Guerra, identidade e aversão ao outro

Sendo uma verdade que a história jamais se repete, pode ter alguma utilidade, na tentativa de compreender momentos complexos da vida dos povos e das nações, ensaiar comparações entre situações históricas situadas em diferentes tempos e lugares. Ao procurar refutar o filósofo Hegel por este ter afirmado que todos os factos e personagens de importância na história mundial ocorriam duas vezes, Marx escreveu no 18 de Brumário de Luís Bonaparte, terminado em 1852, que «ele esqueceu-se de acrescentar: a primeira como tragédia, a segunda como farsa». Vejamos se isto pode ser aplicado a um arriscado exercício de comparação entre o Portugal do século XVII e a atual Ucrânia.

ler mais deste artigo
    Atualidade, História, Memória, Olhares, Opinião

    Jean-Louis

    Morreu esta sexta-feira, aos 91, o ator Jean-Louis Trintignant. Essencial em tantos filmes que pautaram o universo cinéfilo. Entre as 140 longas-metragens estreadas de 1956 a 2012, destaco, das que pude ver, Les liaisons dangereuses, Un homme et une femme, Z, Il conformista, Il pleut sur Santiago, mais o derradeiro Amour. E, claro, Ma nuit chez Maud, realizado em 1969 por Eric Rohmer, tão importante na construção perturbada de algumas masculinidades, entre elas a minha própria.

    Originalmente no Facebook
      Apontamentos, Artes, Biografias, Cinema

      Apoios internacionais na Guerra Civil Espanhola

      Talvez não tenha sido suficientemente lembrado por estes dias o precedente ocorrido, em termos de apoios internacionais, durante a Guerra Civil espanhola de 1936-1939. Fica um relato muito sintético, talvez útil para quem insiste em defender uma não-intervenção externa que em determinados conflitos inclina os pratos da balança para um dos lados e apenas favorece o mais forte.

      ler mais deste artigo
        Atualidade, Democracia, História

        A indiferença pelo sofrimento dos outros

        Este setor do espetro político transporta consigo um lastro histórico e uma longa experiência de manipulação da realidade e de difusão da mentira. Refiro-me ao grupo minoritário de pessoas seguro das suas escolhas e convencido de que um dia viverá na sociedade distópica que idealiza, que entre nós defende, como justificável e até necessária a impiedosa política de assassinato coletivo e de devastação que as tropas de Putin estão a levar a cabo na Ucrânia. Por este motivo negam a sua verdadeira dimensão e sem qualquer pudor transformam o agressor em protetor e o agredido em criminoso. Deste modo construindo, junto de quem lhe dá ouvidos, uma narrativa que converte um Estado independente e formalmente democrático – onde, como em toda a parte, incluindo na Rússia, existe gente que pensa de forma diversa e setores minoritários de extrema-direita – no que proclamam ser «um antro de nazis» a demolir.

        ler mais deste artigo
          Etc.

          Crítica democrática e caixas de ressonância

          «Crítica» vem do grego kritikós, indicando a palavra aquele que está «apto a julgar». Manifesta-se na produção de uma opinião ou de um juízo de valor por quem a exerce. No campo das ideias, a «teoria crítica», expressão criada em 1937 por Max Horkheimer, é uma abordagem que, contrapondo-se à rigorosa separação das águas de matriz cartesiana, incorpora no pensamento tradicional uma tensão com o presente, de efeito criador e emancipatório. Na vida como professor, tenho insistido junto de quem escuta que a minha intervenção no espaço partilhado da aula, mais que destinada a comunicar saber, se destina a fazer com que cada aluno ou aluna seja capaz de usar o conhecimento para pensar por si e, seja na vida pessoal ou como cidadão, intervir de forma positiva e autónoma. Sublinho sempre: «criticar não é ‘dizer mal’, é dizer mais».

          ler mais deste artigo
            Democracia, Olhares, Opinião

            Os acossados

            Sempre vi como um tanto despropositado o título O Acossado atribuído em Portugal a À Bout de Souffle, a primeira longa-metragem de Jean-Luc Godard, com Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg, estreada em 1960 e um dos filmes basilares da Nouvelle Vague. Porque o personagem principal, Michel Poiccard, apesar de perseguido permanentemente pela polícia, é um homem livre, sobretudo à procura de uma vida em lugar distante onde tudo para ele possa recomeçar. Já o adjetivo «acossado» refere-se de forma muito objetiva a alguém perseguido ou atacado, que vive atormentado por essa condição e reage a ela envolvendo-se ainda mais no quadro de vida que lhe é constantemente imposto.

            ler mais deste artigo
              Apontamentos, Atualidade, Cinema, Opinião

              Quando «alguém» morre

              Jamais a alguém, vivo ou morto, incluindo a mim próprio, aparentemente vivo, considero «acima de toda a suspeita». Impressiona-me o elogio de pessoas públicas, quando estas desaparecem, feito como se elas fossem perfeitas, sem a mínima ruga ou pecado. Quando, na realidade, não existe ninguém – eu não conheço, nem mesmo ao meu mestre Camus, que ponho acima de Cristo – sem defeitos, alguns até dificilmente desculpáveis. Basta conhecê-las um pouco melhor, e eu tenho conhecido algumas, não apenas dos livros ou da televisão, cuja partida nem por isso deixei de sentir com alguma ou muita dor.

              ler mais deste artigo
                Apontamentos, Devaneios, Olhares

                Três lições e três alertas

                Escrevo ainda sobre a guerra na Ucrânia, tema que tenho reiteradamente abordado nas últimas semanas. Não se trata de um epílogo, pois num futuro mais ou menos próximo muito haverá ainda a observar sobre as razões, as formas e as consequências deste episódio que marcará o nosso tempo, mas de uma sinopse onde se destacam algumas linhas de análise.

                Parece impossível, mas a invasão, que segundo a cândida previsão de um general comentador televisivo iria ir durar «três dias, cinco no máximo», completou três meses no passado dia 24. Na verdade, começara oito anos antes, em fevereiro de 2014, quando forças locais pró-russas, apoiadas por armamento e militares vindos de Moscovo, tomaram a península da Crimeia e parte do território do Donbass, internacionalmente reconhecidos como território ucraniano. Todavia, foi apenas nestes meses que o conflito se expandiu além daquelas regiões, com consequências que acompanham o cenário de destruição de um país e de intimidação de um povo, alargando os seus efeitos a toda a Europa e ao resto do mundo. A situação oferece-nos três lições e três alertas. 

                ler mais deste artigo
                  Atualidade, Democracia, História, Opinião

                  «Sita»: generosidade e sectarismo

                  Vi ontem o documentário «Sita: a vida e o tempo de Sita Valles», da realizadora Margarida Cardoso, que parte da história de uma das vítimas mais conhecidas do 27 de Maio de 1977 em Angola para falar de toda uma geração, aqui destruída e calada à força, ou que em Portugal seguiu a sua vida. É assunto, sobre o qual procurarei escrever adiante algo de mais substantivo, que me toca profundamente, não apenas por um mero interesse de origem intelectual, mas sobretudo porque convivi, aqui e também em Angola, sobretudo entre 1971 e 1977, com muita daquela gente e muitos daqueles ideais lançados no terreno. E também porque me morreram amigos que não esqueço no 27 de Maio angolano.

                  ler mais deste artigo
                    Apontamentos, Biografias, Democracia, História, Memória

                    O PSD e a faixa da direita

                    Quando falo para estudantes estrangeiros europeus do Portugal politico contemporâneo costumo dar o PSD como uma prova mais da influência perene da Revolução de Abril no nosso sistema. Ficam sempre um tanto baralhados quando lhes digo que o Partido Social-Democrata é desde a fundação em 1974 um partido de direita, habituados que estão nos seus países a associar a designação ao movimento trabalhista e à corrente marxista-democrática – chamemos-lhe assim, embora eu saiba que o termo não é muito preciso – que vem da Segunda Internacional. Aquela criada em 1889 por iniciativa, entre outros, de Friedrich Engels, para substituir a Primeira, destruída pelos conflitos intestinos entre os partidários de Marx e os de Bakunine.

                    ler mais deste artigo
                      Apontamentos, Atualidade, Democracia, Opinião

                      Biden, Groucho Marx e a China

                      Considerando o tortuoso trajeto dos últimos cem anos anos, se de algo a política externa norte-americana não pode ser acusada é de coerência. Não me refiro à maldade ou à bondade das suas escolhas – essa será outra conversa -, mas da sua permanente capacidade para dar uma no cravo e outra na ferradura, usando o poderia económico e militar de que dispõe para tomar medidas e afirmar escolhas tantas vezes profundamente contraditórias. Talvez Rossevelt e Obama tenham, pelo menos em parte, procurado escapar a esse destino, mas ainda assim não o conseguiram de todo. E Joe Biden, com a forma como organizou a saída do Afeganistão, o modo como encarou inicialmente o problema ucraniano, e como está a tratar a vontade de reunificação do território chinês por Pequim, está a garantir um capítulo mais nessa tradição de incoerentes ziguezagues.

                      ler mais deste artigo
                        Apontamentos, Democracia, Olhares, Opinião

                        Anotar é viver

                        Não será forçosamente uma qualidade, mas é uma maneira de viver. Jamais me relaciono com o mundo como mero espectador ou simples mensageiro. Muito ou pouco, de forma mais completa ou ligeira, com detalhes ou superficialmente, de forma emotiva ou mais racional, tenho sempre, muitas das vezes apenas para mim próprio, algo a dizer ou a acrescentar. A tudo: uma conversa, uma notícia, um discurso, um artigo de jornal, um livro, uma peça de teatro, um filme, uma peça musical ou um jogo de futebol. Seja sob a forma de comentário, de dúvida ou de simples anotação. 

                        ler mais deste artigo
                          Apontamentos, Atualidade, Devaneios, Olhares

                          Duas vantagens e uma cautela

                          O impacto da guerra de invasão imposta à Ucrânia, a que o governo de Putin tem associado ameaças veladas ou manifestas a diversos Estados do leste europeu e da região do Báltico, também contém algumas vantagens. Duas destas relacionam-se com a construção da resposta europeia à agressão russa e com algumas fraturas expostas ocorridas no campo plural da esquerda, ambas motivadoras de clarificações que podem ter alguma utilidade. Todavia, elas apenas serão efetivamente proveitosas se resistirem a unanimismos, de uma origem principalmente emotiva, que sugerem harmonia de interesses onde, na verdade, subsistem contradições e conflitos.

                          ler mais deste artigo
                            Atualidade, Democracia, Direitos Humanos, Opinião

                            Publicidade agressiva

                            Entre os anos 60 e 80 a publicidade portuguesa, pelo menos aquela que aparecia na televisão, na rádio e nos jornais e revistas de maior circulação, possuía em regra elevada qualidade, tanto no domínio do texto, sempre imaginativo e literariamente cuidado, quanto no plano gráfico e no da realização. Recebia regularmente prémios internacionais e era até, em boa parte, um espaço usado para passar mensagens subliminares contra a paisagem de «vil tristeza» cultural ou no campo dos hábitos que era imposta pelo regime. Alexandre O’Neill e Ary dos Santos, como antes deles Fernando Pessoa, por exemplo, trabalharam na área, transformando o seu esforço nesse domínio em pequenas peças literárias. Assis Pacheco também criou alguns slogãs. Muitas pessoas com memória da época recordam como a publicidade se misturava com o quotidiano, surgindo até, algumas vezes, como momento poético ou inspiração para paródias.

                            ler mais deste artigo
                              Apontamentos, Atualidade, Etc., Memória

                              Uma realidade sombria e ameaçadora

                              Lembrou a comissária Ursula von der Leyen que a Europa se está a deparar com sombras de um passado que muitos julgavam extinto. Retirando os conflitos mais localizados que nos anos noventa, após o desmoronamento dos Estados do «socialismo real», tiveram lugar nos territórios da antiga Jugoslávia e do Cáucaso, há já perto de oitenta anos que o continente não assistia a uma guerra com a extensão e as consequências da que tem lugar na Ucrânia. Cidades inteiras destruídas, morticínios de civis, um povo inteiro em fuga e despojado de condições elementares de vida, ataques de artilharia pesada sem sentido aparente, impostos por uma estratégia de conquista e chantagem que utiliza uma política de terra queimada.

                              ler mais deste artigo
                                Atualidade, Direitos Humanos, Olhares, Opinião

                                O reforço da NATO

                                A Finlândia acaba de formalizar o pedido de integração na NATO. Seguir-se-á rapidamente a Suécia e, mais adiante, como não pode deixar de ser, a Ucrânia. O reforço de uma aliança militar – e uma que, no seu historial, tem iniciativas desastrosas, em larga medida determinada pelas escolhas dos Estados Unidos – jamais é boa notícia, salvo, percebe-se agora ser este o caso, se ela puder funcionar como instrumento dissuasor do imperialismo e da mancha de ditaduras que se perfilam encostados à Europa do pluralismo. Como se viu rapidamente, esta guerra foi um erro de cálculo de Putin, que esperava uns EUA sem interesse em meter-se noutra aventura e uma Europa de novo pusilânime. Saiu-lhe o tiro pela culatra e acabou por contribuir para unir e reforçar o inimigo que visava enfraquecer. Para todos nós, o pior é que não se trata de um jogo de vídeo e a emergência de uma segunda Guerra Fria, porventura menos fria que a primeira, não é mera hipótese.

                                [Originalmente no Facebook]

                                  Apontamentos, Atualidade, Democracia, Olhares

                                  Poder da ignorância em tempos difíceis

                                  Está por fazer, e talvez pudesse dar até uma curiosa e bastante útil tese académica em ciência política, em filosofia ou em história contemporânea, um inventário crítico da literatura que, nestes domínios do conhecimento, os nossos militantes amigos de Putin – entre aqueles, reconhecidamente uma minoria, com hábitos de leitura para além dos títulos dos jornais, das redes sociais e da imprensa partidária – alguma vez lê, leu ou lerá. Não apenas em termos de qualidade de conteúdo, de rigor e de abertura ao fluir do mundo, mas também no que respeita à atualização das obras que conhecem, à honestidade dos seus autores e ao vocabulário de que se servem. 

                                  ler mais deste artigo
                                    Atualidade, Democracia, Direitos Humanos, Olhares, Opinião

                                    O revelador regresso de Vorochilov

                                    Nesta segunda-feira, 9 de maio, como acontece desde 2020, a cidade ucraniana de Lugansk, capital de uma das autoproclamadas repúblicas de maioria russa estabelecidas desde 2014 em território ucraniano por Vladimir Putin, voltará por um dia a chamar-se Vorochilovgrad, designação que já manteve entre 1935 e 1958 e depois entre 1970 e 1990. A designação homenageia o antigo marechal Kliment Vorochilov (1881-1969), nascido na Ucrânia e uma das mais sinistras e mortíferas figuras da história da União Soviética. Tendo sido desde cedo membro do Partido Bolchevique, quadro do Exército Vermelho e um dos poucos amigos próximos de Estaline, integrando o seu persistente núcleo duro de operacionais brutais, dos quais, além de Trotsky e de outros bolcheviques, o próprio Lenine manteve sempre distância. 

                                    ler mais deste artigo
                                      Democracia, Direitos Humanos, História, Olhares, Opinião