Arquivo de Categorias: Leituras

Uma «História» complicada

Não costumo escrever sobre livros que não li ao detalhe. Durante perto de dez anos fiz crítica sobre livros de história, de filosofia e de política numa revista, onde tratei mais de três centenas deles, e posso garantir que os li a todos, ao ritmo regular de três por mês. É claro que num caso ou noutro passei algumas páginas com maior rapidez – neste tipo de trabalho tento ser honesto, mas não sou masoquista -, embora não tenha deixado de falar com razoável segurança sobre cada um. Desta vez, todavia, vou abrir uma exceção e comentar um livro do qual apenas li alguns dos seus 91 curtos capítulos.

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    Apontamentos, História, Leituras, Olhares

    Consciência crítica e linguagem panfletária

    O que se designa por panfleto, conceito vulgarizado sobretudo a partir da Guerra Civil Inglesa do século XVII, pode ter diferentes formas. Da página solta ao folheto simples ou desdobrável, do artigo de jornal ao livro, de um certo padrão de discurso público a algumas formas de intervenção artística, possuem em comum participarem na divulgação, de uma forma sempre muito acessível e direta, de opiniões ou de informações destinadas a afetar escolhas coletivas. Os grandes processos de transformação política requerem a intervenção deste instrumento, dado serem as ideias claras e precisas que tomam a sua forma a determiná-los, não os tratados políticos ou filosóficos, que quanto muito os podem influenciar lateralmente. É, pois, na simplicidade que evidenciam que reside a força que detêm, embora seja também nela que podemos encontrar a sua fragilidade e a hipótese da sua perversão.

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      Democracia, Leituras, Olhares, Opinião

      Para que servem os livros difíceis

      Nunca se leu tanto como hoje. A afirmação poderá parecer estranha a quem da leitura valorize sobretudo a qualidade e a profundidade, mas lê-se de facto muito mais em quantidade e em regularidade. A prática da leitura sistemática aumenta continuamente, se nela incluirmos as necessidades da vida quotidiana, das organizações e do mundo do trabalho, a intervenção da publicidade ou da imprensa light e desportiva, e sobretudo a articulação com a televisão, a comunicação móvel e a Internet, com os seus largos milhões de sites e a omnipresença do email e das redes sociais. Já a leitura mais densa, crítica e reflexiva, apoiada na literatura de ficção e de não-ficção, para além da escrita académica e da produção ensaística, parecem, de facto, enfrentar um bloqueio. O império do zapping, associado à estridência do sensacionalismo e ao destaque dado à informação superficial, por vezes nada fidedigna, determinam um desvio que afeta até espaços onde há poucos anos seriam impensáveis, com ecos no próprio sistema de ensino, inclusive no universitário, onde os hábitos de leitura, se excetuarmos os níveis de formação mais elevados, são cada vez mais escassos e simplistas.

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        Leituras, Olhares, Opinião

        Do medo de ler

        A história da escrita e da leitura é também a história da censura e a da autocensura. Feita de temas proibidos, de lápides e pergaminhos rasurados, de livros queimados ou que não puderam circular livremente, de interpretações silenciadas, de autores atormentados e mortos, e de outros que, pelo temor da perseguição, acabaram por calar-se, por cultivar a arte do enigma, certas vezes, não poucas, por abandonar mesmo a escrita. Existem milhares de estudos, de alcance e valia diversos, sobre o caminho das práticas censórias, sobre os muitos e diferentes regimes que as estimularam, sobre autores que sob o seu peso padeceram ou sucumbiram, ou sobre obras perseguidas, muitas delas, sobretudo entre as publicadas antes da invenção da imprensa, das quais para sempre se perdeu o rastro.

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          Apontamentos, Democracia, Leituras

          Uma aventura no passado (1996-2002)

          Entre Março de 1996 e Outubro de 2002 criei e mantive no ar, com o apoio de alguns amigos, mas a maior parte do tempo inteiramente a solo – daí, aliás, a inevitabilidade do seu fim – a primeira publicação portuguesa inteiramente online. Nenhum jornal o fazia nessa altura, lembro-me bem, e ainda não havia blogues. Chamava-se NON!, e tinha por subtítulo «revista crítica de opinião, ideias e artes». Era totalmente artesanal, montada «à unha» em linguagem HTML. Durante esses anos quase não tive fins de semana, pois passava-os a reunir colaborações, a editar e a melhorar a publicação. Muitos/as dos/as que por aqui me seguem talvez recordem ainda esta aventura – a revista chegou a ter vários milhares de acessos diários – e continuam por aqui. Outros desapareceram já do mundo dos vivos. Outros permanecem amigos para a vida. De um ou outro, meia dúzia, acabei por me distanciar. Não sei o que me levou a pensar hoje neste bocado de passado, mas aqui fica o registo da recordação. Deixo a lista completa dos colaboradores: quem não sabe do que falo aferirá por ela a qualidade da «coisa».

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            Apontamentos, Cibercultura, Etc., Leituras, Memória

            Da atualidade de Camus

            Nos 60 anos da morte de Albert Camus.

            O escritor húngaro Imre Kartész, antigo deportado de Auschwitz-Birkenau, resumiu numa frase curta a afeição imediata e duradoura por Albert Camus: «Amei imediatamente a sua liberdade, mas também a sua insolência». A par do impacto da voz literária, as marcas de independência e de insubmissão do autor de Os Justos têm sido determinantes para manter um poder de atração, uma irradiação de heroísmo e resistência, que têm cruzado diferentes épocas e circunstâncias. Eclipsadas as grandes narrativas do tempo histórico, muitos dos que foram perdendo as certezas acolheram com agrado aquela que foi, como escreveu nas memórias Maria Casarès, o amor de muitos anos, «a sua paixão pela justiça e pela verdade». A dilatação desta influência tem sido, no entanto, diretamente proporcional às incompreensões mantidas dentro do território político ao qual pertenceu. (mais…)

              Biografias, Democracia, Ensaio, Leituras, Olhares

              Na morte de Wallerstein

              Durante o meu curso de História vivi algum tempo um equívoco. Como quase todos os teóricos recomendados já estavam mortos ou em vias disso, quando numa aula de história da expansão colonial – muito poucos tinham então a desfaçatez de falar de «descobrimentos» – um certo professor falou de Immanuel Wallerstein (1930-2019) e do sistema de economia-mundo, na minha ignorância dei-o por falecido. Afinal, o sociólogo norte-americano nem 50 anos tinha, e eu estava bem longe de imaginar que três décadas depois ainda viria a assistir a uma conferência sua.

              A crítica do capitalismo global e o papel crucial que desde a juventude Wallerstein atribuiu aos movimentos anti-sistémicos, foram entretanto projetando o seu reconhecimento bem para lá do mundo académico, tornando-o uma figura nuclear do movimento anti-globalização e um pensador central para compreender as contradições e dinâmicas do mundo contemporâneo. Desapareceu este 31 de agosto aos 88, mas a sua reflexão continuará a municiar o quadro interpretativo para entender e transformar este lugar do universo que nos cabe.

                Biografias, Democracia, Leituras

                Do amor romântico

                Durante cerca de três décadas dei aulas sobre a dimensão cultural, política e vivencial do romantismo oitocentista. Começavam invariavelmente por procurar diluir a conceção do romantismo tardio, ou ultrarromantismo, que transformava o conceito numa expressão doentia – sob a forma de sentimento aparentemente dócil e contemplativo, mas traduzida em gestos por vezes bárbaros – da posse de alguém por outro alguém. Em regra, de uma mulher por um homem, embora pudesse ocorrer o contrário, ou pudesse também acontecer algo de menos convencional.

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                  Ensaio, História, Leituras, Olhares

                  A distância entre as palavras e as ações

                  Terminei neste Natal a leitura de um livro comprado há dez anos. A demora não ficou a dever-se a outras prioridades – leio sempre três ou quatro livros em simultâneo e não teria sido difícil juntá-lo a uma das séries –, mas ao facto de o seu conteúdo me ter perturbado tanto quanto me interessou, o que fez protelar algumas vezes a passagem ao capítulo seguinte. Refiro-me a Intelectuais, do historiador britânico Paul Johnson, obra escrita com um propósito desassossegador: observar um conjunto de poetas, escritores e pensadores cuja obra pública integrou uma vontade declarada de sugerir caminhos melhores e mais justos para o trajeto da humanidade, ao mesmo tempo que a sua vida ia contrariando, por vezes de forma extrema, as belas ideias e os grandes propósitos que preconizavam. (mais…)

                    Democracia, Leituras, Olhares, Opinião

                    Enfrentar o fanatismo

                    Proponho um pequeno e valioso livro do escritor e intelectual israelita Amos Oz há pouco editado pela Dom Quixote. Caros Fanáticos reúne três artigos onde se procura compreender o flagelo contemporâneo do fanatismo, fazendo a apologia da moderação e do conhecimento como seu antídoto. Oz, convém recordar, é uma personalidade com um posicionamento particular em Israel: adepto de um pensamento laico e democrático, é de há muito uma das vozes mais relevantes entre aquelas que defendem para o longo conflito israelo-palestiniano uma solução de dois Estados pacíficos e pluralistas, em condições de colaborar entre si.

                    O autor destaca a antiguidade do fanatismo, que recorda ser «mais velho do que o Islão, do que o Cristianismo, do que o Judaísmo», declarando que a sua própria infância em Jerusalém, cidade de encontros e de conflitos, o havia convertido numa espécie de «especialista em fanatismo comparado». É a experiência desta «especialização» que procura transmitir ao longo destas páginas, esforçando-se por explicar o ódio instalado e sobretudo por mostrar a sua inutilidade. (mais…)

                      Democracia, Direitos Humanos, Leituras, Opinião

                      Um centenário em livros (1)

                      Vale a pena ler Estaline e os Cientistas. Uma história de triunfo e tragédia (1905-1953), de Simon Ings (ed. Temas & Debates – Círculo de Leitores, 2017; com alguns detalhes de tradução discutíveis). Trata-se de um livro extremamente útil para se começar a entender de uma forma mais completa, não marcada pela parcialidade, a história da Revolução de 1917 e da sua posteridade. A grande e mais impressionante lição que se retira desta leitura advém da demonstração de como o grande impulso dado pelo novo regime revolucionário à pesquisa em diversas áreas da ciência – em particular nos campos da mecânica e da biologia – deu lugar, a partir dos inícios da década de 1930, e sob a influência do conceito de «ciência proletária», bem como da qualificação da genética como «ciência burguesa», a uma inflexão total. (mais…)

                        História, Leituras, Séries

                        Um livro censurado e «censurado»

                        «Durante muitos meses de dia e de noite, nas chamadas da manhã e da noite, leram-se inúmeras ordens de fuzilamento. Com um frio de 50 graus, um conjunto de presos comuns tocava uma fanfarra antes e depois da leitura de cada ordem. Archotes fumegantes a gasolina quebravam a escuridão… O papel fino das ordens cobria-se de geada, e um qualquer chefe, que lia a ordem, sacudia os flocos com a luva, para conseguir decifrar e gritar mais um nome de fuzilado.»

                        Redigido entre 1958 a 1967, por motivos óbvios em lugar secreto, O Arquipélago Gulag circulou clandestinamente na União Soviética, em versão muito reduzida, até à publicação oficial em 1989. Fora já publicado em França em Dezembro de 1973 e a primeira tradução portuguesa, saída em dois volumes, data de 1975-1977, numa edição da Bertrand, com tradução a partir do russo (o primeiro volume) e do francês (o segundo).  Escrito por Alexandr Soljenítsin (1918-2008), a partir de 1945 prisioneiro durante onze anos em Kolima, um dos campos do sistema de prisões para presos políticos e «recolocados», e noutros locais, o livro é uma narrativa, construída como uma via sacra de sacrifícios, prepotência e horrores, de factos presenciados pelo autor e pelas duzentas e trinta e sete pessoas que lhe confiaram cartas e relatos. (mais…)

                          Democracia, Direitos Humanos, História, Leituras, Memória

                          «Like a complete unknown»

                          Fotografia de Zoe Pilger
                          Fotografia de Zoe Pilger

                          Longe de ser consensual ou de causar indiferença, a escolha do Nobel da Literatura deste ano tem suscitado reações extremadas, algumas um tanto irracionais. Ainda bem que assim acontece, pois não é todos os dias que tantas pessoas, incluindo-se nestas algumas que pouco ou nada se interessam realmente por literatura, e mais em particular por poesia, exercem o seu direito a pronunciar-se sobre a justeza ou a desrazão de um prémio desta natureza. Nas redes sociais, onde o repentismo e a facilidade da escrita são um microfone aberto, essas opiniões têm sido particularmente ferozes.

                          Em boa medida por razões geracionais, fiquei feliz com a escolha. Bob Dylan – ou melhor, os diversos Dylan de um trajeto obstinado e sinuoso – tem, sem dúvida, um lugar fulcral na banda sonora e na educação poética da minha vida. Além disso, sempre fui dos que valorizam tanto o texto quanto a música das canções nas quais reparam e de que gostam. Mas tal não significa que tenha julgado a opção do Comité Nobel necessariamente a melhor. Se me pedissem antes para escolher vinte candidatos ao prémio, talvez não colocasse lá Mr. Zimmerman, mas isso aconteceria também com a muitos dos autores premiados pela academia sueca. O que me interessa aqui é outra coisa: qual o motivo que levou a decisão a paroxismos de análise e à exaltação dos ânimos? Respondo centrado em dois aspetos. (mais…)

                            Leituras, Memória, Música, Olhares, Opinião

                            Os poderes da história (e dos historiadores)

                            Escultura de Gyula Pauer em Budapeste
                            Obra de Gyula Pauer. Danúbio, Budapeste

                            Nota de leitura de Julián Casanova, publicada na Babelia de 17 /9/2016, da recém-saída edição em castelhano de The History Manifesto, de Jo Guldi e David Armitage, publicado em 2014. A edição original, em inglês, revista em 2015, está disponível aqui: http://historymanifesto.cambridge.org/files/6114/1227/7857/historymanifesto.pdf

                            «Um espectro ronda a nossa época: o espectro do curto prazo». Assim começa o manifesto pela história de Jo Guidi e David Armitage. Neste momento de crise acelerada, quando enfrentamos problemas gigantescos, verifica-se, segundo estes historiadores, uma escassez de «pensamento a longo prazo». Os políticos não olham para além das próximas eleições e a mesma estreiteza de visão afeta as administrações das grandes empresas e os líderes das instituições internacionais. (mais…)

                              História, Leituras, Olhares

                              O génio cobarde e o medíocre engenhoso

                              O Ruído do Tempo, último livro de Julian Barnes, é um romance histórico. Incorporando uma componente ficcional, centrada em particular nos diálogos, nos cenários, nos personagens secundários, no enunciar de subjetividades e, naturalmente, na trama narrativa, possui uma espinha dorsal que é o conhecimento histórico das circunstâncias que envolvem os factos mencionados e a biografia das figuras reais que as povoam. Em algumas obras do género a primeira componente é dominante, mas neste caso isso acontece claramente com a segunda. Barnes seguiu aqui, de forma muito próxima, a vida do compositor russo Dmitri Chostakovich, personalidade central da música do século XX, que viveu sempre uma relação tensa e ambígua como o poder soviético. Nas últimas duas páginas, aliás, refere as fontes históricas das quais principalmente se serviu.

                              Gira em torno de três momentos nos quais essa tensão emergiu de forma particularmente dramática, aproximando o génio criador da pessoa que a todo o instante teme pelo seu bem-estar e pela sua pele. O primeiro ocorreu em 1936, ano do início dos impiedosos Processos de Moscovo, quando a sua ópera Lady Macbeth de Mtsensk, composta dois anos antes, foi acusada pelo jornal Pravda de se tratar de «chinfrim em vez de música», uma expressão de um inútil formalismo e, por isso, contrária ao dogma artístico do realismo socialista. Incidente que que forçou Chostakovich a uma longa fase de medo físico da prisão ou mesmo da execução, e depois a uma retratação pública que não deixou de o manter ao longo de décadas sob suspeita, cerco e vigilância. (mais…)

                                Artes, Biografias, Leituras, Olhares

                                Ler jornais (ou não)

                                Os sinais não são de agora, mas ganharam particular relevo nos últimos tempos. A maioria dos grandes jornais especializados na atualidade, no comentário político, na informação generalista e na vida cultural, vive uma fase crítica e tem vindo a perder leitores de forma rápida e exponencial. E não apenas no que respeita às edições em papel, uma vez que o crescimento do digital, notório nos anos mais recentes, parece também ter parado. As razões são múltiplas e complexas e têm uma dimensão global, centrada em particular nos países nos quais a indústria do entretenimento e a proliferação da informação rápida e superficial têm sido mais fortes e constantes. Em termos relativos, aliás, lêem-se hoje menos jornais na Itália ou no Japão que na Índia ou na Costa do Marfim. (mais…)

                                  Democracia, Leituras, Olhares, Opinião

                                  O impostor no seu labirinto

                                  Todos, mesmo aqueles que se julgam à prova de sonho, gostamos de palavras e de ideias que de alguma forma nos ajudem a tornar a realidade mais suportável. Mascarando-a com ambientes de fantasia, colando-a aos nossos desejos ou interessando-nos apenas por aquilo que ela pode oferecer de positivo. Minimizando ao mesmo tempo, ou fazendo por esquecer, as partes mais desagradáveis e monótonas das nossas vidas. Esta é a principal razão para mergulharmos em romances e filmes, para seguirmos determinadas séries de televisão, para gostarmos particularmente de certas músicas, pinturas ou fotografias. Ou, mais simplesmente, para sentir prazer perante uma história bem contada.

                                  Mas esta é também a razão pela qual, em certos momentos, nos tornamos presa fácil dos vendedores de quimeras, sejam eles políticos oportunistas, pregadores cheios de prosápia ou simples burlões. Na verdade, para o sucesso da sua missão enganadora, quem vende ficção em proveito próprio apenas precisa ter alguma desfaçatez e a capacidade de dizer de forma ajustada aquilo que precisamos ouvir para nos sentirmos confortáveis. Nestas circunstâncias facilmente aderimos à sua capacidade hipnótica. (mais…)

                                    Biografias, História, Leituras, Memória

                                    Ruína e evocação da memória

                                    Imagem Dorottya Sárai
                                    Imagem Dorottya Sárai

                                    Ocultar e desfigurar o passado com o objetivo de o usar para moldar as consciências é uma velha tentação. Quando em 1598, no primeiro artigo do «perpétuo e irrevogável» Édito de Nantes, Henrique IV de França ordenou que os episódios das Guerras de Religião que tinham oposto católicos e huguenotes deveriam permanecer «apagados e adormecidos como coisa não acontecida», dava corpo à vontade soberana de apagar qualquer rastro de um passado instável e incómodo. Três séculos e meio depois, o relato da Guerra Civil ensinado nas escolas da Espanha do tempo de Franco impunha a representação parcial de um confronto entre os bons cruzados e os perversos «rojos», separando aqueles que mereciam a glória e o reconhecimento dos que deveriam ser esquecidos. Mais recentemente este trabalho de moldagem deixou até de requerer a intervenção direta do Estado: nas democracias contemporâneas são cada vez mais os meios de comunicação social privados a assumir como verdade única a voz triunfante. Reproduzindo-a à sombra de um passado que evita perturbá-la. (mais…)

                                      História, Leituras, Memória