Uma biografia necessária

ignorance is strength

O número de Dezembro do ano passado do Magazine Littéraire trazia consigo um dossiê evocativo dos sessenta anos transcorridos sobre a morte de George Orwell, identificando-o como «escritor e profeta político». Mas se o primeiro epíteto é irrefutável – após curta experiência como polícia colonial, Eric A. Blair viveu, de facto, apenas da escrita –, já o segundo deve ser vigorosamente questionado. Se quem escolheu o qualificativo tivesse lido a magnífica biografia política de Orwell escrita pelo historiador John Newsinger, publicada uma década antes e agora saída em edição portuguesa da Antígona, não teria sido tão impreciso. Um exame detalhado e sistemático das atitudes cívicas e das obras do escritor retira-lhes a dimensão profética e, bem pelo contrário, mostra-as sempre adequadas aos debates do tempo, influenciadas pelas sucessivas conjunturas e interagindo com elas, mesmo quando se viram envolvidas nos sinais assustadores de um futuro-presente distópico.

Porém, se estivesse vivo, Orwell não estranharia essa ténue distorção proposta pelo ML. A incompreensão, muitas vezes a pura calúnia e a completa falsificação, acompanharam não só toda a sua vida pública, como grande parte da interpretação post-mortem dos seus escritos e até de alguns gestos privados. Pelo menos desde Na Penúria em Paris e em Londres, publicado em 1934, e sem interrupções desde aí até à actualidade, o escritor corporizou o intelectual independente de esquerda, provido de uma relutância visceral em pensar de forma dogmática, em agir contra a sua consciência por razões meramente tácticas, e, consequentemente, em aceitar a imposição de quaisquer formas de pensamento único. Como é de calcular, se tal atitude lhe angariou sempre um número apreciável de admiradores fiéis, mobilizou também uma não menor quantidade de adversários tenazes e impiedosos.

Aspectos centrais da intervenção política do autor são tratados de forma coerente e bem documentada nesta biografia, circunscrevendo em muito a margem de deturpação da qual foi sendo objecto por parte da direita liberal, da ortodoxia comunista e até de sectores do Labour, desconfiados dos seus assomos em favor dessa «revolução socialista» na qual jamais deixou de crer. De entre esses aspectos, destacam-se a irredutibilidade das posições anti-imperialistas e socialistas do autor; a profunda influência, nas suas convicções solidárias e na sua militância antitotalitária e anti-estalinista, da dura experiência como combatente republicano durante a Guerra Civil de Espanha (ferido em combate contra os nacionalistas e escapado por sorte ao fuzilamento reservado por agentes do NKVD); e a percepção de que o seu compromisso com o socialismo implicava necessariamente hostilidade para com o comunismo soviético, que considerava «uma brutal tirania mascarada de socialismo». Em 1947, a dois anos da saída de Mil Novecentos e Oitenta e Quatro e a três da morte, Orwell escrevia mesmo: «convenci-me de que a destruição do mito soviético é essencial, se quisermos aspirar ao renascimento do movimento socialista». A frase explica parte substancial do seu difícil trajecto político e da sua actualidade. [John Newsinger, George Orwell. Uma Biografia Política. Trad. de Fernando Gonçalves. Antígona, 288 págs. Publicado previamente na revista LER.]

    Democracia, História, Olhares

    Nem assassinos, nem carrascos

    paz agora

    Qualquer pessoa avisada, justa, e com um sentido da História que ultrapasse o que se pode divisar apenas a dois palmos do nariz, sabe que o fim do conflito no Médio-Oriente e do confronto israelo-palestiniano passará sempre por uma solução de compromisso, com responsabilidades repartidas. A única capaz de criar condições para que um dia se possa chegar ao inevitável: uma Palestina e um Israel reencontrados e democráticos, coabitando e cooperando na construção de um futuro melhor para os seus povos e na defesa de uma paz duradoura para a região. Claro que para se chegar a tal situação está ainda quase tudo por fazer – ao fim de todas estas décadas, é verdade –, a começar pela necessidade absoluta de palestinianos e israelitas serem capazes de afastar das suas lideranças e das suas alianças de circunstância aqueles que, em nome de projectos imperiais ou de fidelidade a um deus superior, tudo fazem para impedir uma solução de aproximação que não se traduza na anulação impiedosa do outro. Será esse o primeiro passo para que se torne possível começar a lamber as feridas e iniciar a via dolorosa do tratamento de ódios tão profundos quanto compreensíveis.

    O inqualificável e desnecessário acto de guerra levado a cabo pelas forças armadas de Israel contra os navios que se dirigiam a Gaza – repudiado por quase todo o mundo, se exceptuarmos os sectores da direita sionista, mas que está também a ser ampla e radicalmente contestado por uma boa parte da opinião pública israelita – apenas demonstra, uma vez mais, de que modo a porta que abrirá esse caminho permanece ainda inacessível. A situação só pode piorar, todavia, se se diabolizar um dos lados que se deseja destruído e se se considerar que do outro apenas existem legiões de inocentes. Que uns são os bons e ou outros os maus de um filme medíocre, desgastante e previsível. Que a luta não é, como de facto é – as palavras são de Amoz Oz mas poderiam ter sido de Edward Saïd – «entre quem tem razão e quem tem razão». Os assassinos sionistas e os carrascos islamitas, bem como os seus fiéis aliados de todos os quadrantes, estão bem uns para os outros: só são capazes de conceber uma paz construída sobre cinzas, vingança, morte e opressão. Penalizando severamente, afinal, os povos que declaram representar e defender.

    [Rui Tavares publicou hoje um texto de opinião em boa parte no mesmo sentido deste. Ei-lo aqui.]

      Atualidade, Democracia, Opinião

      Por uma nova gramática do bem comum

      Ligações

      A sobrevivência da democracia depende da vitalidade do espaço público. A ideia não é nova, mas o filósofo bilbaíno Daniel Innerarity fez dela o eixo deste ensaio. «Fazer política», diz-nos, «é hoje semelhante ao que fazia aquele indivíduo que de súbito bradava num restaurante “Pssst!” […] em voz tão alta que todos olhavam para ele e cessava o ruído das conversas». O alheamento do cidadão comum em relação aos projectos colectivos, o seu silêncio diante dos que falam em seu nome, ficaria a dever-se sobretudo à confusão instalada entre público e privado, à «privatização do público» e à «politização do privado», que tendem a diminuir o alcance da responsabilidade social e a estimular o individualismo. Neste O Novo Espaço Público expõem-se o cenário e os intérpretes do estado de desresponsabilização em que vivemos, insistindo-se no recuo das preocupações com o público, substituídas por uma valorização excessiva das identidades ou então pelo populismo. Ambos determinados pela «irrealidade dos meios de comunicação» e por uma intensa manipulação da História e da memória colectiva. Mas não se deixa esmagar pelo pessimismo. Fala-nos por isso da construção de uma «cultura pública comum», de uma nova ágora em condições de impor a renovação da experiência política e de impedir que esta se reduza à mera gestão «realista» do presente, trocando a acção colectiva e o debate criador, como já advertira Hannah Arendt, pelos automatismos próprios da produção e do consumo. Seguindo Habermas, Innerarity evoca então a necessidade que as sociedades actuais têm de «um centro virtual da sua autocompreensão», de reflectirem sobre si próprias, para que se não fragmentem ou deixem cair na inércia administrativa. E sugere a construção de uma nova «gramática do bem comum», de uma política, redentora do espaço público, que será principalmente transnacional e cosmopolita. Apresentada como um caminho para salvar e dar substância à democracia. [Daniel Innerarity, O Novo Espaço Público. Trad. de Manuel Ruas. Teorema, 324 págs. Previamente publicado na revista LER.]

        Atualidade, Olhares

        Sete fôlegos e uma memória

        Álvaro Cunhal

        O livro de Carlos Brito sobre os mais de trinta anos ao longo dos quais manteve um convívio muito próximo com Álvaro Cunhal encontra numa frase costumeira do antigo secretário-geral do Partido Comunista Português – «no Partido não há amigos, somos todos camaradas» – um sinal do seu valor mas também dos seus inevitáveis limites. O essencial da obra comporta um relato histórico bastante pormenorizado da evolução táctica e estratégica do PCP sensivelmente entre 1966 e 1999, tendo Cunhal como principal intérprete e o autor como participante e testemunha em lugar privilegiado. É aqui que Carlos Brito vai detectando os «sete fôlegos revolucionários», os sete momentos de decisiva e construtora intervenção teórica do seu camarada de tantos anos, fornecendo alguns dados preciosos para uma percepção complexa da actividade dos comunistas durante os últimos tempos do Estado Novo, ao longo do biénio revolucionário de 1974-1975 e na fase de fixação da democracia parlamentar. Trata-se, naturalmente, de uma observação obrigatoriamente parcial, mais centrada numa leitura subjectiva dos acontecimentos do que numa análise comparativa de posições, que diferentes testemunhos poderão contestar ou corroborar. Mas trata-se também de um olhar em primeira mão, e por isso excepcionalmente rico, embora em alguns momentos, como seria natural após tantos anos de militância em cargos de responsabilidade partidária, o autor não saiba furtar-se à consabida «língua de pau» da ortodoxia, factor sempre impeditivo de uma perspectiva analítica mais ousada e, neste caso, também de uma leitura ainda mais agradável. É esta, essencialmente, a abordagem do «camarada», aquela que mais interessante se pode tornar do ponto de vista histórico. Já a perspectiva intimista revela-se demasiado contida e marcada por uma exposição continuada ao magnetismo único de Cunhal que não parece ter sido esbatida pelas crescentes divergências vividas nos últimos anos de mútua relação. Naturalmente, do conjunto destacam-se os contornos extraordinários desse «camarada Álvaro» – na sua personalidade rara, nas suas convicções e na sua combatividade, tal como nos recorrentes tiques e inevitáveis fraquezas – que conquistou a pulso um lugar ímpar na história do século vinte português. Voltarei mais adiante a este livro. [Carlos Brito, Álvaro Cunhal – Sete fôlegos do combatente. Nelson de Matos, 384 págs.]

          História, Memória

          Subitamente em Reiquejavique

          De regresso à Islândia, mas desta vez deixando em paz o vulcão de nome impronunciável. Em Reiquejavique, para além dos partidos tradicionais, o novo Besti Flokkurinn («O Melhor Partido») participou nas recentes eleições autárquicas. Foi criado em 2009 por Jón Gnarr, um dos humoristas mais populares do país, para brincar com a ausência de novidade nas propostas dos outros partidos. Muitas das suas promessas eram propositadamente ridículas: abrir uma filial da Disneylândia na cidade, banir o consumo de drogas no parlamento nacional até 2020, dar toalhas de graça nas piscinas, trazer um urso polar para o zoológico local, erguer portagens para aceder aos bairros dos ricos, colocar sapos no lago do centro da cidade e povoar os parques com esquilos. Só que a votação decorreu neste domingo e… O Melhor Partido ganhou em Reiquejavique. Quase 35%, contra os 33% do velho Partido da Independência, a segunda força mais votada. Jón Gnarr será agora o presidente da câmara da capital do país, chefiando uma coligação com os social-democratas. As expectativas, claro, são altíssimas. E a Europa treme com o exemplo.

          [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=xxBW4mPzv6E[/youtube]

          Serão consideradas abusivas quaisquer conexões que possam ser estabelecidas entre este post e o imediatamente anterior.

            Apontamentos, Atualidade

            Brincando com fósforos

            O partido do carago

            Se acontecesse, digamos, há uma dúzia de anos, não passaria de um episódio curioso, que nos faria encolher os ombros, sorrir um pouco e passar adiante. Mas está a acontecer agora, quando as eleições em Itália ou na Áustria têm mostrado de que forma pode o regionalismo exacerbado servir a fácil promoção de ódios internos e de soluções autoritaristas. Pedro Baptista – um combatente de fôlego das esquerdas por quem tenho uma simpatia antiga, mas que é por vezes pródigo em assomos populistas – fala-nos do Partido do Norte, do qual será um dos fundadores, como «uma força pragmática, sem limitações ideológicas, para a defesa dos interesses da região», capaz por isso de unir numa causa comum pessoas de quadrantes políticos muito diversos. Só que de santo e «inóquo» pragmatismo, de beata descaracterização ideológica, de algum bem-aventurado espírito regionalista, e de uma sagrada união sobre tais fundamentos estabelecida, está cheio o departamento do inferno para onde vai a direita mais primitiva e mais perigosa. Aquela que está sempre a tentar reerguer a cabeça. Eu tomaria todas as precauções para não me aproximar de tais valores e de tal gente.

            [ler também aqui e aqui]

              Atualidade, Opinião

              Manuel segundo José

              Manuel e José

              Dizer-se, como acaba de dizer José Sócrates, que se apoia «o Manuel Alegre» – repare-se que aqui não houve «camarada», «companheiro» ou sequer «dr.», como aconteceu noutras ocasiões  – porque com ele se partilha um valor comum, «o do progressismo», é bizarro e é curto. Bizarro pois esse é um conceito varrido desde há muito do vocabulário político contemporâneo. Herdado da velha filosofia das Luzes, que pretendia dotar a História de um trajecto «progressivo», linear e cumulativo em termos de conhecimento e de felicidade terrena, ele foi de tal forma usado e abusado ao longo de mais de dois séculos – particularmente pelos positivistas republicanos de Oitocentos – que se tornou, nos programas políticos de várias esquerdas, ou nas metanarrativas a elas associadas, em claro indício da mais completa vacuidade. Os últimos a utilizá-lo com frequência, os partidos comunistas, têm continuado a servir-se do termo para se referirem àqueles partidos, diferentes movimentos ou proeminentes cidadãos que com eles possam colaborar, como «progressistas» companheiros de jornada, numa dada etapa do combate político que lhes importa. Mas o qualificativo do qual se serviu Sócrates é também curto, pois não servirá para convencer quem quer que seja – a começar pelos militantes socialistas impressionados por longos anos de minimização interna das atitudes cívicas de Alegre – a sair da apatia e a votar neste para presidente da República. É preciso bem mais para convencer e para mobilizar o povo. Se for essa realmente a intenção, evidentemente.

                Apontamentos, Opinião

                Dennis

                Morreu hoje o Dennis Hopper (1936-2010). O Goon de Rebel Without a Cause (meninos jornalistas, em Portugal chamou-se Fúria de Viver, no Brasil Juventude Transviada). O fotojornalista do Apocalypse Now. O pai de Mickey Rourke em Rumble Fish. O Frank Booth de Blue Velvet. Mas para mim, principalmente, o Billy de Easy Rider. Em cima daquela mota, por interposta pessoa, vislumbrei um dia outra vida. Quanto à vida dele parece que Dennis passou por ela muito bem, obrigado. Intensamente, como é preciso.

                [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=mJS8j9YYB9w[/youtube]
                  Apontamentos, Cinema, Memória

                  Eles vivem

                  Estaline vive

                  A possibilidade de terem sido os serviços secretos soviéticos a fazer gorar dois atentados contra Adolf Hitler, que deveriam ter ocorrido em 1943 e depois em 1944 e se destinavam a mudar a liderança alemã, criando condições para se pôr termo à Segunda Guerra Mundial – e tendo provavelmente evitado a fase mais letal do Holocausto e da própria guerra – foi colocada há já algum tempo. Desta vez parece que as provas foram mesmo reunidas e serão publicadas em breve na Rússia. O objectivo era relativamente simples e «fez escola»: tornava-se necessário evitar a todo o custo que os eventuais sucessores do ditador nazi pudessem firmar uma paz separada com os Estados Unidos e a Grã-Bretanha. Como sempre, quanto pior melhor. Distribuídos «do Atlântico aos Urais», não faltarão com toda a certeza contemporâneos nossos capazes de compreender, se não mesmo de aplaudir, a decisão do «heróico» carniceiro georgiano.

                    Apontamentos, História

                    Pequenos pequenos nadas

                    Brel e Gitanes

                    Depois do anterior post sobre o desaparecimento dos cigarros Gitanes do mercado, recebi uma dezena de mails sobre o assunto. Chegaram todos de pessoas que não conheço do mundo material, nem elas a mim, com as quais jamais me cruzei, mas que se aproximaram na tristeza solidária e na revolta por verem desaparecer esse momento especial que era ao mesmo tempo um hábito e um ritual. Agora eclipsado por troca com sensaboria normalizada de um tabaco claro e sem alma. Num dos mails recebidos evocava-se um aspecto crucial que me escapara no post: «aquela sensação de ter um Gitanes no meio dos dedos, dada a sua espessura única». É realmente verdade que essa ausência pesa também: aquele milímetro a mais de circunferência, suficiente para conferir ao momento uma robustez que se impunha na experiência do fumador e na forma como este concebia o seu lugar social, vincando a margem de diferença em relação aos vulgares consumidores de tabaco light. E como são importantes para nós, certas vezes, estes pequenos pequenos nadas.

                    Jacques Brel, fumeur de Gitanes – J’en appelle
                    PLAY

                      Apontamentos, Etc., Memória, Música

                      À espera das cerejas

                      cerejas

                      Os invernos poderiam ter sido menos rigorosos, menos tristes as viagens de comboio, menos previsíveis os desfiles do Maio. Teríamos crescido a cruzar pacificamente as cidades dos irmãos Vesnine, a viver com os quadros de Altman, os poemas de Tsvetaeva e de Akhmatova, os compassos menos previsíveis de Chostakovitch. Aragon não teria cantado o cavalo metálico sob as chaminés poluentes de Magnetogorsk. Barbusse teria permanecido um desconhecido para os nossos avós. Eisenstein teria filmado grandes planos de gargalhadas e de mãos a acariciarem-se. Ter-se-ia fundido menos bronze para robustecer as estátuas. Não teriam ressoado gritos nocturnos pelos corredores da Lubianka. Teria corrido menos gelo pelas almas e ter-se-ia notado mais ruído pelas ruas. E provavelmente o socialismo seria hoje uma expressão de humanidade tão calorosa e natural quanto o amor, a felicidade ou a compaixão.

                      [escrito em 2003, revisitado hoje]

                        Apontamentos, Devaneios, Olhares

                        Será pedir demais?

                        Café

                        Todos sabemos, ou vamos sabendo à medida que o tempo roda, que a possibilidade de nos deixarmos  surpreender vai sempre diminuindo. A acumulação de experiência faz-nos perder alguma capacidade de maravilhamento – eis o lado triste do processo –, mas prepara-nos também para os momentos difíceis que precisaremos enfrentar. Quando tudo decorre de forma natural, o último deles, o da nossa própria morte, é recebido com serenidade, sem grande espanto ou gestos tempestuosos. Dizem-me que é assim e não estou em condições de duvidar de que assim seja.

                        Em algumas situações, porém, a nossa crescente capacidade de encaixe pode vacilar. Eu, por exemplo, não consigo compreender o motivo pelo qual, nos jornais e nos blogues, um certo número da intelligentsia que apoia activamente actual governo – pessoas informadas, com comprovada capacidade crítica, sensibilidade manifesta e inteligência acima da média – se concentram diariamente, e apenas, na defesa de qualquer medida gestionária do executivo, de qualquer gemido ou murmúrio de um seu responsável, e na tentativa de destruição sistemática de qualquer argumento que se lhes oponha minimamente, em vez de aplicarem os seus esforços na construção de uma solução para actual crise que não seja simplesmente ao nível do reflexo condicionado. De outra política, ousada, mobilizadora, que se aplique a combater a doença e não apenas a abordar os sintomas com um paliativo.

                        Porque não acordam estas pessoas – de quem se espera sempre algo mais – e deixam a defesa cega da quinta para os quadros partidários ou do governo, em ascensão ou instalados, em geral sem capacidade para pensarem melhor ou irem mais longe, que não concebem outro caminho, e não se concentram na busca, necessariamente positiva e dialogante, de alternativas políticas ousadas e construídas em profundidade? Em vez de se limitarem a silêncios comprometidos ou a reacções indignadas e de casta diante do comentário negativo, da contestação legítima, da desconfiança e do desânimo que se propagam, elas deveriam exercer a sua condição de massa crítica do Partido Socialista para requererem soluções que não sejam apenas, uma vez mais, as centradas no balancete enfadonho da mercearia, na pequenez da legislação estritamente casuística, na resposta pavloviana aos ditames de burocracia bruxelense ou no apelo ao apertar do cinto por parte de quem já o mantém estreitado no derradeiro furo. Não será pedir demais.

                          Atualidade, Olhares, Opinião

                          Voyeurismo

                          O voyeur

                          Sobre o caso que empurrou Torre de Dona Chama para as bocas do lado mais ocidental da Península nem tudo foi dito. Não se falou, por exemplo, do mau gosto dos blogues, geridos por pessoas jovens, citadinas, modernas, viajadas, de leituras, tolerantes e até «feministas», que recorreram sem pestanejar ao expediente fácil, de um voyeurismo camuflado, confrangedor e um bocado bimbo, traduzido na ilustração galhofeira dos seus posts sobre o tema com fotografias da professora Bruna em pose erótica retro-kitsch à anos 70. Era mesmo preciso?

                            Apontamentos, Atualidade, Fotografia

                            Tiananmen em versão não-oficial

                            Zhao

                            Na China de hoje, Zhao Ziyang é uma pessoa que não existe. Foi primeiro-ministro desde 1980 até 1987, quando o secretário-geral do Partido Comunista era Hu Yaobang, tendo-o substituído no cargo entre 1987 e 1989. Hu e Zhao partilharam, sob a tutela de Deng  Xiaoping, a direcção do processo de liberalização económica, de reforma do Estado e de abertura ao exterior vivida nos anos de transição da era pós-Mao. Mas ambos foram abandonados pelo seu protector quando começaram a considerar a possibilidade de separar o Partido do Estado e de permitir uma maior liberdade de opinião. No caso de Zhao, a queda foi precipitada pela forma como, em Abril e Maio de 1989, lidou com os protestos estudantis da Praça Tiananmen, que a ala mais conservadora, chefiada por Li Peng, entendeu dever ser tratada com punho de ferro. Zhao recusou assumir essa responsabilidade, tendo então sido afastado do poder e colocado sob prisão domiciliária até à morte, ocorrida em 2005. Prisioneiro de Estado apresenta parte substancial de um registo, gravado sob cativeiro em 30 cassetes de baixa qualidade preservadas por terem sido escondidas entre os brinquedos dos netos, no qual aborda a sua versão dos acontecimentos e faz um balanço dos anos na gestão do Estado.

                            A sequência escolhida pelos editores – um deles, Bao Pu, é filho do secretário pessoal de Zhao – não é a das gravações, procurando antes atribuir uma ordem temática a declarações que muitas vezes misturavam assuntos. A parte mais intensa é a primeira, na qual se relatam os acontecimentos de Tiananmen e o combate então travado dentro dos órgãos directivos do Partido. Trata-se de um relato diferente do oficial, que penaliza a intervenção do sector conservador mas nem por isso é completo, uma vez que não considera as reivindicações daqueles que realmente fizeram no movimento de rua. Segue-se uma descrição, detalhada, por vezes um pouco enfadonha mas historicamente interessante por constituir também uma versão alternativa da consagrada oficialmente, da luta de Zhao Ziyang para aplicar as reformas políticas e económicas que propunha. Ao longo de todas estas páginas, porém, surge clara a forma como a sua posição jamais beliscou os fundamentos do regime, apenas tendo sido tornada inconveniente devido à inflexibilidade da ala que se opunha ao enfraquecimento da centralidade do Partido e do controlo estatal do sistema produtivo, apenas deixando uma maior margem de manobra para as modificações do mercado.

                            «Um olhar íntimo sobre um dos regimes mais compactos do mundo», escreve-se na badana. O principal interesse deste livro é realmente permitir-nos observar, a partir de dentro, a permanente luta de facções, de interesses e de vaidades que se esconde por detrás do aparente monolitismo do Partido e do regime. Nele não está, aliás, incluído o desenvolvimento protagonizado por Zhao nos últimos anos de vida, quando chegou à conclusão de que, para progredir, a China viveria melhor sob um sistema parlamentar capaz de impedir a concentração excessiva do poder e o consequente imobilismo. Afinal, quem fala aqui é ainda o comunista tranquilo e sorridente, o «Gorbatchev chinês» que a História derrotou.

                            Publicado na revista LER de Abril

                            Prisioneiro de Estado. O Diário Secreto de Zhao Ziyang. Ed. por Bao Pu, Renee Chiang e Adi Ignatius. Trad. de Ana Glória Lucas. Casa das Letras, 364 págs.

                              Atualidade, História

                              Vermelho Rouge

                              La Chinoise

                              Bem sei que serei um pouco suspeito para falar de O Essencial sobre a Esquerda Radical, de Miguel Cardina, pois sou amigo e companheiro de blogue do autor, orientador da sua tese de doutoramento sobre o maoismo em Portugal e coordenador da colecção na qual o livro foi publicado. Além disso, fiz parte do enredo deste. Mas uma vez confessada a parcialidade fico à vontade para recomendar este pequeno volume como uma eficaz síntese sobre a intervenção cívica, durante os derradeiros anos do Estado Novo, de um sector da oposição que até agora tem sido referido num registo meramente memorialista e autocomplacente, ou ao nível da boutade sobre o «tenebroso» passado político de Fulano, Sicrano ou Beltrano.

                              De forma sumária, pode dizer-se que da sua leitura resulta claro: 1) que nenhum dos numerosos grupos inventariados procurava transformar o regime, melhorá-lo, «democratizá-lo», e todos associavam a sua queda à queda do capitalismo e a uma Revolução redentora cujos contornos eram incapazes de precisar; 2) que todos eles condicionavam a ambicionada política de alianças à «direcção da classe operária» e à intervenção da violência revolucionária como «parteira da História»; 3) que a par da luta contra o regime e contra o sistema capitalista, o combate contra o PCP, acusado de «reformista», «revisionista» ou «burocrático», foi uma constante e um factor de mobilização; 4) que neste ambiente pairava omnipresente a marca de um internacionalismo veemente e de um antinacionalismo visceral, acusando-se também o PCP de transigir nesses domínios; 5) que surgia como indispensável o alargamento do político ao domínio do privado, procurando combater-se a alienação económica, psicológica, sexual, cultural e ideológica «imposta pela burguesia»; 6) que era perceptível neste sector uma sobrevalorização do papel transformador da juventude e do carácter avançado do movimento estudantil, de onde provinha a maior parte dos seus membros; 7) que, apesar do escasso número de militantes, o seu extremo activismo, a importância prioritária que davam à luta anticolonial e a defesa de que só a ruptura era possível, conferiram a estes grupos, no seu todo, um apoio razoável entre a juventude e um papel muito importante, em particular durante o período marcelista, na preparação das condições subjectivas para a queda do regime. Através deste Esquerda Radical fica ainda a perceber-se um pouco melhor o porquê de, com todas as suas forças, fraquezas e numerosas contradições, eles terem desempenhado um papel saliente no combate político e social travado durante o «biénio revolucionário». [Miguel Cardina, O Essencial sobre a Esquerda Radical. Angelus Novus, 120 págs.]

                              Publicado também no Vias de Facto

                                História

                                O PCP e a deserção

                                Guerra Colonial

                                Por causa da escusada tirada de Manuel Alegre sobre a sua honradez militar, voltou a discutir-se o papel da deserção e dos desertores na resistência ao regime salazar-marcelista e à Guerra Colonial. A posição da chamada esquerda radical é conhecida e, com ténues variantes, traduziu-se na recusa completa ao embarque para África. Já a do Partido Comunista Português foi menos linear. Politicamente coerente com a linha unitária do partido, em última instância ela remetia – e há notícias de que tal realmente aconteceu – para situações pessoais muito complexas. Compreender-se-á o que quero dizer pela leitura deste post. Fica aqui um fragmento da minha intervenção sobre o tema («As esquerdas e a oposição à Guerra Colonial») no II Congresso sobre a Guerra Colonial que decorreu em 2001 no Seixal, com organização da Universidade Aberta. Tem pois cerca de dez anos e já foi completado por investigação posterior, mas no essencial mantém-se actual. Retirei as notas e cortei partes que aqui são menos relevantes. O post é longo e num registo algo académico inabitual neste meio, mas vale a pena evocar estes episódios para diluir mal-entendidos.

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                                  História, Memória