Arquivo de Categorias: Democracia

O peso negativo do conformismo

Não existem causas fáceis porque não existem verdadeiras causas que não exibam bandeiras. Quer isto dizer que quando tomamos uma posição pública afirmativa que não seja de âmbito meramente individual e antes diga respeito ao coletivo, estamos a interferir com situações estabelecidas e a dar a conhecer uma proposta ou uma ideia, perturbando sempre quem delas discorda. O conceito de causa, aplicado, não a um efeito, mas a um conjunto de interesses partilhados pelos quais alguém se bate, impõe sempre esse envolvimento de natureza conflitual, sendo por seu intermédio que as sociedades passam de um estádio a outro e se afirmam na conquista de direitos mais amplos e de uma vida melhor, ainda que episodicamente possam também, como se sabe, viver alguns recuos.

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    Democracia, Olhares, Opinião

    Algumas notas sobre o Livre

    Começo por me colocar totalmente de fora do ambiente de recriminação, ressentimento e preconceito que tem envolvido esta nova fase da vida do Livre e o problema com a prestação política da Joacine Katar Moreira. Não é atitude que me interesse, até pelo tom de desproporcionada violência, alguma dela muito personalizada, que o tem envolvido. Quero também, antes de ir ao problema que pretendo tratar, deixar dois lembretes que julgo necessários.

    O primeiro liga-se ao momento em que, no início desta infeliz situação, tomei a defesa pública da JKM. Fiz aquilo que pensei dever fazer, que foi defendê-la publicamente da vaga de preconceito centrado no problema com a fala, no facto de ser mulher e na cor da pele. Voltaria a fazê-lo nessa mesma direção, se tal fosse necessário. Mas tinha-me apercebido já de alguns problemas com uma parte das suas escolhas e prioridades, voltadas para a sobrevalorização sectária de certas causas em detrimento de outras, subvalorizadas ou mesmo ausentes do seu discurso, apesar de não menos importantes no programa do Livre.

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      Apontamentos, Democracia, Opinião

      O 25 de novembro e o centro-direita

      Já anteriormente partilhei a memória bastante forte que sei comum a muitos dos homens e das mulheres que como eu viveram o nosso biénio de 1974-1975 de maneira ativa e com alguma dose de consciência política. É a da triste e desesperada manhã do dia que se seguiu ao 25 de novembro de 1975, quando o PREC infletiu claramente no sentido do modelo da democracia representativa que hoje vivemos, afastando-se da dimensão revolucionária a apontar para outras possibilidades. Diversas, aliás, não apenas a do «socialismo autoritário» – partilhado apenas por um setor político – que hoje as forças do centro-direita procuram disseminar como o lado único e negro da sua «verdade» do 25 de novembro.

      Naquela manhã, porém, ninguém sabia muito bem o que iria acontecer, nem mesmo que a Constituição aprovada seis meses depois se iria transformar em bandeira da democracia e do próprio socialismo. A sensação partilhada era a de que o sonho do paraíso na Terra tinha ruído de vez e que estávamos de regresso ao país da «apagada e vil tristeza». É essa convicção numa dimensão de liberdade e de justiça efetivos, não apenas formais, que nessa manhã se cria ter sido amordaçada num insuportável ambiente de «fim de festa», que a direita e uma parte do Partido Socialista jamais entenderão. Mas é ela também, queira-se ou não, que integra o grande legado histórico do 25 de Abril.

        Apontamentos, Democracia, História

        O Zé Mário e a «volta a isto»

        Com a morte do José Mário Branco (1942-2019), para além do artista e do homem que desaparece, é uma das figuras fundadoras e matriciais da «esquerda da esquerda» que parte também. Para a minha geração, e para o pequeno núcleo da utopia de onde venho, uma voz singular e uma personalidade inesquecível que todos/as teremos para sempre na cabeça e no coração. O Zé Mário não foi só o melhor de todos os da canção de resistência e intervenção – como cantor, como músico, como compositor, como letrista, como arranjador, como produtor, tudo por junto -, foi e é também um sinal vivo e sonoro de que, sim, é possível ser-se coerente e solidário a vida inteira. Acreditando todos os dias que é preciso dar «a volta a isto».

          Apontamentos, Democracia, Memória, Música, Olhares

          Notas sobre a Queda do Muro de Berlim

          1. Trinta anos após a derrocada eufórica do Muro de Berlim em 9 de Novembro de 1989, boa parte do seu cenário permanece na nossa memória partilhada. Mais que uma incomum fronteira física, ele constituía uma metáfora, e as metáforas não se apagam por mera vontade política ou a golpes de picareta. Do lado ocidental, uma pesada vedação de 155 quilómetros contornava todo o perímetro da parte da cidade que não fora ocupada pelo Exército soviético. Desse lado era possível tocar o betão que lhe dava solidez, desenhar palavras de ordem ou street art, escalando até uma posição confortável conseguia mesmo observar-se de longe o hermético «Leste». Do lado contrário, a chamada «barreira de proteção antifascista» era cinzenta e deprimente, eriçada de arame farpado, guardada por polícias de gatilho pronto, ladeada por uma terra de ninguém minada e perigosa para qualquer cidadão que tentasse a mera aproximação ao carcinoma do capitalismo. Em cada metade de Berlim, viva-se uma existência esquizofrénica que concebia a realidade a partir de duas escalas que simultaneamente se olhavam e ignoravam. Como se uma não pudesse viver sem a outra, aceitando que a proximidade se materializava numa distância que condenava cada modelo à inflexível clausura. O Muro era também a metáfora suprema da simetria da Guerra Fria.

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            Atualidade, Democracia, História, Música

            Catalunha e irracionalidade

            Não vou aqui discutir os termos e possibilidades de resolução da questão catalã. São muito complexos e sobre eles não tenho convicções absolutas, nem grandes meios para as obter. Durante o franquismo fui, obviamente, pela independência total; jamais deixei, e assim continuo, a simpatizar bastante com ela. Pelo que sei dos livros e vi no local, a identidade catalã – histórica, geográfica, linguística, cultural, política, até ao nível das formas de ser, de estar ou de comer – é enorme e persistente. Também o é o seu historial de opressão e de resistência em relação aos poderes instalados em Madrid ou aos seus representantes locais. Compreendo e simpatizo com a vontade de independência ou de autonomia de grande parte dos seus naturais – não se sabe se a larga maioria, já que o referendo foi muito irregular -, embora tenha dúvidas sobre a forma que estas devem tomar e como chegar a elas.

            O que não é aceitável é a defesa da independência passar por um antiespanholismo cego. Uma Catalunha autónoma ou independente não pode ser construída contra os espanhóis e a sua democracia, nem, uma vez consumada, deveria ou poderia viver nessas circunstâncias. Terá sempre contra si, inevitavelmente, os nacionalistas espanhóis, os herdeiros do franquismo, a extrema-direita, mas não pode erguer-se contra a esquerda e os democratas do Estado espanhol, com quem deve conceber estratégias de entendimento, de colaboração e de vida. Isso parece já ter compreendido a Esquerda Republicana da Catalunha, ou mesmo o PSOE e a Unidas Podemos, mas continua a não entender quem, lá ou cá, equipara quem não entende, não concorda ou tenha dúvidas sobre uma independência total e imediata a bandidos e a fascistas. Como sempre, a irracionalidade a nada levará.

              Atualidade, Democracia, Opinião

              Racismo e preconceito

              Aconteceu já durante a campanha, mas foi após a eleição da Joacine Katar Moreira, a única deputada do Livre, que teve lugar nas redes sociais e também nos jornais uma vaga de comentários e opiniões negativos e hostis a propósito da sua gaguez. Todos produzidos em tonalidades várias, embora constantes, de ignorância e agressividade, mesmo quando tentaram proclamar-se construtivos e afirmaram estar «apenas a fazer um reparo». Alguns chegaram mesmo de pessoas das quais, pela sua personalidade, escolhas e responsabilidades, jamais pensei escutar tais disparates e injustiças. Tornou-se assim claro que a gaguez da Joacine Moreira serviu apenas de pretexto para a exibição despudorada de preconceitos habitualmente calados.

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                Atualidade, Democracia, Direitos Humanos, Opinião

                Notas e impressões (sobre as eleições)

                Os resultados das eleições não foram surpreendentes. O PS ganhou como se esperava, ainda que sem a maioria absoluta que pretendia; o PSD teve uma descida menor do que aquela que se aguardava, em boa parte graças ao eleitorado fiel e aos ataques personalizados ao PS conduzidos nas últimas semanas; o Bloco de Esquerda manteve a sua importância central, se bem que sem a subida com a qual se contava; o PCP continua a descer, embora não tanto quanto se previa (já os «Verdes», esses evaporaram-se); o CDS caiu até ao limite, embora dentro do previsto; o PAN continua a subir num processo de apropriação de causas que não domina. E depois há os «pequenos partidos», aos quais a presença no Parlamento poderá permitir crescer.

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                  Atualidade, Democracia, Olhares, Opinião

                  Opinião pública e peso da responsabilidade

                  O título desta crónica parafraseia o de um livro, O Peso da Responsabilidade, do historiador britânico Tony Judt, publicado em 1998 e traduzido no ano passado pelas Edições 70. Nele se reuniram ensaios de Judt sobre três franceses do século XX – Léon Blum, Albert Camus e Raymond Aron – com percursos e focos diversos, mas que coincidiram na grande influência que exerceram sobre o seu tempo e na forma exigente como interpretaram a responsabilidade particular do intelectual público. Tomada esta num duplo sentido: de um lado, o de quem observa o mundo com permanente atenção e de um modo razoável, liberto dos pesados filtros impostos pelas categorias ideológicas, pelos modismos ou pelos lugares-comuns; do outro, o do sujeito que, agindo e comunicando em função das suas convicções, obtidas através da reflexão e da crítica, as assume de uma forma aberta perante os outros, ainda que tal o possa forçar a colocar-se contra as posições dominantes no seu próprio campo, sendo, por isso, por vezes acusado de apostasia ou traição.

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                    Democracia, Ensaio, Olhares

                    Uma declaração de voto

                    Nestas eleições irei votar no Bloco de Esquerda. Entre 1999, ano da fundação, e 2011, colaborei muitas vezes com o Bloco e fui seu eleitor. Nesse ano afastei-me um tanto. Por dois motivos centrais: devido ao voto de desconfiança partilhado com o PCP e a direita que ingloriamente acabou por levar aos quatro anos do governo PSD-CDS; e porque me parecia possível e necessária uma aproximação a setores do PS já então disponíveis para a acolher. Devido a estas escolhas, nas eleições de 2015 participei na experiência de uma «candidatura cidadã» que visava estimular essa aproximação para derrotar a direita. O resultado dessa experiência foi inglório, mas o esforço de convergência viria depois a ocorrer sob a forma da Geringonça, com as conquistas, dificuldades e contradições que se conhecem.

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                      Atualidade, Democracia, Etc., Opinião

                      As redes sociais como barómetro

                      Esta crónica ocupa-se de um universo que muitos rejeitam ou consideram irrelevante. Não posso discordar mais desta atitude. Como acontece com o telefone ou a televisão, podemos virar as costas às redes sociais, mas não podemos viver sem elas. Oferecem excelentes possibilidades de aprendizagem, partilha e divulgação, bem como de encontros e reencontros, embora, é verdade, abram também espaço para a mentira, a exposição da ignorância e o ódio, levando a que frequentes vezes nos cruzemos com pessoas que na «vida real» evitaríamos. Só que existem, não irão desaparecer, e de um ou de outro modo influenciam poderosamente as nossas vidas. Por isso, não convém ignorá-las.

                      O enorme sucesso desta ferramenta de comunicação deve-se à facilidade de acesso, ao baixo custo e também a possibilidade de dar voz pública a quem habitualmente a não tem. Ao mesmo tempo, porém, permite que se escreva e se opine sem se ter o hábito de o fazer, podendo qualquer um afirmar o que deseje sem pensar duas vezes ou com objetivos pouco claros. É esta, aliás, a principal origem do seu perigo, sendo também por isso que muitas pessoas as rejeitam.

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                        Atualidade, Cibercultura, Democracia, Opinião

                        As democracias e o poder dos brutos

                        As redes sociais servem, como toda a gente sabe, ou então deveria saber, tanto para coisas úteis ou mesmo magníficas, quanto para outras bem horríveis e sinistras. Depende sempre de quem as usa, da forma como o faz, da linguagem que usa, dos interesses que representa ou dos princípios que segue. De entre as coisas boas, apesar de relacionada com outras detestáveis, tem servido para denunciar as decisões, escolhas e imposições de figuras tão insanas e perigosas como Bolsonaro, Trump, Salvini, Orbán e agora, ainda que numa outra escala, Boris Johnson.

                        O problema que se coloca é que, apesar das proclamações de espanto ou de indignação, quanto mais impensáveis e intoleráveis são as suas afirmações e iniciativas – ou as dos seus acólitos – maior apoio eles têm entre a larga maioria daqueles que os elegeram e apoiam. As democracias parecem estar entregues ao poder dos brutos, dos ignorantes, dos trolls – em parte por intervenção das próprias redes e de uma comunicação social que esquece a sua dimensão cívica – e isso precisa ser rapidamente pensado e alterado. Antes que as trevas nos submerjam a todos.

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                          Social-democracia: equívoco ou solução

                          Quem se interesse de modo crítico pela história das ideias políticas conhece a ambiguidade que há mais de cem anos acompanha o conceito de social-democracia. Declarações de Catarina Martins ao Observador, nas quais considerou existir uma dimensão social-democrata no programa do Bloco de Esquerda, trouxeram de novo alguma atenção a esse equívoco, tantas vezes alimentado por circunstâncias históricas, mas também pelo desconhecimento e pelo dogmatismo. Nada tem isto a ver com o PSD, partido liberal cuja inadequada designação resultou das circunstâncias de Abril, mas antes com os setores que à esquerda olham o conceito com aprovação ou descrédito.

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                            Democracia, História, Opinião

                            Na morte de Wallerstein

                            Durante o meu curso de História vivi algum tempo um equívoco. Como quase todos os teóricos recomendados já estavam mortos ou em vias disso, quando numa aula de história da expansão colonial – muito poucos tinham então a desfaçatez de falar de «descobrimentos» – um certo professor falou de Immanuel Wallerstein (1930-2019) e do sistema de economia-mundo, na minha ignorância dei-o por falecido. Afinal, o sociólogo norte-americano nem 50 anos tinha, e eu estava bem longe de imaginar que três décadas depois ainda viria a assistir a uma conferência sua.

                            A crítica do capitalismo global e o papel crucial que desde a juventude Wallerstein atribuiu aos movimentos anti-sistémicos, foram entretanto projetando o seu reconhecimento bem para lá do mundo académico, tornando-o uma figura nuclear do movimento anti-globalização e um pensador central para compreender as contradições e dinâmicas do mundo contemporâneo. Desapareceu este 31 de agosto aos 88, mas a sua reflexão continuará a municiar o quadro interpretativo para entender e transformar este lugar do universo que nos cabe.

                              Biografias, Democracia, Leituras

                              Um revolucionário e a sua consciência

                              «Sinto muita vezes que sufoco no interior de um magnífico deserto», escreveu Victor Serge (1890-1947) a partir do exílio no México. Serge, bolchevique internacionalista desde a primeira hora, vivia essa impressão na dupla condição de opositor a Estaline e também ao comodismo dominante na comunidade de exilados que se lhe opunham. Num apontamento de 1943 falava da «cobardia dos intelectuais» – ele, toda a vida um intelectual – e do maior interesse de muitos destes pelas questões teóricas, pelo puro diletantismo, em detrimento do combate diário. Considerava a política como «feita essencialmente de pessoas, não de análises», propondo até ao fim uma atitude de compromisso e iniciativa radicada na melhor tradição bolchevique. Aquela que Estaline destruiu três vezes: primeiro pelo golpismo interno, depois pela violência e pelo medo, por fim pela desmobilização de boa parte dos que se lhe haviam oposto e Serge considerava «desertores». Para ele, todavia, a desistência era impensável, ainda que a sua vida de revolucionário passasse agora pelo «deserto» que referiu, «magnífico» porque feito, contra todas as adversidades e fugas, de convicção e empenho.

                              Na fotografia: Victor Serge, o poeta dadaísta Benjamin Péret, a pintora surrealista Remedios Varo e André Breton, que Serge considerava o típico diletante (França, 1941)
                              A partir da recente edição crítica de «Notebooks: 1936-1947», de Victor Serge, e de uma nota de leitura de Alex Press
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                                Da ténue linha entre silêncio e indiferença

                                A propósito do encontro de organizações da extrema-direita que decorreu em Lisboa este sábado, voltou a circular uma ideia tão errada quanto perigosa. Aquela que, perante determinados acontecimentos controversos ou escolhas perigosas e condenáveis, ou então diante de boatos e de mentiras, considera que o melhor é não falar deles, não tomar uma posição clara e pública, não enfrentar quem os projeta, sendo preferível deixar passar o momento. Justificando-se esse ponto de vista com a errada lógica segundo a qual toda a referência pública que lhes seja feita estará a oferecer publicidade àquilo que não deveria tê-la. Supostamente, sem essa publicidade permaneceriam insignificantes.

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                                  O poder subversivo da sátira

                                  Há poucas semanas, o The New York Times pôs termo à publicação de cartoons. Fê-lo na sequência da polémica em torno de um desenho do português António, que o próprio diário, após queixas de leitores, acabou por aceitar poder ser considerado «antissemita». O trabalho de António tinha sido publicado pelo jornal sem autorização do autor e um dos que se pronunciaram de forma mais violenta contra a sua inclusão no diário foi Donald Trump Jr., o filho mais velho do presidente. O desenho representava o seu pai como um cego vestido de rabino e conduzido por um cão com a cabeça do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu. A crítica dos leitores poderia ser legítima, mas a decisão foi radical. Vinda de uma publicação de bom nível jornalístico e cultural, que tem defendido a liberdade de expressão e é conotada com a oposição democrata a Trump, ela é particularmente chocante e um grave sinal dos tempos.

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                                    O medo como técnica

                                    «Escrito em 1946, este pedaço de um artigo de Albert Camus saído no jornal Combat tem, naturalmente, a marca do seu tempo.» Escrevi isto há sete anos, a anteceder a publicação do texto que abaixo se transcreve. Neste momento já não sei se assim é. Ressalvando a mistura verbal do «homem» e do humano – que hoje fere um tanto os nossos ouvidos – todo ele parece ter também, e muito, a marca destes dias.

                                    «O século XVII foi o século das matemáticas, o XVIII o das ciências físicas e o XIX o da biologia. O nosso século XX é o século do medo. Dir-me-ão que o medo não é uma ciência. Mas, em primeiro lugar, a ciência é de certo modo responsável por esse medo, uma vez que os seus últimos avanços teóricos a levaram a negar-se a si mesma e porque os seus aperfeiçoamentos práticos ameaçam destruir a terra inteira. Além disso, se bem que o medo em si mesmo não possa ser considerado uma ciência, não há dúvida que é uma técnica.

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