Disponível online uma Petição pelo pluralismo de opinião no debate político-económico. Perante o silenciamento de opiniões divergentes e o tom monocórdico, nos órgãos de comunicação social, dos comentários a propósito do PEC III, da sua conjuntura e da sua «inevitabilidade», torna-se imperioso protestar contra uma censura praticada por omissão que apenas aceita, sem direito ao contraditório, pontos de vista distribuídos «entre os que concordam e os que concordam». Leia, assine e divulgue.
Estava em Lisboa e anunciava as suas habilidades na Illustração Portugueza de 18 de Junho de 1910. Previu a queda do Império mas escapou-lhe o mais fácil.
Em Dezembro de 2009 deixei aqui um post semi-premonitório (embora já fosse muito fácil «adivinhar» aquilo que viria a acontecer) a propósito do Centenário da República e da grande feira – esse lugar onde tudo se vende e tudo se mostra, da boa fruta à banha-da-cobra – que iria ser montada à sua volta. Destaco um passo daquilo que então escrevi:
«Seria (…) um favor à memória da República e dos republicanos, e também uma dádiva à experiência actual da cidadania, que, mais do que endeusar ou diabolizar nomes, destacar ou amaldiçoar decretos, distinguir ou esconjurar determinados momentos, se procurasse compreender o essencial e não apenas o acessório e o inócuo. (…) Só desta forma os ideais republicanos poderão retroceder por instantes à vida, e deixarão de inscrever-se apenas num tempo remoto, fantasmagórico, que apenas interessará verdadeiramente os historiadores e o seu público. Porque não aproveitar para re-discutir o regime, o laicismo, a religião, a família, a escola, o ensino, as tradições, a opinião pública, a intervenção das mulheres, e outros temas que, cem anos depois, permanecem ainda nas nossas expectativas e preocupações?»
Sou historiador e cidadão singular, empenhado, em ambas e numa só pele, no destino comum. Interessa-me, portanto, olhar para os dois lados da moeda. Mas se o conhecimento da História da República e do republicanismo saiu globalmente reforçado das manobras do ano – como em tudo, com trabalhos excelentes e medíocres, interessantes e monótonos, inovadores e repetitivos, razoavelmente isentos (por vezes até de mais) e assumidamente prosélitos (o que não é necessariamente mau) – o debate pela cidadania piorou, uma vez que a oportunidade de comemorar confrontando o presente e projectando futuros praticamente se perdeu. Muitas vezes em favor do cerimonial, do auto-elogio e de intervenções deslocadas do tempo em que vivemos e das falas que partilhamos. E tão precisados estávamos, tão precisados nos mantemos, de um debate profundo, substancial e ousado, que questione tendências e não se limite a ensaiar receitas. Que confronte regime e sistema e não se limite a olhar para eles com um encolher de ombros desiludido, nostálgico e conformista. Teria sido uma boa oportunidade para lançá-lo com algum impacto.
A Babelia de ontem transporta consigo uma reportagem («El refugio de los lectores») sobre as transformações do mundo editorial espanhol em tempo de crise. Uma das tendências que se começa a destacar – a par da inevitável quebra nas vendas – é o regresso em força do roman noir. É verdade que este se encontra associado a edições baratas, em paperback, muitas vezes com direitos de autor já caducados e por isso mais acessíveis a editores e a leitores. Mas temo que possa também ser procurado como fonte de inspiração. Que, uma vez mais, a realidade se antecipe à ficção ou que esta lhe sirva de alimento. Que o efeito se propague e avance para oeste, entrando-nos em casa.
Na longa abordagem que faz das «religiões do livro», a reflexão teológica de Hans Küng propõe-nos uma política de moderação que pretende projectar as bases de um efectivo ecumenismo. Este não pode traduzir apenas um processo de abertura e de colaboração inter-religiosa, devendo ir bastante mais longe, até à real aproximação das várias formas de fé e à integração do próprio mundo secular. É esse o objectivo principal prosseguido na trilogia que compôs sobre o judaísmo (1991), o cristianismo (1994) e o islamismo (2004). Küng escreve sempre com uma agenda omnipresente – «não estou primariamente interessado no passado, mas sim no presente» – que determina todo o seu trabalho de pesquisa, interpretação e análise. No volume sobre o Islão, agora traduzido em Portugal, este objectivo surge até reforçado, dada a crescente importância da religião corânica na construção da contemporaneidade. O teólogo refere o modo como no mundo ocidental, logo após o fim da Guerra Fria, se procurou substituir a imagem do comunismo pela do islamismo como representação do inimigo, suscitando equívocos, exacerbando diferenças e justificando por essa via a corrida ao armamento e a criação de uma atmosfera favorável a mais e mais guerras. Neste contexto, o desenvolvimento de processos de compreensão e de laços de entendimento parece-lhe dramaticamente imprescindível para afastar o confronto de culturas, ou o «choque de civilizações», como cenário de um futuro próximo.
Procura assim produzir, como nos propõe, «uma síntese de dimensões simultaneamente históricas e sistemáticas», visando obter uma perspectiva multidimensional do Islão em ordem a promover uma nova fase na relação entre civilizações, nações e religiões e uma mais rápida capacidade de resposta perante os rastilhos de incompreensão e violência que por todo o lado têm sido ateados. Fá-lo em mais de 800 páginas que constituem uma espécie de enciclopédia do Islão e das relações entre cristãos e muçulmanos no passado e no presente. Partindo de uma abordagem detalhada da construção histórica da imagem hostil e da imagem ideal da religião de Maomé – a partir de uma experiência anterior, enfatiza Küng, que é comum à das outras grandes religiões monoteístas –, analisa aquela que considera ser a sua imagem real, actual, para, finalmente, lançar um olhar sobre uma imagem da esperança capaz de afastar a hostilidade que com preocupação evoca no início do livro. Pelo meio vai detectando todas as referências e sinais que indiciem a existência de um «Islão crítico», transigente, capaz de renovar o seu próprio universo a partir de dentro e, também ele, de estender a mão às outras religiões. É este o Islão que considera «verdadeiro», contra o outro, «desfigurado, falseado e profanado» tanto pelos seus detractores como por muitos dos seus prosélitos. O paradoxo da obra reside no facto de Küng procurar essa imagem de esperança privilegiando menos a construção da identidade muçulmana, o seu trajecto solitário e intransigente, do que a procura de uma noção de abertura e de respeito pelo outro que lhe não é forçosamente imanente. Mas é também nesta dimensão contraditória, e por isso dialogante, que reside o interesse deste livro entusiasta com o qual se aprende a cada parágrafo.
[Hans Küng, Islão. Passado, Presente e Futuro. Edições 70. Trad. de Lino Marques. 832 págs. Revisitação de um texto publicado na revista LER de Setembro de 2010.]
Talvez faça parte da última geração que construiu o seu amor pelo cinema debaixo dos telhados maternais dos velhos cineteatros de província. Daqueles com palco de cortina, pequenos camarotes, primeiro e segundo balcão, duas plateias e, certas vezes, um «piolho» onde era possível fumar e atirar cascas de amendoim para o chão. Dessa primeira experiência deslumbrada sobra-me a memória de alguns clássicos para o grande público (Cecil B. DeMille e John Ford forever!) e a recordação das paredes beije de foyers decorados com fotografias um tanto descoloridas de astros e de estrelas da Hollywood dos anos 40 e 50. Foi esta a primeira imagem que me ocorreu – lamento, não foi um fotograma de Some Like It Hot (1959), de Billy Wilder – quando soube ontem da morte de Tony Curtis (1925-2010). Um dos rostos omnipresentes nessas galerias íntimas do maravilhamento. Deve ter sido por isso que senti mais uns quantos gramas de passado a caírem no chão com algum estardalhaço.
O PEC III é um pesado drama para a maioria dos portugueses. Por aquilo que tira directa ou indirectamente dos seus bolsos e das suas vidas, mas também pelas perspectivas de futuro que bloqueia. E não, não serão apenas os funcionários públicos a ver o filme a andar para trás, como podem pensar os mais distraídos: seremos quase todos nós, com pouquíssimas excepções. O pior de tudo, porém, é não se vislumbrar uma saída. Podemos dizer que não paga a crise quem a deveria pagar, que se atacou o elo mais fraco, que mais sofrerão as pessoas que não têm como fugir ao que lhes é exigido. Isso é verdade e com toda a certeza que um PS com S tinha o dever de, com audácia e imaginação, levar as coisas para um caminho mais equitativo, mais centrado nos culpados que nas vítimas. Mas quem está no poder, moldado no compromisso, não é já capaz de vislumbrar outras medidas que não as agora impostas. E a saída, para quem procure combater este plano com uma alternativa capaz, não pode ser a da «luta» pela luta, gaguejada num sonoro mantra por essa grande fatia da esquerda que sabe desmantelar e protestar mas não construir.
O seu problema é que não consegue gerar uma alternativa. Apesar de ainda precisar de crescer politicamente, o BE tem-se esforçado por denunciar e encontrar soluções, dentro do que é possível integrar no âmbito de uma intervenção essencialmente reivindicativa. Mas é necessário muito mais: é preciso romper, mudar, alterar o paradigma dominante de desenvolvimento e de gestão, e não se vê quem o possa fazer de maneira programática. O PS apenas gere medrosamente a «política do possível», o PCP continua a ser um partido meramente reivindicativo, sem um modelo atraente e mobilizador de sociedade, os «alegristas» só jogam à defesa. O drama é este: não existe uma opção forte capaz de agregar sinergias para descobrir uma saída governativa que não seja a da capitulação perante o universo da especulação financeira. É este o desgraçado, o dramático, ponto a que chegámos. «A luta» possível tem pois, necessariamente, que procurar reduzir os danos mais gravosos sobre a vida dos trabalhadores. Mas precisa acima de tudo, urgentemente, desesperadamente, de se associar a uma alternativa credível e agregadora. Um projecto que traduza uma mudança de prioridades e de políticas. «A luta» e a rua podem até ser um caminho, podem até dar um empurrão, mas jamais serão a solução. É preciso mais: pensar, falar, unir e propor para mobilizar as pessoas comuns. Uma tarefa que não pode ser para amanhã mas sim para já.
No princípio gostei moderadamente da música dos U2. E ainda oiço bem alguns dos temas mais antigos, saídos dos primeiros álbuns. Boy (1980) e October (1981) são rudes, ingénuos, verdadeiros como a primeira bebedeira. War (1983) já integra a intervenção política como parte da arte do grupo (oiça-se o épico «Sunday, Bloody Sunday»). Por sua vez, The Unforgettable Fire (1984) é um álbum mais elaborado, quase adulto, com a produção decisiva de Brian Eno e Daniel Lanois a sublinhar as melodias e a guitarra de The Edge a moderar o protagonismo de Bono. The Joshua Tree (1987), prolonga-o em parte, sendo o último que ouvi com algum prazer. A partir do disco seguinte, Rattle And Hum (1988), a banda «americaniza» a produção, globalizando-se e tornando-se o «supergrupo dos megaconcertos» que hoje conhecemos (Achtung Baby, de 1991, e blá-blá por aí fora).
Como acontece tantas vezes neste terreno movediço da música popular, a fixação numa sonoridade repetida e sem chama tornou-a mais facilmente reconhecível, fazendo-a chegar a um sector de público com menos interesse pelo áspero e pelo autêntico. E com maior vontade de ouvir aquilo que já ouviu e que espera continuar a ouvir até à eternidade. Os U2 são agora um mero produto de mercado, como um Big Mac ou a Lady Gaga, e até a sua «rebeldia» foi completamente incorporada na máquina de fazer dinheiro que promove a imagem industrial de um «grupo de causas» com a mesma facilidade com que num mercado se vendem t-shirts do Che ou medalhinhas com a efígie do papa ou de Lenine.
É esta a banda que vai estar em Coimbra nas noites de 2 e 3 de Outubro, em concertos, esgotadíssimos há quase um ano, com bilhetes a 125 euros (entretanto inflacionados para 200 ou mais). Por mim, que moro a dez minutos do local do crime, vou passar ao lado: a música recente dos U2 não me interessa de todo, as versões antigas são tocadas em piloto automático e não sou suficientemente basbaque para me deixar impressionar com a «aranha» e a pirotecnia megalómanas que a magnânima Câmara da cidade ajudou a financiar com a módica quantia de 200.000 euros. Além disso, não me apetece encontrar-me com o Pedro Passos Coelho ou algum clone seu. «É uma coisa que me chateia, pá.»
Perdoem a confidência mas quero dizer-vos que adoro rir. E mais ainda de fazer rir os outros. «If I can get you to laugh with me, you like me better, which makes you more open to my ideas», afirmou numa entrevista o enorme John Cleese. Talvez por vezes não pareça, eu sei, porque também gosto muito da tristeza (bonjour, bonjour, minha amiga), mas acredito que o melhor riso é o que nos interrompe os dias, não o que faz de nós perpétuos sorridentes, animados e um tanto patetas. Gosto pois de umas gargalhadas, das boas (mesmo, mesmo, mesmo, mesmo boas) e principalmente daquelas que largamos sem lhes conhecer a razão. Rir-se, lá dizia o velho Bergson, é um acto de intuição, e que melhor prova desta ligação do que rir por rir, sem mais nem menos.
Já o não fazia há muito, admito, mas aconteceu agora como vídeo do ministro suíço das finanças que circula à velocidade da luz pelo You Tube. Quase não percebi nada daquilo que o senhor dizia e os meus rudimentos de alemão não são suficientes para me esclarecer, mas a piada está toda aí: o próprio governante, soube-o entretanto, achou o discurso que algum acessor lhe havia colocado à frente tão non-sense que esqueceu o protocolo e não foi capaz de conter o riso. E riu, riu muito, descontroladamente, fazendo-nos rir com ele. Resultou comigo, como resultou com muitas outras pessoas. No caso em apreço, nem me interessa saber aquilo que o homem disse, nem quem é ou o que representa: aquele instante, tão raro nos espaços da política geralmente circunspecta e pardacenta, foi um momento especial, quase de catarse, que valeu por si e por isso foi extraordinário.
Parece-me pois completamente obtusa e sem ponta de piada a versão que circula por aí, supostamente «legendada em português» por um blogue de direita, que põe na boca do senhor suíço um qualquer arrazoado depreciativo sobre o Portugal de hoje e os seus governantes, tentando mostrar como estamos tão baixo, tão baixo, tão baixo, tão baixo no respeito das nações que até um pobre burocrata suíço se ri de nós. Para além de não ter graça alguma e de agregar uma série de clichés em tom de autocomiseração sobre a nossa vida social e política, redunda numa intervenção claramente reaccionária, vagamente messiânica e trauliteira, insinuando com bastante clareza a necessidade de «acabar com a brincadeira» para que nos ganhem respeito. E não é por ser «contra o Sócrates» que perde essa qualidade. Acham que é para rir?
Encontro na edição em linha do Diário de Notícias um título em destaque: «Portugal vai ter de subir impostos e congelar salários». Para além da frase em si, daquilo que faz prever, do cenário negro para a maioria dos portugueses que ela desenha, incomoda o sentido impositivo da expressão «ter de». Ou talvez já não incomode tanto assim, uma vez que ela se tem banalizado. Os actos de gestão, as linhas de política, as metas que se configuram para a vida colectiva, não são consideradas escolhas, mas sim inevitabilidades. Uma opinião pública débil, tradicionalmente conformista ou indiferente – de certo modo um atavismo que carregamos, raramente interrompido –, cria as condições para que os «profissionais da eficácia» que gerem a política e a economia possam apresentar as suas propostas e os seus programas como vias de sentido único. Os sinais vêm de trás – veja-se como nas universidades o «Processo de Bolonha», assim com P maiúsculo, foi acelerado e imposto porque supostamente «tinha de» avançar rápido e não podia ser questionado, e veja-se como a generalidade dos seus responsáveis o aceitou ordeira e obedientemente – mas têm-se vindo a agravar. Muitas vezes, é preciso que se diga, com a complacência, com a desgraçada cumplicidade, dos meios de comunicação, desde o pequeno jornal regional à televisão do Estado. Proclama-se e faz-se ecoar a ideia peregrina de que tudo «tem de ser»: as coisas são como são, nada há a fazer, mudar é impossível. Manda quem pode e obedece quem deve. É o fado implacável, o destino que marca a hora. «É a vida». A intervenção da consciência crítica e a capacidade de pensar a alternativa, de relativizar as circunstâncias, de escolher com bravura a nova estrada a percorrer, ficam assim convenientemente adormecidas. Para sossego de quem mais ordena e prefere não ser contrariado, prefere que não lhe mexam nos papéis nem lhe mudem os chinelos do lugar habitual. Salva-nos apenas a consciência de que as viragens históricas são sempre feitas de impulsos e de imponderáveis. Mais cedo ou mais tarde elas formam-se e irrompem sem pedir licença. «Têm de» irromper. Não por estarem escritas nas estrelas ou obedecerem a uma narrativa que explica a sua certeza, mas porque se transformam numa necessidade. E por vezes nascem na rua, de maneira nómada e imprevisível.
Kim Jong-Un, de 28 anos, filho mais novo de Kim Jong-Il, o «Querido Líder» e «Génio dos Génios», supremo chefe da República Popular Democrática da Coreia do Norte, e neto de Kim Il-Sung, o «Grande Líder» e «Presidente Eterno», fundador da dinastia, foi esta madrugada promovido a general. Apenas algumas horas antes da reunião extraordinária de dirigentes do partido que decorre hoje em Pyongyang e, ao que parece, irá consagrar a designação do sucessor oficial do actual presidente da Comissão Nacional de Defesa e secretário-geral do Partido dos Trabalhadores da Coreia. A ideia é dar ao jovem Jong-Un um pouco mais de autoridade para que o unanimismo funcione sem mácula e a designação da sucessão mais facilmente possa ser apresentada como natural e indiscutível. Afinal, o que mais pode pesar num regime autoritário e despótico do que a ameaça dos galões militares, das botas ferradas e dos mísseis de longo alcance Taepodong? Para completar o aparato, a irmã do presidente, Kim Kyung-Hui, casada com Jang Song Taek, actual número dois do regime, foi também promovida a general. Aguarda-se por isso que na acanhada mas digna banca gerida pelos «camaradas e companheiros de luta» norte-coreanos no Espaço Internacional da próxima Festa do Avante! seja possível já adquirir estampas e pins da nova liderança, bem como algumas reflexões em papel de arroz do recém-promovido general. Os coleccionadores de kitsch retro pós-soviético e de preciosidades bibliográficas em português macarrónico aguardam ansiosamente. Já o povo norte-coreano, que tem de carregar diariamente com este triste espectáculo de nepotismo e tirania, é pouco provável que sinta um genuíno entusiasmo pelos acontecimentos em curso.
Havia tempo. Tinha saudades de um western normal e previsível. Daqueles onde os maus, gananciosos e sem piedade, se encontram de olhos nos olhos com os bons, firmes quando é preciso mas sempre generosos, sob um sol toldado pela pólvora e pela poeira. Noite fora e sem pipocas, vi ontem, via RTP1, Kevin Costner e Robert Duvall em quase três horas de um filme assim.
«Waite, Spearman, Button e Harrison tentam fugir ao passado, criando gado nas pradarias, onde a lei é a da Natureza. Os cowboys tentam seguir um código de lealdade e integridade e evitam a violência. Ao chegar a uma cidade dominada pela corrupção e tirania, no entanto, estes homens são forçados a entrar em acção.»
No final de Open Range (A Céu Aberto, de 2003, dirigido por Costner), e em harmonia com o modelo, consumada a justiça o pistoleiro de boa índole pediu em casamento a moça compassiva – bem, já não era tão moça assim pois «já lhe despontavam as cãs» – que sempre esperara por ele. E a paz regressou à pradaria. Quando apareceu no ecrã o clássico «The End» transpirava um pouco e tinha na boca o sabor inconfundível de um filme «para maiores de 12 anos». Tinha saudades.
A morte por injecção letal da americana Teresa Lewis e a prevista execução, por lapidação, da iraniana Sakineh Ashtiani, têm de facto algo em comum: ambas consagram a prática da pena de morte – e também a da tortura, física ou psicológica – como um expediente intolerável e bárbaro que já deveria ter desaparecido de vez da vida das sociedades. Mas não me parece bem a representação de uma completa similitude. Das duas mulheres, uma é culpada confessa do crime de morte pela qual é punida por um código penal cego e arcaico, e a outra é completamente inocente, «culpabilizada» apenas por um preceito cultural obscurantista e cruel que não pode aceitar-se. Se colocarmos estas duas vítimas da pena de morte numa posição de absoluta igualdade formal estaremos a aproximar sistemas diferentes e a legitimar atitudes como as tomadas pelos regimes cubano, chinês ou coreano, que equiparam a discordância política ou o dissídio cultural ao crime de delito comum, justificando assim as mais pesadas penas para quem escape à norma social imposta. Parece-me eticamente mais justo e politicamente mais eficaz não existirem nestes assuntos diferentes pesos e diferentes medidas. Condene-se pois, sem quaisquer dúvidas ou reservas, uma forma de punição que consagra a vingança e o desprezo pela vida humana. Vigore ela nos Estados Unidos da América, no Irão, ou seja lá onde for. Mas não se façam equivaler estes dois casos.
Não diria que é aquilo que mais temo perante a possibilidade de a crise política que se adensa nos empurrar para as mãos de Pedro Passos Coelho. O que pode acontecer aos destinos do país e à vida das pessoas, entregues de vez à volúpia da «cultura empresarial», afigura-se bem pior do que o aspecto de quem venha a gerir o estabelecimento. Mas é este, seguramente, um dos factores que me perturba. Ponderar como inquilino da residência de S. Bento um típico e obstinado beto dos eighties, seguido por um séquito de réplicas, é um pesadelo que me tem povoado as noites. Ser governado por alguém que aparenta querer impingir-nos a qualquer momento um pólo da Lacoste ou da Ted Lapidus, penteado «à Joe Dassin», de discurso tenso e redondo, soturno e previsível, ter de conviver diariamente com a seriedade enfatuada e a representação icónica do aborrecimento, constitui para mim uma preocupação adicional de ordem estética e ecológica. Talvez pareça um tanto frívolo e com angústias de baixa densidade política, mas não encontro nada que afaste de mim este enjoo. Já a cidadã Zulmira Ferreira, cujo voto vale rigorosamente o mesmo que o meu, pensa de forma muito diferente.
Esclarecimento ao Dgmo. Público: Este post não é um apelo ao voto útil.
Há bem mais de um ano que não controlava as frases depositadas nos motores de busca que transportam os leitores irregulares até este blogue. Mas devia fazê-lo mais vezes porque aprendo sempre imenso sobre as fantasias e os conflitos mais cavados de quem me lê de raspão. Nesta semana duas frases se destacam de todas as outras: «meninas vestidas de soldado» e «se eu gostasse muito de morrer». Em ambos os casos a minha imaginação, que por estes dias se tem sentido tristemente paralisada, libertou-se e voou à solta. E a sua?
Fiquei com um duplo sentimento de mágoa e de repulsa ao ler a biografia possível da revolucionária luso-angolana Sita Valles, escrita pela jornalista Leonor Figueiredo a partir de documentação escassa e muitos testemunhos de quem a conheceu. A mágoa não foi determinada apenas pelos episódios mais trágicos, pela evocação de uma vida jovem cortada pela raiz e de uma forma tão brutal. Foi-o também pelo contacto directo com o relato de uma convicção revolucionária – não importam aqui os seus contornos – levada até às últimas consequências. Podemos dizer, o que é rigorosamente verdadeiro, que a História está cheia destes mártires fugazes que nela percorreram um trajecto curto e arriscado mas inevitável e, sob uma perspectiva fria, de certa forma necessário. Não é possível, porém, ignorar o drama de quem se despenhou no desfiladeiro porque só tinha os olhos no fio do horizonte e não via o chão que pisava. Já a repulsa tem uma outra origem: esta leitura obrigou-me a revisitar a sucessão de crimes produzidos à volta dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977. Crimes que passaram pela tortura e pela morte de dezenas de milhares de pessoas, com responsabilidades amplamente identificadas mas que permanecem totalmente impunes e quase inteiramente silenciadas. Em Angola principalmente, por onde os algozes circulam com prémios de carreira e honras de Estado, mas também em Portugal, onde vivem ainda muitos dos que calaram, consentiram e pactuaram. Entender-me-á melhor quem leia este livro necessário. [Leonor Figueiredo. Sita Valles. Revolucionária, Comunista até à Morte (1951-1977). Alêtheia Editores. 264 págs.]
Nota: Voltarei ao assunto adiante. Nessa altura falarei mais do texto e não tanto das suas circunstâncias.
Os pais não falavam de sexo com os seus filhos. «Naquele tempo», como se dizia nas parábolas, tudo era envolvido em véus e meias-tintas. Embora essa ausência acordasse em muitos deles uma irrefreável vontade de se chegarem à prateleira mais alta para surripiarem A Nossa Vida Sexual, de Fritz Kahn, escondida por detrás do volume do Novo Testamento e do Livro de Pantagruel da Dona Berta Rosa-Limpo. Aos estudantes do secundário estava também vedado o acesso normal a tudo do qual pudesse assomar uma sexualidade exterior à obscura vida de alcova consagrada pelo sacramento do matrimónio. O que inibia muitos de lerem nas aulas de português um certo Canto dos Lusíadas, forçando-os a fazê-lo fora delas ao mesmo tempo que iam imaginando coisas. E, claro, não se deviam, não se podiam, escrever ou pronunciar palavrões. «Pimenta nessa língua» era a ameaça mais suave para quem o fizesse. Mas qualquer criança da escola primária conhecia, ainda que de forma enviesada, mediada por algum colega mais vivaço e solícito para quem os termos já não tinham segredo algum, o significado vernáculo de caralho, cona ou broche.
Pois agora são o Diário de Notícias ou a RTPa indignar-se por um dicionário abreviado da língua portuguesa utilizado em escolas do ensino básico conter «palavrões» como os acima mencionados. No pressuposto de que jamais deveriam ser conhecidos por menores, independentemente destes os pronunciarem por hábito e com o maior à-vontade. Pessoalmente nunca gostei do abuso do palavrão, que sempre me soou a indigência vocabular ou à expressão de uma vontade infantil de chocar as audiências (vejam-se os tiques retóricos de certos bloggers mais agressivos). Uso-o muito moderadamente, em ocasiões raras e só por necessidade, embora quando me magoo na esquina de uma cadeira não me sirva propriamente de um modesto «fornique-se!». Mas o espanto projectado a partir da simples existência do tal dicionário e a sugestão implícita da sua proibição formal parecem-me resultado de um moralismo estúpido, anacrónico e, agora mais do que nunca, completamente inútil. Ele sim maldoso por apelar à ignorância. A propósito: o corrector ortográfico Flip, versão 8, que estou a utilizar neste momento, não sublinhou automaticamente a vermelho as palavras grossas que atrás escrevi. Será que se destina apenas a maiores de 18 anos?
Adenda: Não sei se não será relevante o facto de o dicionário ser da responsabilidade de uma editora do Porto. Diariamente confrontada com o meio envolvente.
Fome, o pequeno mas precioso romance de Elise Blackwell (ed. Livros de Areia, trad. de Safaa Dib, 102 págs.), arranca com um lembrete, imprescindível para aproximar o leitor da paisagem a um tempo luminosa e invernal sobre a qual a autora ficcionou a sua história de amor, morte e coragem.
«O célebre biólogo Nikolai Vavilov reuniu centenas de milhares de sementes e espécies de plantas do mundo inteiro, albergando-os no Instituto de Pesquisa da Indústria de Plantas em Leninegrado. Vavilov tornou-se uma vítima da campanha antigenética levada a cabo por Trofim Lysenko, que gradual mente tomou controlo da agricultura soviética no tempo de Estaline. Vavilov morreu na prisão em 1942 ou 1943 de uma combinação de maus tratos e fome. Muitos dos seus associados e funcionários foram presos, exilados, enviados para campos de trabalho correctivo, ou dispensados. Durante o cerco de Leninegrado, aqueles que permaneceram protegeram as colecções de Vavilov dos ratos, de intrusos humanos e deles próprios.»
A vida aventurosa, o triunfo e a queda de Nikolai Vavilov (1887-1943), as provações de quem o seguiu de perto ou nele acreditou, o imenso logro pseudo-científico que acompanhou a sua desgraça, mais se parecem, no entanto, com uma fábula negra, de tão delirantes e improváveis que agora se nos afiguram.
«A 9 de Julho de 1941, o colégio militar do Tribunal Supremo declarou o grande director culpado de pertencer a uma conspiração da direita, de espiar para Inglaterra, de sabotagem agrícola, e, como prova de que os juízes têm sentido de humor, de ser o líder do Partido Trabalhista Camponês. Foi condenado à morte. A reunião durou vários minutos.»
E mais adiante:
«Entre os evacuados de 1942, encontravam-se a mulher do grande director e o filho, que se estabeleceram em Saratov. Foram informados de que ele fora preso em Mos covo, quando na verdade dormia, subalimentado, a poucos quilómetros do local onde se encontravam. Sentiriam eles a sua proximidade ou serão tais coisas impossíveis, pensei eu mais tarde, quando soube.
Com a sentença de morte comutada mas a morte iminente, foi transferido da prisão de Saratov para Magadan, onde a sua cela era arrefecida pelo frio mas invisível Mar de Okhotsk. Os detalhes nunca seriam revelados, mas certamente morreu de maus tratos e subnutrição, talvez mais de um do que outro, em finais de Janeiro de 1943.»
Fome pode, portanto, ser lido como estranha homenagem de uma americana nascida em 1964 em Austin, Texas, a um punhado de autênticos heróis soviéticos dos tempos de resistência ao nazismo e ao estalinismo. E evoca, assumindo-se embora como «relato ficcional desse tempo e lugar», um triste e extremo exemplo da perversão sempre inerente ao casamento da «ciência certa» com o poder absoluto.