Causas justas e sectarismo

É inaceitável, para além de completamente inútil, manter como forma de lutar por uma causa – ainda que esta seja a mais justa e a mais urgente das causas – o ataque e o insulto. Não apenas dirigido a quem é seu declarado inimigo, mas também, e por vezes até com maior empenho, a todas as pessoas que, apesar de próximas nos objetivos, não sentem, não pensam, não vivem ou não agem exatamente como quem se serve desses processos. Sem uma vírgula a mais ou um travessão a menos. É verdade que se trata de uma prática sectária apenas presente em pequeníssimas franjas do ativismo, mas ela causa ruído bastante e em regra apenas serve para espalhar a confusão, afastando mesmo potenciais apoiantes de muitas das propostas que esses setores declaram defender. Não é preciso procurar muito para encontrar situações destas: chega-se lá pelo alarido. Elas não têm a ver com «radicalismo» ou com coragem, mas sim com ignorância da história e infantilismo político. Certas vezes, com burrice também.

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    Apontamentos, Democracia, Opinião

    Uma ferramenta de liberdade e inovação

    Foram os filósofos Michel de Montaigne e Francis Bacon, no final do século XVI, a projetar o ensaio como género literário. No livro sobre o humanista francês que publicou quando a guerra iniciada com a agressão nazi arrasara já o mundo de progresso material e pluralismo que conhecera durante a juventude em Viena e Berlim, Stefan Zweig salientou que Montaigne, mergulhado numa sociedade também ela dominada pelo ódio e pela intolerância, escolhera essa forma de escrita como modo de resistência. Para escapar às «exigências tirânicas» impostas pelos grandes poderes, para se proteger «contra a submissão a regras e a medidas ditadas do exterior», começou a escrever de acordo com a sua própria consciência. Tratava-se de «tentativas», de formas de descrever e de interpretar o seu mundo sem delas procurar fazer doutrina.

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      Democracia, Ensaio, Leituras, Olhares

      Liberdade versus insídia

      Fui uma das 42 pessoas que subscreveram a «Carta aberta às televisões generalistas nacionais». Um documento coletivo, onde cidadãos e cidadãs com diferentes sensibilidades, opiniões e escolhas políticas convergiram na denúncia pública de algumas práticas das televisões generalistas. Criticando, em particular, o facto de, no contexto da atual pandemia, estas tudo fazerem para destacar os seus aspetos mais negativos, servindo-se das circunstâncias para lutarem pelas audiências e, de caminho, para atacarem quem procura, contra carências, incompreensões e situações imprevisíveis, atalhar o melhor e o mais rápido que é possível às consequências do flagelo.

      Uma crítica completamente legítima, feita, não tanto ao conteúdo dos noticiários – e muito menos à liberdade de informar – mas a um registo que, na conhecida linha do jornalismo sensacionalista, tem ampliado a confusão e o alarmismo, em nada ajudando a responder ao problema e a serenar os cidadãos. Na verdade, a «Carta» era um apelo à consciência crítica de quem ali exerce o dever de informar, no sentido de, no contexto, definir uma posição menos agressiva e mais útil.

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        Democracia, Jornalismo, Opinião

        O alerta da desconfiança

        Não me custa reconhecê-lo: sou viciado em informação. Talvez isso se deva em boa parte a ter aprendido a ler pelo jornal, ao colo do meu avô, nessa época correspondente local do Diário de Notícias e leitor aos fins de semana d’O Primeiro de Janeiro, ou por o meu pai ter o hábito de trazer para casa dois diários, por vezes três. Gosto de pensar que assim é também por escolha pessoal: graças a ter crescido num lugar onde não se passava nada e era preciso levantar o pescoço para espreitar o que acontecia mais além. A generalização da televisão, mesmo a censurada, ajudou bastante a ampliar esse olhar. Depois, o telejornal da noite tornou-se horário sagrado nas casas que fui habitando. A rádio, de início em onda média ou curta, ajudava também. Mais tarde, quando passava férias longe de algum quiosque, todos os dias conduzia vinte ou trinta quilómetros, sem pestanejar, só para poder comprar o jornal. E fui praticamente pioneiro da Internet, que comecei a usar regularmente logo em 1993.

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          Raios de sol

          Todos conhecemos a expressão recorrente, aplicada a alguém que reencontramos e desejamos elogiar, que diz ser essa pessoa «como o vinho do Porto, quanto mais velho, melhor». Ou seja, que nos parece estar muito bem, talvez melhor do que esperávamos. Quem percebe de vinhos sabe que a qualidade do Porto não depende necessariamente (ou apenas) da idade que tem; a ideia que a frase incorpora, todavia, aplica-se a muitos casos reais. Homens e mulheres a quem os anos foram, de forma visível, apesar das rugas e dos cabelos brancos, melhorando a inteligência, o discurso, a forma de estar, o saber, a sageza política, a tolerância, por vezes até a beleza ou a capacidade de sedução. Todos conhecemos casos destes, felizmente. Gente que um dia vimos baça, tímida, sem voz, e que hoje brilha pelo que é ou pelo que faz.

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            Discurso crítico e «vox populi»

            Durante década e meia do meu trabalho como historiador, li milhares de textos – livros de diferentes géneros e dimensões, folhetos contendo relatos, sermões, profecias e proclamações, cartas de todo o tipo, poemas coligidos ou avulsos, impressos ou manuscritos, redigidos nos séculos XVII e XVIII. Maioritariamente em português, mas também em outras línguas. Parte do esforço consistia em encontrar, por trás do formalismo extremo e muito convencional, que é próprio da escrita daquela época, a dose de observação que permitiria ir mais longe no conhecimento de um passado em regra abordado apenas através dos momentos de maior impacto ou de uma mais evidente carga simbólica. Um dos passos mais difíceis consistia em encontrar o que aproveitar quando, entre toda aquela produção, grande parte abusava do panegírico.

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              Orwell, 1984 e a pandemia

              A obra de George Orwell, desde os ensaios e artigos na imprensa aos romances, manteve sempre, do processo de criação ao impacto da publicação, um vínculo fortíssimo com a atualidade. A que acompanhou a vida do autor, mas também aquela que foi tendo lugar nas décadas que se seguiram e se desdobraram até ao presente. A força deste elo nunca foi, todavia, tão evidente como com os dois romances finais, os mais conhecidos e editados: A Quinta dos Animais (em Portugal traduzido também como O Triunfo dos Porcos), de 1945, e 1984, saído em 1949, poucos meses antes da morte de Orwell. Em particular com o segundo, que superou a conceção alegórica do primeiro, limitado no essencial a um universo não-humano, onde os animais eram «todos iguais, embora alguns mais iguais que os outros». 1984 foi, de facto, construído como uma distopia humana, tendo como referente medos, realidades e conflitos que na época inquietavam o mundo. 

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                «Conselheiros» que não aprendem

                Desde que sou capaz de me recordar de interpretar as relações com os outros, sempre detestei que me «dessem conselhos». Ou, em sentido inverso, de ser eu a dá-los. Quando sinto que, por distração, tique ou cansaço, o estou a fazer, tento logo moderar o tom e mostrar que o que digo é apenas uma possibilidade, de modo algum algo de absolutamente certo e definitivo. Isto nada tem a ver com aprender com os outros, com a própria experiência, com a partilha de ideias, com a hipótese de mudar uma posição por influência alheia e com a necessidade de saber sempre mais. Tendo nascido e sido criado durante o Estado Novo, foi tempo demais a receber «conselhos», apresentados, aliás, como normas.

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                  Apontamentos, Cibercultura, Olhares

                  Defender a democracia como prioridade

                  Em artigo recente saído no Público, no qual interpretava os resultados das eleições presidenciais, Boaventura Sousa Santos destacou, entre outros aspetos também importantes, mas que não interessam tanto neste caso, três situações que devem ser articuladas e tidas em consideração numa análise realista do nosso atual panorama político. Falo da súbita emergência da extrema-direita, após décadas em que permaneceu silenciosa e oculta, das circunstâncias impostas pela quase completa ausência de uma esquerda mais extrema, e da necessidade de considerar o combate em defesa da democracia e do seu aperfeiçoamento como prioritário.

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                    Atualidade, Democracia, Memória, Opinião

                    Alusão e cultura geral

                    Como sabe quem escreve com regularidade textos que contêm uma dimensão literária – sobretudo se estes forem de opinião ou de ficção, seja no romance ou na poesia –, uma das técnicas a que recorre muitas vezes é a alusão. Falo do recurso estilístico pelo qual se faz referência direta ou indireta a uma pessoa, a uma situação, a um livro, uma peça musical ou um filme, contendo uma carga simbólica ou representativa que se pressupõe seja do conhecimento do leitor e por este percebida. Faço isto muitas vezes e posso dar como exemplo uma linha de comentário publicado há pouco a acompanhar uma fotografia de ocasião. Quando nela escrevi «finalmente sábado» estava, como muitos e muitas notaram, a aludir a Finalmente Domingo (Vivement dimanche), o título do último filme de François Truffaut, estreado em 1983. E também ao próprio filme.

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                      Notas avulsas sobre as presidenciais-2021

                      SEMIPRESIDENCIAIS – Devido ao papel de mero moderador, ou de «produtor de consensos», que na nossa Constituição detém o presidente da República, as eleições para o cargo têm sempre uma importância muito relativa. Principalmente quando, com a razoável estabilização da democracia, o panorama político deixou de deter a dimensão de polarização e de conflito aberto que mantivera até aos anos noventa. Mas também quando a generalidade das candidaturas aproveita o momento para apontar escolhas de governo que jamais poderá impor, criando, demasiadas vezes, uma cortina de ilusão pouco útil para a efetiva mobilização cidadã. Atualmente, estas eleições representam um indicador, embora não muito mais que isso. 

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                        O erro da obsessão antiamericana

                        Após a primeira tomada de posse de Barack Obama, a forte dimensão simbólica de teor emancipatório que representava, a sua integração no combate pelos direitos cívicos, vinda dos anos cinquenta, foi insuficiente para que sectores associados à esquerda mais ortodoxa lhe dessem o benefício da dúvida, começando de imediato a erguer a voz contra o que nesse momento materializava um forte sinal de esperança para o povo americano e boa parte do mundo. Assim voltou a acontecer agora, a partir do próprio dia da tomada de posse de Joe Biden e Kamala Harris. Mesmo ocorrendo esta numa altura crítica, quando os Estados Unidos enfrentam a dupla e grande ameaça, herdada dos anos de Trump, expressa na ausência de uma política coerente contra a pandemia e na iniciativa agressiva da extrema-direita e do suprematismo branco.

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                          Antifascismo e violência

                          Com o fascismo, tenha ele o rosto que tiver, não existe diálogo possível. Não se pode dialogar com quem o faz apenas para combater os direitos fundamentais e destruir a democracia. E muito menos, pelo mesmo motivo, reconhecer-lhe direitos democráticos irrestritos. Mas também não podem existir contemplações, compreensão, moderação: o fascismo não se observa, não se lamenta, enfrenta-se, e se necessário, como já aconteceu no passado, através da violência. Inclusive a física. A mãe de todas as guerras antifascistas, a Segunda Grande Guerra, não se venceu com flores ou palavras doces, nem com o encolher dos ombros ou o silêncio, mas com dureza e determinação, nos trilhos da resistência ou no fragor do campo de batalha.

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                            A linha vermelha

                            Já fui, e não foi por pouco tempo, bastante intransigente no que diz respeito à forma de estar, aos valores assumidos, à partilha e à defesa de convicções pessoais. Um tanto intolerante, mesmo, sem dúvida, apesar de desde cedo ser contrário a crenças assentes em absolutos. Nessa época, como acontecia com muitos daqueles e daquelas com quem partilhava percursos e projetos de futuro para nós e para a humanidade inteira, incompatibilizei-me com algumas pessoas, por vezes com razões que ainda hoje considero completamente legítimas, embora outras por puro sectarismo e, à época, uma ainda frágil compreensão da diversidade, da complexidade e da fragilidade do humano. 

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                              A guerra contra a Covid-19 e os partidos

                              Começo por uma citação um pouco longa retirada do editorial do Público desta sexta-feira, assinado por Manuel Carvalho, com o qual concordo quase por inteiro: «Tudo o que se tentou evitar até agora está a acontecer. Chegámos ao limite e, se formos muito para lá do ponto em que estamos, corremos o risco de agravar os danos da pandemia com a perda da estabilidade política e social e da auto-estima que sustenta o nervo de um país. Se o confinamento falhar, o preço será altíssimo. Cada um de nós e todos enquanto comunidade temos muitos interesses em jogo nesta ameaça. (…) Resta uma só solução: levar o confinamento muito a sério. Olhar, como pediu o primeiro-ministro, para as regras e não para as excepções. Perceber que a decisão de cada um conta, seja a de um caixa de supermercado ou de um empregado dos serviços que pode trabalhar a partir de casa. Relativizar o perigo é exponenciá-lo. Virar-lhe as costas, por fadiga ou impaciência, por descrença nos políticos ou por dúvidas sobre as prescrições dos especialistas, é fugir à responsabilidade. Ficar em casa é mais do que uma opção individual: é um acto político, uma prova de empenho cívico, um gesto de resistência em favor do bem comum.»

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                                A Democracia na América

                                O título deste artigo recupera o de uma das mais influentes obras de Alexis de Toqueville, A Democracia na América, publicada em 1835 e escrita após o périplo pelos Estados Unidos que o filósofo, historiador e diplomata francês levara a cabo quatro anos antes, no tempo do presidente democrata Andrew Jackson. Apesar da sua origem aristocrática, Toqueville era um ardente defensor dos ideais de democracia e de liberdade, tendo procurado com o livro dar a conhecer aos seus compatriotas o exemplo de um sistema político que via como avançado. As caraterísticas que mais o surpreenderam durante a viagem foram, por um lado, a forte dimensão de separação e de equilíbrio dos poderes legislativo, executivo e judicial, e, pelo outro, a forma comprometida como muitos cidadãos comuns se interessavam genuinamente por debater os temas que a todos diziam respeito. Fala mesmo de ter assistido a um «permanente tumulto», devido a muitos americanos se empenharem naturalmente em «tomar parte do governo e discutir as suas medidas».

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                                  A banalização da «opinião» e os incidentes no Capitólio

                                  Fora dos Estados que vivem sob regimes tirânicos, onde pensar e falar de forma livre é considerado crime, nas últimas décadas a valorização da opinião tem sido constante. Porém, tem ocorrido também uma perigosa degradação do conceito. O que tem ampliado o seu impacto é sobretudo a expansão da educação dos cidadãos, que sempre permite uma maior agilidade do pensamento e da expressão individual, bem como o alargamento dos direitos, entre estes o direito à palavra. Em sentido contrário, o efeito provocado pela ilimitada explosão da comunicação interpessoal, em particular aquela que passa pelo uso da Internet e das redes sociais, tem estimulado a sua desvalorização.

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                                    Acontecimentos, Atualidade, Democracia, Opinião

                                    O rosto do populismo

                                    Temos um panorama razoavelmente claro da base social do populismo quando observamos as imagens que mostram a espécie de pessoas que se apresentou ontem no Capitólio para boicotar a certificação da eleição presidencial de Joe Biden. E que, por certo, se lhes tivesse sido permitido – a notória e escandalosa moderação da polícia não foi tão longe -, não teria problemas em linchar membros do Congresso e jornalistas. Olhamos aqueles rostos, a forma de vestir, de gesticular e até de caminhar daqueles indivíduos, maioritariamente homens, alguns com roupas ou acessórios militares, vemos o sentimento de impunidade e a satisfação triunfante que visivelmente exibiam, e damos de caras com o rosto da ignorância e da frustração social transportados na América por uma importante fração de deserdados «brancos».

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