído há apenas oito meses, será de evitar assumir desde já uma posição, de apoio ou então de rejeição, que possa ser parcial ou injusta. Diante dos resultados de uma sondagem hoje divulgada pelo El País, na qual, se as eleições fossem agora, o Podemos teria 27,7% dos votos, ficando-se o PSOE pelos 26,2, o PP pelos 20,7, a Izquierda Unida pelos 3,8 e a UPyD pelos 3,4, é de manter uma posição atenta mas cuidadosa. (mais…)

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              Depois das primárias

              Tenho bastantes reservas em relação à institucionalização das chamadas primárias partidárias. Defendo a redução da super-máquina burocrática e profissionalizada que tolhe os partidos, concordo que estes devam abrir-se mais à sociedade, saindo do espaço tantas vezes insalubre das sedes e dos corredores do poder, e acredito que, no seu funcionamento, o confronto com a participação informal dos cidadãos possa promover um revigoramento das ideias, das propostas e das práticas. Tenho ainda a certeza de que, para cumprir o seu papel e estar mais próxima das pessoas, a democracia não pode esgotar-se no sistema representativo e na exclusiva intervenção dos partidos políticos. (mais…)

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                A condessa Violet e o PS «de direita»

                O primeiro episódio da mais recente série, a quinta, da excelente Downton Abbey, decorre em 1924, quando o Reino Unido elegeu o primeiro governo trabalhista chefiado por Ramsay MacDonald. Nessa época ainda ninguém sonhava com o aparecimento de um Tony Blair de «terceira via» e o Labour desfilava muito à esquerda. Por isso, a transformação política que tal implicava trouxe grande perturbação à aristocrática mansão, com enormes discussões que envolviam os Crawley e a gente da classe média que frequentava a casa, o mordomo Mr. Carson (em qualquer circunstância o mais conservador de todos) e a cada vez mais impertinente criadagem. A dada altura, quando o debate se estendeu à mesa de refeição dos donos da casa, a velha condessa Violet (Maggie Smith), uma das personagens mais interessantes da série, tem uma tirada (mais uma) muito engraçada. Ao comentar a suposta inevitabilidade da revolução russa de 1917, evocada como sinal da irreversível mudança do mundo, declara-a incompreensível, pois tinha estado na Rússia em 1874 e não vira «sinal algum de instabilidade».

                Algo de idêntico se passa na cabeça de muitas das pessoas que, em Portugal, empurram o Partido Socialista, qualquer que seja a sua direção ou tendência do momento, para a mesma perspetiva que dele tinham os portugueses que se posicionavam à sua esquerda durante o biénio revolucionário de 1974-1975. Já passaram quarenta anos sobre o período, quase tantos quanto aqueles que haviam separado a Revolução de Outubro da viagem à Rússia da condessa Violet, e continua a circular, junto de um bom número de cidadãos, que a prova provada do caráter irreformável e inapelavelmente «de direita» do PS é o facto deste, principalmente durante o verão de 75, se ter oposto à instalação de um regime revolucionário totalmente avesso à instauração da democracia representativa. A realidade é hoje totalmente outra, os dilemas que se colocam aos cidadãos muito diversos, os bloqueios de uma diferente natureza, mas para alguns setores, enquanto os socialistas não aceitarem fazer a autocrítica e rever a narrativa da sua participação na história recente do país, aceitando pôr de parte alguns dos seus princípios fundadores, continuarão a carregar às costas o fardo do seu pecado original. Com eles não há conversa e ponto. A vida por viver não passa por aí.

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                  O PS e as suas circunstâncias

                  Fot. Adrian Scholz
                  Fot. Adrian Scholz

                  Duas circunstâncias parecem condicionar o futuro próximo do Partido Socialista. A primeira diz respeito ao significativo número de cidadãos inscritos como militantes ou simpatizantes que estão em condições de votar nas primárias do dia 28 de Setembro. Perto de 250.000, tendo em conta que apenas 90.000 militam no partido, está de facto muito acima daquilo que seria concebível no início do verão. A segunda circunstância refere-se à forma como, independentemente do resultado, da liderança escolhida ou da definição programática que venha a afirmar-se, tem vindo a ficar claro que o PS jamais voltará a ser o mesmo. Está comprometida, talvez irremediavelmente, uma tradição de unidade que sempre foi harmonizando diferentes sensibilidades e expectativas. Bastaria aliás esta situação para que os partidos à esquerda dos socialistas assumissem o dever de ser mais prudentes nas infundadas certezas que parecem ter a propósito do que irá acontecer num futuro próximo. (mais…)

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                    Não há mortos de segunda

                    Não é de mais insistir num preceito fundamental: como acontece com a tortura, toda a morte infligida é inaceitável. E não importa se esta é determinada pela ideologia, pela religião ou pelo desejo incontido de cumprir uma vingança. Talvez no teatro de guerra – quando a escolha definitiva é entre matar e morrer – ela possa entender-se, ou mesmo aceitar-se. Mas jamais pode ser olhada como uma inevitabilidade ou como uma necessidade. Por isso é ainda mais incompreensível a atitude hipócrita daqueles que, nos dramáticos conflitos internacionais que estão a marcar este verão, lamentam certas mortes, se indignam com elas, mas tratam de silenciar ou de «compreender» outras não menos terríveis e insustentáveis.

                    Isto tanto pode aplicar-se aos mortos provocados em Gaza pelos bombardeamentos de Israel quanto àqueles que o autoproclamado Estado Islâmico está a acumular no Iraque e na Síria. Trata-se de uma enorme prova de incongruência moral, e até de cobardia, invocar uns e silenciar os restantes. Na realidade, quem o faz pouco valor dá de facto ao sofrimento dos outros, preocupando-se muito mais com as subtilezas da geoestratégia, a linha política partidária ou a «justeza» do lado em que se situa quem morre e quem mata. Aqui a barbárie não está apenas nas mãos de quem degola ou bombardeia, mas também nas de quem justifica os algozes ou aceita o horror, selecionando quem deve ser defendido e quem deve ser entregue às suas circunstâncias e deixado ao abandono. Confio tão pouco nuns quanto nos outros. Mas aos últimos jamais darei o direito de me representarem.

                    Crónica publicada no Diário As Beiras

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                      A banalização do fascismo

                      Auschwitz. Por Alex Ayann
                      Auschwitz. Por Alex Ayann

                      Quando oiço dizer que vivemos, em Portugal e nesta complicada Europa que nos cabe, «pior que no tempo do fascismo», ocorrem-me três argumentos contra uma afirmação tão imperfeita e perigosa. Em primeiro lugar, ninguém que tenha vivido ou conheça de forma cabal o tempo e a experiência dos fascismos que envenenaram o século passado, fazendo dos Estados aparelhos de coação e não de garantia dos direitos fundamentais, é capaz de proferir em consciência uma afirmação dessa natureza. Em segundo lugar, estabelecer uma comparação que incide de forma particularmente negativa sobre o presente é prova de um claro desconhecimento da História, pois nenhum dos conflitos e formas de opressão pelos quais passamos hoje, sobretudo no mundo industrializado e nas suas contíguas periferias, se compara, em escala e na brutalidade, com aqueles que cruzaram as décadas em que os fascismos se impuseram. Em terceiro lugar, quem o diz vive provavelmente no terreno nebuloso de um wishful thinking feito de enormes simplificações, com recurso às quais pensa agudizar contradições e desta forma prover as «condições objetivas» para impor mudanças julgadas redentoras, necessariamente ilusórias. No fundo, quem de tudo isto beneficia são de facto os novos fascismos, agora mais insidiosos e apurados nos seus métodos, que pelo efeito de banalização que uma tal afirmação provoca vão podendo desbravar caminho. Desta maneira, em vez de se baterem pela defesa dos direitos alcançados em décadas de lutas pela democracia e pelo bem-estar, muitos cidadãos desenvolvem uma consciência política feita essencialmente de ressentimento, que acaba por isolá-los, desmobilizando-os de facto e colocando-os à mercê dos algozes. À noite, nas suas casas, adormecem narcotizados, tentando esquecer um mundo que os atemoriza e não compreendem.

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                        Verão conturbado para o PS

                        Não sou militante, simpatizante ou sequer eleitor do Partido Socialista. Vejo aliás de um modo muito crítico o processo de progressiva desvitalização política que, durante a maior parte do tempo, o tem caracterizado ao longo das últimas décadas. Um processo vinculado ao abandono dos fundamentos mais essenciais da tradição social-democrata de esquerda, hoje já só formalmente inscritos na sua matriz e invocados como uma flor na lapela. Estes têm sido trocados por uma política estritamente pragmática, feita mais de interesses que de causas, mais preocupada com medidas do que com metas, na qual tantas vezes têm pesado sobretudo a influência pessoal, os grupos de pressão e, a estes ligados, os jogos de bastidores. Desta forma, têm sido recorrentemente remetidas para um plano secundário a dinâmica democrática, que foi fundadora do partido, e a força criadora das convicções e dos projetos de inspiração social. Este panorama não pode ser associado a toda a vida e a todos os militantes do PS, seria injusto e impreciso fazê-lo, mas corresponde à tendência predominante. (mais…)

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                          Quem tem razão vs. Quem tem razão

                          O conflito israelo-palestiniano é talvez o tema de política internacional que maiores clivagens cria na opinião pública. Ao ponto de toldar pessoas habitualmente razoáveis ou de incompatibilizar outras que pouco antes partilhavam opiniões próximas sobre numerosos assuntos. E isto acontece há décadas. Pelo menos desde as rápidas mas brutais guerras dos Seis Dias (1967) e do Yom Kippur (1973), quando os mais duros dos duros militares israelitas, comandados no terreno por homens como Moshe Dayan ou Ariel Sharon, tomaram conta de Israel, ampliando a ocupação sionista do território da Palestina e deitando por terra qualquer possibilidade de um entendimento com a antiga OLP. A sua atitude de impiedade e conquista favoreceu, ao mesmo tempo, o crescimento de setores palestinianos radicalizados que excluíam qualquer acordo, presente ou futuro, com Tel Aviv. A partir dessa altura, a paz transformou-se numa miragem. E o sofrimento, sobretudo o dos mais fracos e desprotegidos, não mais parou, regressando periodicamente aos paroxismos de violência e assassinato em massa como aqueles a que estamos a assistir. (mais…)

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                            A Carta

                            Depois de dois textos sucessivos (aqui e aqui) escritos a propósito do desaire eleitoral do Bloco de Esquerda, escolhi mudar de agulha. Afinal, tudo o mais que pudesse escrever sobre o tema parecia-me uma reiteração do que já tinha escrito, produzida no desconhecimento do que pudesse estar a acontecer num debate interno forçosamente intenso. Poderia além disso mostrar-me injusto ou precipitado, coisa que desde a primeira hora escolhi evitar sempre que falo do Bloco. Todavia os acontecimentos acabaram por sobrepor-se a essa lógica de contenção e, perante a «Carta às esquerdas», assinada pelos dois coordenadores do BE e tornada pública no último domingo, concluí que algumas escolhas, a meu ver insuficientes e infelizes, foram já projetadas para o exterior, sugerindo uma lógica de continuidade, repleta de maus augúrios, que se faz à revelia de muitos dos potenciais eleitores e condicionará qualquer tentativa de inflexão. Por isso retorno ao tema. (mais…)

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                              O abismo e o compromisso

                              Na terça-feira passada, 27 de Maio, publiquei um texto de opinião, intitulado «O dia seguinte do Bloco», no qual – como aí dizia, «na mera ótica do utilizador», isto é, enquanto apoiante crítico, colaborador ocasional e votante obstinado – ensaiava uma tentativa de interpretação, naturalmente curta e parcial, da enorme derrota sofrida pelo Bloco de Esquerda nas eleições europeias. Aí colocava também algumas hipóteses sobre o caminho, necessariamente difícil mas necessário, que poderia ser trilhado para retomar o caminho da esperança e do reconhecimento público. A justificar esse esforço a convicção, que mantenho, de que o Bloco pode e deve ser parte da solução para obter uma viragem do país no sentido da construção de uma sociedade mais justa, mais solidária, mais democrática, e mais envolvida no bem-estar dos cidadãos. Para além de, nesta altura, integrar uma grande área destinada a inverter o estado a que a coligação PSD/CDS conduziu o país e a vida dos que o habitam, não podendo desobrigar-se do seu compromisso neste campo. (mais…)

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                                O dia seguinte do Bloco

                                Nota prévia: Esta é uma leitura «na mera ótica do utilizador». A eventual candidatura de António Costa à direção do PS poderá reconfigurar muita coisa. Mas esse não é o presente cenário.

                                Nas europeias do passado domingo o Bloco de Esquerda perdeu muitos eleitores para o PCP/CDU, para o Livre e até para o «partido do Marinho e Pinto». Sem estas perdas – a culpa não será por certo dos destinatários desses votos, que apenas fizeram o seu trabalho – o BE teria, muito provavelmente, um resultado estável e proporcional ao papel que se espera que cumpra. Mas tal não aconteceu, pese a justa eleição de Marisa Matias, e por isso precisa agora de refletir seriamente, sem medo e sem mais adiamentos, nas razões internas da aparatosa derrota. Nas razões internas, insisto, não na «culpa» dos outros. Mas também numa reorientação de estratégia e de política de alianças. Para evitar afundar-se mais ainda em termos eleitorais e poder retomar o lugar único e necessário que tem ocupado no espetro político nacional. (mais…)

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                                  O tamanho de uma cidade

                                  Gosto muito de biografias de cidades. Sempre que encontro alguma e me parecem seguros a competência da escrita e o certeza da informação – mesmo quando esta incorpora, e isso acontece quase sempre, uma dimensão ficcionada –, não descanso até a ler. Só nos últimos anos, recordo a leitura compulsiva de obras que traçam o percurso histórico de algumas delas, distribuídas por diferentes mapas, como Istambul (Orham Pamuk), Salónica (Mark Mazower), Jerusalém (Simon Montefiore), Praga (John Banville), Rio de Janeiro (Ruy Castro), Paris (Julien Green), Nova Iorque (Patrick McGrath) ou Odessa (Charles King). De cada uma, no correr das páginas, emergiu sempre um corpo vivo, dinâmico, capaz de ultrapassar a transitoriedade dos percursos pessoais ou das gerações associados ao emaranhado das ruas e ruelas, das casas, das praças ou dos seus lugares mais recônditos. (mais…)

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                                    Em quem vou votar (e porquê)

                                    Um dos traços negativos da atual campanha para as europeias encontra-se no paradoxal menosprezo dos partidos do arco da governação pela Europa como assunto e desígnio. Nas suas campanhas, o PS e o PSD/CDS integram o tema como parte acessória da luta interna que mantêm pela gestão do Estado e da estratégia internacional das respetivas famílias políticas – seja o que for que isso ainda possa significar – para o controlo do Conselho Europeu e da maioria em Bruxelas e Estrasburgo. Por isso, neles as referências à política europeia como razão de ser e objetivo central da participação nestas eleições, em pouco se distinguem. Limitam-se a replicar a separação, tantas vezes apenas formal, entre os defensores da austeridade a todo o custo ou os de um desenvolvimento mais apoiado na intervenção dos poderes públicos. Para além do apelo à delegação de soberania através do voto, os cidadãos não são informados com clareza de qual o sentido efetivo que cada uma das escolhas verdadeiramente pode ou deve tomar. O que, de concreto, irão Assis ou Rangel fazer no Parlamento Europeu. (mais…)

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