Arquivo de Categorias: Acontecimentos

O incêndio e a calamidade como arma

Fotografia de Bruno Silva

Hesitei um pouco ao escolher o tema desta crónica. Não porque não valha a pena falar ainda do grande e terrível incêndio que há cerca de uma semana devastou parte significativa dos concelhos de Pedrógão Grande, Castanheira de Pêra e Figueiró dos Vinhos, e tanta destruição e morte trouxe àquela região. Mas porque a forma como este tem sido tratado leva a considerações sobre escolhas e comportamentos dos quais me agrada pouco falar. Porém, como é hábito dizer-se, o que tem de ser tem muita força. (mais…)

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    Quanto vale o localismo

    Ao contrário do que declara o ditado, não existem males que vêm por bem. Uma coisa má não pode ser trocada por outra boa, pois são experiências diferentes que cada um guarda consigo em lugares também diversos da memória e da experiência. Mas, sim, é banal mas verdadeiro: é muitas vezes no meio do pior que emerge o que conseguimos mostrar de melhor, de mais generoso e de mais intensamente humano. (mais…)

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      LIBERDADE (a sério)

      Só pode dizer que não sente a liberdade quem jamais viveu sem ela. Ou quem não sabe dos lugares do mundo e dos tempos sombrios em que ela foi – em alguns deles continua sendo, convém lembrar – calcada como um bem supérfluo, do qual se pode prescindir em nome de valores supostamente maiores: uma ideologia ou uma religião, uma pátria, o desenvolvimento material, a igualdade formal, o bem-estar pessoal ou coletivo. «A paz, o pão, habitação, saúde, educação», cantados no refrão do Sérgio Godinho, não bastam. De nada servem sem liberdade para os viver e, se necessário, para contestar também o modo como são geridos. Ou para pensar e fazer, até ao limite do possível, o que se escolher pensar e fazer.

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        Os dois monstros e a culpa

        Paolo Pellegrin / Magnum Photos
        Paolo Pellegrin / Magnum Photos

        Perante a dimensão da catástrofe, não venham com os argumentos do costume. Argumentos que fazem bastantes vezes algum sentido mas deslocam a responsabilidade do horror para alvos que, neste momento, são laterais, e que desviam a atenção daquele que é, já não existe outra forma de o identificar, o inimigo principal. Refiro-me ao ataque do islão mais irredutível e radical – pelo que se sabe, e pelas características dos atentados em Paris, falamos do autoproclamado Estado Islâmico – a pessoas comuns, de todos os credos, falas e raças, apenas culpadas por viverem na Europa e se divertirem. E a uma declaração de guerra aos fundamentos históricos da democracia, da laicidade e do simples direito à fruição da vida – recordemos que as vítimas foram essencialmente pessoas que gostavam de futebol, ou de música, ou de jantar fora numa noite de sexta-feira –, que para os fanáticos assassinos são demoníacos e não possuem qualquer valor. (mais…)

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          Esperar desesperando

          Fot. Paulo Pimenta / Público
          Fot. Paulo Pimenta / Público

          Encontrei na semana passada uma amiga brasileira que não via há algum tempo. M. vivera uma época em Portugal, que então percorrera de uma ponta à outra e conhecera bastante bem, até que há cerca de dois anos regressara por motivos familiares à sua cidade de origem. Agora de volta, depois de todo este tempo, para nós aparentemente sem fim, durante o qual o país sofreu o choque imenso que conhecemos, ocorreu-me perguntar-lhe se sentia alguma diferença visível entre o Portugal que deixara e aquele ao qual agora retornava. Aquilo que me respondeu não me deixou surpreendido: «Com certeza que sim, de imediato. E o que mais me impressionou foram as mudanças na cara das pessoas. Um ar de contrariedade, de desgosto, um semblante de tristeza e de falta de confiança, um rosto rígido que eu não conhecera antes, um olhar diferente e talvez um pouco perdido.» A nossa memória diz-nos a mesma coisa, mas pronunciada desta forma, a partir do ângulo de observação de quem não viveu o dia-a-dia da nossa dramática mudança, a descrição de M. funciona como um abalo. (mais…)

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            A noite berlinense

            Sob a pressão dos muitos milhares de manifestantes da antiga RDA que exigiam nas ruas e praças do país democracia, liberdade e pares de jeans, o Muro de Berlim caiu na noite de 9 de novembro de 1989. O episódio representa, a par das passadas de Neil Armstrong na Lua e do derrube das Torres Gémeas, um dos três acontecimentos a que assisti e de que tenho memória nos quais tive a imediata perceção de viver em direto um «momento histórico». A Queda do Muro teve aliás um impacto brutal em quem, por essa época, tinha passado alguns anos no clima pantanoso e sombrio da Guerra Fria. No que me diz respeito, a intervenção da propaganda – associada a um visionamento talvez demasiado precoce de Cortina Rasgada, de Alfred Hitchcok – levara-me em criança a imaginar que a Cortina de Ferro era mesmo uma pesada rede metálica, eletrificada, impenetrável e letal, separando para sempre o Bem do Mal em dois mundos antagónicos. E ainda em 1975, no contacto breve mantido por motivos fortuitos com dois cidadãos soviéticos, tive a estranha sensação de lidar na Quinta Dimensão com uma parelha de perigosos alienígenas. Mais do que uma alteração do equilíbrio do mundo, da qual continuamos a sofrer as fortes e imprevisíveis ondas de choque, foi pois uma mudança radical na perceção que então era possível ter desse mundo que a Queda do Muro começou por impor. E é principalmente a memória desse espanto de ver a vida toda a mudar em poucas horas que permanece em quem passou, incrédulo e sem conseguir dormir, essa intensa noite berlinense pregado ao televisor. Foi há 23 anos.

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